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8.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVIII

 


-O problema é que depois do vosso casamento e desta semana em que o vi todos os dias, dei-me conta de que este Fernando, não tem nada a ver com o rapazito que foi criado connosco, como um irmão.

-É normal, tu cresceste, ele também. Hoje são um homem e uma mulher que foram amigos em criança, se afastaram e hoje se encontram de novo. Sei que o teu irmão e os teus pais gostariam de te ver casada com ele, mas eu penso que deves interrogar o teu coração e descobrir que sentimentos tens por ele.

 E se para isso precisas de conviver mais com ele, talvez que trabalhando juntos seja uma boa maneira de o descobrires. Que ele é doido por ti, todos sabem, até eu que só o conheci há pouco tempo. 

Todavia se descobrires que não há química entre vós, que continuas a amá-lo como um irmão, diz-lho e segue em frente. Um casamento sem amor é uma tragédia. A história de que um pode amar pelos dois, é muito bonito em canção, mas na vida real não existe. Sabes que apesar de nos conhecermos há pouco tempo gosto muito de ti e só quero que sejas tão feliz como eu.

 – Eu também gosto muito de ti e lamento sinceramente a partida do destino que fez com que não nos tenhamos conhecido antes, - olhou o relógio e acrescentou. Meu Deus estamos a conversar há tanto tempo, o teu marido deve estar furioso comigo por te monopolizar. Não devia tê-lo feito, afinal sei bem o que é uma lua-de-mel.

Levantaram-se e regressaram à sala. Ao vê-las aparecer, Gonçalo levantou-se e dirigiu-se-lhes:

-Já estava para vos ir chamar. Desculpa maninha, mas está a fazer-se tarde, viemos apenas vê-los e buscar a Matilde, vamos seguir para Coimbra, a Lena quer ir conhecer o seu novo sobrinho.

Despediram-se e saíram os três, enquanto Laura e os pais, ficavam no alpendre, até que o carro entrou na estrada principal e desapareceu entre o tráfego. No dia seguinte também os pais seguiriam para Braga, deixando-a sozinha com os filhos. Laura sentiu que ia sentir saudades da animação dos últimos dias.

-Filha, - disse dona Teresa ao ver que Laura se dirigia para a cozinha para iniciar o jantar. - Como partimos amanhã, o teu pai e eu pensámos que gostaríamos que tu e as crianças fossem jantar fora connosco. O que dizes.

- Por mim tudo bem, vou tratar das crianças, toar um duche e vestir-me.

- Vai cuidar de ti, - disse-lhe a mãe. A Sara já se sabe arranjar sozinha, eu dou banho ao Miguel e visto-o. Afinal tenho tão poucas oportunidades de o fazer.

Laura dirigiu-se ao quarto, enquanto a mãe pegava no neto ao colo, mas antes de se afastar em direção à casa de banho murmurou ao marido.

“Faz o que combinámos”

 

10.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXIV




Com as pernas a tremer, Clara deixou-se cair no sofá. Nunca o seu corpo tinha reagido assim com Júlio, nem sequer nos momentos de maior intimidade.
“O que foi isto, meu Deus? Será a isto que chamam a química entre duas pessoas? Se o é, então entre nós existe química, mais do que suficiente para fazer explodir um quarteirão inteiro” – Pensou enquanto tentava acalmar-se.
Não teve porém muito tempo para isso pois as crianças irromperam na biblioteca a chorar.
- Desculpa. Não consigo acalmá-los – disse o irmão.
- Não faz mal, - disse abraçando as crianças. Vamos deixá-las chorar um pouco a fim de acalmarem. Depois a seguir, vamos aproveitar o sol na piscina, não é verdade meninos? Para a semana começam as aulas, e o outono está à porta. Temos que aproveitar o resto do verão.
E sabem de uma coisa? Se o vosso pai se esqueceu de alguma coisa, e volta atrás, vai ficar muito triste por vos ver a chorar. Vocês querem ver o vosso pai triste?
-Não – disseram em coro.
-Então toca a por, um sorriso nessas carinhas lindas, despir essas roupas, vestir os fatos de banho e… vamos para piscina.
- Tu também? Nunca vens – disse Soraia.
- Claro que vou. Só não fui antes, porque vocês estavam com o vosso pai, e o tio Tiago. Era muita gente na piscina, não acham? – Perguntou enquanto subiam as escadas para os quartos.
Pouco depois estavam os quatro na piscina. Enquanto Bernardo parecia tão à-vontade na piscina como peixe na água, Soraia, não sabia nadar. Não saía da zona onde tinha pé, e sempre que Clara ou Tiago tentavam que se deitasse na água tremia de medo. Tiago disse à irmã que tinha observado o mesmo comportamento da menina nos dias anteriores com o pai.
- Admira-me que o pai não lhe tenha comprado uma bóia para que ela perdesse o medo.
- Comprou. Contou-me que foi mesmo por causa de uma bóia que ela ficou assim. Disse-me que estavam os três na parte mais funda da piscina. Ele jogava à bola com o Bernardo, e a menina brincava na água suspensa pela bóia que de repente rebentou e a fez- afundar-se e engolir água até o pai chegar junto dela e a tirar da piscina. Depois disso levou bastante tempo até que voltasse a entrar na água mas limita-se a ficar ali quieta.
- Se me ajudares, vamos fazer uma brincadeira, a ver se aos poucos ela perde o medo.
-Vamos a isso.
- Meninos, vamos brincar um pouco na água? – Perguntou Clara depois de chamar Bernardo para junto da irmã. – Vamos fazer de conta que o Tiago é um Golfinho. Vocês já viram um Golfinho?
- Sim.
E gostam de Golfinhos?
-Sim – repetiram em coro
Então o Tiago vai ser um Golfinho que gosta de passear os meninos pela piscina. Eu sou a tratadora. E vocês querem passear no lombo do Golfinho. Muito bem. Como é que se vai chamar o Golfinho?
-Piloto – disse Bernardo.
-Piloto. Parece-me bem. Vamos lá Piloto levar o Bernardo a passear, – disse clara estendendo o menino ao comprido sobre as costas do irmão que nadou de um lado ao outro da piscina, sem contudo se afastar para a parte mais funda. O menino ria, as mãos agarradas aos ombros de Tiago. Clara olhou a menina, e viu-lhe nos olhos o desejo de entrar na brincadeira.
- Chega Piloto, agora é a vez desta menina linda, - disse Clara retirando Bernardo das costas do irmão e colocando no seu lugar Soraia.
Tiago sentia o corpo da menina tenso. Nadou tão devagar quanto possível enquanto emitia sons, como se fosse um verdadeiro Golfinho. A menina foi relaxando e quando ele se dirigiu à borda da piscina ela já ria e parecia esquecida do medo, embora os dois adultos soubessem que a brincadeira teria que se prolongar ainda alguns dias até que a menina perdesse o medo e confiasse o suficiente para desejar aprender a nadar.



8.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIX




Despediram-se à porta do hotel.
- Venho buscar-te amanhã à mesma hora, - disse ele olhando-a nos olhos as mãos nos ombros dela.
-Não me encontrarás. Saio logo pela manhã.
- Porquê Lena? Porque vais fugir inviabilizando alguma coisa entre nós? Do que tens medo?
- Não é medo Cláudio. Tenho que ir. Não vai haver nada entre nós, somos dois estranhos que se conheceram, passaram momentos agradáveis juntos mas nada mais. Na minha vida não há tempo para romances, tenho outras prioridades. Estou-te muito grata, vou recordar-te com carinho mas é tudo.
De súbito ele desceu as mãos pelas suas costas atraindo-a a si e beijou-a. Não um beijinho terno como o daquela tarde, mas um beijo apaixonado, um beijo tão intenso que a jovem quase desmaiou nos seus braços.
- Por favor Lena, não insultes a minha inteligência, dizendo que não sentiste o mesmo que eu. A química que há entre nós, é por demais evidente. Não jogues fora, a oportunidade de podermos viver uma coisa especial. Venho buscar-te amanhã. Almoçamos juntos e depois levo-te a conhecer os meus pais.
Helena, não respondeu. Desprendeu-se dos seus braços e sem olhar para trás entrou no hotel. As lágrimas ofuscavam-lhe a visão, mas a razão mantinha-se teimosamente clara. Sairia logo pela manhã.
Entrou no quarto e atirou-se para cima da cama, onde deu livre curso às suas lágrimas. Amaldiçoou a hora em que pensou ficar em Coimbra. Se tivesse seguido no mesmo dia para Viseu não estava agora a sofrer. Sim, porque ela estava a sofrer. Não sabia se estava apaixonada por Cláudio, mas sabia que os seus beijos mexeram com ela. E se o primeiro a perturbou, o segundo, despertou nela o desejo pelo homem e por outras carícias, nunca antes experimentadas.
Porém ela não acredita que um homem como Cláudio, homem mais velho, bonito, que a julgar pelo carro que conduz e pelas suas maneiras pertence a um estrato social alto se possa interessar por uma mulher, que a única coisa que possui é a casa onde vive, não tem nenhuma experiência de vida, nem sequer terminou a faculdade. Helena não sabe que era exatamente assim que a mãe pensava. Na verdade Natália nunca se julgou merecedora do amor do marido. Por causa da sua insegurança, ela sempre esteve à espera do dia em que o marido a traísse. Por isso nunca quis ouvir as suas explicações. Ela tinha feito o filme e deu-lhe um fim. E a vida mostrou-lhe que estava certa. Pelo menos era nisso que ela acreditava, De forma inconsciente, Helena estava a percorrer o mesmo caminho.
Quando acalmou, foi à casa de banho lavar o rosto para apagar o vestígio das lágrimas e desceu. Estava quase na hora do jantar e ela ainda ia procurar uma papelaria para comprar uma carta. Depois do jantar, já no quarto, telefonou ao tio, contou-lhe do passeio, sem mencionar Cláudio, confirmou que ia sair no dia seguinte na camioneta da manhã. Já tinha marcado o hotel Avenida em Viseu. Depois de se despedir do tio sentou-se e começou a escrever.