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16.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE IX

 


E não tinha mesmo. Foram precisos dois anos para que ela apagasse do telemóvel as mensagens do marido e o seu número do telemóvel. E mais meio ano para que começasse a pensar em pôr o filho numa creche e voltar ao mercado de trabalho.

Entretanto os pais e o irmão iam fazendo pressão sobre ela, dizendo-lhe que era muito jovem, para ficar sozinha o resto da vida, que se devia dar a si própria e ao amor uma nova hipótese.

Laura, não queria pensar em nada mais do que retomar a sua carreira de professora e cuidar dos filhos. A morte repentina do marido deixara-a tão traumatizada que ela não queria voltar a pensar noutro relacionamento de amor que não fosse o maternal.

Ouviu a campainha, e dirigiu-se à porta para a abrir. Sabia que era Fernando que estava de volta, era demasiado cedo para serem os pais.

- Entra. Estava na cozinha, mas não sei o que tens por hábito comer de manhã. Café com leite, sandes ou torradas, iogurtes, sumo de frutas, ou algo mais substancial?

- O que quiseres. Embora saiba que é errado, raramente tomo o pequeno almoço. Bebo um café de manhã, e por volta das dez, ou dez e meia a minha assistente leva-me uma sandes e um galão que pede no café que fica ao lado do consultório. Tu já comeste?

- Comi com as crianças. Tens aí, pão, manteiga, queijo, fiambre e fruta, - disse assinalando a mesa posta. Podes escolher o que te apetecer enquanto eu aqueço o leite e faço o café.

- Enquanto o fazes, vou lavar as mãos. Quando voltar fazes-me companhia, preciso conversar contigo – disse ele afastando-se.

Voltou pouco depois, sentou-se e esperou que Laura se sentasse na sua frente para começar.

- O Gonçalo disse-me que já inscreveste o Miguel  numa  creche, onde entraria  já no início de Outubro. Também me disse que tencionavas recuperar a tua carreira este ano letivo, mas não conseguiste colocação em nenhuma escola perto de casa. E que por isso estavas muito aborrecida. Eu tenho uma proposta a fazer-te que talvez te interesse.

- Uma proposta? De trabalho? Que eu saiba não és diretor escolar, nem dono de nenhum colégio.

-Bom, não se trata de ensino, mas é temporário e podia interessar-te para não estares o tempo todo sozinha em casa a remoer mágoas.

-Do que se trata?

A minha assistente está grávida e vai ter bebé já em Outubro pelo que no fim deste mês vai entrar de baixa, e depois terá a licença de maternidade. Serão seis ou sete meses no máximo de ausência, o que me obrigará a recorrer a uma agência de trabalho temporário para conseguir uma substituta.  

Se estiveres interessada, podes aceitar o lugar, a mim dá-me jeito porque não tenho que trabalhar com uma desconhecida e estarás livre antes do fim do ano letivo para voltares à tua carreira. Que me dizes? 

4.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE II

 






E passaram quase seis anos. Helena, viveu com os pais, até que o filho fez dois anos, trabalhando num posto médico na aldeia vizinha. Depois achando que o filho estava suficientemente crescido para entrar numa creche, começou a enviar currículos para hospitais e clínicas da capital. 
Pensava que tinha chegado a hora de dar um pulo na profissão, quiçá concretizar o sonho da sua vida. Três meses depois, tinha uma proposta de trabalho muito interessante numa clínica privada, para pequenas cirurgias de ambulatório. Ela gostaria mais de um hospital estatal, mas a proposta era irrecusável, o horário deixava-lhe muito tempo livre, já que estava ocupada apenas da parte da manhã, e quem sabe mais tarde conseguia entrar para um hospital. Afinal ela tinha conhecimento de que havia tantos médicos que trabalhavam em hospitais e clínicas, ou consultórios particulares em simultâneo. Assim mudou-se de armas e bagagens para a capital, alugou um pequeno apartamento, arranjou uma creche para o filho e iniciou uma nova vida.
Com a falta de médicos no país, e com o seu curriculum, não foi difícil conseguir trabalho num dos hospitais da capital. Foram apenas seis meses de espera. Depois teve que conciliar o trabalho no hospital, com o da clínica, reduzindo as horas na Clínica e passando-as para o final da tarde, depois da saída do hospital. Teve que arranjar uma empregada de confiança para ir buscar Diogo à creche, e ficar com ele até à hora em que ela chegava. Felizmente que a lei lhe permitia não fazer turnos, por ter um filho com menos de doze anos a seu cargo.
O seu filho completara cinco anos, no próximo ano entraria para a escola oficial. Ela estava feliz com a sua profissão. Estava no chamado hospital dia, fazia apenas as pequenas cirurgias que podiam ser feitas em ambulatório, mas ainda assim era melhor que o anterior trabalho de médica de família no centro da aldeia.  Na semana anterior, tinha ido a Londres assistir a um congresso. Antes disso foi à terra levar o filho, que deixou com os pais. Podia deixá-lo com a empregada, ela era competente e adorava o menino como se ele fosse seu próprio neto. Mas ela tinha a certeza, de que os pais teriam ficado aborrecidos se o fizesse. Era essa a razão, porque ela se encontrava naquela tarde de domingo, a despedir-se dos progenitores, para empreender a viagem de regresso a casa.
Uma hora depois o carro avariou, e Helena viu-se obrigada a telefonar para a Assistência em viagem e aguardar que mandassem alguém para solucionar o caso.

31.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIII




-E em mim, tens confiança? – perguntou Inês.
- Que pergunta é essa? Sabes que confio em ti como em mim mesma. Estás interessada no lugar? Não querias ter um segundo filho em breve?
- Decidimos que só tentaremos uma nova gravidez dentro de dois anos. E estou farta de estar em casa. Podia por o Martim na creche e ocupar o lugar. Daqui por dois anos, o teu bebé, estará com mais de um ano e poderás voltar a assumir a gerência.
- Por mim encantada, mas o Gustavo estará de acordo?
- Tenho a certeza que sim. Já tinha comentado com ele sobre a hipótese meter o Martim na creche e procurar uma agência de trabalho. Não se trata de necessidade, monetária.  Nem sequer estou a pensar numa carreira laboral pelo menos, até ter um segundo filho com uns dois anos. Mas estou há três anos em casa. Como uma máquina sempre a repetir as mesmas tarefas, sem ver nem falar com ninguém a não ser o marido e filho. Um leva grande parte do dia a dormir, o outro está todo o dia fora.
- Então se os dois estão de acordo, o lugar é teu podes começar quando quiseres. Penso que precisarás de algum tempo para procurar uma creche, mas eu preciso que ocupes o lugar o mais breve possível.
-Não te preocupes, já fiz essa pesquisa, e até já fiz a inscrição. Vai começar no princípio do mês, faltam dez dias, mas até lá posso deixá-lo com a minha mãe. Ela vai adorar. Posso começar amanhã mesmo, se tu puderes ir lá amanhã, para me pores a par de tudo.
- Sendo assim, tenho esse problema resolvido. Amanhã faremos o contrato.
Nesse momento, o choro de Martim invadiu a sala através do intercomunicador e Inês pôs-se em pé e dirigiu-se ao quarto do filho seguida pela amiga. No resto da manhã entretida com o bebé, quase que Teresa esqueceu, o grave problema que a afligia. Se Gustavo se admirou de a ver em sua casa quando chegou para almoçar, depois do desejo que a amiga manifestara no dia anterior para voltar à pastelaria, não o manifestou. Cumprimentou-a, beijou a esposa, que acabara de dar a papa ao filho e fez uma festa ao menino, que reagiu mostrando um sorriso de apenas quatro dentes.
- Deixa-o comigo. Eu adormeço-o, - disse Teresa tirando o bebé dos braços da mãe e dirigindo-se com ele para o quarto. Pretendia com isso dar tempo à amiga para contar ao marido, não só que se passava com ela, mas também a sua proposta de emprego.
Cansado das brincadeiras anteriores ao almoço, Martim não levou muito tempo a adormecer. A jovem saiu do quarto fechando a porta com cuidado, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou os amigos à sua espera para darem início ao almoço.
-A Inês já me contou o que se passa contigo, vamos almoçar e no fim analisaremos o caso. Entretanto também me disse que a contrataste como gerente da pastelaria. Tens a certeza que é uma boa ideia?
- Bom, eu não sei como vai ser a minha gravidez. Pode ser calma e não me dar muitos problemas, mas se for semelhante à dela, vão haver muitos dias em que mal me vou aguentar de pé. Por outro lado, com todo este problema, não sei se teria cabeça para tratar de negócios. Sei que a Inês não tem experiência, mal deixou a Universidade, começou a tratar do casamento, e engravidou poucos meses depois, mas é inteligente, de confiança e está lá o pai. Quando fiquei com o negócio eu sabia tanto do assunto como uma criança. Foi o Mário quem me ensinou, e tem sido o meu braço direito ao longo destes anos. Ele ajudará a filha.  A não ser, que não estejas de acordo, não quero de modo algum, criar problemas na vossa relação.
- Bom, é verdade que já tínhamos inscrito o Martim numa creche e que ela pretendia trabalhar uns dois anos antes de termos outro filho. É a sua vontade e eu nunca me oporia aos seus desejos, se isso a faz feliz. A felicidade dela é a minha felicidade.



18.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXVI



Surpreendes-me. Pensava que o sonho de todas as mulheres, fosse um lindo casamento, uma entrada na igreja, com um longo e belo vestido branco, e uma lua-de-mel, num lugar paradisíaco.
-Claro que é, quando os dois estão apaixonados e se trata de um casamento de amor. Não é o nosso caso. Outra coisa, pagarás as despesas da Matilde e da casa. Nada mais que isso, as minhas despesas pessoais serão minhas, pagá-las-ei com o meu ordenado, não quero um cêntimo teu.
- Não aceitarei uma condição tão absurda. Uma vez casada, as tuas contas serão minhas.
-Então desiste do casamento e procura outra solução.
- Dá-me uma razão lógica para tal atitude, - disse ele irritado.- Não me digas que és uma dessas feministas com a cabeça cheia de ideias idiotas.
-Não se trata de ser ou não feminista. Trata-se de que não quero sentir-me, como se me vendesse. Posso aceitar o casamento como sendo o melhor para a Matilde e por ela sacrificar-me. Mas não acredito que a perda da minha dignidade, lhe seja de algum modo benéfica. Está na tua mão aceitares ou não as condições.
Ele mordeu os lábios para conter um impropério. Não lhe agradava aquela situação, mas ainda lhe agradava menos que ela lhe lembrasse que o casamento era um sacrifício, especialmente depois da reação que aquele beijo lhe provocara. Mas que fazer? O melhor era aceitar todas as condições que ela impusesse. Depois de casados ele trataria de a fazer mudar de ideias.
-Aceito, embora me reserve o direito de tentar fazer-te mudar de ideias. Mais alguma coisa? – perguntou
- Sim. Não quero a Matilde em creches, enquanto não tiver dois anos. Deverá ficar com a Natália, a senhora que viste aqui no outro dia. É uma grande amiga, tem-me ajudado muito, e cuida da Matilde sempre que eu preciso de me ausentar, seja para trabalhar, ou para fazer compras. Gostam tanto uma da outra, que a Matilde chama-lhe  a "vó Táia". Algum problema?
- Problema nenhum. Quando podes ir comigo ao registo para dar andamento aos papéis?
- Amanhã, aviso no trabalho que preciso de sair por umas duas horas. Será tempo mais que suficiente para isso. De acordo?
- De acordo. Também quero visitar-te diariamente até ao casamento, e quero ver a menina acordada. Quero que ela se vá habituando a mim, para que não estranhe depois do casamento. Durante a semana, como estás a trabalhar, posso encomendar o jantar e jantaremos juntos. Alguma objeção?
- Nenhuma.
Ele levantou-se, dizendo:
-Então é melhor que me vá agora. Telefonas-me de manhã assim que puderes sair, e vou-te buscar. Até amanhã.
Encaminhou-se para a porta, seguido pela jovem. Aí deu-lhe um beijo rápido e saiu. Ela fechou a porta e encostou-se à mesma, com as pernas a tremer.



NOTA DA AUTORA 
O capítulo de ontem, parece ter surpreendido pela negativa. Pode ter parecido invulgar, surreal, eu mesma tive dúvidas ao escrevê-lo, não gosto muito de fugir da realidade. Porém estamos numa época em que algumas mulheres casam com homens que nunca viram, outras se mostram aos possíveis interessados como se fossem gado à espera de compra, e outras ainda vão dormir com qualquer um que acabam de conhecer. Postas as coisas neste ponto, que tem de especial que uma mulher queira saber, se não vai sentir repulsa pelo homem, com quem pode vir a passar o resto da vida, através de um beijo? 

9.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXVI



                                                    Creche - Foto do Google




Aquele Natal, foi o mais triste que aquela família algum dia viveu.
Os filhos do Manuel, bem como a cunhada,  revezavam-se nos cuidados com a doente. Mesmo a filha que vivia em Lisboa e trabalhava de segunda à Sexta, ia todos os fins de semana, para a casa paterna. 
A filha mais velha, que como sabemos tomava conta de crianças, vira-se obrigada a pedir ao pais das mesmas, para arranjarem outra ama, pois os pais precisavam dela e não podia continuar a cuidar das crianças, com a atenção que eles precisavam.
Agora o casal estava com outro problema. O filho, quando fora lá para casa, já encontrou os outros meninos que a mãe cuidava. Cresceu com eles, e um dia perguntou à mãe, porque é que os manos não dormiam lá em casa. A mãe lá lhe explicou que os outros meninos, não eram seus filhos, ela só cuidava deles para que os pais deles pudessem trabalhar, mas o menino não deve ter entendido o que a mãe lhe explicara.
Depois que os outros meninos deixaram de aparecer,  o menino começou a ter pesadelos. Acordava de noite a chorar, e quando os pais o iam acalmar, o menino agarrava-se ao pescoço da mãe, pedindo que não o mandasse embora, como fizera com os outros meninos. E por mais que os pais lhe dissessem, que os outros só tinham ido para junto dos pais deles, e que sendo ele seu filho, os pais nunca o abandonariam, a criança parecia não entender.
Os pais viram-se obrigados a recorrer à ajuda especializada de um psicólogo.
Entretanto as horas, ou no máximo alguns dias que o médico no hospital dera de vida à Gravelina foram-se alargando. Sob os cuidados da filha, e do marido, aos poucos ela ia recuperando forças. Mas a filha reconhecia que não conseguia dar ao filho a atenção que ele precisava, e assim procurou uma creche, pensando que a convivência com outras crianças seria melhor para ele. Mas contrariamente ao que esperava, isso agravou mais os pesadelos da criança.
Incapaz de cuidar da mãe e do filho com o tempo e atenção que ambos precisavam, tanto mais que a tia tinha regressado à sua casa, e o Manuel, por muito boa vontade que tivesse, não conseguia cuidar da esposa, reuniram-se os irmãos para decidirem como fazer. O irmão, decidiu que ele contrataria e pagaria a uma pessoa para cuidar da mãe. Apesar das irmãs se mostrarem dispostas a ajudar, ele disse que a despesa seria dele, já que era o único que não tinha família a seu cargo, pois continuava solteiro.  



Desejo a todos um bom fim de semana. E esta história volta Segunda.