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30.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII





- Estou a ver. E porque desistiu do disfarce?
- O senhor Gabriel descobriu-me. Na academia de dança.
- À sim, essa parte ele já me contou. E então o que fez, além de ser a eficiente  secretária do Gabriel?
- Eu, - voltou a olhar o rosto de Gabriel, como que pedindo desculpa. – Revirei as gavetas do escritório, pesquisei as pastas, tentei até entrar no seu computador, mas não descobri a password.
- E…
- Nada, senhor.
- Sabe que me espanta a sua ingenuidade? Então pensa que se o Gabriel, tivesse feito o que pensou, ele deixaria as provas aqui à mão de semear, à espera que alguém as viesse procurar? E mais, sabe que com essa confissão, pode ser despedida e denunciada pelo que fez?
Sandra limitou-se a acenar com a cabeça.
-Por favor Pedro, - interrompeu Gabriel - conhecendo as suas razões, eu nunca faria isso! 
- Sei que não. Conheço - te há muitos anos. E conheço o cordeiro que se esconde, sob a pele de lobo. Só quero que a Sandra tenha noção do risco que correu, porque o que fez é crime.  Agora diz-me, já tinhas câmaras de vigilância na altura do desfalque?
- Já.
E tens todas as gravações guardadas, ou são apagadas ao fim de algum tempo?
-Creio que estejam todas guardadas, mas sinceramente não sei. Foi o meu sócio que tratou do contrato com a empresa de segurança, e eles é que tratam disso. Mas podemos já saber disso. É só chamar o segurança de serviço - disse pegando no telefone, e chamando-o.
- E quem mais podia ter acesso à conta da empresa, sem seres tu, e o teu sócio? - perguntou o inspetor.
- Naquela altura, a firma não funcionava como agora.  Inicialmente a sociedade era composta pelo António e pelo meu pai. Eu entrei pouco tempo antes do desfalque, quando morreu o meu pai, e herdei a sua parte. A firma estava antiquada, em muitas coisas, e a segurança informática, não era lá grande coisa. O contabilista e a secretária, tinham acesso à conta, tal como eu e o meu sócio.
- A secretária? Tua, ou do teu sócio? E o que foi feito dessa secretária?
-A Alice assessorava-nos aos dois. Era uma senhora de meia-idade, que estava na firma desde a sua fundação. Faleceu há dois anos de ataque cardíaco.
Bateram à porta e o segurança entrou.
- Boas-tardes, - saudou
 - Boa-tarde, Francisco. Gostaria de saber o que fazem vocês às cassetes de video vigilância, - perguntou Gabriel
- Estão todas arquivadas por ano e mês, lá no depósito. Desde o início até agora.
- Obrigado. Pode retirar-se.
O segurança saiu fechando a porta. Gabriel perguntou então ao inspetor:
- Pensas que pode estar lá qualquer coisa que escapou aos investigadores? Porque eles examinaram-nas.  
- Não sei. Mas pode acontecer, se a data do desvio não coincidir com a data em que vocês deram por isso. Diz-me uma coisa, tens confiança no teu ex-sócio?
- Absoluta.
- E com que frequência vocês verificavam o saldo da empresa?
- Bom, recordo que na altura, eu ainda estava a tentar inteirar-me do que acontecia por aqui. Preocupava-me mais com os projetos que meu pai tinha deixado a meio do que com as contas. Isso estava mais com o António e nessa altura ele também andava um bocado em baixo não só com a morte do meu pai de quem era amigo há anos, como com a própria saúde.
- Isso torna possível que o desfalque tenha ocorrido algum tempo antes de vocês darem por isso, - concluiu o inspetor ficando por momentos pensativo. Depois de alguns segundos em que o silêncio reinou no gabinete, retomou a palavra e disse olhando para a jovem:
- Não prometo inocentar o seu pai, mas posso prometer que vou fazer todos os possíveis para descobrir a verdade sobre o desfalque. Vou ter que analisar as cassetes da video vigilância, desde o dia em que foi detetado o desvio até três meses antes. Calculo que por muito em baixo que estivesse o teu sócio, não levaria mais de três meses sem verificar o saldo da conta. Espero que as tenhas todas amanhã à tarde, Gabriel. Passarei por aqui no fim do trabalho, a recolhê-las. Peço que mantenham segredo absoluto sobre as nossas intenções, e não quero que ninguém saiba que a Sandra é filha do antigo contabilista. Para todos os efeitos, tudo tem que continuar como até hoje. Entendido?
-Sim - disseram os dois em uníssono.
- Então creio que podemos ir. – voltou-se para Gabriel. – Não te esqueças de ter as cassetes separadas para eu levar amanhã à tarde. Sandra, tenho que ir visitar o seu pai. Ele está onde?
- Em Monsanto.
-Muito bem. Vamos?
E os três encaminharam-se para a saída, onde se despediram e partiram cada qual para seu lado.

Só para os que estão a ler a história pela primeira vez.
Parece evidente que o Gabriel não teve nada a ver com o desfalque.  Então quem vos parece que tenha sido? Alice? António, o ex-sócio de Gabriel? Outro empregado? Ou Sandra está completamente enganada em relação ao pai?

E amanhã é de novo um dia especial, pelo que esta história continua a 4 de Maio.


15.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE III


E ali estava ela, num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Confirmara a informação que tinha de que era um mulherengo incorrigível, e apercebera-se de imediato, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. 
Todavia era exatamente isso, o que ela tinha pretendido, quando decidiu escolher aquele look severo e antiquado. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Na verdade, não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse, enquanto não conseguisse provar a inocência do seu progenitor. Ele era de momento o único homem que lhe importava.
Suavizou-se-lhe o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. 
Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, que originara uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai, fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida ainda jovem, à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse frequentar a Universidade.  Quando viu como gostava de dançar, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e reto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. 
A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.


6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.



                                               

11.1.18

A VIDA É ...UM COMBOIO - PARTE I




Eram onze da manhã, num escritório de advocacia, de Lisboa, Amélia revia um processo de divórcio litigioso, quando recebeu o telefonema da polícia, informando-a de que o seu marido tinha sofrido, um acidente de automóvel, à saída de Santa Maria da Feira. A tremer tentou saber como ele estava, mas a polícia apenas lhe disse que Afonso e a sua acompanhante, tinham seguido de ambulância para o hospital de Aveiro.
Em choque, Amélia, desligou o telefone não sem antes o seu cérebro ter registado aquelas palavras “a sua acompanhante”.
Tentou levantar-se, mas as pernas não lhe respondiam.  Carlos, um dos colegas apercebeu-se do que se passava, e levantando-se aproximou-se dela.
- Que se passa, Amélia? Estás tão pálida que parece que vais desmaiar a qualquer momento.
- A polícia acaba de me informar que o Afonso sofreu um acidente de automóvel e foi transportado para o Hospital de Aveiro. Tenho que ir para lá agora.
- Não estás capaz de conduzir. Ia contigo, mas tenho um julgamento esta tarde. Espera um pouco. Vou falar com o chefe e já volto.
Afastou-se. Amélia não conseguia raciocinar, só pensava no marido e na misteriosa acompanhante. Seria a sua secretária? O marido era um importante empresário, e não raras vezes se deslocava a negócios. Por vezes acompanhado da sua secretária, uma mulher de trinta e cinco anos, casada e com dois filhos, em quem Amélia confiava plenamente. Mas ele tinha-lhe dito que ia sozinho.
- Amélia, o chefe quer ver-te. Vem, acompanho-te.
Ela levantou-se, apoiada pelo colega, que a acompanhou. Bateu com os nós dos dedos no gabinete do chefe, e à sua ordem de entrada abriu a porta e deu-lhe passagem. O chefe,  que se encontrava de pé, apressou-se a puxar uma cadeira para junto dela. Depois sentou-se, pigarreou e disse:
- Acabo de falar para o hospital de Aveiro. Lamento imenso Amélia mas as notícias não são boas. O seu marido chegou já sem …
Interrompeu-se, ao ver que a jovem resvalava na cadeira e só não caía porque o colega a seu lado se apressou a segurá-la. Amélia acabara de desmaiar.
Quando voltou a si, estava estendida no sofá do escritório tendo a seu lado o chefe e a sua secretária Teresa, e vários colegas. Bebeu o copo de água açucarado que lhe deram, e estendeu-o a um dos colegas como se fosse um autómato. Não chorava. Sentia um nó na garganta, e uma opressão no peito que parecia querer esmaga-la a qualquer momento, mas não conseguia chorar.
- Amélia, podes dar-nos o número de telefone do teu irmão? Vamos telefonar-lhe para te vir buscar. Não podes sair daqui nesse estado, e sozinha.
-Está no meu telemóvel, - conseguiu murmurar.
Teresa, apressou-se a ir buscá-lo. Estendeu-lho dizendo:
-Procura o número que eu falo com ele.







Nota: Penso que recuperei a saúde, sinto-me bem. Ainda debilitada, mas nada que não seja normal depois de oito dias quase só a chás. Entretanto começo hoje uma nova história, com um titulo maluco porque não me lembrei de nada melhor. Alguém me ajuda com uma boa sugestão?


8.9.17

À MÉDIA LUZ PARTE III


E ali estava ela num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Percebera que era um mulherengo incorrigível, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. Mas isso pouco lhe importava. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Mas ela não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse´
O único homem que lhe interessava, era o pai, e encontrava-se preso por um crime que não cometera.
Suavizou-se o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse estudar. Quando soube de como gostava de dançar, e de como gostaria de saber fazê-lo, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e recto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.


6.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE I


- Aqui tem senhor!
O homem levantou a cabeça, e olhou a mulher que na sua frente lhe estendia uma pasta. A sua secretária. Caramba, cada vez que olhava para ela, ficava a pensar, o que teria passado pela cabeça do gestor dos recursos humanos, para lhe enviar aquela … ele nem sabia bem como classificar a mulher que estava na sua frente.
- Obrigado. Pode deixar aí, se precisar de si, chamo.
A mulher deixou a pasta em cima da secretária e afastou-se em direção ao seu gabinete de trabalho. Ao chegar à porta, parou e disse.
- Recordo que tem uma reunião com o seu advogado para daqui a meia hora.
Abriu a porta e saiu.
O homem ficou por momentos a olhar a porta fechada. Com tanta mulher bonita, no mundo, porque haviam de lhe ter mandado aquela como secretária?
No seu gabinete, Sandra retomou o trabalho. Tinha vinte e seis anos, o cabelo castanho arruivado, estava apanhado num coque, e vestia um fato saia e casaco cinzento, que seria considerado o último grito da moda… cem anos atrás.
No rosto redondo, e sem qualquer tipo de maquilhagem, pontificavam dois belíssimos olhos verdes, a única coisa que chamava logo a atenção nela, mas que talvez sabendo-o ela mantinha quase sempre meio oculto, como se estivesse permanentemente preocupada com os seus pés. Parecia uma figura saída de algum quadro de museu.
Pelo menos era o que Gabriel, o seu atraente chefe pensava. Mas de uma coisa ele estava certo. Jamais tivera uma secretária tão eficiente… no trabalho. A anterior era um desastre como secretária. Parecia que todas as suas aptidões estavam voltadas para a cama.
O homem sorriu ao recordar-se de Lucia. Deu-lhe um certo trabalho, separar-se dela. Era realmente muito boa na cama. Mas um homem não pode ser escravo dos seus apetites sexuais, e por muito que gostasse de mulheres, não tinha nenhuma vontade de se prender a nenhuma. Pelo menos, Sandra era uma excelente secretária, e com ela não corria riscos.