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29.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXIV

 




Nessa tarde, depois de ter ajudado o doente a deitar-se, Anabela deu início aos tratamentos isométricos, entregando-lhe dois pequenos pesos e dizendo-lhe:

- Faça duas séries de dez levantamentos. Atenção se sentir dor nas costas ou no braço esquerdo pare imediatamente.

-Deve estar a brincar, fazia cinco vezes esse peso.

-Acredito que sim. Mas o que me interessa não é o que fazia, no passado, mas o que terá de fazer agora. Como médico, o senhor sabe melhor que ninguém o estado em que se encontra, e que qualquer tipo de dor que sinta, vai agravar e não melhorar o seu estado. Por isso faça o que lhe digo e não esqueça de parar à mínima dor. Não é hora de se armar em herói.

-Tudo bem, sargento, - resmungou o doente, enquanto Anabela lhe voltava as costas, para que ele não notasse o seu sorriso.

Ela sabia por experiência própria como eram renitentes os doentes que trabalhavam na saúde, médicos ou enfermeiros. Eles sempre achavam que não precisavam de ajuda, que o que eles pensavam é que estava certo.

Tiago deu-se imediatamente conta de como os seus músculos estavam fracos ao iniciar o tratamento e verificar como era difícil levantar aqueles pesos, quando antes do acidente levantava pesos superiores, apenas com o dedo mínimo. Quando terminou as duas séries grossas gotas de suar perlavam-se a testa.

Anabela retirou-lhe os pesos e sem comentar o esforço evidente que ele fizera durante o tratamento, mandou que durante um minuto apenas inspirasse e expirasse lentamente. Ela sabia que não podia continuar com os exercícios sem que o doente descansasse e restabelecesse o ritmo cardíaco.

Com essa atitude, ganhou da parte de Tiago, que esperava uma observação jocosa sobre o seu cansaço evidente e o que afirmara anteriormente, uma nova atitude de respeito.

Depois de uns minutos, Anabela voltou a aproximar-se desta vez com uns pequenos elásticos.

Agora vamos fazer mais duas séries de dez exercícios com este elástico. Vai estica-lo enquanto se sentir confortável. À mais pequena dor, pare. Quando acabar irei fazer mobilização às suas pernas. Enquanto não fortalecer suficientemente o corpo não poderá usar os elásticos para exercitar com eles as pernas.

Mais tarde enquanto fazia a mobilização às pernas do doente, informou.

-Já dei à Isilda a lista dos ingredientes a incluir na sua alimentação. E quando terminar, vou à cidade comprar vitaminas e proteínas que considero necessárias para o ajudarem a ganhar força que o ajude a restabelecer-se mais depressa.

Ele não respondeu e pouco depois ela dava os exercícios por terminados e ajudava-o a ir para a cadeira de rodas e para a cama.

3.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVI


Para Laura, o resto da semana passou a correr, com a presença dos pais, as crianças e a ida à clínica. Teve oportunidade de ver a versão profissional de Fernando, tanto com as crianças, como com os adultos. Ela sabia que ele era psiquiatra, mas não que seis anos atrás se especializara também em psiquiatria infantil.

Claro nessa época ela estava casada e depois do casamento nunca mais o vira até que a fatalidade a deixara viúva.

Nessa época ela estava de rastos, chegou a pensar que acabaria por perder o filho que ainda estava para nascer. O irmão, mudara-se para Lisboa, para estar junto dela e Fernando passava lá em casa todo o tempo que tinha livre.

Agora, pensando nisso, acreditava que se Sara era uma menina feliz, talvez se devesse ao apoio que ele lhe dera quando perdera o pai.  E na verdade ele também a apoiara muito, mas na altura ela vivia e alimentava-se apenas da dor e do enorme sentimento de vazio que lhe enchia corpo e alma. E tinha corrido com ele, quando um dia lhe surpreendeu um olhar, que não era compatível com o sentimento de irmão que sempre sentira por ele.

Naqueles dois dias, através de Diana, ela aprendera muito sobre o homem, que fora o seu melhor amigo de infância. E criara uma ligação de amizade com a jovem assistente, que não pensara possível em tão pouco tempo.

Na Sexta feira, como não havia consultas de manhã, as duas conversavam quando Diana perguntou:

- Não pensas voltar a casar? Sei que foste muito feliz no casamento e que sofreste muito com a morte repentina do teu marido, mas já lá vão mais de três anos. És nova e bonita, não sentes a falta de um homem a teu lado?

- Para ser sincera comigo mesma, sinto. Embora o Quim continue no meu coração, a verdade é que o corpo sente a falta de um abraço, do calor de outro corpo junto ao meu. Parece-te mal?

- Não. É normal, afinal estas na plenitude da vida. Só não percebo porque não dás uma hipótese ao doutor. E não me venhas dizer que ele é apenas como um irmão, que eu não sou cega e tive a oportunidade de ver ontem a forma como te olha. Ele está apaixonado por ti e de há muito tempo. Porque outra razão teria a tua foto em cima da sua secretária há tantos anos?

-Não quero voltar a amar. Tu não sabes o que é entregares-te a um homem de corpo e alma, e de repente ficares sem ele. Eu tinha vontade de me juntar a ele. Acredita, a única coisa que me impediu de fazer um disparate e me prendeu à vida, foram os meus filhos.  Não quero, não posso passar pelo mesmo.

-Tens medo de amar, porque podes voltar a enviuvar? – perguntou Diana espantada. Perdoa-me, mas isso é uma estupidez. Nunca ouviste dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo local? Nenhum de nós pode prever o futuro. Renunciar ao amor, por medo de voltar a perder o parceiro, é antinatural. Não tiveste acompanhamento psicológico quando o Quim morreu?

-Tive a ajuda da família e também durante algum tempo de Fernando.

-A família, por muito boa que seja apenas pode ajudar fisicamente, não tem capacidade para mais. Precisas de um psicólogo, ou psiquiatra. Porque é que o Doutor se afastou.

-Na verdade fui eu que o afastei.

-Porquê?

-Um dia, surpreendi-lhe um olhar que me deixou chocada. O Quim havia morrido há quatro meses, eu tinha sido mãe havia dois meses e vivia mergulhada na dor. Então disse-lhe que não o queria ver mais, que ele não era da família e que não tinha qualquer direito de ir lá todos os dias. Depois disso só voltei a vê-lo no casamento do meu irmão.

- Olha se queres o meu conselho, procura uma ajuda profissional que te ajude a ultrapassar esse medo.

 

 

18.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVI

 


Acordou encharcado em suor, com uma tremenda dor na perna esquerda. Cerrou os punhos, grunhindo uma maldição. Sabia que estava a ser vítima da DMF, a dor do membro fantasma. Tinha-a sentido várias vezes ao longo daqueles quase dois anos, primeiro com frequência, depois mais espaçadamente. Como médico sabia que na maioria dos casos a DMF desaparece por volta dos dois anos e ele estava quase a fazer dois anos que tinha sido amputado, daí que pensava já ter passado essa fase.
As picadas eram horríveis, sentia como se lhe estivessem a coser a perna a sangue frio.
Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e retirou um comprimido que engoliu mesmo sem água. Depois mergulhou a cabeça na almofada para abafar os gemidos. Maldita dor.

Meia hora depois, a dor cessou. Nuno sentou-se na cama. Dormira nu, as noites estavam quentes, e ele sempre gostara de dormir assim. Pegou nas canadianas e dirigiu-se à casa de banho. Tomou um duche enxugou o corpo, e colocou a prótese que todas as noites tirava, desinfetava e deixava na casa de banho, pronta para usar após o duche matinal 

Habitualmente fazia uma hora de ginásio antes do duche. Para isso tinha montado aparelhos especiais numa das divisões do apartamento, de modo a cumprir um plano de fortalecimento muscular adaptado ao seu caso.
Porém naquele dia, por causa da DMF, não foi ao ginásio. Vestiu-se e saiu. Era sexta-feira, dia de consultas externas, não tinha cirurgias marcadas, só precisaria ir ao bloco se aparecesse alguma urgência. 
Tomaria o pequeno-almoço, na pastelaria perto do hospital, pois também era à sexta-feira, que a sua mãe chegava logo de manhã para receber o pessoal da empresa de limpezas, que lhe tratava da casa e das roupas, e ele evitava sempre encontrar-se em casa a essa hora.
No dia seguinte fazia quinze dias que literalmente tinha fugido da casa de Luísa, e ainda não tinha tomado uma decisão embora estivesse cheio de saudades dela. 
Pensava que o ser humano é muito complexo. Durante anos ele vivera, amaldiçoando  a jovem e sem qualquer desejo de a reencontrar.

Mas bastou encontrá-la, saber que ela não terminara com ele por ser uma leviana como ele julgara, nem por vontade própria, que o que acontecera tinha sido uma armadilha do destino, na qual os dois acabaram presos, para esquecer todo o rancor acumulado, todo o sofrimento, que o fizera expor-se ao perigo com absoluto desprezo pela vida, e apenas desejar estar junto dela, amá-la e protegê-la.

Mas e ele? Quem o protegeria, da compaixão ou até quem sabe se de sentimento pior, da parte dela, quando visse o seu coto em vez da perna? Não aguentava aquela tensão. Até ao fim do dia, ia tomar uma decisão. A vida não espera, nem se pode adiar.

14.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE I





O homem tinha entre as suas, uma mão feminina e olhava sem ver, toda a parafernália de aparelhos que mantinham a mulher artificialmente viva.
Pousou com cuidado a mão em cima da cama e com movimentos lentos levantou-se. Esticou o seu comprido corpo, passou um lenço pela testa, onde se viam algumas gotas de suor, dobrou-se e passou dois dedos pela face exangue, da mulher, numa carícia que sabia ela não sentiria. Depois lentamente dirigiu-se à porta e saiu. Era um homem alto de ombros largos, que, no entanto, se encontravam naquele momento meio curvados como se a dor que carregava fosse demasiado grande. Tinha trinta e quatro anos, era moreno, de cabelos e olhos negros, a testa alta, o nariz reto, a boca bem desenhada, e um queixo forte. Um homem muito atraente, que apesar da sua grande tristeza,  fazia virar a cabeça às enfermeiras, sempre que ele passava no corredor a caminho do quarto onde jazia a sua esposa. E passava diariamente bastante tempo no hospital, desde que há três semanas, ela, a sua mulher, fora baleada, num assalto para lhe roubarem o carro, quando se dirigia a um centro comercial.
Grávida de vinte e sete semanas, Sara não resistira aos ferimentos e morrera poucos minutos depois, de ter entrado no hospital, mas dado que a criança estava bem, os médicos decidiram mantê-la artificialmente viva, o máximo de tempo possível, a fim de conseguir que a criança se pudesse desenvolver, até poder ser retirada do ventre materno, com boas hipóteses de sobrevivência.
Era uma situação extremamente dolorosa, todavia ele estava esperançado em que a criança se salvasse. Além dele, Sara não tinha mais familiares que o seu pai, a viver há duas décadas em França, para onde emigrara e onde acabara por voltar a casar e formar uma nova família.
Apesar de os médicos dizerem que não havia a mínima hipótese de ela perceber a sua presença, ele não deixava de estar junto dela todo o tempo que lhe permitiam. Não o fazia por amor. Na verdade, o seu casamento como tal, deixara de existir há bastante tempo, quando ele se apercebera de como a mulher era frívola e egoísta. Estava até decidido a pedir o divórcio, quando ela ficara grávida, e a criança fizera com que se dispusesse a dar mais uma hipótese à relação.
Foi uma ironia do destino, que o bebé que ele tanto desejara nos primeiros anos de casados, e que Sara sempre recusara ter, para não perder a linha e ficar, como costumava dizer, “gorda como um elefante” viesse a surgir exatamente quando ele tinha pensado seriamente em pôr um ponto final no casamento. 
Apesar disso, nunca desejou um fim tão trágico para a sua mulher, e o seu coração enchia-se de compaixão por ela.

Continua

Amigos o meu olho direito está melhor Graças a Deus e às gotas. O esquerdo está na mesma, nem é de esperar outra coisa enquanto o transplante não for feito. Entretanto já fiz todos os exames que me pediram embora do último, feito na Sexta-feira, só vá buscar o resultado dia 22.
E este é o primeiro capítulo da nova história, que ainda nem chegou a meio. De modo que contrariamente ao costume esta história, sairá apenas três vezes por semana. Espero que compreendam  a minha situação.

4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVIII


- E foi tudo o que consegui saber.
As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha, cada uma com a sua chávena de chá. Cidália acabara de contar à enteada, tudo o que o marido lhe contara na manhã do dia anterior.
- Meu Deus, como pôde o meu pai acusá-lo de roubo, sem quaisquer provas?
- Não te recordarás,eras demasiado pequena, mas o teu pai era muito apaixonado pela tua mãe. Quando ela morreu, ficou desesperado. Dedicou-se aos negócios como se não houvesse amanhã. Com um único desejo. Esquecer. Tornou-se num homem insensível, cruel mesmo, em certas ocasiões. No escritório ninguém gostava dele, e ele sabia-o, mas isso não lhe importava. Naquela época nada lhe importava, nem mesmo tu. Aliás, disse-me que na altura te culpava indiretamente pela morte da tua mãe, já que ela teve um parto extremamente difícil, e nunca mais ficou boa depois disso. Nessa época, eu ainda não o tinha conhecido, mas quando o conheci, ele era detestável. Penso que descontava nos outros a dor e a raiva, pela perda da mulher amada. Ainda hoje não sei como pude apaixonar-me por ele, mesmo reconhecendo o seu mau génio. Talvez porque como disse Blaise Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece". Porque a verdade, é que apesar de reconhecer o seu mau feitio, me apaixonei por ele quase no primeiro dia em que fui trabalhar para a firma. 
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
-Mas, vocês pareciam tão apaixonados!
-Eu estava. E ele fingia na tua frente, porque eu lhe disse que se tu percebesses a nossa real situação não me ias aceitar, e eu nunca podia ser tua amiga e encaminhar-te na vida como ele desejava. Não foi nada fácil a minha vida na altura, mas eu tinha fé no meu amor por ele, e tu estavas faminta de amor, aceitaste-me muito melhor do que eu esperava, e ajudaste-me com o teu carinho. E acabei por conquistá-lo. Mas quando lhe pedi um filho foi outra luta. Ele temia que a história se repetisse, e só acabou cedendo quando lhe disse que se não me dava um filho, queria o divórcio. Mas tenho a certeza de que se me tivesse acontecido alguma coisa, o Miguel iria sofrer o mesmo, ou pior do que tu sofreste.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
- Porque não me contaste antes?
- Porque não tinha a certeza se entenderias, tu não perdoavas a teu pai o quase desprezo com que te tratou, e tinha medo de que em vez de melhorar a vossa relação, a minha intervenção a piorasse. Estou a fazê-lo hoje, para que percebas a sua atitude naquela época. O que fez com o António, teria feito com qualquer outro empregado.
-Mas foi uma monstruosidade. Isso pode destruir a vida de qualquer um.
-Sei. E hoje o teu pai também sabe, e vive atormentado pelo remorso,todavia  o seu arrependimento não pode mudar o passado.
Por algum tempo, o silêncio reinou na cozinha. Paula lembrava as palavras do empresário a primeira vez que foi ao escritório, “arruinar o teu pai não paga um décimo do sofrimento que me causou” ou quando dias antes lhe entregara o envelope “desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.” Será que realmente ele se importava com ela? Poderiam aquelas palavras no escritório serem realmente um declaração de amor? 
-Imagino que  António Ferreira deve ter sofrido muito, e compreendo a sua raiva - disse Cidália interrompendo-lhe os pensamentos.- Venho de uma família que nunca foi abastada, e sempre me lembro de ouvir meu pai dizer que a riqueza de um pobre era o seu nome honrado. Ele tinha muito orgulho do seu. Por isso entendo o seu desejo de vingança. O que não entendia, e me revoltava era o facto de ele te querer envolver nessa vingança. E que o teu pai, por medo da falência, estivesse disposto a pactuar com isso. Era imoral.


Porque amanhã é dia das mães, esta história volta Segunda-feira

12.1.19

ELISA

Reedição
Corria o ano de 1940. Elisa era nessa altura uma encantadora rapariga de dezoito anos. Pequena, bem proporcionada, cabelo escuro como noite sem lua, quase sempre preso numa farta trança.

Os olhos escuros e um rosto moreno, onde um rasgado sorriso fazia aparecerem duas graciosas covinhas. Era uma jovem alegre, com uma bonita voz, que encantava quem a ouvia ao domingo na igreja, ou nos campos enquanto trabalhava. Foi talvez a beleza da sua voz, que atraiu o patrão, naquele fatídico dia de Abril. Elisa mondava o milho numa leira, quando o patrão a surpreendeu e sem lhe dar tempo a defesa, ali mesmo a violou. Naqueles tempos nas remotas aldeias do interior, não raras vezes os patrões "desgraçavam" as jovens empregadas. Naquele dia Elisa foi para casa, com o corpo e a alma em ferida. Não disse aos pais nem aos irmãos o que tinha acontecido. De que teria servido? Só aumentaria a sua dor, e a sua vergonha.
Nunca mais foi a mesma. Não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido, e os pais estranhavam que não quisesse ir trabalhar para aquele patrão. Afinal era o que empregava mais gente, e pagava melhor.
 Uma noite sem que ninguém desse conta, Elisa fugiu de casa. Vagueou por montes e vales, evitando os caminhos principais, roubando frutas para enganar a fome, durante dias a que esqueceu a conta. Um dia, com os pés em ferida e as roupas sujas e rotas avistou uma cidade.
 Foi-se aproximando a medo. Teve sorte. Uma mulher idosa viu-a, e vendo o estado lastimoso em que se encontrava, levou-a até à sua casa. Deu-lhe um alguidar com água, um pedaço de sabão azul e branco, e uma toalha velha e esfarrapada, porém limpa, para ela se lavar. Em seguida trouxe-lhe umas roupas limpas que tinham sido da sua filha que Deus lhe levara havia dois anos.
 Josefa foi-lhe contando isto enquanto aquecia no velho tacho de barro um prato de caldo verde feito na véspera.
 Elisa sentiu-se como alguém que regressa a casa. Na verdade Josefa, embora não a conhecendo, estava a tratá-la como uma filha e Elisa deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto emagrecido enquanto contava àquela desconhecida, o que não tivera coragem de contar à mãe.
 Josefa ouviu em silêncio o relato da jovem, e quando esta acabou, estendeu a sua velha mão sobre a cabeça da jovem, e murmurou entre dentes:
 "Um dia, um dia isto vai ter fim. E esses canalhas vão pagar por todos os seus crimes". E logo levantando a voz disse:
 - Ficas aqui enquanto não arranjares trabalho. Eu não tenho muito, mas há-de dar para as duas. Agora uma coisa tens que me prometer. Vais escrever aos teus pais. Diz-lhes que estás em Coimbra, e que arranjaste trabalho. Os teus pais têm que saber de ti. Eu também fui mãe e sei bem a aflição duma mãe quando não sabe dum filho.
 Elisa assim fez. Arranjou trabalho a dias para limpezas e tentava a custo apagar as recordações quando descobriu que isso era impossível porque estava grávida.
Foram tempos muito difíceis em que só no carinho de Josefa conseguiu forças para sobreviver. Aos pais não contou nada. Morria de vergonha. E foi inventando desculpas para não ir visitá-los

Quando o filho tinha três anos Josefa morreu. Morreu serenamente, sem se queixar, tal como tinha vivido.

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5.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XIX






Retirou da mesa de cabeceira um lenço que lhe estendeu.
-Queres contar-me o que se passa?
- Desculpa, eu não queria que isto acontecesse. Se soubesse que ia ser assim, não teria aceitado a tua proposta. Pensei que já estava esquecido. Juro, - disse entre lágrimas.
Soaram campainhas de alarme, nos ouvidos dele. Teve a certeza que aquilo não era um chilique  de noiva nervosa. Mergulhou o olhar naqueles olhos achocolatados e perguntou:
-E o que pensavas que estava esquecido? Conta-me tudo, querida.
Era a primeira vez que lhe chamava querida, e ela sentiu a palavra como uma carícia na alma.
-Eu tinha dezanove anos. Tinha entrado nesse ano no Instituto Superior Técnico e namorava um rapaz que frequentava outro curso no mesmo Instituto. Era o meu primeiro namorado, até aí vivera só para os estudos, não conhecia as manhas de que os homens são capazes. Desculpa, não quis ofender-te.
Um dia quando saímos, ele disse que me ia levar a sua casa, para me apresentar aos pais. Eu não vi mal nisso, pelo contrário pensei que era um sinal de seriedade da sua parte. Era tão ingénua! Os seus pais não estavam, em casa, nem sequer na cidade, tinham ido ao interior visitar a avó dele, mas eu só o soube, quando já era tarde demais. Assim que entrámos em casa, ele fechou a porta, guardou a chave no bolso, e começou a beijar-me e a despir-me. Lutei, com todas as minhas forças, mas quanto mais eu lutava mais ele se excitava. Parecia um animal raivoso. Eu, não estava preparada, para nada assim. A dor foi tão intensa, que perdi os sentidos. Quando acordei ele disse-me que me ia levar a casa, mas que dava cabo de mim, se eu contasse a alguém o que tinha acontecido. Quando ele abriu a porta para sairmos, fugi. Fui a pé para casa, tentando acalmar-me para que os meus pais não dessem por nada. Nunca mais o vi, mas durante um bom tempo vivi no terror de poder estar grávida. Graças a Deus isso não aconteceu. Nunca contei isto a ninguém nem sequer à minha irmã, tal a dor e a vergonha que sentia.
Desde então, nunca mais quis saber de namoros. Levei anos a reviver aquela dor, em pesadelos que me deixavam quase louca. Sentia pavor cada vez que algum homem, se aproximava de mim, até que desisti de pensar no futuro ao lado de alguém, e me dediquei só à minha profissão. Contigo foi diferente.  Apesar do meu medo, a primeira vez que me beijaste, não senti vontade de fugir, pelo contrário, gostei do beijo. E como já se passaram dez anos, pensei que tinha conseguido superar o trauma. Também não tinha voltado a ter o pesadelo. Até à noite passada. Talvez pela aproximação do casamento o pesadelo voltou, e o terror também.
Durante todo o tempo que ela falou, Pedro manteve-se em silêncio a mão direita acariciando-lhe a cabeça o punho esquerdo cerrado, a raiva fervilhando no peito contra aquele tipo asqueroso. Porém quando falou, o seu tom de voz foi tão suave, tão terno,  que foi como um bálsamo para a alma atormentada da jovem.
- Chora, se isso te faz sentir melhor, mas pensa que já passou e não voltará a acontecer. Confia em mim.
-Deixaste bem claro que o casamento seria completo,e eu devia ter-te contado logo na altura, mas não é fácil falar de uma violação. A dor e a vergonha, são como um espinho cravado na alma.
- A dor compreendo, a vergonha não. És a vítima, não a culpada. Quanto à nossa vida matrimonial, não penses nisso agora. Ela acontecerá amanhã, depois, ou noutro dia qualquer, quando estiveres mais calma e relaxada, e tiveres interiorizado, que não te irei forçar a nada e que tal como hoje pararei ao menor sinal de desconforto da tua parte.Tenho a certeza de que vamos ultrapassar isto, juntos, mas se assim não for, procuraremos ajuda especializada. Agora dorme, - disse puxando-lhe as alças da camisa para o sítio, e depositando-lhe um beijo nas pálpebras molhadas.
Algum tempo depois, sentiu como o corpo dela ia relaxando, enquanto a respiração se suavizava e finalmente adormecia. Ele ficou ainda um longo tempo acordado, aquietado corpo e alma, na certeza de ter agido como devia.


1.12.17

MARIA - PARTE V


RE-EDIÇÃO




O casamento de Maria


Foi neste ambiente de dor e raiva, que Maria veio ao mundo.
Quando lhe pegou ao colo pela primeira vez, Elisa jurou que a sua filha, não ia ser um joguete do destino, como ela fora. A sua menina ia estudar, ter uma carreira, ser independente. Foi o seu primeiro erro. Ela não se dava conta, que estava a traçar para a filha, a vida que ela quisera ter.
De outro modo, com uma meta diferente,  estava a cometer o mesmo erro, que tinham cometido com ela.
Com o dinheiro que o marido lhe deixara, alugou uma casa, montou um ateliê e começou a costurar para várias lojas. O trabalho cresceu, as suas criações fizeram sucesso e em breve, tinha duas ajudantes no ateliê, e contratava uma ama para a filha já que lhe faltava o tempo e a disposição para ela. Foi o segundo erro. A filha ia sentir esse afastamento, como uma rejeição.
Maria, era a criança mais bem vestida, do bairro. A mãe, estava sempre, fazendo belos vestidos para a filha, que mais parecia uma boneca, que menina rica se entretivesse a mudar de roupa a todas as horas. Pouco depois de completar quatro anos, ficou doente.
Vários médicos e muitos exames depois foi detectado uma doença óssea. Elisa foi aconselhada a levar a filha para Londres, onde havia um médico especializado nessa doença. Ela contactou um dos irmãos, que emigrara para lá, cinco anos antes e contou o que acontecia com a filha. Recebeu como resposta, as passagens de avião e algumas libras, bem como a afirmação de que as esperava no aeroporto.
Partiram as duas e um mês depois Elisa regressou sozinha. Não podia estar tanto tempo longe do ateliê, e o irmão ficava com Maria, até que ela estivesse curada. Maria sentiu, que não era muito importante, para a mãe.
Um ano depois, Elisa voltou a Londres para buscar a filha. Segundo os médicos, as cirurgias resolveram o problema da malformação óssea das mãos, e dos pés, e com a medicação esperavam que não surgissem novos problemas com o crescimento. Porém Maria nunca poderia vir a ser mãe, porque a sua bacia não aguentaria, as transformações de uma gestação.
Custa a crer, à luz da medicina atual, que um médico dissesse "nunca". Porém, Elisa sempre repetiu isto, ao longo dos anos, tantas e tantas vezes, que a filha foi crescendo, revoltada consigo mesmo, por se achar inferior. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comentamos esta história. Ela disse-me. "Eu vou ser mãe. Ela vai ver que eu sou capaz" Raras vezes, Maria se referia à mãe, como tal. Quase sempre dizia "ela".
Elisa era muito exigente com a filha. Ela sonhava a filha, como um modelo de perfeição, e definitivamente ela era uma criança normal, uma adolescente igual a tantas outras.
E assim Maria foi crescendo, com uma relação muito difícil, com a mãe. Sentia-se incapaz de ser, como a mãe desejava e isso amargurava-a. Para se "vingar"estava sempre a contrariar a mãe. Se esta lhe dizia para vestir umas calças, ela vestia saia, se lhe dizia para vir direta da escola para casa, ela ia para casa de uma amiga.
Maria era meiga com a sua ama. Também comigo. Até mesmo com a professora. Mas não com a sua mãe. Era como se estivessem sempre medindo forças entre si.
Porém quando a mãe chorava, Maria refugiava-se no seu quarto e chorava também. Era uma estranha relação de amor-ódio, que durou muito, para além da infância e adolescência. Eu diria até que durou toda a vida.
Quando fez dezassete anos, começou a namorar, e aí "caiu o Carmo e a Trindade" como soe dizer-se. A mãe não consentia o namoro. E ameaçou mandá-la estudar para Londres, telefonou ao irmão para sondar a hipótese de ele receber lá a sobrinha. Resultado? Maria ficou grávida e decidiu que ia casar. A mãe repetiu o que sempre disse, sobre uma possível gravidez. E disse mais. Que não ia haver casamento nenhum, que ela ia fazer um aborto, que era uma menina, que tinha que estudar, ir para a universidade etc...etc. ...
A jovem não se convenceu. Disse que se a mãe não autorizasse o casamento, fugia de casa e nunca mais ia saber dela. E mais, ameaçou a mãe de ir à polícia denunciá-la, por querer obrigá-la a fazer um aborto que na altura era considerado crime, e punivel  com prisão.
Casou-se num Sábado à tarde. Era o mês de Maio de mil novecentos e setenta e cinco.


Continua


Um curiosidade.
A foto acima, é a minha no dia do meu casamento religioso em Nampula no ano de 1971. Estava já casada há mais de três anos, pela lei dos homens. Atenção que só usei a foto porque achei que se enquadrava no tema.  Eu não sou a Maria, lembrem-se.

12.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXVIII


A dor que Daniela sentiu foi tão intensa que não resistiu. Sentiu que a visão se  lhe nublava, teve a nítida sensação de que o chão vinha ao encontro da sua cabeça e mergulhou no abismo.
Acordou minutos mais tarde, estendida no sofá. Sentado ao seu lado, David, passava-lhe uma toalha molhada pela testa.
- Sentes-te melhor? – Perguntou apreensivo.
- Já passou. Queres ou não ouvir-me?
 -Achas que vale a pena? - Perguntou com amargura
-Talvez sim, talvez não. Tu dirás. Lembras-te, de me teres perguntado porque me divorciei? Perguntaste se houve traição e eu respondi que sim e não. Bom para ir ao princípio da questão, casei-me aos vinte e quatro anos,   profundamente apaixonada, sonhando com uma relação para toda a vida. Um ano depois de casada, Felipe começou a questionar-me porque eu não engravidava, e ele queria logo ser pai. Consultei um ginecologista, fiz vários exames e no fim ele disse-me que era estéril. Calculas a dor que é para uma mulher de vinte e cinco anos, cujo marido a pressiona todos os dias, para lhe dar um filho, saber que nunca vai poder fazê-lo? Foi como se o mundo inteiro ruísse à minha volta. Fiquei destroçada. Quando contei ao Filipe, ele disse-me que não importava e durante alguns dias, eu acreditei nisso. Mas foi sol de pouca dura. Pouco depois começou a marcar-me consulta em vários médicos, sempre acreditando que um deles ia fazer o milagre. A minha vida, deixou de fazer sentido, era um verdadeiro calvário, de médico em médico, de exame em exame.
David estava pálido. Percebeu a crueldade, que as suas palavras tinham representado, e a causa do  desmaio da jovem, e recriminou-se por isso.  Abraçou-a.
- Perdoa-me. Não precisas continuar, não quero que sofras.
- Tenho de o fazer. Não percebes que é um espinho que trago cravado no peito? Deixa-me continuar. Ao fim de quatro anos, quando o último médico aconselhou o Filipe, a esquecer os filhos biológicos e a fazer uma adoção, ele pediu o divórcio. Sofri muito. Não tinha sido traída por nenhuma outra mulher, fui traída pelo meu ventre inútil. Jurei que nunca mais me ia interessar por nenhum homem, e durante mais de três anos, consegui viver apenas para o trabalho, mas quando te conheci, esqueci todos os meus propósitos, e apaixonei-me que nem uma idiota. Espera, deixa-me ir até ao fim, - disse colocando-lhe uma mão no peito e empurrando-o ao perceber que ele se inclinava para a beijar. -Via nos teus olhos, que me desejavas, e pensei que podia ser feliz mantendo uma relação de amante contigo. Tinhas fama de mulherengo, não te ias prender, não quererias mais do que isso, e eu poderia desfrutar desse arremedo de felicidade, pelo menos até que te cansasses de mim. Era um jogo perigoso, sabia que mais cedo ou mais tarde, te ia perder, mas enganava-me dizendo que teria tempo suficiente para me habituar à ideia. Tu nunca quererias mais do que uma relação passageira, não tinhas que saber da minha inutilidade, como mulher. Mas depois daquela noite, tu disseste que me amavas, que querias casar, e eu fiquei apavorada, - concluiu com um soluço.
Ele apertou-a nos braços, e deixou um rasto de beijos no rosto molhado.



Aceito a critica de que o David entrou a matar. Mas temos que convir não foi pior do que a Daniela fez aquando do pedido de casamento. Os dois usaram a crueldade como um escudo.

23.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIII


Mariana deixou-se cair no sofá. Desalentada. Que se passara? A noite estava a ser maravilhosa. Ela sentia-se tão feliz enquanto dançavam. O que, ou porque, se quebrou o encanto? Porque a rejeitara? Acaso  tinha sido ilusão sua, a emoção que lhe julgara sentir, momentos antes, enquanto dançavam?
Ela fora sincera, abrira o seu coração, confessara-lhe o seu amor de mulher. E ele não a levara a sério.
Com as costas da mão, limpou com raiva, as lágrimas que lhe enevoavam o olhar.
E agora? Que fazer? Não podia arrancar do peito, aquele fogo que a devorava. Insistir e ser rejeitada de novo? Morreria de vergonha. Triste e desiludida, recolheu ao quarto.
Despiu o belo vestido, atirando-o com raiva para um canto do quarto.
Já deitada, dava voltas no leito sem conseguir dormir. Por fim deu largas à sua frustração e chorou até adormecer. Ela não sabia, que no quarto ao lado, o homem também não conseguia dormir, submergido num mar de dúvidas e inquietações.
Ele estava sentado na cama, a cabeça enterrada entre as mãos.
Relembrava a noite. Minuto a minuto, desde que ela saíra do quarto. Onde estivera escondida, aquela mulher que se apresentava na sua frente? Estava maravilhosa naquele vestido negro. Miguel tinha visto ao longo da vida muitas mulheres bonitas, Tinha conquistado algumas. Muitas, talvez. Nunca porém nenhuma o impressionara tanto. Depois do jantar, enquanto dançavam, sentindo o corpo dela, colado ao seu, o calor dos seus braços, envolvendo-o, sentiu que alguma coisa se quebrava dentro dele. O que ele sentia, não era de modo algum um amor fraternal, e muito menos paternal. Era o amor de um homem por uma mulher
Pela primeira vez, desejara aprisionar a boca dela na sua, num beijo apaixonado. O sua noção da realidade, impedira-o.
Em breve faria quarenta e sete anos, Ela tinha vinte. Era natural que se sentisse fascinada pelo homem mais velho, tal como muitas alunas se sentem fascinadas pelos seus professores, e pensam que estão enamoradas. E nela, que tinha sofrido tanto, e nos últimos meses não convivera com nenhum outro homem, era ainda mais plausível. Não podia iludir-se nem aproveitar-se da situação. Quando voltasse para a sua casa, a universidade, e os amigos da sua idade, a confissão dessa noite, haveria de parecer-lhe ridícula. E quem sabe não iria odiá-lo por ter-se aproveitado da sua fragilidade. Ah! Se ele fosse mais jovem!
Agora, outra realidade se impunha. Como continuar a fingir, que nada tinha acontecido, e que ela representava para ele, o que sempre fora? Onde arranjar forças?
O dia raiava e ele continuava sem adormecer