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19.6.20

ISABEL - PARTE XXVIII



foto do google

Isabel não saiu nesse fim de semana. Perdeu-se nas lides domésticas,  tentando esquecer o seu desassossego. E na semana seguinte tinha uma campanha para produzir e entregar o que tornou o trabalho tão intenso, que esqueceu por completo outros pensamentos que não os da campanha publicitária em curso. Foi uma semana de loucos, com o cliente a rejeitar as suas ideias iniciais, o que a fez temer não conseguir cumprir o prazo, mas felizmente conseguiu.
No início da semana seguinte quando Amélia e Luísa chegaram, já a encontraram à secretária embrenhada no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira quando se dirigia para os correios. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença na cerimónia,  como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara, quase em início de carreira, o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, (faltavam cinco dias para o casamento), aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Embora não o conhecesse pessoalmente, Amélia, já tinha ouvido falar muito daquele alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- espantou-se Amélia. - Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quarta-feira. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos!
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Luís.
Não sabia ao certo se temia o homem ou as emoções que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a "toilette" para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho,  que punha em destaque a beleza do seu colo, e ombros. Sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
Ao vê-la, enquanto se mirava no espelho do gabinete de provas, para ver se o
agasalho ficava bem com o vestido, a amiga disse:
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
 -Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe:
 - Um casamento é sempre uma óptima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Pois era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.


                                             


11.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XII


Pouco depois sentados à mesa do restaurante, Gil pergunta ao irmão:
- Como vai a tua relação com a Isabel?
- Que há nenhuma relação. Ela não acredita em mim, pensa que apenas quero seduzi-la para a levar para a cama.
- E tens a certeza de que não se trata disso?
- Absoluta. Desejo-a é claro, é uma mulher muito bonita, e eu não sou propriamente um santo. Mas o que sinto por ela é muito mais do que isso. É uma vontade de estar juntos, de partilhar emoções, de formar uma família. Tenho trinta e dois anos, e nunca soube o que era uma verdadeira família. Sei que a mãe nos amou muito, que era capaz de dar a vida por qualquer um de nós. Trabalhou até ao limite para que nunca tivéssemos fome, e o nosso corpo agradeceu, mas a alma cresceu sedenta de carinho. Não estou a censura-la. A vida era muito difícil na altura, especialmente para uma mulher sozinha com três filhos. Tu foste muito novo para o clube, tinhas um sonho, algo a que te agarrares. A princípio vinhas dormir a casa, mas quase só te via quando já estava a cair de sono.
Depois quando se aperceberam da tua genialidade, passaste a viver lá, só vinhas a casa ao fim-de-semana. Eu cuidava da Laura, para que a mãe continuasse a trabalhar. As suas brincadeiras, não me diziam nada, tínhamos gostos e sonhos diferentes. Tinha saudades tuas. E sonhava com uma família diferente. Com uma mesa onde estivéssemos com os nossos pais.
 E jurei que quando crescesse e arranjasse um emprego, procurava uma mulher e me casava. Sonhava com a minha casa, a minha mulher e um ou dois filhos. Nunca senti inveja de ti, do teu êxito, do muito dinheiro que ganhavas. Todavia senti um pouco de inveja quando te casaste. Ias ter uma família, e eu continuava mais só que nunca, pois a Laura crescera, entrara na Universidade, tinha a sua própria vida, e a nossa mãe já tinha entregado a alma ao Criador, alguns anos atrás.
Porém apesar do meu sonho os anos foram passando e nenhuma das mulheres que conheci, e conheci imensas, embora a maioria nem fosse capaz de recordar o meu nome. Só me procuravam na esperança de que tas apresentasse. Apesar disso nunca senti vontade de formar com alguma delas uma família, pelo contrário repugnava-me a ideia de poder viver o resto da vida com elas. Até conhecer a Isabel. Com ela eu desejo tudo. O corpo, e a alma. Quero adormecer todas as noites no calor do seu corpo, acordar com o seu sorriso. Se isto não é amor, então não faço ideia do que seja o amor. Infelizmente, apesar de acreditar que não lhe sou indiferente, ela não acredita em mim e não sei como convencê-la.
- Se a amas assim e acreditas que ela também gosta de ti, toma uma atitude drástica. Faz qualquer coisa que a surpreenda e lhe dê a certeza do teu amor.
-Que tipo de atitude? Tens alguma ideia?
- Compra-lhe um bonito anel de noivado. Depois convida-a para jantar, leva-a a um bom restaurante e durante o jantar, dás-lhe o anel e pede-a em casamento. Ou se achas que ela não vai aceitar o jantar, leva a Teresa e a Raquel ao escritório, e na presença delas, oferece-lhe o anel, e pede-a em casamento. Com duas testemunhas ela não vai duvidar das tuas intenções.
Tinham acabado de almoçar. Gil chamou o empregado, pagou a conta e saiu seguido do irmão.
Despediram-se já no exterior, com o jovem desejando sorte ao irmão antes de entrar no carro e seguir para o hospital.
Três dias depois, Gil voltou à empresa e desta vez chegou antes da hora de abertura, conforme combinado de véspera com Marco. O doutor Alcides só chegaria perto das onze horas, para que eles assinassem os documentos de doação e alteração do registo da empresa, mas Marco, seguindo o conselho do irmão ia pedir Isabel em casamento, e queria que ele estivesse presente, para que à jovem não restassem quaisquer dúvidas, sobre a seriedade do pedido. Na véspera, marcara uma reunião com as três mulheres, no início do dia, pelo que iriam abrir as portas um pouco mais tarde nesse dia.

11.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVI

BOA NOITE AMIGOS.  Meu marido está melhor, graças a Deus. Hoje já o puseram de pé e o ajudaram a andar. Continua com visão dupla e isso faz com que não consiga caminha sem alguém que o apoie. Ainda continua em exames, mas estamos com muita fé de que tudo vai correr bem. Muito obrigada a todos pelo vosso apoio. Que Deus vos abençoe






Ricardo que estava de costas junto da janela voltou-se quando a sentiu entrar, e foi ao seu encontro.
-Estás linda- disse pegando-lhe na mão e conduzindo-a ao sofá. 
-Obrigado! Tu também não estás nada mal- disse esboçando um sorriso, e estendendo-lhe o presente. 
Ele abriu-o e mostrou-se o seu agrado.
-Obrigado. É muito bonito - disse dando-lhe um beijo na face.
Curiosamente, como se tivessem combinado, também  ele tinha vestido, o mesmo fato cinzento-antracite que tinha levado ao casamento dos amigos. 
Naquele momento o porteiro informou-o pelo telefone interior que o jantar já ia no elevador. Ele encaminhou-se para a porta, que abriu assim que tocaram. Indicou a cozinha aos empregados que deixaram os recipientes com as várias iguarias sobre a mesa da cozinha, e saíram felizes com a gorjeta. A fatura iria para o seu escritório. Ricardo fechou a porta e voltou para a sala.
- Pedi para a Matilde ficar com os avós, a fim de ter uma conversa séria contigo. Porém será melhor irmos jantar e vamos conversando entretanto. Tenho fome, tu não?
- Nem por isso, mas vamos jantar. Vá que a tal conversa me desgosta tanto, que não consigo comer - disse Isabel, meio a brincar, para esconder a sua preocupação.
Levaram a comida para a mesa.
Ostras com molho de manga como entrada, Risoto de frutos do mar e gengibre, acompanhado por um Sauvignon Blanc, e para sobremesa morangos com chocolate. 
Mais uma vez, Isabel admirou a mesa com as melhores loiças, sobre uma impecável toalha branca, parcialmente coberta com pétalas de rosa e velas aromáticas
Durante a refeição falaram do trabalho, dos amigos, da menina. Do tempo quente de verão, que se fazia sentir lá fora e de uma possível ida à praia no fim-de-semana. Só não falaram daquilo que realmente os inquietava. O futuro da sua relação.
Depois do jantar, levantaram a mesa, levaram a loiça suja para a máquina e tomaram o café, lá mesmo na cozinha.
Quando terminaram, Ricardo enlaçou a mulher pela cintura e levou-a para o sofá. Depois puxou o cadeirão para a frente dela e sentou-se.
- Antes de terminar o serão vou contar-te uma história – disse ele. Era uma vez um homem que queria uma família. Ele conseguiu uma filha maravilhosa e uma companheira de eleição. A sua esposa, era uma mulher maravilhosa. O seu olhar tinha uma luz que o encantava. Ele nunca vira em nenhum outro ser uma tal luminosidade num olhar. Era como se a mulher trouxesse a alma presa nos olhos. Todavia não passou muito tempo, e a mulher foi perdendo essa luz, como se a sua alma estivesse a morrer lentamente. Hoje o homem vive desolado. Sente-se enganado e quer de volta a sua companheira, mas não sabe o que, ou como fazer para a ter de volta.
Estendeu a mão e agarrou a dela. Estava gelada.
- Será que podes ajudar este pobre homem, querida?
Ela inclinou-se para a frente e uma lágrima caiu sobre a mão dele, que ao senti-la empurrou para trás o cadeirão, e ajoelhou na sua frente.
- Que se passa Isabel? Porque choras? Estás arrependida do nosso trato?
Ela olhou-o com os olhos rasos de água e disse:
-Estou. Não sei se conseguirei continuar a levar esta farsa por muito tempo.


3.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIX


Mais tarde, quando  Natália e Artur chegaram, tornou-se evidente, a sua cumplicidade, um novo brilho no olhar de ambos e  antes que o casal fizesse alguma pergunta, eles deram a notícia com toda a naturalidade. Tinham decidido casar, mas não iam esperar pela cerimónia para assumir a relação. Já estavam juntos, desde aquela noite. O casal felicitou-os e depois separaram-se. Isabel e Natália foram para a cozinha, os homens ficaram na sala com a pequenita.
-Parece que a notícia não lhe agradou muito, Isabel - disse a amiga logo que se encontraram sozinhas.
- Se a Natália está feliz, eu também estou. Talvez tenha ficado um pouco preocupada, vocês mal se conhecem, e tenho receio de que venha a sofrer.
- Não é bem assim. Conheci o Artur no início de Outubro. Eu ia a sair com a  a Matilde, e ele perguntou-me se as conhecia, a si e à sua irmã. Disse-me que trabalhava para um empresário e eu pensei que seria algum daqueles onde a Isabel tinha ido à entrevista de emprego. Falei-lhe de si e da Susana. Só muito mais tarde ele me confessou que estava a investigá-las a pedido do Ricardo. Mas naquela altura simpatizámos logo um com o outro e desde aí ele passou a aparecer no parque sempre que eu lá estava com a Matilde.
-Nunca me disse nada. Pensei que só se tinham conhecido no meu casamento.
-A Isabel andava preocupada com os seus problemas, e eu não sabia as intenções do Artur.
Como sabe, fui casada durante trinta anos, e Deus sabe como gostava do meu marido, e como sofri quando ele morreu. Estou viúva há oito anos, acho  que não se pode dizer que não respeitei a sua  memória. Agora, penso que tenho direito, a aproveitar da melhor maneira possível, o tempo que me resta de vida. A solidão é uma companhia indesejável. É que apesar do meu corpo já não ter as formas bonitas de outrora, dos meus cabelos serem cada vez mais brancos, e das rugas que ao longo dos anos se foram instalando no meu rosto, o meu corpo continua a gostar de sentir o calor de outro corpo junto ao seu, e o meu coração gosta de ter alguém que me dê um abraço, ou simplesmente se sente junto a mim no sofá, para ver um filme, ou ouvir uma música.
 Os mais jovens, pensam que a gente da nossa idade, está velha, já nada nos interessa. Não é verdade. O corpo pode não ter o vigor da mocidade, não ser capaz de paixões intensas, mas o nosso coração é tão capaz de amar ou odiar como qualquer outro.
 E depois, como sabe, nem eu, nem o Artur, temos filhos a quem dar satisfações. Estou quase a  fazer sessenta anos, ele tem sessenta e três. Sabemos bem o que fazemos e o que queremos. E o que queremos, é viver juntos os poucos anos que nos restam, e é isso que estamos a fazer. O casamento será logo que a burocracia o permita, mas até lá não vamos perder tempo. A vida é demasiado curta para que a deixamos desperdiçar, por receio daquilo que os outros possam pensar de nós.
- A Natália tem razão, - disse a jovem abraçando-a. – Desejo-lhe a maior felicidade do mundo. A amiga merece-o.
- Tinha a certeza, que ia entender  - retorquiu retribuindo o abraço. E acrescentou tentando esconder a emoção.
-E agora que já nos entendemos que tal tratar do almoço?
- Já tenho o cabrito com as batatas no forno. Falta cozer os ovos, e preparar o Bacalhau que sobrou ontem para a  “Roupa Velha.”
- Então ponha lá os ovos a cozer e dê-me o Bacalhau que eu vou já prepará-lo.
Pouco depois enquanto os ovos coziam, e Natália tirava as espinhas e a pele ao Bacalhau, Isabel cortava as couves e as batatas conversando sobre as últimas novidades.
-Sabe que a Matilde já chama o Ricardo de pai? Foi ontem à noite pela primeira vez e ele ficou muito emocionado.
- Calculo que sim. Vê-se que gosta muito dela.

2.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVI



Na manhã seguinte, logo depois do pequeno-almoço, as crianças saíram para o jardim com o pai, enquanto Clara subia ao quarto deles.
Aí chegada deteve-se por momentos memorizando a decoração atual Ela não gostava de ver as camas encostadas à parede, uma oposta à outra, com todo o quarto vazio pelo meio. Dava-lhe uma sensação de isolamento, quando o que se devia desejar, era uma relação de proximidade, entre eles. Também não lhe agradava a posição das mesas secretárias.
Depois de um momento de hesitação, levou as secretárias para a parede de janelas que dava para o terraço. Afinal era a zona com mais luz. A melhor, para estudar, desenhar, ler. Na parede à direita, onde estava a cama rosa, havia duas portas. Uma da casa de banho, a outra comunicava com o seu quarto. Na parede da esquerda, havia apenas a porta de comunicação com o quarto de Ricardo. E na parede que dava para o corredor, a porta de entrada no quarto, situada quase na ponta do lado esquerdo.
Os dois roupeiros, iguais não eram muito grandes, e foram arrastados para essa parede. Ali, lado a lado, pareciam apenas um.  As duas camas ficaram na parede da esquerda, onde anteriormente só estivera a azul, mas apenas com a cabeceira encostada à parede. De seguida foi ao seu quarto e arrastou o cadeirão que tinha junto à janela para o quarto das crianças colocando-o encostado à parede entre as duas cabeceiras de camas. Por fim uma mesa-de-cabeceira, de cada lado das mesmas.
Recuou um pouco e olhou o quarto. Tinha perdido um pouco de espaço no centro, mas em compensação estava muito mais aconchegante, não só para as crianças, mais perto uma da outra, como para que cuidava delas. Não precisava sentar-se na cama de cada um, quer fosse para contar uma história, ou para lhes velar o sono se estivessem doentes.
Estava cansada. É certo que poderia ter pedido ajuda a Ricardo, ao irmão, ou até mesmo à empregada. Mas ela preferia fazer as coisas sozinha. Se não gostasse do resultado, desmanchava e experimentava outra opção. As outras pessoas nem sempre têm paciência para essas coisas.
Olhou o relógio. Já passava das onze. Tinha que ir tomar banho e mudar de roupa, antes da hora do almoço.
Enquanto tomava banho pensava que gostaria de ver a reação das crianças quando entrassem no quarto.
Fechou o duche, secou o cabelo. Juntou-o como se fora fazer um rabo-de-cavalo, mas em vez disso torceu-o e prendeu-o num gracioso coque. O mês de Agosto aproximava-se do fim, com dias de altas temperaturas. Vestiu uns calções de sarja azul e um top branco sem mangas.
Acabara de se vestir quando ouviu a algazarra  que as crianças faziam no quarto e desejando ver as suas reações abriu a porta de comunicação. Bernardo estava sentado no cadeirão, balançando as curtas pernitas nuas. Soraia andava de um lado para o outro rindo e batendo as palmas. A alegria deles chegou-lhe ao coração.
- Vamos, para o duche que está quase na hora de almoço, - disse entrando no quarto.
Os miúdos entraram na casa de banho, despiram os roupões e os fatos de banho, deixando-os no chão para se enfiarem na cabine do duche.
- A partir de hoje, sempre que dispam a roupa suja, colocam-na neste recipiente. As roupas espalhadas pelo chão dão à casa, um aspeto de gente desleixada e pouco limpa. E vocês não querem que pensem isso de vós, pois não?
- O que é aspeto - perguntou Bernardo.
- E o que é desleixado- quis saber a irmã.
- Então, aspeto é a aparência. É aquilo que as pessoas vêm quando olham. E desleixada, é uma pessoa que não tem cuidados consigo ou com a sua habitação. Tanto lhe dá que esteja limpo como sujo.
Acabara de lhes dar banho, enrolou uma toalha à volta de cada um, e disse:
-Vamos lá escolher a roupa que cada um vai vestir.


E não se esqueçam. 




29.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XX


Depois do almoço, Martim foi para o quarto fazer os TPC. Amélia arrumou a cozinha e depois avó e neta sentaram-se na sala. A jovem estava nervosa, com a ideia de voltar a ver Paulo. Há tantos anos que não tinha nenhuma espécie de convivência com o sexo oposto, a não ser claro as relações estritamente profissionais, que se sentia sem jeito. Depois, Paulo era um homem bonito, com uma figura tão marcadamente masculina, que ela sentia-se insignificante.
Com os óculos na ponta do nariz, e o tricô no regaço, a avó observava-a disfarçadamente. Ela nunca compreendeu, o isolamento a que a neta voluntariamente se submetera depois da morte de Afonso. Uma rapariga na plenitude da vida, jovem e bonita, com uma boa profissão, renunciar ao amor, era na sua opinião contra natura. E já se tinham passado quase doze anos, depois que ficara viúva.
- Que se passa, Amélia? Estás nervosa?
- Porque havia de estar?
- Não sei, diz-me tu. Já te levantaste e sentaste uma meia dúzia de vezes. Abriste o livro e voltaste a fechá-lo. Ligaste e desligaste a televisão, E não páras de rodar essa maldita aliança. Porque não aproveitas o passeio e a jogas ao rio?
- Tu, a Teresa, e o Carlos. Porque é que de repente, toda a gente quer que eu tire a aliança?
- Porque gostamos de ti, e vemos os anos a passar e tu a deixares que a vida passe por ti sem a aproveitares. O Martim já vai fazer dez anos. Daqui a pouco é um homem, cria asas e faz o seu próprio ninho. E o que te resta depois? Os netos? Nem isso é certo, ele pode ir viver para longe. Pensa nisso, filha. E se esse rapaz se interessar por ti, dá uma nova oportunidade à tua vida.
Amélia não teve oportunidade de responder, porque o filho apareceu na sala com os TPC, para a mãe ver, se estava tudo bem.
Verificou os trabalhos do filho, e devolveu-lhos. Depois lancharam e por fim saíram para o passeio em direção ao local onde Martim combinara encontrar-se com Paulo.
Ele já se encontrava sentado no mesmo sítio, onde estivera pela manhã. Vestia umas calças de ganga, já bastante gastas pelo uso, e uma camisa preta, cujas mangas se mostravam arregaçadas até ao cotovelo. Calçava ténis e na mão tinha um livro. As aventuras de tom Sawyer, de Mark Twain.
- Boa tarde, - saudou Amélia, estendendo-lhe a mão
- Boa tarde, - respondeu ele sem deixar de a fitar, enquanto retribuía o cumprimento. Foi uma surpresa encontrar aqui o nosso campeão, esta manhã.
Amélia sentiu que todo o sangue lhe subia ao rosto e amaldiçoou-se por isso. É que a palavra “nosso”, que ele pronunciara com tanta naturalidade, de repente teve para ela um cunho de intimidade tal que despertou a sua imaginação.
- Há anos que passamos aqui quase todos os fins-de-semana, e as férias. O Martim gosta desta liberdade de espaço, adora andar por aí com o Rex, e fazemos companhia à avó, que está muito sozinha e já é bastante idosa.

2.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XI




Já em casa, depois de lhe terem trazido e instalado, as duas máquinas de lavar roupa e loiça, Anete preparou-se para almoçar. Preocupada com o que lhe tinha acontecido nessa manhã, e sem muita fome, retirou do frigorífico uma sopa de legumes que aqueceu no micro-ondas. Enquanto a saboreava,  não deixou de pensar em Salvador e em tudo o que ele lhe disse. A princípio, não acreditou naquela confusão. Pensou que se trataria de um velho truque para meter conversa. Mas depois, a raiva que viu nos olhos dele, toda aquela conversa de traição, era uma história demasiado maluca para ser inventada. E depois a data do suposto encontro, coincidia com a data da visita do seu irmão. Suspirou.
Salvador era um homem muito atraente, e o seu toque mexeu com ela. Que faria ele na vida? Pelas suas roupas, devia viver bem. E como seria a sua vida pessoal? Não usava aliança, ela reparara, mas na atualidade, isso não queria dizer nada. Podia perfeitamente ser casado, ou estar numa qualquer relação.  
Acabou de arrumar a cozinha. Foi buscar a roupa suja para colocar na máquina. Não era muita, na semana anterior tinha-a mandado à lavandaria. Sabia que deveria pôr a carga máxima, para evitar desperdícios de água e energia, mas aquele modelo, tinha programa para meia carga e ela estava desejando experimentá-la.
"Toma juízo, Anete. Estás tão nervosa, como uma adolescente antes do primeiro encontro. Tens vinte e oito anos, e um casamento falhado. Não tens razão para esse nervosismo todo," - recriminou-se enquanto punha o detergente na máquina e a ligava.  
Não adiantava. Pensou sair, mas desistiu. E se ligasse à mãe e lhe contasse o que se passava? Aquela hora, a mãe costumava estar na saleta com o seu croché. O pai estava no trabalho. Conversar com a mãe, era a melhor maneira, de passar um bom pedaço de tempo. Impulsiva, pegou no telemóvel e discou o número.
- Olá mãe.- Saudou.
- Filha, que alegria. Não estava à espera de que ligasses a esta hora. Ligas sempre à noite. Aconteceu alguma coisa?- Perguntou inquieta.
- Não te preocupes. Queria só contar-te algo muito estranho que me aconteceu hoje. Acreditas que exista em Lisboa, uma mulher igualzinha a mim?
A mãe não respondeu. Será que a ligação caíra?
- Está? Mãe?
- Sim filha, estou aqui. O vizinho anda em obras, está a partir a cozinha, está um barulho infernal, porque não ligas logo à noite? Tenho dificuldade em te ouvir.  Dizias…
-Que existe na cidade uma mulher tão parecida comigo que as pessoas nos confundem. Ia contar-te uma coisa, que me aconteceu esta manhã, mas esquece, fica para outro dia. Beijos mãe