- Anda por aí brincando. Ele acorda com as galinhas. E tu
deixaste-te dormir. Que aconteceu. O Paulo ficou até tarde?
- Não. Mas eu não conseguia dormir. Olha, - disse
estendendo a mão para a avó admirar o lindo anel de noivado..
- É lindo. Mas porque dormiste mal? Devias estar muito
feliz. Que se passa contigo. Não gostas do rapaz?
- O Martim já desjejuou? – Perguntou tentando desviar o
rumo da conversa.
- É claro que sim. Mas não foi isso que te perguntei.
Gostas ou não do rapaz? Não me vais dizer que aceitaste o casamento só porque
ele e o Martim se dão como Deus com os anjos.
- É claro que não avó. Gosto do Paulo. Talvez demasiado
para quem se conhece há tão pouco tempo, e isso é que me assusta.
- Não é preciso muito tempo para se gostar de uma pessoa.
Sabes quanto tempo mediou entre o momento que encontrei o teu avô e o dia do
nosso casamento? Dois meses exatos. E tivemos um casamento muito feliz, como
deves lembrar-te. Por outro lado, nunca se gosta em demasia. A não ser que a
pessoa não seja mentalmente sã.Mas isso não é amor. É obsessão.
- Dois meses, avó? E não tiveste dúvidas? Não pensaste
que podia não dar certo?
- É claro que não, filha. Gostávamos um do outro e
confiava que isso era suficiente para nos unir e nos ajudar a enfrentar todas
as provações. O verdadeiro amor, vai crescendo com os anos e as dificuldades
que juntos enfrentamos. Não é o que sentimos quando casamos, em que tudo corre bem e em que a paixão domina tudo. Quando começam a surgir as dificuldades de uma vida a dois, e elas surgem fatalmente, porque somos pessoas diferentes, temos pensares e maneiras de encarar os problemas de modo diferente, quando os desgostos assentam arraiais na nossa vida, aí sim se conhece se o que une duas pessoas é ou não um grande amor. E tu sabes que não foi fácil, o nosso casamento, primeiro com a morte
da tua mãe, que não sendo nossa filha, era a mãe dos nossos netos e por isso tínhamos
um grande carinho por ela. Depois a morte do teu pai. Foi um desgosto atroz. Os
pais nunca deviam assistir à morte de um filho. É contra natura. E nós
estivemos sempre juntos amando-nos e consolando-nos mutuamente. Até à sua
morte. E posso dizer-te que se me fosse dado a escolher, entre ir com ele, ou ficar aqui a amargar a saudade, eu teria escolhido sem hesitar partir com ele. Na verdade a melhor parte de mim, morreu nesse dia.
Calou-se emocionada, para continuar logo de seguida.
- Como vês, não é preciso muito tempo de conhecimento ou
namoro para que um casamento dê certo. E tu, melhor que ninguém, sabes disso.
Quantos anos, namoraste o Afonso?
- Não sei avó. Quase desde que nasci.
- E vês no que deu? Analisa os teus sentimentos e se
gostas do rapaz, vai em frente. O comboio da vida, é rápido. Se hesitamos muito
tempo em subir para a carruagem, quando nos decidimos, já partiu.
- Vou chamar o Martim. Temos que nos despachar, o Paulo
vem buscar-nos às onze. Vamos combinar a festa do casamento, e temos que ir à
igreja da vila, falar com o padre.
- Então vai filha. Mas dá um jeito nesse rosto. Se o
rapaz te vê com essas olheiras, é capaz de desistir do casamento, - disse sorrindo. E hoje houve desfile de Carnaval das escolas. Por AQUI
