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5.1.19

PORQUE HOJE É SÁBADO


O Meu cavalinho




Num cavalo de cartão
Eu corria à desfilada
Nos campos sem fim
Do sonho
Entre rios de alegria
E montanhas de inocência.

Nas asas da imaginação
Via desfilar
Perante os meus olhos
De criança
Searas de carinho
Pão de liberdade.

E o mundo corria
Pintado de esperança.

Hoje
O meu cavalinho
Jaz morto
Num velho armário
Sepultado
Como velho traste
Sem préstimo.
E diante de mim
Não desfilam mais
Sonhos de esperança
Pão de liberdade
Diluída a alegria
Em dor
Perdida a inocência
De criança
Em verdades de adulto.


Elvira Carvalho



Ontem, com o comentário da Maria João de Brito de Sousa, chegámos aos 38.000 comentários. Muito Obrigada a todos que contribuíram para este número. 



E já agora uma pergunta. Quem de vós vive em Angra do Heroísmo?

15.2.18

A VIDA É ...UM COMBOIO -PARTE XLII


Dez anos depois.

Numa das melhores galerias de Lisboa, está patente uma exposição de pintura. O pintor do momento, apelidado pelos críticos como a grande revelação portuguesa do século XXI, tem os quadros da sua segunda exposição praticamente todos vendidos. A um canto da sala, o pintor, um homem alto, moreno, a beirar os cinquenta anos, totalmente vestido de preto, conversa com um casal inglês que acaba de comprar uma das suas obras, quando os seus olhos se iluminam a ver entrar uma figura feminina, na galeria. Acompanham-na, João, um rapazinho de nove anos, uma cópia fiel do Martim de há dez anos, e as gémeas Ana Rita e Joana de cinco anos, duas bonecas loiras, parecidíssimas com a mãe. Paulo anotou o endereço que o casal inglês lhe dava para o envio do quadro e delicadamente despediu-se deles e aproximou-se da sua família.
- Que surpresa agradável, - disse beijando-os.
-Tinha que os trazer, para que vissem como a tua arte é apreciada. O Martim vai chegar no fim-de-semana. Telefonou há uma hora. Está ansioso para ver a exposição. 
- Que bom. Tenho tantas saudades dele. Sabes, recebi há pouco um convite para expor numa galeria de arte no Marais, em Paris. 
- Parabéns, amor. Tu mereces, tens muito talento. 
-Logo conto-te. Agora desculpa não vos poder dar mais atenção, mas estão a chamar-me.
-Vai, querido. Nós vamos ver a exposição. Vamos meninos.
Enquanto olhava os quadros, e tentava que os filhos apreciassem a arte do pai, Amélia recuou no tempo e recordou aqueles dez anos de extrema felicidade. Três meses após o casamento, ela ficara grávida. Aproveitando esse facto, o marido convencera-a a deixar a sociedade de advogados e a aceitar um dos escritórios da firma, mantendo-se como advogada da empresa. Quando João nasceu, foi uma grande alegria, não só para o casal como para Martim. Mas Paulo continuava com o seu sonho de se dedicar à pintura, e sentindo-se frustrado com a vida de homem de negócios que levava. Amélia compreendeu que ele nunca seria inteiramente feliz se não desse asas ao seu sonho, e encorajou-o a arranjar um gestor, de modo a poder transformar o sonho em realidade. Depois de muito pensar, Paulo decidira-se. Sabendo que o cunhado era um dos melhores gestores do mercado, ofereceu-lhe sociedade na empresa de camionagem, em troca dele assumir a gestão da mesma. Com a quinta gerida por Alfredo e a empresa por Ricardo, podia enfim dedicar-se à pintura. Entretanto os anos passaram, ela voltara a ficar grávida, desta vez eram gémeos, e ele achou melhor contratar um novo advogado, que trataria de todos os assuntos jurídicos da empresa, pelo menos até que Amélia pudesse voltar, uma vez que ela não queria abandonar a sua carreira. 
Quando as gémeas nasceram, ela decidira dedicar-se apenas à família, e fê-lo até que as meninas fizeram três anos e ingressaram na escola. Nessa altura  voltou à firma, mais como assessora do irmão, do que como advogada, cargo que estava a ser muito bem desempenhado pelo atual advogado. Foi nessa altura que o marido fez a primeira exposição, que foi um grande êxito. E agora dois anos depois a nova exposição confirmava o seu talento. Tinham passado dez anos de intensa felicidade, em que os únicos desgostos que sofrera, foram as mortes de Augusta, e da avó Maria. As duas amigas partiram com um intervalo de um mês, vitimas da mesma doença, uma pneumonia. Nesse espaço de tempo, Ricardo, fora pai duas vezes, de duas meninas, e Martim terminara o Secundário e fora para a Universidade. Nos últimos meses estudara em Inglaterra ao abrigo do programa Erasmus. António e Paulo os filhos de Alfredo também estavam na Universidade. Um cursava Agronomia, outro Veterinária. Isso não seria possível sem a generosa doação do seu marido, ao irmão e criação. 
Martim, que continuava a ter uma relação muito especial com o pai,  aproveitava todas as oportunidades para estar na quinta. Continuava encantado com Matilde, a filha de Alfredo, hoje uma adolescente de treze anos, com quem ele dava longos passeios, a pé ou a cavalo, e com quem mantinha grandes conversas. Não se mostrava muito interessado nas jovens da sua idade, e os pais interrogavam-se, sobre que espécie de sentimento, ele nutria por Matilde.. Será que ia esperar por ela? 
Paulo tinha cumprido a sua promessa. O sonho que lhe parecera viver quando casara, nunca se transformara em pesadelo. Olhando-o do fundo da galeria, ela sentia o coração pleno de amor e no peito um enorme orgulho. Sorriu. Sentia-se a encarnação da própria felicidade.
 A hora do fecho da galeria chegou. Paulo acompanhou a esposa e os filhos   ao automóvel.
- Mãe, posso ir com o pai? - Perguntou João.
- Claro, filho.
 Paulo e o filho segui-los-iam no carro dele. Deixara de andar de moto quando as gémeas nasceram. A velocidade já não lhe dava o mesmo prazer de outrora, a vida era demasiado preciosa para a por em risco.
Enquanto punha o veículo a trabalhar e arrancava, pensou no agradável que era regressar a casa, brincar com os filhos, fazer amor com a sua apaixonada esposa, e sorriu.
O menino que perdera os pais, quase bebé, que tivera uma meninice triste, por não ter conhecido o carinho e os afagos dos seus progenitores, era um homem feliz.


FIM


Elvira Carvalho




E pronto o puzzle está completo.  Espero que tenha sido do vosso agrado. E já agora se me quiserem deixar algum reparo, alguma coisa que não gostaram, ou o contrário, estejam à vontade. É com vocês que eu vou aprendendo a ser melhor. Obrigada.

28.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XIX




- Mãe, mãe, - gritou Martim
- Que aconteceu? Que gritaria é essa? – Perguntou, Amélia, saindo da cozinha a limpar as mãos ao avental
- Sabes quem eu encontrei junto ao rio?
- Como hei-de saber se não estava lá?
- O Paulo, o motard.
Sobressaltou-se a jovem.
- Junto ao rio? Não é local para motos.
- Estava a cavalo. Diz que tem aqui uma quinta.
- Deve ser o sobrinho do falecido António, - interrompeu a avó Maria.
- A avó sabe quem é?
-Conheci-o quando era um garoto. Andava sempre por aí com Alfredo o filho do caseiro. Mas isso foi há muitos anos. O caseiro morreu há vários anos e o filho assumiu o lugar do pai. Era uma pequena quinta, mas de há uns anos a esta parte, o tio desatou a comprar os terrenos todos à volta. Até a mim me fez uma proposta, depois da morte do teu avô, mas eu não seria capaz de viver noutro sítio.
- Ah! Então são vizinhos?
Sim. Embora eu não o tenha visto ainda. Aliás o tio dizia que ele vivia no estrangeiro. Mas vocês conhecem-se?
- O Paulo ajudou-nos naquele dia em que se furou o pneu do carro. O curioso, é que é nosso cliente.
- Vosso cliente? – Admirou-se a idosa
- Sim. É a nossa firma de advogados que trata de todos os assuntos jurídicos da firma dele.
- Sabes, interrompeu o garoto, - estivemos a conversar, e ele disse que se tu deixares me acompanha no jogo da escola. Deixas não deixas, mãe?
- Sinceramente Martim, achas bem apresentares-te na escola com um quase desconhecido?
- Mas nós já o conhecemos. Até a avó sabe quem é. Por favor, mãe.
- Está bem. Mas primeiro quero falar com ele. Quando é que lhe vais dar a resposta.
- Combinámos encontrar-nos esta tarde, junto ao rio. Eu gosto dele, sabes? Ele até ficou preocupado por eu estar ali sozinho que podia ser perigoso. Tive que lhe mostrar como o Rex tomava conta de mim.
- Está bem. Vai lavar as mãos que vamos almoçar em seguida.
- Sabes se o rapaz é solteiro? – Perguntou a avó, assim que Martim desapareceu na casa de banho.
- Não me digas que já estás armada em casamenteira, avó.
- E então, não me vais dizer que era uma má opção. O tio era um homem muito rico e que se saiba, não tinha outro herdeiro. Acho que vou convidá-lo para almoçar connosco amanhã. Política de boa vizinhança.
- Nem sonhes, avó. Nem sonhes.



27.1.18

A VIDA É...UM COMBOIO - PARTE XVIII



 Durante boa parte da manhã, Paulo cavalgou pela herdade, ouvindo as explicações de Alfredo, sobre as últimas aquisições do tio, foi apresentado aos trabalhadores, que preparavam as terras para as próximas sementeiras do milho e da beterraba. Ajudou a reparar uma cerca danificada e por fim, volta das onze horas despediu-se e regressou a casa, seguindo o curso do rio Nabão, recordando os tempos em que nele tomou banho em criança ou pescou, na companhia de Alfredo, sempre sob a vigilância de Casimiro. Pensava no que tinha ouvido nessa manhã. Seria possível que o seu tio tivesse amado a sua mãe, de tal modo que tivesse renunciado a ter uma família, em prol do filho da mulher que amara? De súbito, Paulo avistou uma figura de criança, sentado numa pedra perto do rio. Entretinha-se a jogar pequenas pedras à água, e a olhar os círculos que elas formavam. A seu lado, um belo exemplar de pastor alemão.
Ainda um pouco distante, a figura pareceu-lhe familiar, e não vendo nenhum adulto por perto, decidiu aproximar-se.  Atento o cão, começou a ladrar, e a criança virou a cabeça para ele. Paulo parou o animal, e sem desmontar, disse:
- Ora, ora, se não é o meu amigo Martim! Posso aproximar-me ou o teu amiguinho não é de confiança?
O pequeno levantou-se e segurando o cão pela coleira, fez-lhe uma festa na cabeça, murmurando.
- Quieto, Rex. O Paulo é meu amigo.
Paulo desmontou, prendeu o cavalo a uma árvore e aproximando-se deixou-se cair junto do menino que tinha voltado a sentar-se.
- Que fazes por aqui, campeão? Os teus pais sabem que vieste para o pé do rio?
- A mãe sabe. Venho, desce pequeno. Não tem perigo, queres ver?
Levantou-se e caminhou em direção da margem do rio. Mal deu dois passos, o cão agarrou-lhe na perna das calças e começou a puxá-lo para trás.
- Estou a ver. Um guardião de peso. Mas, costumas vir para aqui?
- Sim. Desde que me lembro, venho muitas vezes, nos fins-de-semana, e férias, passar um tempo com a bisavó Maria.  Vive naquela casa além. E tu? Moras por aqui?
- Aqui e em Lisboa. Aqui tenho uma quinta, sabes. Mas tu pareces triste. Gostavas mais de estar na cidade?
- Não. Gosto de estar aqui. Estou triste, porque as aulas vão acabar, vai haver uma festa, com torneio de futebol entre pais e filhos, e eu não tenho com quem ir.
- Porquê? O teu pai, não pode ir?
- O meu pai morreu. A mãe diz que viajou, mas eu sei que morreu. Ela não me quer dizer para eu não ficar triste. Nunca o vi, sabes? E é triste, que nunca possa entrar nos jogos, por não ter pai.
Paulo sentiu a tristeza do garoto como se fosse sua. Depois de uns minutos em silêncio, perguntou:
- E não podes levar um amigo, um familiar?
- Sim, mas quem? O meu tio vai viajar para Cabo Verde.
- Acho que encontrei a solução. Se a tua mãe deixar, convidas-me e eu entro no jogo contigo.
- Farias isso por mim?
-Claro.
-Vou falar com a mãe. Mas como te encontro depois?
- Fala com a tua mãe, e dás-me a resposta aqui, logo à tarde. Está bem assim?
-Está, - disse o garoto, abraçando-se ao seu pescoço num impulso.



Para quem quiser continuar a ver o meu passeio por Alcobaça, pode fazê-lo AQUI



26.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XL





O último utente acabara de sair. Diana foi até à porta e fechou-a. A chuva continuava a cair, embora agora com menos intensidade. As duas jovens, fecharam o computador e juntaram requisições e dinheiro numa pequena caixa que o chefe haveria de recolher antes delas saírem. Anete olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para a saída.
- Continua a chover. E com este vento, vamos chegar a casa, encharcadas. - Disse Diana.
Ouviu-se o sinal de mensagens no telemóvel de Anete.
“Vim buscar-te. Estou à porta. Salvador.”
Sorriu
- Ai meu Deus que sorriso feliz. Não me digas que chegou o teu príncipe. Espero que tenha trocado o cavalo por um automóvel.
- Não sejas tonta, Diana. É apenas o Salvador.
- Sei. O cunhado da tua irmã. Já me contaste essa história. Mas a julgar pelo teu sorriso, diria que não tem nada de “apenas”.
Nesse momento, o gerente chegou à receção. 
Diana, vestiu o casaco que tinha nas costas da cadeira, pôs a mala ao ombro. Anete fez o mesmo.
- Boa noite, meninas.Toca a sair, que a noite não está para demoras, - disse o gerente, agarrando na caixa que estava em cima do balcão.
As duas jovens encaminharam-se para a porta, pegaram os guarda-chuvas que aí se encontravam e abriram a porta.
- Até segunda. Bom fim-de-semana.
-Igualmente. – Respondeu-lhes o chefe, fechando a porta atrás delas.
As duas ficaram por momentos sob a placa de cimento que protegia a porta da clínica. Salvador estava mesmo em frente à porta. Anete disse:
- Não saias daqui. Vou pedir ao Salvador para te levar à paragem.
Deu uma corrida, e meteu-se no carro
- Boa noite, - disse saudando-o com um breve beijo na face. – Importas-te de levar a Diana até à paragem do autocarro?
- Claro que não.
Ela abriu a janela e fez sinal à jovem que imediatamente correu para o carro e se introduziu nele pela porta de trás.
- Obrigada. Está um tempo horrível, - disse. A minha paragem é já ali à frente.
- Salvador, esta é Diana, a minha colega. Uma amiga que me tem facilitado muito a vida, no emprego.
Salvador virou-se para trás e estendeu-lhe a mão com um sorriso
- Encantado. - Logo se voltou para a frente e pôs o veículo a trabalhar. É melhor avançar. O trânsito está uma loucura.
Rodou devagar até que a uns cem metros, parou junto à paragem.
- Obrigado Salvador. Até segunda, Anete. Bom fim-de-semana.
E sem esperar resposta, Diana saiu a correr para debaixo da proteção da paragem.
- Mora longe a tua amiga?
- Odivelas. O que lhe vale é que tem a paragem do autocarro mesmo à porta.  – E mudando de assunto,- não te esperava. Não disseste nada em toda a semana.
- Tive uma semana complicada. E tu?
- As minhas, há muito tempo, deixaram de ser complicadas. A grande revolução na minha vida, foi mesmo a descoberta da minha verdadeira identidade.
- E o divórcio não? Perguntou sem desviar os olhos da estrada, tentando não parecer interessado.
- Convido-te para jantar. Gostas de bifes com natas e cogumelos?
-Gosto de bifes de qualquer maneira, - disse enquanto pensava que ela tinha uma habilidade especial em fugir do assunto, quando se tratava de falar no divórcio.



10.3.14

MARIA - II - A SURPRESA


                          notícias da minha saúde
(Acabei de chegar do médico. Isto porque apesar de estar muito melhor, continuo com tosse e falta de ar.
E então vou ter mais 15 dias de antialérgico, " Bilaxten " de spray nasal "Avamys" e ainda uma bomba, "Assieme" E voltar lá daqui a 15 dias se ainda não estiver totalmente bem.)


A Surpresa

A praia fica uns dois metros abaixo do nível da Quinta. Daí que as águas do rio nunca viessem até às oliveiras mesmo nas marés vivas de Agosto, ou quando estava mau tempo no Inverno. O mesmo não se passa do outro lado da azinhaga onde começa a Seca que ali naquele sítio está ao nível do rio.Daí que um pouco mais à frente onde as cassas e armazéns da Seca começam, o arame farpado dê lugar a uma parede de cimento que nós chamávamos muralha.  Mas ali naquele canto, onde hoje apenas se vêm ervas, existia o grande barracão de madeira onde meus irmãos nasceram e onde habitámos durante toda a nossa infância. Por isso ele estava assente em pilares de cimento, com mais de mais de um metro de altura. Para que não acordássemos em dia de marés grandes, dentro de água.

Atravessei a azinhaga e mergulhei os pés na faixa de areia, agora bem pequena, e transportada para lá por camiões da Câmara, já que a areia original da praia, desapareceu toda com o empurrar do rio para o lado de cá pelos aterros da Siderurgia Nacional. Fui caminhando lentamente. As águas de tão calmas pareciam artificiais. O sol estava prestes a desaparecer no horizonte e deixava nelas um rasto avermelhado, como uma estrada de fogo.
Sentei-me na areia entre dois tufos de junco, e perdi-me nas minhas recordações. Lembrei-me daquela vez em que saí de casa para apanhar amoras naquelas silvas do outro lado da cerca, e fiquei presa nelas sem conseguir desenvencilhar-me dos picos que me prenderam a saia. Não me recordo que idade tinha, mas era muito pequenina. Chorei tanto com medo que ninguém me encontrasse. E os meus pais aflitos percorrendo a margem do rio pensando que eu teria ido para lá e quem sabe estaria afogada.

“Vi” o meu irmão, brincando sozinho com a areia, abrindo poços e fazendo construções, e a minha irmã escondendo-se com medo dos GNR, que vinham de vez em quando a cavalo até à Seca, onde se reuniam com a Guarda-fiscal, cujo posto ficava no topo norte da malta das mulheres. “Vi” o grande barracão lá bem no cantinho, encostado à cerca, e o portão que aí havia e que a minha mãe abria todas as manhãs para o pessoal que vinha do Barreiro a pé pela Caldeira do Alemão para trabalhar na Seca. Quando passava a última pessoa, a minha mãe fechava o portão e ia com ela para o trabalho na Seca. À noite saía um pouco mais cedo e vinha na frente para abrir o portão.

Lembrei do quintal enorme que meu pai cultivava, do feijão verde, que nós comíamos cru sempre que alguma vagem nos chamava a atenção, ou quando tínhamos fome e os pais ainda não tinham vindo do trabalho, os tomates as cenouras, e até as cebolas que comíamos com um pouco de sal.

“Vi” o meu pai encostando uma escada de madeira ao barracão, subir ao telhado e colocar lá a bandeira do seu clube, naquele ano em que o Porto foi campeão na década de 50. Era tão raro naquela altura o F.C.P. ganhar alguma coisa.

O sol desaparecera no horizonte, o dia prestava-se para dar lugar à noite, e decidi regressar a casa.

Ao chegar à Quinta quedei-me surpreendida. Na minha frente levantava-se a mulher que me intrigara uma hora antes. E era afinal uma velha conhecida…


Continua

(Direitos reservados)