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12.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXVIII


A dor que Daniela sentiu foi tão intensa que não resistiu. Sentiu que a visão se  lhe nublava, teve a nítida sensação de que o chão vinha ao encontro da sua cabeça e mergulhou no abismo.
Acordou minutos mais tarde, estendida no sofá. Sentado ao seu lado, David, passava-lhe uma toalha molhada pela testa.
- Sentes-te melhor? – Perguntou apreensivo.
- Já passou. Queres ou não ouvir-me?
 -Achas que vale a pena? - Perguntou com amargura
-Talvez sim, talvez não. Tu dirás. Lembras-te, de me teres perguntado porque me divorciei? Perguntaste se houve traição e eu respondi que sim e não. Bom para ir ao princípio da questão, casei-me aos vinte e quatro anos,   profundamente apaixonada, sonhando com uma relação para toda a vida. Um ano depois de casada, Felipe começou a questionar-me porque eu não engravidava, e ele queria logo ser pai. Consultei um ginecologista, fiz vários exames e no fim ele disse-me que era estéril. Calculas a dor que é para uma mulher de vinte e cinco anos, cujo marido a pressiona todos os dias, para lhe dar um filho, saber que nunca vai poder fazê-lo? Foi como se o mundo inteiro ruísse à minha volta. Fiquei destroçada. Quando contei ao Filipe, ele disse-me que não importava e durante alguns dias, eu acreditei nisso. Mas foi sol de pouca dura. Pouco depois começou a marcar-me consulta em vários médicos, sempre acreditando que um deles ia fazer o milagre. A minha vida, deixou de fazer sentido, era um verdadeiro calvário, de médico em médico, de exame em exame.
David estava pálido. Percebeu a crueldade, que as suas palavras tinham representado, e a causa do  desmaio da jovem, e recriminou-se por isso.  Abraçou-a.
- Perdoa-me. Não precisas continuar, não quero que sofras.
- Tenho de o fazer. Não percebes que é um espinho que trago cravado no peito? Deixa-me continuar. Ao fim de quatro anos, quando o último médico aconselhou o Filipe, a esquecer os filhos biológicos e a fazer uma adoção, ele pediu o divórcio. Sofri muito. Não tinha sido traída por nenhuma outra mulher, fui traída pelo meu ventre inútil. Jurei que nunca mais me ia interessar por nenhum homem, e durante mais de três anos, consegui viver apenas para o trabalho, mas quando te conheci, esqueci todos os meus propósitos, e apaixonei-me que nem uma idiota. Espera, deixa-me ir até ao fim, - disse colocando-lhe uma mão no peito e empurrando-o ao perceber que ele se inclinava para a beijar. -Via nos teus olhos, que me desejavas, e pensei que podia ser feliz mantendo uma relação de amante contigo. Tinhas fama de mulherengo, não te ias prender, não quererias mais do que isso, e eu poderia desfrutar desse arremedo de felicidade, pelo menos até que te cansasses de mim. Era um jogo perigoso, sabia que mais cedo ou mais tarde, te ia perder, mas enganava-me dizendo que teria tempo suficiente para me habituar à ideia. Tu nunca quererias mais do que uma relação passageira, não tinhas que saber da minha inutilidade, como mulher. Mas depois daquela noite, tu disseste que me amavas, que querias casar, e eu fiquei apavorada, - concluiu com um soluço.
Ele apertou-a nos braços, e deixou um rasto de beijos no rosto molhado.



Aceito a critica de que o David entrou a matar. Mas temos que convir não foi pior do que a Daniela fez aquando do pedido de casamento. Os dois usaram a crueldade como um escudo.