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23.6.20

ISABEL - PARTE XXX



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do lançamento do seu novo livro, que seria já no final do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, nem bem se podia chamar um trabalho, embora ele o levasse a sério, era um favor feito a um empresário amigo do seu pai. Luís precisava de conviver naquele local para observar as rotinas dos empregados, já que as personagens da novela que estava a escrever, estavam ali empregadas, e o amigo de seu pai, fora surpreendido pelo pedido de transferência do seu director comercial, e apesar das várias entrevistas, não tinha ainda encontrado a pessoa com o perfil adequado ao lugar. Assim e com a intervenção do seu pai, tinham chegado a um acordo e Nuno Fraga ocupara o lugar 
Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que não fosse, tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Procurara o seu nome na lista telefónica mas não o encontrou, o que não lhe causou qualquer surpresa. Atualmente poucas pessoas dispunham de um telefone fixo. Da próxima vez que o destino os juntasse teria que arranjar maneira de descobrir o número do seu telemóvel.Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, faltava já só dez dias para a data do lançamento.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara até ali. Claro que ele continuaria por lá, mas agora terminada a sua missão, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Acabara por descobrir que escrever uma novela, era muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-o ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compunham cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, que lhe tinham pedido inicialmente, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir outros, etc. Percebeu porque se adaptam grandes obras literárias a novelas mas raramente um bom escritor escreve novelas para a Televisão. Na prática o escritor pode ter uma excelente ideia, mas se ela não fizer subir as audiências, ver-se-à obrigado a enveredar por um caminho que não lhe diz nada, apenas para cair no gosto popular.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, apenas como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando viu Isabel no centro comercial, prestes a entrar no supermercado. Pensou que ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou andava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto. Aproximou-se.
- Boa noite Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.


E como hoje é vésperas de S. João, festejem-no em casa e não joguem a vossa saúde na roleta da sorte. Para não terem más surpresas.







12.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIII


- E agora que já conheces a casa, que te parece?
-Muito bonita, mas se queres uma opinião sincera, falta-lhe alma. Aposto que escolheste um decorador famoso, e lhe entregaste o trabalho, sem pores nada teu nela. Acertei?
- Na "mouche". Contratei o Fernando Lins. O que achas mal?
-Não é que ache mal, a decoração está linda. Só que tanto pode ser a tua casa, como a minha, ou a de outro qualquer que tenha dinheiro para pagar um bom decorador. Percebes? Por exemplo eu sei que tens um grande amor à tua família. E não vi na casa uma moldura, um quadro, nada que me dissesse que tens uma família que amas. Bem sei que atualmente não se usam molduras, mas repara há fotos que são verdadeiras obras de arte. Então porque não ampliá-las e usá-las em vez dos quadros, pelo menos nos locais onde decerto passarás mais tempo, por exemplo no escritório?
- Entendo. Aceitarias fazer esse trabalho para mim?- Perguntou enquanto afastava a cadeira para ela se sentar à mesa.
- Não me costumo dedicar à decoração fora do âmbito das festas. E além disso o nosso contrato termina no fim do mês.
Alice, a governanta, entrou empurrando um carrinho com o almoço. Colocou na mesa o Bacalhau com Natas dizendo:
-Como o senhor não me deu qualquer indicação para o almoço, tomei a liberdade de perguntar à menina se gostava de dois dos seus pratos preferidos, e como a resposta foi positiva fiz Bacalhau com Natas e Codornizes à minha Moda. Espero que seja do vosso agrado.
-Muito bem. Pode retirar-se. Chamarei quando terminarmos o primeiro prato. 
Esperou a saída de empregada e disse voltando-se para a jovem:
-Apraz-me verificar que temos gostos semelhantes na gastronomia. Mas voltando à minha proposta. Gostaria muito que pensasses nela.
- Parece-me que estás a tentar envolver-me numa teia de sedução. Como se na verdade aquela absurda proposta de casamento continuasse na tua cabeça. Gostaria que fosses sincero comigo.
-Porquê absurda?
-Disse-te o que pensava de casamentos por interesse.
Eu sei. Mas acredita que um casamento entre nós, não será nem um pouco por interesse. Até porque no final do mês, o teu pai recuperará a firma e a credibilidade junto dos meios financeiros. Não voltarei a interferir nos seus negócios, dou-te a minha palavra. Sei que tiveste uma relação com um médico e que a terminaste a poucos meses do casamento. Dado que ele se casou pouco depois com uma enfermeira da sua equipa e já foi pai, não é preciso ser um “expert” para saber que não te respeitou.
- Andaste a investigar-me?
-Não, mas investiguei-o a ele após a vossa rotura. Calculo que não terá sido fácil para ti veres ruir os teus sonhos de um momento para o outro. Mas passaram quase dois anos. É tempo de esqueceres o que se passou e dares a ti mesma uma nova oportunidade de seres feliz. É desse momento que estou à espera.
-E se eu te disser que deixei de acreditar nos homens, e no amor?
- Eu direi que és demasiado inteligente para julgares todos os homens, pelos erros de um.
António carregou num botão na parte inferior do tampo da mesa, e segundos depois a governanta, voltava à sala com o carrinho de serviço.


15.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXVI




Faltavam poucos dias para o Natal. Naquela tarde de sábado, o último antes das festas, Francisca decorava uma grande árvore, com a natural alegria das crianças que andavam à sua volta, com bolas e estrelas, todos querendo ajudar na decoração. Afonso, tinha ido comprar alguns presentes. Depois ia deixá-los no escritório. Já tinha contratado uma empresa de Pais Natal, para fazerem a entrega dos presentes. Na cozinha a empregada afadigava-se com os preparativos para o jantar.
Francisca deu a tarefa por concluída colocando no cimo da árvore, uma grande estrela dourada.
-Está pronta.
As crianças gritaram batendo palmas de alegria.
- Então meninos,- admoestou Francisca.
- Faltam as prendas - disse João.
-As prendas vêem com  o Pai Natal na noite de Natal, não sabes? – Era Marta quem tinha respondido.
- Será que ele não se esquece de nós, como nos outros anos? – Perguntou  o menino.
Francisca sentiu um nó na garganta. Na verdade, nos últimos anos, aflita para pagar as dívidas que o marido tinha deixado, não pudera comprar nada às crianças. Não pensava que os filhos tivessem sentido tanto, a ponto de se lembrarem disso.
-Sabes filho, nos outros anos, estávamos a  viver com os avós, na aldeia. O pai tinha viajado, e a mãe esqueceu de mandar a morada ao Pai Natal. E ele não podia adivinhar, onde nós estávamos.
-E este ano já o avisaste de que estamos aqui? – Insistiu a criança.
- Sim filho fica descansado. Agora podem ir brincar para os vossos quartos, quando o pai chegar chamo-vos para jantar.
As crianças saíram. Mas pouco depois João voltava.
- Mãe.
-Sim, filho.
-Quando é que o pai volta da viagem?
Estremeceu. Estava a ser difícil o dia. Mais dia, menos dia, tinha que lhe dizer a verdade. Desde que entrara para a escola, João estava mais maduro, E já tinha feito quatro anos. Suspirou
- Ficavas muito triste se ele não voltasse?
- Não sei. Gosto desta casa. Gosto do pai Afonso e das manas. Não quero sair daqui quando o pai voltar.
Uma lágrima rolou-lhe pela face. De joelhos, na sua frente, sem saber o que dizer a mãe abraçou-o. E então sentiu a mão do filho mais velho no seu ombro.
-Deixa mãe, eu conto-lhe. Ele vai entender.
E levando o irmão pela mão, saiu da sala.

reedição




10.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXV




Paulo chegou pontualmente às onze horas. Beijou a idosa e ajudou-a a entrar no carro, depois acariciou a cabeça de Martim e só então se virou para Amélia, e lhe roçou os lábios com uma caricia tão suave que mais parecia um beijo de brisa. Arqueou uma sobrancelha, num gesto que ela já reparara, ele repetia quando algo o preocupava, e perguntou quase num sussurro.
- Que se passa? Estás bem?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça e apressou-se a entrar no carro. Ele sentou-se ao volante e arrancou. Durante o trajeto Martim não se calou. Estava muito feliz por ir passar o dia com os seus novos amiguinhos.
Na quinta, todos estavam entusiasmados com a perspetiva da próxima boda e as mulheres trocavam ideias para a decoração da casa e a ementa. Paulo queria contratar uma empresa de “catering” mas elas queriam fazer a festa, já que a cerimónia seria íntima, e apenas os colegas de Amélia estariam presentes, além da família. Ao fim de algum tempo, ele acabou convencendo-as. Afinal ele queria que todos estivessem felizes com aquela boda, não queria ver ninguém atarefado e nervoso com medo de que alguma coisa corresse mal.  Resolvida esta questão, passaram às seguintes. Matilde iria levar as alianças, os meninos seriam os pajens, Alfredo e a esposa os padrinhos de Paulo. Amélia, ainda não falara com o irmão, de férias em Cabo Verde, e teria que lhe ligar, para saber se ele aceitaria ser o seu padrinho, ou se convidava Carlos e a esposa. O tempo era muito curto para preparar tudo mas Paulo não queria de modo algum prolongar o prazo. De resto o facto do irmão de Amélia estar em Cabo Verde não seria impedimento para ela falar com ele, que teria decerto o seu telemóvel à mão. As roupas e calçado, compravam-se num dia. Ele sabia que talvez Alfredo, não tivesse disponibilidade financeira para tanta despesa, mas mais tarde quando estivessem sozinhos resolveria esse problema.
Depois do almoço, os dois foram a Alvaiázera, a vila mais próxima, para falar com o padre. Alfredo informou-os que a igreja estava aberta todo o dia, e que quando o padre não estava por lá, estava em casa, mesmo ao lado da sacristia.
O sacerdote era um homem de idade avançada e rosto afável que os recebeu com cordialidade, e se mostrou contente por eles procurarem a bênção divina para o casamento, numa época em que as pessoas cada vez se casavam menos.
Depois de ouvirem atentamente as recomendações do sacerdote, despediram-se ficando a cerimónia marcada para quinze dias depois,  às onze horas.


PORTUGAL ACABA DE SE SAGRAR CAMPEÃO EUROPEU DE FUTEBOL.
PARABÉNS PORTUGAL



E como hoje é sábado de Carnaval, eis-me pronta para a farra.  Rsrsrs