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4.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR. - PARTE XXII




Estava-se de novo em Dezembro, o ano tinha passado a correr, dentro de dias Mariana comemorava o seu primeiro aniversário.
Gil tinha sido convidado para dar uma conferência na Universidade do Minho, evento que acontecia naquela tarde de Sexta-feira, dia quatro de Dezembro. E que como todas as que já dera estava a ser muito participativa, apesar da tempestade que assolava o país.
Mais tarde foi rodeado pelos alunos que queriam autógrafos e saber qual era a sua opinião em relação às novas tecnologias na escrita. Acreditava ou não que os livros em papel iam desaparecer no futuro. E não seria isso bom para o planeta sabendo-se que muitas árvores precisam ser arrancadas para escrever os livros. Gil não acreditava no fim do livro em papel por duas razões. Embora considerando que é muito mais prático transportar para qualquer lado uma biblioteca no Smartphone, do que andar com os livros atrás, não dá o mesmo prazer sentar-se num sofá a ler um livro em papel do que no telemóvel. Além de ser muito mais cómodo, para o corpo e para os olhos. Depois as baterias dos Smartphones, Tablets, e afins, causam muito maior impacto ambiental, do que o abate de algumas árvores, que podem ser substituídas em poucos anos. Sem falar que haverá sempre sítios no mundo onde muito dificilmente chegará algum dia a Internet.
Mais tarde foi convidado para o jantar e já passava das dez quando entrou no carro disposto a fazer a viagem de regresso ainda nesse dia.
O temporal continuava sem dar tréguas, o vento soprava forte, fazendo perigar a estabilidade do veículo e a chuva era tão forte que formava uma espécie de nevoeiro que cortava toda a visibilidade. Gil tinha os olhos a arder do esforço que fazia na tentativa de ver alguma coisa, e arrependia-se de não ter passado a noite num hotel, em vez de estar a viajar naquelas condições.
Ele não sabia se havia algum carro à sua frente ou atrás de si tão intensa era a chuva e tão fraca a visibilidade. Por isso o receio de acelerar e provocar um acidente, era o igual ao de diminuir a marcha. Não podia fazer nada mais do que manter-se assim e esperar que à medida que os quilómetros fossem percorridos a tempestade não fosse tão intensa.
De súbito, um relâmpago iluminou tudo à sua volta e Gil apercebeu-se de uma árvore caída para a estrada uns metros mais à frente, tentou travar, mas o carro derrapou, e ele perdeu o controle do mesmo. O automóvel deu umas duas voltas na estrada como se fora um pião e de súbito as rodas da frente deixaram de ter apoio e o carro mergulhou no vazio. Gil mal teve tempo de desapertar o cinto de segurança, abrir a porta e saltar. O corpo rolou entre pedras e ramos de árvores, enquanto ouvia um enorme estrondo que lhe deu a certeza de que o carro tinha embatido em qualquer coisa, talvez uma rocha.
A noite estava escura como breu, a chuva e o vento fustigavam-no.
Pôs-se de pé. Tinha que chegar à estrada, talvez algum carro o conseguisse ver. Mesmo que assim não fosse não podia ficar parado. Tinha que se movimentar. Porém dera apenas dois passos quando perdeu o equilíbrio. Sentiu-se a rolar pelo declive, entre pedras e ramos que lhe rasgavam a carne. De súbito, o corpo parou, a cabeça embatendo numa pedra maior provocando-lhe uma insuportável explosão de dor. Teve um último pensamento para a sua filhinha, e, mergulhou na escuridão.



Fim da 1ª parte



Bom amigos, aqui termina esta história, ou não. Ou seja, eu posso escrever ali apenas a palavra fim, e, cada um imagina e decide se o Gil morreu, ou se alguém se apercebeu do acidente e chamou socorro. Ou posso escrever, fim da primeira parte, e, continuar a história em Janeiro. Vocês decidem. O resto deste mês terão aqui todos os dias histórias de Natal.

8.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIX






Nessa noite, enquanto deitava o menino, pensou que se esquecera de avisar Rui, que na semana seguinte entrava de férias. Desde que entrara na firma, sempre deixara metade das suas férias para o fim do ano. Aquela era a época de menos trabalho, e para ela era importante pois o filho entrava de férias e não tinha ninguém de família na cidade, onde deixá-lo. Aquelas férias estavam marcadas desde o princípio do ano. De qualquer modo, a lei diz que em caso de necessidade, as férias podem sofrer alteração e com a restruturação da empresa, isso podia acontecer.
Mal o filho adormeceu, telefonou à amiga.
- Luísa, esqueci-me de avisar o Rui que entro de férias segunda- feira. Crês que vai haver problema?
- Caramba Tê, devias tê-lo feito. Esta tarde, ele disse que no ritmo em que estão as coisas, tudo estará pronto na próxima semana, o mais tardar quinta-feira e depois vai dar férias coletivas ao pessoal até ao início do ano. E tu vais faltar segunda-feira sem avisar?
-São as minhas férias. Estão marcadas desde o início do ano.
- Eu sei. Mas as condicionantes são outras, devias ter-lhe dito.
- Mas não posso ir. Não tenho com quem deixar o Martim.
- O Tiago pode levá-lo para a oficina. O André vai com ele e adora o ambiente da oficina. Pelo menos na segunda, até falares com ele. Depois logo vês.
- E o Tiago não se importa?
- Não mulher. Até vai agradecer. Os dois brincam juntos e deixam-no mais livre para trabalhar. E depois se entrarmos de férias quinta-feira, são poucos dias.
- Obrigada. Não sei que seria da minha vida sem ti.
Disse-lho a meio da manhã de segunda-feira, depois de terem falado com os dois trabalhadores, que tinham em opção para o lugar de chefe da secção B.
- Era para não ter vindo trabalhar. Oficialmente estou de férias até ao fim do ano.
- Como assim? Não me disseste nada.
- Por isso, estou aqui. Esqueci-me de te avisar na sexta-feira.
- Não podes ir de férias agora. Estamos a trabalhar em velocidade supersônica para acabar tudo dentro de três dias. Depois vai tudo de férias,
- Mas assim eu fico prejudicada. Não gozei as férias para as deixar para o fim do ano. São as minhas férias, não és tu quem mas dá.
- Sabes que te daria muito mais do que umas férias, não sabes? – Disse fitando-a muito sério. 
- Ela corou e baixou o olhar incapaz de ver as promessas que os olhos masculinos exibiam
Procurando aparentar uma serenidade, que não existia, disse:
- Voltemos ao trabalho. Já decidiste?




6.12.18

O NATAL DA NATALINA




Estamos em dezembro.
Dezembro é o nome do último mês do ano. Os outros meses chamam-se: janeiro   fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro.
Ei! Tantos! Quase fiquei cansada. E escrevi-os de seguida, sem me enganar.
Parecem soldadinhos, em fila, todos direitos.
Na minha casa, o mês mais importante é dezembro porque foi quando eu nasci. E como era o tempo do Natal, a minha avó quis que eu me chamasse Natalina. Assim festejamos duas coisas importantes: os meus anos e os do Menino Jesus.
Fazer anos é bom: fica-se mais alto e recebem-se muitas prendas.
O ano passado deram-me uma camisola, seis livros, uma caixa de lápis, grande, um baton e um verniz para as unhas, a fingir, para quando brinco às senhoras crescidas. O vizinho Manuel, da frutaria, deu-me uma laranja. Foi a prenda de que mais gostei. Era tão grande que parecia o sol. Eu nunca tinha visto uma laranja assim: a casca lisa, muito brilhante. Quando já ia descascá-la pareceu-me que alguém me chamava. Olhei na direção do presépio, pois a voz era dali que vinha.
Deitado nas palhinhas, de braços abertos, o Menino Jesus lá estava, com aquela tão poucochinha roupa que fazia frio só de olhar. E esta, hein!, pensei eu de repente, como se me tivessem dado uma pancada dentro do peito. Festas daqui, prendas dali, embrulhos, laços, Natal nas montras, Natal na televisão, Natal, Natal nas pressas de toda a gente e não é que também na minha casa ainda ninguém se lembrou que, além de mim, Natalina, este Jesus, nu, descalço, deitado em palhinhas duras também fez anos e, como todas as crianças, há de gostar duma prenda?!…
Olhei a laranja.
Peguei nela e, devagar, fui colocá-la nas suas mãozitas abertas que pareciam mesmo estar à espera de um sinal de amor.
De repente, que veem os meus olhos?
A laranja começa a encher-se de luz. Tanta luz. Parecia uma laranja de vidro. E na luz e claridade dessa bola mágica, viam-se os rios e os mares; as terras de África e as terras da América; os meninos negros e os meninos índios; os meninos de Moçambique a dizerem “tá-tá” como quem diz adeus e os meninos de Timor a rezarem em português. Também se viam as grandes neves e os grandes desertos e as estrelas a deslocarem-se depressa num céu de muitas cores como nos filmes de ficção científica.
Eu nem queria acreditar no que me estava a acontecer e o meu coração parecia um passarinho com susto.
Quando aquele filme acabou olhei muito séria para Jesus. E Ele sorria. Sorria-me.
O sorriso dele era mais morno que o sol, mais fofinho que a camisola nova.
E foi assim, com este segredo de sumo e luz que eu, Natalina, vi coisas de conto de fadas e ganhei um amigo para sempre.
Depois desse dia, Dezembro ainda ficou mais importante.
E só por causa duma laranja.






Maria Rosa Colaço
In: Boletim Cultural
Fundação Calouste Gulbenkian
VII série, dezembro 1991


22.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCII


                                        O Pedro, numa foto da época


Nesse ano de 1988, A Gravelina começou a fazer os tratamentos numa clínica no Alto Seixalinho.  Fazia séries de 20 tratamentos, seguidas de 15 dias de descanso. Vinha uma ambulância buscá-la para os tratamentos às duas horas, e trazia-a de volta no fim por volta das cinco. Ela ia recuperando a confiança, já movia bem a perna esquerda. Bom, mover bem é exagero, pois a perna arrastava um bocado, e não conseguia calçar um sapato normal, pois o pé entortava e ela não conseguia andar, problema que se resolveu com o uso de umas pantufas-bota, em tecido, que se adaptavam ao pé quando ele entortava, e não lhe criavam maior desequilíbrio.
 Passados os tempos mais difíceis, o Manuel sentia-se agora mais confiante para ir com o filho sempre que este o ia buscar a casa, já que tendo um aviário se deslocava muitas vezes para entrega de encomendas, ou para ir buscar rações para as aves.
Em Maio desse ano, toda a família apanhou um grande susto com o neto do Manel.
O miúdo frequentava a escola primária , estava na 2ª classe, ia fazer 8 anos em Junho. A mãe levava-o todos os dias ao portão da escola de manhã e ia buscá-lo à tarde. Naquele dia porém o gaiato não saiu com os coleguinhas. Preocupada a mãe perguntou por ele, mas os miúdos disseram-lhe que a professora saíra mais cedo para ir ao médico, eles tinham sido distribuídos por outras salas, não tinham visto mais o Pedro. Em desespero a auxiliar, (naquele tempo chamava-se contínua,) procurou por todas as salas, mas ninguém tinha visto o gaiato. Até que uma das professoras, disse que uma turma da 4ª classe tinha saído uma hora antes. Seria o caso de o miúdo sair nessa altura? Mas como foi possível se a continua sempre estava ao portão, e jurava que apenas tinham saído os mais velhos que já era habitual irem sozinhos para casa? Desesperada, a filha foi a casa, perguntou aos vizinhos se tinham visto a criança, passou pelo café dos padrinhos do filho, onde ele gostava de estar, mas eles também não o tinham visto. Imaginando que poderia ter ido para casa dos avós, foi a casa da mãe, ver se o filho tinha ido para lá, já que ele e o avô se entretinham muito com várias brincadeiras. Mas ninguém o tinha visto.  Era como se a criança se tivesse evaporado.
Nessa altura, chegou o genro do Manuel, depois de mais um dia de trabalho e não encontrando nem a mulher nem o filho em casa, pensou que estavam na casa do sogro, e dirigiu-se para lá.
Encontrou a família numa aflição, exceptuando a Gravelina, a quem tiveram o cuidado de esconder o que se passava.
Entretanto, tinha chegado a hora da empregada se ir embora, pelo que o Manuel ficou com a mulher, enquanto a filha e o genro, batiam toda a localidade, chegando até ao Hospital do Barreiro, à procura do filho.