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17.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXV




Eram exatamente nove horas, quando Ricardo tocou a campainha.
Isabel abriu a porta e conduziu-o para a sala.
- Senta-te. Desculpa, não tenho bebidas alcoólicas, mas posso oferecer-te um café.
-Obrigado mas acabei de jantar. Prefiro que me digas o que decidiste.
- Antes de te dar uma resposta temos que esclarecer alguns pontos. Disseste que o casamento será real e não apenas nominal. É assim?
- É. Disse-te que seremos uma família.
- E como sabes, se somos compatíveis? Imagina que casamos e não consigo ter intimidade contigo. Já pensaste nisso? Ou acreditas que és tão irresistível, que não há hipótese de isso acontecer?
- Bom, e onde é que isso nos leva? Queres que façamos a experiência, antes de me dares a tua resposta?
- De modo algum – apressou-se a dizer vermelha que nem papoila. – Mas quero que me beijes. Porque se não formos compatíveis com um simples beijo, não haverá casamento, ou pelo menos não tal como o desejas.
Tinha razão. Por muita vontade que ele tivesse de formar uma família, (e pensava nisso todos os dias, depois da conversa com Artur)  e dar um lar à menina, se entre os dois não houvesse química, um casamento estava fora de questão. Pôs-se de pé e avançou para ela. Apesar do seu metro e oitenta e quatro, não era muito mais alto que Isabel que ultrapassava o metro e setenta. Rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Com a outra mão segurou-lhe o queixo e aproximou o rosto do seu. Por uma fração de segundo os seus olhos encontraram-se. Ele queria ler nos olhos dela, expetativa, desejo, algum sentimento que lhe desse uma ideia do que aquela proximidade lhe provocava, mas ela fechou-os e aguardou, os lábios trémulos, o corpo tenso, o momento que se aproximava. Por um momento, ele receou que o seu beijo não fosse tão bom quanto ela desejava. O teste era muito importante para o futuro dos dois, e ele desejava que corresse bem.
Com uma ligeira pressão, fez com que os corpos se tocassem. Ela conteve a respiração e entreabriu os lábios. Ele inclinou a cabeça, e beijou-a. Não um beijo apaixonado, mas um suave roçar dos lábios inicial, para depois intensificar o beijo, brincando com os seus lábios, provocando e tentando dar-lhe o máximo prazer.
De súbito com um suspiro o corpo dela, qual leão adormecido, que desperta faminto, fez com que  levantasse os braços para lhe acariciar a nuca, enquanto se roçava descarado no corpo masculino.
 Ele aprofundou então o beijo, a sua língua invadiu a boca feminina, saboreando a sua doçura, mas a reação foi tão intensa que logo se arrependeu. O que era aquilo? Jamais um simples beijo o excitara tanto. Sentiu um desejo tão forte, que a sua vontade era deitá-la no sofá e fazer amor até cair de cansaço. Aquilo nunca lhe acontecera antes, com qualquer mulher, e ele tivera muitas nos últimos anos. O mais suavemente que pôde,  afastou a jovem que protestou relutante. Voltou-lhe as costas e caminhou até à janela. Não queria que ela visse o estado de excitação em que se encontrava. Durante largos segundos ficaram em silêncio, cada um tentando digerir as emoções que aquele beijo despoletara.
-Creio não haver dúvidas sobre a nossa compatibilidade. A química entre nós não podia ser maior – disse por fim voltando para o sofá. – Então vamos lá saber o que decidiste.
 - Aceito a tua proposta se aceitares as minhas condições. Suponho que terás as tuas aventuras, talvez até uma amante. A partir do momento em que decidirmos avançar para o casamento, terás que ser fiel. Não suporto traições. 
- Sem problema. Se me conhecesses, saberias que considero a traição a coisa mais abjeta da vida.
-Muito bem. O casamento terá que ser o mais intimo possível, uma ida ao registo com as testemunhas exigidas por lei, e nada de lua-de-mel.




4.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIII


Mariana deixou-se cair no sofá. Desalentada. Que se passara? A noite estava a ser maravilhosa. Ela sentia-se tão feliz enquanto dançavam. O que, ou porque, se quebrou o encanto? Porque a rejeitara? Acaso  tinha sido ilusão sua, a emoção que lhe julgara sentir, momentos antes, enquanto dançavam?
Ela fora sincera, abrira o seu coração, confessara-lhe o seu amor de mulher. E ele não a levara a sério.
Com as costas da mão, limpou com raiva, as lágrimas que lhe enevoavam o olhar.
E agora? Que fazer? Não podia arrancar do peito, aquele fogo que a devorava. Insistir e ser rejeitada de novo? Morreria de vergonha. Triste e desiludida, recolheu ao quarto.
Despiu o belo vestido, atirando-o com raiva para um canto do quarto.
Já deitada, dava voltas no leito sem conseguir dormir. Por fim deu largas à sua frustração e chorou até adormecer. Ela não sabia, que no quarto ao lado, o homem também não conseguia dormir, submergido num mar de dúvidas e inquietações.
Ele estava sentado na cama, a cabeça enterrada entre as mãos.
Relembrava a noite. Minuto a minuto, desde que ela saíra do quarto. Onde estivera escondida, aquela mulher que se apresentava na sua frente? Estava maravilhosa naquele vestido negro. Miguel tinha visto ao longo da vida muitas mulheres bonitas, Tinha conquistado algumas. Muitas, talvez. Nunca porém nenhuma o impressionara tanto. Depois do jantar, enquanto dançavam, sentindo o corpo dela, colado ao seu, o calor dos seus braços, envolvendo-o, sentiu que alguma coisa se quebrava dentro dele. O que ele sentia, não era de modo algum um amor fraternal, e muito menos paternal. Era o amor de um homem por uma mulher
Pela primeira vez, desejara aprisionar a boca dela na sua, num beijo apaixonado. A sua noção da realidade, impedira-o.
Em breve faria quarenta e sete anos, Ela tinha vinte. Era natural que se sentisse fascinada pelo homem mais velho, tal como muitas alunas se sentem fascinadas pelos seus professores, e pensam que estão enamoradas. E nela, que tinha sofrido tanto, e nos últimos meses não convivera com nenhum outro homem, era ainda mais plausível. Não podia iludir-se nem aproveitar-se da situação. Quando voltasse para a sua casa, a universidade, e os amigos da sua idade, a confissão dessa noite, haveria de parecer-lhe ridícula. E quem sabe não iria odiá-lo por ter-se aproveitado da sua fragilidade. Ah! Se ele fosse mais jovem!
Agora, outra realidade se impunha. Como continuar a fingir, que nada tinha acontecido, e que ela representava para ele, o que sempre fora? Onde arranjar forças?
O dia raiava e ele continuava sem adormecer

9.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXIV



- Bom dia avó. O Martim?
- Anda por aí brincando. Ele acorda com as galinhas. E tu deixaste-te dormir. Que aconteceu. O Paulo ficou até tarde?
- Não. Mas eu não conseguia dormir. Olha, - disse estendendo a mão para a avó admirar o lindo anel de noivado..
- É lindo. Mas porque dormiste mal? Devias estar muito feliz. Que se passa contigo. Não gostas do rapaz?
- O Martim já desjejuou? – Perguntou tentando desviar o rumo da conversa.
- É claro que sim. Mas não foi isso que te perguntei. Gostas ou não do rapaz? Não me vais dizer que aceitaste o casamento só porque ele e o Martim se dão como Deus com os anjos.
- É claro que não avó. Gosto do Paulo. Talvez demasiado para quem se conhece há tão pouco tempo, e isso é que me assusta.
- Não é preciso muito tempo para se gostar de uma pessoa. Sabes quanto tempo mediou entre o momento que encontrei o teu avô e o dia do nosso casamento? Dois meses exatos. E tivemos um casamento muito feliz, como deves lembrar-te. Por outro lado, nunca se gosta em demasia. A não ser que a pessoa não seja mentalmente sã.Mas isso não é amor. É obsessão.
- Dois meses, avó? E não tiveste dúvidas? Não pensaste que podia não dar certo?
- É claro que não, filha. Gostávamos um do outro e confiava que isso era suficiente para nos unir e nos ajudar a enfrentar todas as provações. O verdadeiro amor, vai crescendo com os anos e as dificuldades que juntos enfrentamos. Não é o que sentimos quando casamos, em que tudo corre bem e em que a paixão domina tudo. Quando começam a surgir as dificuldades de uma vida a dois, e elas surgem fatalmente, porque somos pessoas diferentes, temos pensares e maneiras de encarar os problemas de modo diferente, quando os desgostos assentam arraiais na nossa vida, aí sim se conhece se o que une duas pessoas é ou não um grande amor. E tu sabes que não foi fácil, o nosso casamento, primeiro com a morte da tua mãe, que não sendo nossa filha, era a mãe dos nossos netos e por isso tínhamos um grande carinho por ela. Depois a morte do teu pai. Foi um desgosto atroz. Os pais nunca deviam assistir à morte de um filho. É contra natura. E nós estivemos sempre juntos amando-nos e consolando-nos mutuamente. Até à sua morte. E posso dizer-te que se me fosse dado a escolher, entre ir com ele, ou ficar aqui a amargar a saudade, eu teria escolhido sem hesitar partir com ele. Na verdade a melhor parte de mim, morreu nesse dia.
Calou-se emocionada, para continuar logo de seguida.
- Como vês, não é preciso muito tempo de conhecimento ou namoro para que um casamento dê certo. E tu, melhor que ninguém, sabes disso. Quantos anos, namoraste o Afonso?
- Não sei avó. Quase desde que nasci.
- E vês no que deu? Analisa os teus sentimentos e se gostas do rapaz, vai em frente. O comboio da vida, é rápido. Se hesitamos muito tempo em subir para a carruagem, quando nos decidimos, já partiu.
- Vou chamar o Martim. Temos que nos despachar, o Paulo vem buscar-nos às onze. Vamos combinar a festa do casamento, e temos que ir à igreja da vila, falar com o padre.
- Então vai filha. Mas dá um jeito nesse rosto. Se o rapaz te vê com essas olheiras, é capaz de desistir do casamento, - disse sorrindo. 



E hoje houve desfile de Carnaval das escolas. Por  AQUI

3.2.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE XXVII







Regressaram a casa.
- Por favor Paulo, preciso de falar com o Martim, e só o farei logo à noite em casa. Depois telefono-te. Até lá, por favor, não faças nem digas nada.
- Tens medo da reação dele? Pensas que pode não aceitar-me.
- Ó não! Esse risco não corres, fica descansado. Está encantado contigo, nunca o vi assim com ninguém. Nem com o próprio tio, ele se mostra assim.
- E não preferes que seja eu a falar com ele?
- De modo algum. Sou a sua mãe, é a mim que me compete contar-lhe e responder às suas dúvidas. Amanhã  falarei com o Carlos sobre a doação, procura os documentos da propriedade para nos levar a fim de tratarmos disso. Temos que marcar o registo, e às vezes isso leva uns dias. Provavelmente terás que pagar a urgência, ou não conseguirás ter isso pronto até ao dia dois de Maio. Faltam poucos dias e ainda temos um fim-de-semana e o feriado do primeiro de Maio. Não temes que depois disso o Alfredo deixe para trás a tua parte na propriedade?
- Não. Conheço-o como a mim mesmo. E de resto eu vou continuar a vir para aqui aos fins-de-semana. Tomara que eu tivesse outro Alfredo para gerir a empresa, poder retirar-me para aqui e dedicar- me à pintura. Mas tal não acontece, e sei que se me descuidar, a concorrência engole-me, quem sabe se até com a conivência de algum funcionário. Num negócio daquela envergadura, é preciso pulso forte e olhos bem abertos.
-Não tens ninguém lá dentro em quem confies?
- Em princípio,- isto eu já verifiquei- não há ninguém novo em postos chave. O mais recente está lá há seis anos, pelo que o meu tio confiava neles. De qualquer modo, eu sempre ouvi o meu tio dizer que o que engorda o porco é o olho do dono. A pintura terá que ficar apenas como um “hobby”.
Tinham chegado junto dos demais. E Amélia aproveitou para agradecer o convite e despedir-se, pois estava na hora do regresso, e ainda iam deixar a avó em casa e pegar as suas coisas para a volta à cidade. Paulo, pediu então ao amigo se as levava a casa, ele segui-los-ia na mota. Poderia assim seguir depois com eles para a cidade, enquanto Alfredo regressaria a casa com o carro.
Sem que os dois voltassem a estar sozinhos, uma hora mais tarde, estavam na estrada, a caminho da cidade. O carro na frente, a mota seguindo-os.


Anete , mais tarde mando o presentinho.  O seu comentário foi o 30. 000