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6.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XV


Anabela saiu da esquadra e encaminhou-se para a clínica de fisioterapia, onde trabalhara quase dois anos antes de ter vendido a casa que a “avó” Arminda lhe deixara por herança e ter decidido entregar-se apenas aos estudos.  Paula, a comadre, continuava trabalhando lá, bem como alguns dos fisioterapeutas que tinham sido seus companheiros de trabalho. Desde que se casara nunca mais lá passara, e tinha saudades, além de desejar falar com a amiga sobre a conversa com o inspetor, e o desejo de se candidatar a um hospital em Londres que a afastasse de Lisboa, dos possíveis encontros com os ex-sogros e de todo o sofrimento dos últimos tempos.

Sentiu um arrepio e levantou a gola do casaco. Embora o céu se apresentasse limpo, estava bastante frio, o que não era de admirar, pois o inverno aproximava-se a passos largos. Olhou à sua volta. Apesar de não serem horas de entrada, nem saída de empregos, toda a gente caminhava apressada, como se estivessem atrasadas para qualquer coisa. Pareciam formigas gigantes, pensou, lembrando-se dos carreiros de formigas, que tantas vezes observara na aldeia.

As grandes montras à sua frente, brilhavam de enfeites natalinos, recordando-lhe que faltava menos de um mês para o Natal. Parou em frente de uma montra de roupa infantil, adornada por um Pai Natal, sentado num pequeno coche, puxado por duas renas. Aquilo lembrou-a de quando em criança se espantava com os brinquedos que nunca teria, mas com que brincava, apenas em imaginação, parada em frente de uma montra natalícia.

Abanou a cabeça, tentando afastar tristes pensamentos e olhou o relógio. Faltavam poucos minutos para o meio-dia. Tinha de se apressar se queria apanhar a amiga antes da hora de almoço para poder dar-lhe conta dos últimos acontecimentos. Durante o expediente era impossível, a clínica estava sempre cheia.

Chegou ao edifício quando todos saíam. Paula era a empregada mais antiga, a primeira a entrar e a última a sair por ser aquela a quem o doutor Moreira dera a chave da clínica.

-Anabela! Meu Deus mulher, há quanto tempo não te via, - disse Luís envolvendo-a num forte abraço que quase lhe esmagava os ossos. Luís era um homem grandão, com uma enorme força e um abraço de urso, como diziam os colegas, enquanto ela esteve ali empregada. Parecia impossível, que toda a sua força fosse canalizada para um enorme talento no trabalho, fazendo com que a maioria dos doentes sempre pedissem para serem tratados por ele. Era o único fisioterapeuta do seu tempo, que ainda estava na clínica. Todos os outros tinham saído, uns emigraram, outros simplesmente mudaram de clínica, ou porque fossem ganhar mais, ou porque lhes ficava mais perto de casa.

- Bom, menina adorei ver-te, mas uma hora não é muito tempo para almoçar, como sabes – disse despedindo-se precisamente quando Paula saía fechando a porta à chave.

-Anabela, que surpresa! Não esperava encontrar-te aqui. Nem telefonaste. Anda vamos almoçar- disse pegando-lhe no braço depois de a abraçar. Mas conta-me, tens novidades? Já descobriram alguma coisa?

Tinham entrado no café-restaurante, onde de Inverno o pessoal da clínica e de outros empregos naquela rua, faziam as suas refeições. De verão, muitos levavam sandes ou saladas, que comiam no pequeno jardim que havia ali perto.


3.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVI


Para Laura, o resto da semana passou a correr, com a presença dos pais, as crianças e a ida à clínica. Teve oportunidade de ver a versão profissional de Fernando, tanto com as crianças, como com os adultos. Ela sabia que ele era psiquiatra, mas não que seis anos atrás se especializara também em psiquiatria infantil.

Claro nessa época ela estava casada e depois do casamento nunca mais o vira até que a fatalidade a deixara viúva.

Nessa época ela estava de rastos, chegou a pensar que acabaria por perder o filho que ainda estava para nascer. O irmão, mudara-se para Lisboa, para estar junto dela e Fernando passava lá em casa todo o tempo que tinha livre.

Agora, pensando nisso, acreditava que se Sara era uma menina feliz, talvez se devesse ao apoio que ele lhe dera quando perdera o pai.  E na verdade ele também a apoiara muito, mas na altura ela vivia e alimentava-se apenas da dor e do enorme sentimento de vazio que lhe enchia corpo e alma. E tinha corrido com ele, quando um dia lhe surpreendeu um olhar, que não era compatível com o sentimento de irmão que sempre sentira por ele.

Naqueles dois dias, através de Diana, ela aprendera muito sobre o homem, que fora o seu melhor amigo de infância. E criara uma ligação de amizade com a jovem assistente, que não pensara possível em tão pouco tempo.

Na Sexta feira, como não havia consultas de manhã, as duas conversavam quando Diana perguntou:

- Não pensas voltar a casar? Sei que foste muito feliz no casamento e que sofreste muito com a morte repentina do teu marido, mas já lá vão mais de três anos. És nova e bonita, não sentes a falta de um homem a teu lado?

- Para ser sincera comigo mesma, sinto. Embora o Quim continue no meu coração, a verdade é que o corpo sente a falta de um abraço, do calor de outro corpo junto ao meu. Parece-te mal?

- Não. É normal, afinal estas na plenitude da vida. Só não percebo porque não dás uma hipótese ao doutor. E não me venhas dizer que ele é apenas como um irmão, que eu não sou cega e tive a oportunidade de ver ontem a forma como te olha. Ele está apaixonado por ti e de há muito tempo. Porque outra razão teria a tua foto em cima da sua secretária há tantos anos?

-Não quero voltar a amar. Tu não sabes o que é entregares-te a um homem de corpo e alma, e de repente ficares sem ele. Eu tinha vontade de me juntar a ele. Acredita, a única coisa que me impediu de fazer um disparate e me prendeu à vida, foram os meus filhos.  Não quero, não posso passar pelo mesmo.

-Tens medo de amar, porque podes voltar a enviuvar? – perguntou Diana espantada. Perdoa-me, mas isso é uma estupidez. Nunca ouviste dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo local? Nenhum de nós pode prever o futuro. Renunciar ao amor, por medo de voltar a perder o parceiro, é antinatural. Não tiveste acompanhamento psicológico quando o Quim morreu?

-Tive a ajuda da família e também durante algum tempo de Fernando.

-A família, por muito boa que seja apenas pode ajudar fisicamente, não tem capacidade para mais. Precisas de um psicólogo, ou psiquiatra. Porque é que o Doutor se afastou.

-Na verdade fui eu que o afastei.

-Porquê?

-Um dia, surpreendi-lhe um olhar que me deixou chocada. O Quim havia morrido há quatro meses, eu tinha sido mãe havia dois meses e vivia mergulhada na dor. Então disse-lhe que não o queria ver mais, que ele não era da família e que não tinha qualquer direito de ir lá todos os dias. Depois disso só voltei a vê-lo no casamento do meu irmão.

- Olha se queres o meu conselho, procura uma ajuda profissional que te ajude a ultrapassar esse medo.

 

 

13.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VI

 



A vida foi retomando o seu ritmo normal. Helena andava muito cansada, o trabalho no hospital era cada dia, mais intenso, pelo que teve que pedir uma reunião com o diretor da clínica, e reduzir o seu trabalho para apenas duas horas, três vezes por semana. 

Com toda essa azáfama, quase tinha esquecido o sinistrado, quando a colega do outro hospital lhe telefonou a informar que o homem tinha  recuperado a consciência. Ela  nunca mais voltara ao hospital desde aquela noite em que falara com a médica,  e lhe pedira para que a avisasse , quando ele saísse  do coma. Como naquele dia, não tinha consultas na clínica, decidiu que ia vê-lo quando terminasse o seu trabalho no hospital.

 Depois de a cumprimentar, a colega, disse-lhe:
-O nosso doente está finalmente livre de perigo. Mas está amnésico. Nem sequer se lembra do seu próprio nome.
- Às vezes acontece depois de um grave acidente. Mas deve ser transitório, não?
- Talvez. Fez hoje uma RM. Vamos esperar os resultados para despistar alguma lesão de maior gravidade a nível cerebral. Vamos vê-lo?
- Claro. E a polícia, não disse nada?
- Apenas que continua a não haver nenhuma queixa por desaparecimento. Esperavam que saísse do coma para o interrogar.
- E já o fizeram?
-Já. Mas devido à amnésia, não deu em nada. Fotografaram-no para verem se a foto dele faz parte dos ficheiros da polícia.

Tinham chegado junto do doente. Pela primeira vez Helena, via realmente o sinistrado. Não teria mais de trinta e cinco anos, talvez nem tanto, era moreno, embora agora estivesse bastante pálido, cabelos pretos, bem curtos, e ligeiramente ondulados, e uns profundos e desorientados olhos pretos. Os traços do seu rosto eram perfeitos, a testa alta e o queixo firme. O pijama meio desabotoado deixava ver um peito bem musculado.

- Como se sente? - perguntou a médica
-Vazio, -respondeu esboçando uma careta que talvez pretendesse ser um sorriso.
- Apresento-lhe a doutora Helena Correia. Foi ela quem o encontrou meio morto na estrada e providenciou para que fosse rapidamente socorrido.
- Obrigada doutora. – Estendeu-lhe a mão, que ela apertou, reparando que era uma mão de dedos longos e bem tratados.





para os novos leitores...
Para dar um pouco de "pica" numa altura em que está quase tudo de férias, 
e sabemos  que este homem, está amnésico e não tem documentos , alguém arrisca um palpite? Quem será ele?  Donde será? E como veio aparecer quase morto  "as portas" de Lisboa? Será "recado" de algum gang? 

4.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE II

 






E passaram quase seis anos. Helena, viveu com os pais, até que o filho fez dois anos, trabalhando num posto médico na aldeia vizinha. Depois achando que o filho estava suficientemente crescido para entrar numa creche, começou a enviar currículos para hospitais e clínicas da capital. 
Pensava que tinha chegado a hora de dar um pulo na profissão, quiçá concretizar o sonho da sua vida. Três meses depois, tinha uma proposta de trabalho muito interessante numa clínica privada, para pequenas cirurgias de ambulatório. Ela gostaria mais de um hospital estatal, mas a proposta era irrecusável, o horário deixava-lhe muito tempo livre, já que estava ocupada apenas da parte da manhã, e quem sabe mais tarde conseguia entrar para um hospital. Afinal ela tinha conhecimento de que havia tantos médicos que trabalhavam em hospitais e clínicas, ou consultórios particulares em simultâneo. Assim mudou-se de armas e bagagens para a capital, alugou um pequeno apartamento, arranjou uma creche para o filho e iniciou uma nova vida.
Com a falta de médicos no país, e com o seu curriculum, não foi difícil conseguir trabalho num dos hospitais da capital. Foram apenas seis meses de espera. Depois teve que conciliar o trabalho no hospital, com o da clínica, reduzindo as horas na Clínica e passando-as para o final da tarde, depois da saída do hospital. Teve que arranjar uma empregada de confiança para ir buscar Diogo à creche, e ficar com ele até à hora em que ela chegava. Felizmente que a lei lhe permitia não fazer turnos, por ter um filho com menos de doze anos a seu cargo.
O seu filho completara cinco anos, no próximo ano entraria para a escola oficial. Ela estava feliz com a sua profissão. Estava no chamado hospital dia, fazia apenas as pequenas cirurgias que podiam ser feitas em ambulatório, mas ainda assim era melhor que o anterior trabalho de médica de família no centro da aldeia.  Na semana anterior, tinha ido a Londres assistir a um congresso. Antes disso foi à terra levar o filho, que deixou com os pais. Podia deixá-lo com a empregada, ela era competente e adorava o menino como se ele fosse seu próprio neto. Mas ela tinha a certeza, de que os pais teriam ficado aborrecidos se o fizesse. Era essa a razão, porque ela se encontrava naquela tarde de domingo, a despedir-se dos progenitores, para empreender a viagem de regresso a casa.
Uma hora depois o carro avariou, e Helena viu-se obrigada a telefonar para a Assistência em viagem e aguardar que mandassem alguém para solucionar o caso.

25.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVI





Não saíram de casa nesse domingo. André sabia como levar uma mulher à loucura, e Eva procurava retribuir-lhe na mesma medida. Apesar de não ter grande experiência, era muito intuitiva. Alfredo, nunca fora um bom amante, sabia-o agora. Centrava-se no seu próprio prazer, e não se preocupava com a companheira. Com André era tudo tão diferente, tão intimo, tão partilhado, que era muito mais do que uma relação sexual. Era um amplexo de almas.
 Fizeram amor no quarto, na sala, no chuveiro. Fizeram as refeições entre beijos, sorrisos cúmplices, e por fim adormeceram abraçados no quarto dele.
Na manhã seguinte, ela levantou-se e foi para o seu quarto, tomar banho, e vestir-se para ir para o trabalho. Quando chegou à cozinha, André acabava de pôr as torradas e o sumo de laranja na mesa. Tomaram juntos, o pequeno-almoço e quando ela se preparava para sair, ele segurou-lhe o rosto entre as mãos e sussurrou-lhe emocionado:
-“Ti amo, cara ” Aconteça o que acontecer, nunca te esqueças disso.
Depois sem desviar o olhar dos olhos femininos, abraçou-a apertando-a contra o peito e pediu:
- Diz-mo. Diz-mo de novo, antes de saíres. Preciso de o ouvir.
Estava ansioso. Ela não entendia o que se passava, mas percebeu quanto era importante para ele, e disse-lho pondo em cada palavra todo o sentimento que lhe inundava o peito.
- Amo-te André. Amo-te de corpo e alma, como nunca amei ninguém.
Em resposta André beijou-a como se não houvesse amanhã e ela saiu para o trabalho, com uma esquisita sensação de perda e um aperto no peito, que não sabia explicar.
Mais tarde, na clínica, pensava em tudo o que vivera naquele domingo. Tinha sido um dia de sonho. André era um amante excecional. Com ele aprendeu, que não havia carícias proibidas, nem sentimentos de vergonha, entre duas pessoas que se amam. E adorava o jeito dele, de misturar palavras em italiano e português quando se emocionava.  
Deveria estar feliz. Mas a verdade é que não estava. Lembrava-se que dias antes, André parecia fugir dela. Porquê? Se a amava, como dissera e lhe demonstrara, porque fugia dela? E depois, a cena dessa manhã, fora muito esquisita. Era como se estivesse a despedir-se dela. Esperou ansiosa pela hora do almoço. Tinha tantas perguntas para lhe fazer.



Acabei de saber que o meu amigo Esteban Lob partiu no Domingo rumo ao reino celestial. Luz e Paz para si meu amigo. 
Estou muito triste. 

17.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE X





Apesar de todas as preocupações, não só conseguiu dormir, como só acordou, quase às oito da manhã. Tomou banho, vestiu-se, arrumou o quarto, e foi para a cozinha, onde fez um sumo de laranja e umas torradas. Contrariamente ao habitual, não ligou o rádio para não acordar o homem que devia estar a dormir no quarto de hóspedes.
Saiu de casa às nove horas. 
Habitualmente ia a pé para o emprego, a clínica não ficava longe de casa, mas como tinha decidido ir ao orfanato ver a Irmã Madalena, na hora do almoço, decidiu levar o carro.
O trabalho na clínica não era fácil de suportar naqueles dias. As pessoas conheciam-na, sabiam do suicídio do marido. Queriam mostrar-lhe que estavam solidárias com a sua dor. Não faziam por mal, mas quando mais falavam, mais a faziam recordar o momento difícil que estava a passar.
Quando a clínica fechou a porta para o almoço, ela meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Comeria alguma coisa depois, se tivesse tempo.
A Irmã Madalena, supervisionava um grupo de crianças, que brincavam no pátio. Abraçou-a com carinho.
-Que bom que vieste, Eva. Tenho estado tão preocupada contigo. Como estás filha?
- Como Deus quer, Irmã. Preciso muito de falar consigo. Não tem ninguém para cuidar dos meninos?
- Claro que sim, filha. Podes ir chamar a Irmã Maria? Deve estar na biblioteca.
Eva encontrou-a, no corredor, antes mesmo de chegar à biblioteca. Transmitiu-lhe o recado e seguiram as duas para o pátio. Depois, a Irmã Madalena levou-a até ao seu gabinete, onde Eva lhe contou tudo o que tinha acontecido depois do último encontro que tiveram no funeral de Alfredo. Por fim estendeu-lhe a carta que o advogado lhe entregara. A Irmã estava espantada. Abriu os braços e a jovem refugiou-se neles.
- Pobre menina. Como deves estar a sofrer! Tu sabes que não me agradou o teu casamento com o Alfredo. Havia qualquer coisa nele que não me agradava. Mas tu estavas tão feliz, que pensei que me tinha enganado. 
-E fui feliz durante uns meses, Irmã. Depois o comportamento dele alterou-se. Passou a sair quase todas as noites, chegava tarde a casa. Às vezes vinha eufórico, mas a maioria das vezes, vinha aborrecido. Perguntava-lhe se o podia ajudar mas ele não se abria. E o dinheiro desaparecia. Ultimamente era com o meu ordenado que governava a casa.
Pensei que ele tinha uma amante. Quis falar com ele, obrigá-lo a confessar. Deixou-me a falar sozinha e foi atirar-se daquele terraço. Nunca imaginei que fosse jogo, muito menos que fosse capaz de jogar a casa e a própria mulher.

28.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VII





Fosse qual fosse o desfecho da tragédia que  Gil vivia no momento, ele  tinha tomado algumas decisões que iria pôr em prática a partir do dia seguinte.
Quando deixou o futebol, e embora se tivesse associado ao irmão, nunca pensou que o seu futuro passasse pelo empresariado, fizera-o apenas para fazer progredir o negócio, e a verdade é que o conseguiu, pois, três anos depois abriram uma filial no Porto e ultimamente já estudavam a hipótese de abrir outra em Faro. De facto, ele ia pouco à firma, dedicando-se de alma e coração ao curso que terminara à pouco, e à escrita. Era Marco quem a geria e a fazia crescer, embora nunca o tivesse conseguido se ele não se tivesse tornado sócio e não tivesse injetado na firma, uma boa quantia monetária.   
Agora ele ia doar os seus sessenta por cento da empresa ao irmão, de modo a torná-lo completamente independente. Por outro lado, esperava montar uma boa clínica à sua irmã, que se formara em medicina e que estava de momento a terminar a especialização em neurologia em Nova Iorque. Depois com as suas vidas estabilizadas, ele podia dedicar-se por completo, à escrita, e à sua filha, se Deus permitisse que ela chegasse a nascer. Teria que contratar uma boa ama para lhe ajudar com a menina, pois nada sabia de como cuidar de um bebé.
Pouco jantou. Estava física e emocionalmente cansado. E no dia seguinte teria uma reunião com o irmão e o advogado, a fim de iniciar o processo de doação das suas ações. Mais tarde, teria que entrar em contato com a agência de emprego a fim de lhe enviarem algumas amas. Teria que fazer várias entrevistas, a vida da filha era demasiado preciosa para a colocar nas mãos de uma ama mal qualificada. Calculava que tivesse algum tempo, embora a bebé pudesse nascer a qualquer momento se surgisse algum problema na mãe, que pudesse por em risco a sua vida. Todavia ainda assim ela teria que estar algum tempo na incubadora. Nem por um momento queria pensar, que a bebé poderia morrer antes de ver a luz do dia. A filha era uma guerreira ia nascer saudável, apesar do corpo que a estava a gerar estar apenas artificialmente vivo.
 Todavia como passava as tardes no hospital, ficava apenas com as manhãs para tratar dessas entrevistas.
Fazia-lhe tanta falta a irmã. Decerto ela seria não só um grande apoio moral, como uma ajuda nos primeiros meses de vida da sua filha. Apesar de já lhe faltar pouco mais de  um mês para o regresso, não podia pedir-lhe que interrompesse a sua vida e os seus sonhos por sua causa.
Abrira o portátil e como todos os dias, durante mais de uma hora pesquisou sobre bebés prematuros. Depois desligou-o e dirigiu-se ao quarto no piso superior.  Preparando-se para dormir, foi à casa de banho,  escovou os dentes, despiu-se e vestiu o pijama. Voltou ao quarto e deitou-se. Porém a madrugava já se aproximava quando conseguiu adormecer.

26.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI


                                               


Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
- Bom dia.
- Bom dia Miguel.
Vestia umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O almoço está pronto, Luísa?
- Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos almoçar? Não temos muito tempo.
Na sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
- Nervosa?
-Um pouco.
-Desculpa, quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração da exposição. Foram vinte e cinco  telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de coisas que não podia descurar. Faltam quarenta e oito horas para a inauguração. Depois são mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A consulta foi  demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente a Ressonância Magnética, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria. Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito, ele perguntou:
-Tens frio?
-Um pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio 
-Vê se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida  razão, ambos evitaram falar nela.



22.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXV






Faltavam cinco para as duas, quando chegaram à clínica. Miguel falou com a empregada, enquanto a jovem parecia distraída com a leitura do Juramento de Hipócrates, exposto num quadro na parede.
Como o médico já tinha chegado, não foi preciso esperar muito para serem atendidos.
Miguel contou ao médico a cena protagonizada pela jovem, que ele presenciara.
O médico ia tomando notas. Depois virando-se para a jovem perguntou:
-Além dos sintomas que o Miguel já relatou, sentiu mais alguma coisa?
-Uma grande pressão no peito, que não me deixava respirar, e um enorme medo de morrer.
-E lembra-se de alguma coisa antes disso, que pudesse de algum modo assustá-la?
Negou com um movimento de cabeça.
- E o Miguel, observou alguma coisa fora do normal no momento?
- Não. Só se…
-Diga, diga, tudo o que se lembre, ainda que lhe pareça irrelevante.
- O silvo estridente de uma ambulância que passava.
- Ouviu a ambulância? -Perguntou o médico à jovem
-Creio que sim. Não lembro com exactidão.
-Muito bem.
O médico não se cansava de fazer apontamentos.
- E a RM que eu pedi?
-Fiz ontem em Portimão, na Euromédic, mas só está pronta para a semana.
- Euromédic? Em Portimão? Óptimo. – Disse o médico premindo a campainha na secretária, o que fez aparecer a  assistente  à porta.
-Precisa alguma coisa, doutor?
- Sim, Teresa. Faça-me uma chamada para a Euromédic de Portimão. Pergunte se o Dr Gonçalo Prates está, e se estiver, diga que quero falar com ele e passe-me a chamada.
- Assim farei doutor. E retirou-se fechando a porta
- Enquanto esperamos, há mais alguma coisa que se lembrem?
- Sim doutor.- Respondeu Miguel. E de seguida relatou o incidente na papelaria, e como a partir daí começara a chamar a jovem de Mariana.
- É muito provável que esse seja realmente o seu nome, mas também pode ser de alguém que ela ame muito. A mãe, uma irmã…
O telefone tocou nesse momento. O médico escutou e depois pediu aos dois para saírem.
Uns quinze minutos mais tarde, voltou a chamá-los. Já tinha o exame no computador, já o tinha examinado e estava à vontade para dizer que a jovem não tinha nenhum tumor, ou qualquer outro distúrbio físico, que originasse a amnésia.
- Não havendo, doença degenerativa, encefalite, ou traumatismo, é evidente que a amnésia da paciente, é psicogénica temporária, decerto provocada por um choque emocional. Qualquer coisa que fez a paciente sofrer de tal ordem, que o seu subconsciente se revoltou, e  apagou tudo, numa manobra de defesa. Por outro lado, os sintomas que teve ontem, configuram um ataque de pânico, o que no seu caso parece ser consequência directa,  do trauma que lhe terá provocado a amnésia. Deve continuar a fazer a medicação que lhe receitei, mas mais importante que a medicação, é fazer psicoterapia.

21.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIII






Mal saíram dali, Miguel levou a jovem directamente para a clínica.
O médico já não estava, mas a empregada ao ouvir o relato do que tinha acontecido, disse;
- O que relata, são sintomas de um ataque de pânico. Vou ligar ao Doutor, explicar a situação, e vamos ver se ele autoriza a marcação para amanhã, uma vez que já tem a agenda preenchida.
 Fez a ligação e depois…
- O doutor disse para virem amanhã às duas. As consultas começam às três, ele vai atendê-los antes.
- Muitíssimo obrigado. Até amanhã.
O resto do dia foi tão sombrio, como noite sem lua. Miguel estava muito preocupado. Questionava-se, sobre como devia agir. Denunciar a situação da jovem à polícia e esperar que eles tomassem uma decisão, quanto ao destino dela? Era o mais razoável. Mas, como explicar a demora na denúncia do caso,  e os mais quinze dias que levavam juntos? E como arrancar do peito, aquele sentimento, mistura de carinho e pena que a jovem despertara nele? Desde que os pais tinham morrido, que vivia sozinho. Aventuras amorosas, tivera muitas. Fugazes, sem consequências. Gostava da sua vida de boémio, de partir para qualquer lado quando lhe apetecia, sem se preocupar com nada, nem ninguém. Tinha vários amigos, ali, na cidade, como tinha em Lisboa. Pintores, escritores, escultores. Gente ligada às artes como ele. Alguns tinham ao longo dos tempos, encontrado alguém com quem dividiam a vida e os sonhos. Ele não. Nunca sentira nada tão avassalador por alguém que o levasse a ponderar deixar o celibato. E aos quarenta e cinco anos,  já não acreditava  possível, que tal viesse a acontecer.
Quando viu a jovem tão nova, tão frágil, completamente perdida, sentiu que tinha que ajudá-la. Era como se o céu lhe enviasse uma filha. Claro que pôs a hipótese de que em algum local, alguém podia estar em sofrimento por causa do seu desaparecimento. Mas todos os dias comprava o jornal, ouvia as notícias na rádio e não havia nenhum apelo, nenhuma foto, nenhuma notícia na rádio, nada que se relacionasse com ela. Porém aquele episódio à tarde, deixou-o em sobressalto. E se ela sofria  de algum grave transtorno psiquiátrico? E se tinha fugido de alguma clínica do género? Atormentava-se sem saber  o que fazer e como  fazê-lo. Ir-se embora, deixando-a na casa, mesmo pagando todas as despesas, e contando com a ajuda de  Adélia, que entretanto  se fora também afeiçoando à jovem, não era viável.
Pedir ao médico que lhe aconselhasse uma boa clínica, para a internar, era o mais razoável, mas a ideia de a deixar num ambiente hostil, repugnava-lhe. Estava, como a avó Ermelinda costumava dizer, entre a Cruz e a Caldeirinha.







1.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XIII





- Supondo que aceito a tua proposta. Que espécie de casamento seria? Quero dizer seria um casamento branco, ou completo?
- Queres saber se teria sexo? Pois sim, tendo em conta que não sou gay, nem impotente, e que sou um homem sério que uma vez casado respeitará a esposa, é lógico que o sexo fará parte do casamento.
- Devo dizer-te que a tal vida de princesa não me seduz em absoluto e que nunca me venderia por tal motivo.  Mas tens razão numa coisa. Com o teu dinheiro, a minha mãe poderia iniciar um novo tratamento que até agora não fez por só estar disponível num hospital privado, e não dispormos de recursos para isso. E o Pedro poderá ter acesso a uma vida que eu não lhe poderei dar.  Então, se eu aceitar será só por eles. E uma vez que encaras o assunto como um negócio, quero saber que garantias vou ter de que cumpres essas promessas, se me decidir a aceitar.
- Vejamos, o meu advogado redigirá um contrato em que fique estipulado o que acabei de te propor, bem como algo mais que entendas e seja razoável. Não sei como está a situação do menino, se entraste com o pedido de adoção, ou simplesmente tens a guarda por seres o parente mais próximo.
- Tenho a guarda, mas já entrei com o pedido de adoção. Porquê?
- Penso que já te disse que pretendo adotá-lo. Suponho que estando casados não te importes que o faça. Só assim será legalmente nosso filho.
Pela segunda vez a jovem corou. Lutava consigo mesma para manter o controlo na frente dele, mas estava a ser um esforço demasiado grande. O homem que estava na sua frente, era demasiado interessante, e ela tinha tão pouca experiência com o sexo oposto. Por outro lado, parecia-lhe que nada daquilo era real. Que tudo não passava de um sonho absurdo do qual ia acordar a qualquer momento. Pôs-se de pé.
- Tenho que ir. O Pedro já deve ter acordado.
- Tenho a certeza que a avó cuidará dele com todo o carinho. E ainda não me deste uma resposta.
- Nem vou dar. Não se toma uma decisão que vai alterar toda a nossa vida, assim à toa. Falaremos outro dia, se até lá não mudares de ideia.
- Dois dias, Joana. Dois dias é o tempo que te dou para que me digas que sim.
- És muito arrogante. Não te passa pela cabeça que não aceite, pois não?
- Não se trata de arrogância, mas do meu conhecimento do ser humano. Amas demasiado a tua mãe e o menino, para que não penses no quanto vão beneficiar com este casamento.
- Devias aprender também, que ninguém ama demasiado. Não há medida para o amor. Ama-se ou não se ama.  
E sem mais uma palavra ou gesto virou-lhe as costas e preparou-se para sair.
-Não te esqueças. Espero a tua resposta depois de amanhã à mesma hora,- disse antes que ela fechasse a porta atrás de si.
Pedro levou uns segundos, o olhar a porta fechada por onde ela acabara de sair. E então voltou a sua atenção para o projeto de remodelação do hotel, que o arquiteto lhe enviara.


Gente, passar 24 horas seguidas na cama, é uma tortura. 48 endoidece qualquer um. Não aguento mais. Uma coisa é por o que esta feito ao lado do que está por fazer e ficar quietinha. Outra é estar deitada a olhar para o teto. Não consigo ler deitada, já que a posição dos braços a segurar o livro me agrava as dores. Já me levantei. As suspeitas do médico apontam para uma hérnia discal. E isso toda a gente sabe que é doloroso, mas não mata ninguém. O essencial é não fazer esforços, que provoquem crises. 
  Bom fim de semana para todos. 

14.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XLI





Acordou, sentindo que alguém lhe acariciava o rosto. Abriu os olhos e viu Paulo de pé ao lado da cama, preparado para sair.
- Que horas são? – Perguntou
- Quase seis,- disse ele. Vou a casa, buscar algumas coisas e volto para seguir convosco.  É melhor que vá já, antes que o Martim acorde. Não quero que veja que dormi aqui. Não antes que saiba que sou o seu pai.
Baixou-se para a beijar e disse.
-Quero que saibas, que me sinto o homem mais feliz à face da terra. Amo-te muito.
- Eu também te amo. 
Trocaram mais um beijo e depois ele endireitou-se e saiu silenciosamente. Sem sono, Amélia deixou-se ficar recordando o que acontecera. Paulo fora muito além das suas expectativas. Fora um homem atencioso e um amante ardente. E ela estava tão feliz, que se fosse gata, começaria a ronronar.
Quando  ele voltou duas horas mais tarde, já ela se preparava para tomar o pequeno-almoço com o filho. Fez mais torradas e os três tomaram a refeição juntos, numa antecipação do que seriam as suas vidas após o casamento. Depois partiram em direção à quinta.  Amélia imaginava a surpresa da avó quando lhe contasse que Paulo era o pai de Martim.
Após a chegada, o menino beijou a bisavó e disse que ia brincar com o Rex.
- Espera por nós, no local onde te encontrei da outra vez. Eu e a mãe temos uma coisa muito importante para te contar, - disse Paulo.
Depois que ele saiu, contaram à avó, que no entanto não pareceu muito surpreendida.
- Toda a vida ouvi dizer, que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Quando estas coisas acontecem, vemos que é mesmo verdade.  Abraçou o jovem e disse.
- ELE já vos abençoou com a chegada do Martim. Por isso, tenho a certeza, que serão muito felizes.
- Agora vamos contar a verdade ao Martim. Até logo, avó.
Encontraram-no sentado num tronco de árvore, perto do rio. Sentaram-se um de cada lado.
- Martim a mãe tem uma coisa muito importante para te contar, sobre o teu pai.
- Vais-me dizer que ele morreu? Não me importo, nunca o vi. E o Paulo vai ser meu pai, não vais?- Perguntou virando-se para ele.
- Escuta o que a mãe te diz, filho, - disse-lhe ele
- A mãe nunca te disse que o teu pai tinha morrido. A mãe disse que ele estava em viagem. E quem está em viagem pode voltar.
A criança levantou-se sobressaltada.
- Não quero que volte. O Paulo vai ser meu pai, não quero outro.
- E se eu te disser que o Paulo é o teu pai?
- Não acredito. Se fosse não me deixava toda a vida sozinho. Ele gosta de mim.
- Tens razão, filho. Eu nunca te teria deixado sozinho se soubesse que existias. Mas não sabia, acredita. E a tua mãe, também não. Soubemo-lo ontem pelo teu tio Ricardo.
- As pessoas não têm filhos sem saber. As pessoas namoram, casam e têm filhos. Não me venham com histórias.
O menino estava revoltado, Fazia esforço para não chorar. Amélia não sabia que lhe dizer. Foi Paulo quem continuou.
-Tens razão, normalmente é assim. Mas sabes, existe uma coisa que se chama banco de esperma, um local onde os homens deixam a sua semente, para mulheres que querem muito ter um filho e não têm namorado ou marido. O marido da tua mãe, morreu sem lhe dar o filho que ela tanto queria. Então o tio Ricardo pediu-me para doar a minha semente a uma sua amiga. Fui a uma clinica fazê-lo. Na clinica injetaram a minha semente na tua mãe, e tu nasceste. Nem eu sabia da existência da tua mãe, nem ela sabia da minha, porque a lei assim o determina. O único que sabia era o tio Ricardo e só ontem, depois do jantar nos contou.  Eu estou muito feliz e orgulhoso de ser teu pai. Já te amava como tal antes de o saber.
A criança ficou uns momentos calado como se tentasse compreender o que tinha ouvido. Depois abriu os braços e abraçou o pai.





22.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCII


                                        O Pedro, numa foto da época


Nesse ano de 1988, A Gravelina começou a fazer os tratamentos numa clínica no Alto Seixalinho.  Fazia séries de 20 tratamentos, seguidas de 15 dias de descanso. Vinha uma ambulância buscá-la para os tratamentos às duas horas, e trazia-a de volta no fim por volta das cinco. Ela ia recuperando a confiança, já movia bem a perna esquerda. Bom, mover bem é exagero, pois a perna arrastava um bocado, e não conseguia calçar um sapato normal, pois o pé entortava e ela não conseguia andar, problema que se resolveu com o uso de umas pantufas-bota, em tecido, que se adaptavam ao pé quando ele entortava, e não lhe criavam maior desequilíbrio.
 Passados os tempos mais difíceis, o Manuel sentia-se agora mais confiante para ir com o filho sempre que este o ia buscar a casa, já que tendo um aviário se deslocava muitas vezes para entrega de encomendas, ou para ir buscar rações para as aves.
Em Maio desse ano, toda a família apanhou um grande susto com o neto do Manel.
O miúdo frequentava a escola primária , estava na 2ª classe, ia fazer 8 anos em Junho. A mãe levava-o todos os dias ao portão da escola de manhã e ia buscá-lo à tarde. Naquele dia porém o gaiato não saiu com os coleguinhas. Preocupada a mãe perguntou por ele, mas os miúdos disseram-lhe que a professora saíra mais cedo para ir ao médico, eles tinham sido distribuídos por outras salas, não tinham visto mais o Pedro. Em desespero a auxiliar, (naquele tempo chamava-se contínua,) procurou por todas as salas, mas ninguém tinha visto o gaiato. Até que uma das professoras, disse que uma turma da 4ª classe tinha saído uma hora antes. Seria o caso de o miúdo sair nessa altura? Mas como foi possível se a continua sempre estava ao portão, e jurava que apenas tinham saído os mais velhos que já era habitual irem sozinhos para casa? Desesperada, a filha foi a casa, perguntou aos vizinhos se tinham visto a criança, passou pelo café dos padrinhos do filho, onde ele gostava de estar, mas eles também não o tinham visto. Imaginando que poderia ter ido para casa dos avós, foi a casa da mãe, ver se o filho tinha ido para lá, já que ele e o avô se entretinham muito com várias brincadeiras. Mas ninguém o tinha visto.  Era como se a criança se tivesse evaporado.
Nessa altura, chegou o genro do Manuel, depois de mais um dia de trabalho e não encontrando nem a mulher nem o filho em casa, pensou que estavam na casa do sogro, e dirigiu-se para lá.
Encontrou a família numa aflição, exceptuando a Gravelina, a quem tiveram o cuidado de esconder o que se passava.
Entretanto, tinha chegado a hora da empregada se ir embora, pelo que o Manuel ficou com a mulher, enquanto a filha e o genro, batiam toda a localidade, chegando até ao Hospital do Barreiro, à procura do filho. 

16.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI


                                                 foto do google


Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
- Bom dia.
- Bom dia Miguel.
Vestia umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O almoço está pronto, Luísa?
- Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos almoçar? Não temos muito tempo.
Na sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
- Nervosa?
-Um pouco.
-Desculpa, quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração da exposição. Foram 25 telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de coisas que não podia descurar. Faltam 48 horas para a inauguração. Depois são mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A consulta foi  demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente a RM, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria. Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito, ele perguntou:
-Tens frio?
-Um pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio 
-Vê se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida  razão, ambos evitaram falar nela.