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31.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XX






Vim para Portugal, porque havia informações de que podiam estar a atuar aqui, alguns desses criminosos. O meu trabalho, era identificá-los e denunciá-los à polícia para que fossem presos. Porém quando o meu trabalho foi feito aqui, recebi ordens para avisar a polícia de que devia mantê-los sob discreta vigilância, mas não os podiam prender, pois os cabecilhas estariam em Londres. Se estes fossem presos, os outros deixariam de atuar durante uns tempos, ou iriam para algum casino menos conhecido em algum país noutro continente, o que inutilizaria meses de investigação. Recebi ordens para viajar com urgência para Londres, verificar se a notícia era real, e identificá-los a fim da detenção se fazer em simultâneo nos dois países. Levei três meses para o conseguir. Temos ordens rigorosas de que absolutamente ninguém pode saber a que nos dedicamos. A minha própria família, nunca soube qual era minha verdadeira profissão e nem queiras saber os sermões que me davam quando os visitava. 
- Mas como é que se descobrem esses criminosos?
- Precisamos observar todos os jogadores que perdem grandes quantias, e os que ganham grandes quantias. Temos que descartar os que perdem e ganham em simultâneo. Esses normalmente, são jogadores profissionais, que jogam pelo prazer de o fazer, e não têm interesse. Também descartamos os viciados como o teu marido.  Agora os que perdem todos os dias grandes importâncias sem preocupações, e nunca ganham, são suspeitos, a investigar, especialmente se no mesmo casino, houver outros a ganhar todos os dias grandes quantias. É esse o esquema de lavagem de dinheiro. Só temos que provar, a ligação entre quem perde, e quem ganha.
Tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a suavemente com carinho. Depois continuou
- Foi o meu último trabalho. Apresentei a minha demissão. Nunca mais me quero separar de ti. Foram três meses horríveis. Tive saudades do teu sorriso, dos teus beijos, do teu cheiro.
- Nós também tivemos saudades tuas, - disse ela pegando-lhe na mão, e pousando-a sobre o seu ventre.
Levantou-se de um salto.
- Queres dizer... que vamos ter um filho? Vou ser pai? – Perguntou redopiando com ela pela sala.
- Pára por favor! Pões-me tonta.
 - Casas comigo? - Perguntou beijando-a com toda a paixão contida naqueles meses de ausência. 

26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia?