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20.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VIII




- Muito bem. Esta tarde, organizarei com o Paulo o trabalho, e amanhã de manhã, começarei com o teu caso. Preciso de uma cópia do tal documento que elaboramos aquando da recolha. Outra coisa, como é que está o caso do estagiário que precisamos?
-Estou a tratar disso. Os Recursos Humanos selecionaram três perfis. Já os analisei e qualquer dele parece-me interessante. Vamos fazer um estágio com os três, e vamos ver se correspondem às nossas exigências, e qual deles se adapta melhor ao vosso trabalho. Sendo certo que precisamos apenas de um, se os outros dois forem bons, podemos recomendá-los a algum dos nossos clientes. Tudo depende das provas dadas durante o estágio.
- Muito bem. Passo por aqui ao fim do dia para apanhar o documento. Agora se me dás licença regresso ao trabalho.
-Vai-me pondo ao corrente das tuas diligências sobre o caso.
- Fica descansado. Até logo.
O advogado levantou-se e saiu. Olga preparava-se para sair quando o empresário disse:
-Espera, Olga ainda preciso de ti.
Levantou-se, foi até ao cofre que abriu e retirou um envelope castanho. Fechou o cofre, voltou para a secretária e estendeu a Olga o envelope.
- Tira uma cópia desse documento, para dares ao Afonso quando ele vier à tarde. E volta a trazer-me o original.
Ela saiu e minutos depois estava de volta com o envelope.
-Pronto. Precisas mais alguma coisa?
-Avisa o Nicolau que passarei mais tarde. para ver se resolvemos de vez, o final do jogo.
-Mas, não tinham já finalizado?
- Um jogo, que é uma sequela de outro, que foi um êxito mundial, tem que ser qualquer coisa de excecional, para que suplante o primeiro, sob pena de se tornar um fracasso. O final não me agradava, resolvi fazer uma alteração. Dei ontem o esquema dos códigos ao Nicolau, mas parece que ele não está a conseguir aquilo que quero. Faz-me falta o Carlos. Por falar, nele, quando estará de volta?
- Para a semana. Termina esta sexta feira, o tempo que a lei lhe permite para estar com a família após o nascimento do filho. Porquê?
- Ele está mais sintonizado com as minhas ideias. E o trabalho avança mais depressa e melhor do que com o Nicolau. E não nos pudemos atrasar com o lançamento. Já está tudo programado, vai ser lançado em simultâneo em vários países. A propósito, como está a preparação da festa de lançamento aqui?
- Tudo em marcha, não te preocupes com isso.
- Muito bem. A partir deste momento não me passes nenhuma chamada. Qualquer coisa que tu mesma não consigas resolver, diz que telefonem mais tarde, que eu saí. Preciso de um tempo para assimilar as consequências desta situação.
-Muito bem, ligou o engenheiro Rui, diz que precisa que vás lá à secção de hardware, tem uma coisa para te mostrar. Pareceu-me muito entusiasmado, mas não me quis dizer o que tinha acontecido. Vais fazê-lo hoje?
- Não. Diz-lhe que estou muito ocupado, mas que amanhã vou lá logo de manhã. Ele estava a tentar conseguir fazer um microprocessador com o dobro da potência, e metade do  custo. Esse  entusiasmo provavelmente  quer dizer que o conseguiu.
- Bom, antes de saíres avisa-me: 
-Queres jantar comigo hoje? Preciso de companhia - disse ele
- Mas não vais jantar com a Glória? Queres que lhe ligue?
-Não. Terminei a relação. Dei-me conta de que os meus sentimentos pouco lhe importavam. O que lhe interessava era a minha conta bancária.
- Sendo assim fizeste bem. Conta comigo para o jantar. E para alguma confidência que queiras desabafar.
- Obrigado. És uma mulher excecional. Não percebo porque nunca te casaste. Os homens deste país devem estar cegos.
- Bom se não precisas de mais nada, deixo-te só, tenho muito trabalho à espera.
E Olga saiu fechando a porta, e deixando o empresário a sós com as suas recordações.


3.6.20

ISABEL - PARTE XVI


foto do google


Quando na manhã seguinte Amélia chegou à agência, Isabel já se encontrava na sua secretária, analisando alguns documentos.
- Bom dia saudou. Caíste da cama?
- Bom dia, - respondeu Isabel. Estive quinze dias fora. Foi muito tempo. Preciso ver como estão as coisas. Há aqui dois clientes novos?
- Potenciais clientes, Isabel. Com a crise, as pessoas retraem-se e não compram. Por isso alguns empresários começam a investir em campanhas mais agressivas. Esses dois querem algo assim. Agora que chegaste vou marcar uma reunião para veres o que desejam e tentar fazer o contrato.
- E a Luísa?
- Ah! Esqueci de te dizer. A Luísa só vem de tarde. Foi chamada à Segurança Social. O tempo de estágio termina no fim do mês. Vais contratá-la?
- Estou a pensar nisso. Estamos a precisar de ajuda e ela mostrou-se competente. É responsável e criativa o que no nosso trabalho é muito importante. Não vamos meter outra estagiária e perder tempo a ensinar tudo de novo. Ela já é a quarta estagiária que tivemos. As outras não tinham grande aptidão para o lugar. Agora que encontrámos uma competente, é uma estupidez mandá-la embora.
Durante uns segundos ficaram em silêncio. Depois…
- Isabel é verdade que não aconteceu nada nas férias?
Levantou a cabeça e olhou-a franzindo as sobrancelhas. Mas não respondeu.
Segundos depois Amélia insistiu:
- Ontem senti-te estranha. De vez em quando parecias ficar ausente. Entre nós nunca houve segredos. Sempre pensei que devias arranjar um namorado. E tu, tinhas dito poucos dias antes das férias, que te começava a pesar a solidão. Tinha esperança de que arranjasses alguém. Todas as vezes que te liguei senti que tudo estava igual. Mas ontem não. Até o Afonso comentou comigo que estavas estranha. Aconteceu alguma coisa? Não queres falar disso agora?
- Não há nada para falar, Amélia. Aconteceu que tive dois ou três encontros casuais com um homem no qual penso mais do que devia e isso desorienta-me. Na vida só amei o Fernando. Depois disso sempre que pensava refazer a vida, a imagem dele e as recordações sobrepunham-se ao meu desejo. Parecia-me que estava cometendo uma traição. Isso fazia com que logo desistisse.
Fez uma pausa. Passou a mão pela testa num gesto habitual quando algo a incomodava. Depois continuou
- Sabes que adoro crianças, e sempre sonhei ser mãe. Talvez seja o meu relógio biológico que alterou o meu equilíbrio hormonal e emocional, ou quem sabe o facto de me encontrar sozinha no mundo, pois como sabes sou filha única de pais que também não tinham irmãos. O certo é que ultimamente tenho-me sentido diferente. E de vez em quando, dou comigo a pensar como seria diferente se tivesse um homem a meu lado. Um homem que partilhasse o meu amor, as minhas preocupações, os meus sonhos, e a minha loucura. Claro que tento compensar com o trabalho, é nele que escondo as minhas fraquezas, e os meus desejos.
Calou-se e por breves instantes escondeu o rosto entre as mãos. Amélia foi até junto dela e poisou a mão sobre o seu ombro.
- As férias estavam quase a acabar – prosseguiu Isabel. No Sábado esbarrei na praia com um homem que me segurou nos seus braços por breves instantes. E não sei o que me aconteceu mas esse homem mexeu comigo. Santo Deus como mexeu. Penso nele de dia, sonho com ele de noite. Estou desorientada.


Nota: Hoje vou para o hospital de Santa Maria a fim de que o cirurgião que me fez o transplante veja como está o olho, e o que fazer a seguir uma vez que apesar de ter visão, coisa que não tinha antes do transplante, continuo a ver ondulado e meio desfocado.  A outra consulta por causa da retina que era para as 10h de hoje foi remarcada ontem para as 10h do dia 3 de Agosto.


1.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIII


Mário não tinha ido almoçar. Precisava estudar a carteira de clientes. Riscar algum que tivesse falido, contactar os que tinham diminuído as encomendas, procurar no mercado novos possíveis clientes. Não adiantava, pôr a empresa a produzir muito se não tivesse clientes para escoar o produto.
Apercebeu-se que o pessoal no escritório ao lado, tinha regressado do almoço. Premiu a campainha de chamada da sua secretária. Logo em seguida, bateram à porta e Luísa entrou.
- Chamou, senhor?                                           
- Sim. – Não levantou os olhos do que estava a fazer. – Pode trazer-me uma sandes e um café, por favor?
- Simples, ou mista?
- Mista. E o café bem forte, e sem açúcar.
- Muito bem, senhor. Volto já.
Efetivamente voltou pouco depois com uma bandeja, onde trazia, a sandes pedida, um guardanapo, uma chávena de café e um bule com o aromático líquido, que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa, senhor?
O homem levantou a cabeça e olhou para ela. Esboçou um sorriso.
- Sei que é a minha secretária pessoal. Vou precisar muito da sua colaboração, e vamos ter que trabalhar muitas vezes em conjunto. Sou exigente, mas sei reconhecer quem é eficiente. Irrita-me que me esteja a chamar senhor, de minuto a minuto. Isto não quer dizer que seja dado a intimidades com quem trabalha comigo, entendeu?
- Sim … claro – Ia dizer senhor, mas emendou a tempo.
- Muito bem. Pode retirar-se.
Uma hora mais tarde a luz da campainha acendeu-se de novo na secretária de Luísa. Levantou-se e …
- Chamou?
Sim. Pode levar a bandeja. E de seguida pesquise-me as empresas
que vendem os componentes de que precisamos. Não as atuais fornecedoras, mas outras que existam no mercado. Preciso de todos os nomes, e números de telefone aqui, o mais depressa possível. 
Levantou-se.
- Se precisar de mim, estou nos Recursos Humanos.
Foi impressão sua, ou ela sobressaltou-se? Ia jurar que um lampejo de medo perpassou pelo seu olhar.
Luísa saiu pela porta que dava para o escritório, e ele dirigiu-se à outra porta e fez o mesmo


BOA TARDE AMIGOS. AMANHÃ ESTAREI DE NOVO NA CLÍNICA EM LISBOA, PARA SABER O QUE OS MÉDICOS TENCIONAM FAZER COM O MEU OLHO. ESTOU CANSADA, E A  PERDER A ESPERANÇA.

3.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XV





Tinham-se passado os dois dias de prazo, e Pedro tinha de novo Joana na sua frente.  
- E então, - perguntou depois da saudação inicial, quando a jovem se sentou na sua frente, procurando não parecer ansioso. Qual é a tua resposta?
-Aceito, com algumas condições.
Ele não manifestou surpresa. Limitou-se a esperar.
-Mandarás redigir o tal documento, em que te comprometes a cumprir aquilo que me prometeste. A minha mãe, precisa de um tratamento urgente, por causa de uma doença grave no rim esquerdo. Esse tratamento é recente e só está disponível num hospital privado. Ela já teve cancro na mama, fez mastectomia parcial e reconstrução mamária. Está muito fragilizada, não só pela doença, como pela morte da minha irmã. A alternativa a este tal tratamento é a quimioterapia, mas o médico acha que ela está demasiado frágil para isso, além de estar com as plaquetas muito baixas em consequência da quimioterapia anterior.  Deverá iniciar o tratamento logo após o nosso casamento, que tratarás de que seja o mais depressa possível. 
-É tudo?
-Não. A minha mãe nunca consentirá neste “negócio”. Por isso temos que inventar uma história, e fazer-lhe acreditar que estamos apaixonados.  O menino será adotado pelos dois, como desejas, poderás sem dúvida dar-lhe uma educação que lhe permita ter um futuro melhor, muito mais facilmente do que eu, independentemente de fazeres ou não dele teu herdeiro. És ainda muito novo, não podes prever se no futuro, vais ou não mudar de ideias.
Que fique claro, que não quero nada além disto, e que não vou viver à tua custa.Tenho uma pequena empresa de doces e salgados para festas de aniversário ou de empresas, estou a começar, mas já tenho alguns clientes e espero vir a ter muitos mais. Por enquanto tenho trabalhado em casa, não tenho meios ainda para alugar um espaço onde possa montar a minha cozinha, por isso terei de passar várias horas lá em casa, não só para executar as encomendas, como para  criar e testar novas receitas, e acompanhar a minha mãe nesta fase critica da sua saúde. Se estiveres de acordo, podemos avançar com o negócio.
Apesar de não ter gostado do facto de ela rejeitar o seu dinheiro, Pedro não se mostrou surpreendido. Desde o primeiro momento, tinha percebido o seu amor pelos seus e a sua grande dignidade.
- Muito bem. Dispões de tempo agora, para começarmos a tratar de tudo, ou marcamos para amanhã?
- Se tu tens tempo, eu pedi a uma vizinha amiga, para ficar com a minha mãe. Ela a ajudará a cuidar do bebé quando ele acordar.
Pedro pegou no telemóvel e marcou um número.
- Ricardo, estás no escritório? Sim? Ótimo, estou a caminho com a Joana. Preciso daquele documento  de que te falei. Podemos ir aí agora para tratar disso? Obrigado, até já.
Desligou o telemóvel, guardou-o no bolso do casaco e pegando nas chaves disse:
-Vamos, Joana. O advogado espera-nos.
Saíram e seguiram para o elevador, depois do empresário ter dado instruções à sua secretária.  
Vinte minutos mais tarde entravam no escritório de Ricardo Araújo. Que já os esperava.
Pedro fez as apresentações, e depois explicou ao amigo o que desejava. 
Ricardo tomou alguns apontamentos, esclareceu alguns pontos jurídicos, pediu os documentos para o registo de identificação.
- Temos muita pressa,- disse Joana. A minha mãe precisa iniciar logo o tratamento.
-Amanhã estará pronto. Mas um casamento leva tempo a preparar.
Talvez seja melhor que a sua mãe inicie o tratamento logo que os dois assinem o documento.
- Falaremos disso, depois. A que horas tens, o documento pronto?
-Amanhã às dez podem vir assiná-lo.
Em seguida despediram-se e saíram


17.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE VII




- Sente-se, Amélia. Chamei-a aqui porque tenho um novo trabalho para si. Um dos nossos clientes, faleceu há pouco tempo. Tinha um único herdeiro, um sobrinho que vivia no estrangeiro. Vamos ter uma reunião com ele esta tarde. O Carlos é que tratou sempre dos interesses jurídicos daquela firma, mas como sabe ele está a dois meses de se reformar, pelo que quero que passe com ele estes dois meses, para se inteirar de tudo, a fim de passar a substituí-lo quando ele se for embora.  A Amélia está connosco há uns bons anos, está perfeitamente capacitada para ficar no lugar do Carlos e deixar os casos de divórcios e partilhas para o Pedro que está a acabar o estágio e pode substituí-la. Está de acordo?
- Se o senhor, acha que eu estou capacitada para isso, fico muito feliz.
- Já falei com o Carlos. Ele espera por si, depois do almoço para a reunião com o cliente. Entretanto chame o Pedro, e diga-lhe o que acabei de lhe dizer. Passe-lhe os seus casos, e assegure-lhe que lhe dará apoio em qualquer dificuldade que ele tenha. Eu falarei com ele mais tarde, agora preciso sair.
Amélia levantou-se.  
- Farei por honrar o nome da firma, senhor – disse antes de se voltar para sair.
- Tenho a certeza disso, - retorquiu ele.
Ela saiu fechando a porta atrás de si. Matilde a secretária do chefe, fez-lhe o sinal de vitória com os dedos e Amélia sorriu.
Ambas sabiam, que Amélia devia ter progredido na carreira há muito, mas que o chefe, com ideias retrógradas e machistas, só o fazia agora porque não havia mais nenhum homem para promover.
Amélia já tinha sido preterida por duas vezes, por colegas menos capacitados. Há oito anos com a desculpa de que tendo um filho tão pequenino não poderia dedicar-se por inteiro ao cargo, e há três anos com a desculpa de que ela precisaria acompanhar o filho no seu primeiro ano de escola, e portanto não  teria a disponibilidade de tempo que o lugar exigia.  Ao chegar ao seu gabinete chamou o estagiário.
- Pedro, preciso falar contigo. Podes chegar aqui?
Não demorou mais do que alguns segundos. Era um jovem alto, muito magro, de rosto moreno, cabelos e olhos castanhos. Tinha um sorriso fácil, embora nos últimos dias andasse muito sério, quiçá triste até. Talvez porque o estágio estava a terminar e a perspetiva de ficar sem trabalho não lhe agradasse.
-Estás a acabar o estágio não é verdade, Pedro?
- Acaba para a semana.
-E gostavas de ficar cá a trabalhar?
- Claro que sim. Sabes se há alguma hipótese? – Perguntou ansioso.
- O chefe acaba de me dizer para te passar os meus casos, pois vais ser integrado. Vais substituir-me.
- Vais-te embora?
- Não. Vou substituir o Carlos que vai para a reforma em breve. Senta-te. Vamos trabalhar.
- É para já, - disse o rapaz com um sorriso que lhe iluminou o rosto.

22.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXV


Largou o cortinado. Voltou-se.
- Sabes que sou advogado?- Perguntou encaminhando-se de novo para o cadeirão.
Anete assentiu com a cabeça
- E um dos bons, modéstia à parte. Tenho uma boa carteira de cliente, e estou sempre a pedir à Raquel, que não me agende clientes novos. Raquel é a minha secretária. Há dias, recebi uma proposta de um outro advogado, Santiago Castro, para formarmos uma sociedade de advogados. Santiago é um grande advogado. Talvez até melhor do que eu. Formaríamos uma sociedade por quotas, com mais três ou quatro advogados, que se tornaram bons em determinadas áreas. Não sei se sabes, mas o curso de um advogado compõe-se de várias disciplinas, mas quando começamos a exercer, há sempre uma área em que nos sentimos mais incentivados e mais realizados. De modo que aos poucos vamos tornando-nos cada vez melhor nessa área. Estou a aborrecer-te?
Anete deu-se conta de uma coisa. Salvador tinha algo que o preocupava. Precisava pensar e estava a fazê-lo em voz alta. Ela não entendia nada de advocacia, mas ele não precisava que ela entendesse. Ele queria falar e  necessitava de que o escutasse. E ela estava a gostar de o ouvir.
- Não. Continua.
Na prática somos assim como um médico. Todos são clínicos gerais. Depois alguns escolhem especializar-se em áreas específicas como cardiologia, ou psiquiatria por exemplo. No direito, atualmente já nos podemos especializar em determinada área. Claro depois de termos praticado todas. Outros não chegam a tirar essa especialização pós curso, mas acabam por fazê-lo na prática, aceitando só casos da área em que sentem que são melhores. Eu tenho-me dedicado mais ao direito Empresarial, dando assessoria jurídica a algumas empresas. Já o Santiago tem a maior parte dos seus clientes no Direito Penal. Com mais alguns nos outros ramos do Direito civil, trabalhista, tributário, e outros, podíamos reunir na sociedade todos ou quase todos num só escritório, e não precisávamos rejeitar clientes, porque haveria sempre um advogado para aquele caso específico. Trabalhar em sociedade trás vantagens e dá outro prestígio. Por outro lado, perde-se a nossa liberdade, temos que por a nossa individualidade de parte, e trabalhar em equipa, coisa que nunca fiz. E tenho até ao fim do mês para tomar esta decisão.
- Sei que só querias desabafar, e não estás à espera de conselho meu. E ainda bem que assim é, eu não entendo nada de advocacia, nem de sociedades, mas pelo pouco que te conheço, sei que tomarás a decisão certa, seja ela qual for.
De súbito, ele disse algo que não se ligava em nenhum ponto com a conversa anterior.
- Gosto desta sala. É acolhedora. – Olhou o relógio e acrescentou. – Já é tarde. É melhor ir-me embora, antes que adormeças no sofá.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Ela seguiu-o.
Chegados à porta, pegou-lhe na mão e apertou-a entre as suas, dizendo:
- Obrigado por me teres proporcionado um excelente serão.
E saiu fechando a porta atrás de si.



5.7.17

ROSA - PARTE VI


Deixou-a sozinha. Rosa estava espantada. Foi até ao outro quarto. A tina para o banho era enorme. Devia caber lá dentro uma pessoa estendida. E ela estava habituada a tomar banho num alguidar. Tirou a roupa e meteu-se dentro de água. Estava fria mas não se importou. Afinal estava-se no fim de Setembro e o tempo ainda não ia muito frio. A toalha era tão macia, que se enxugou deliciada. Depois, procurou no armário alguma coisa para vestir e, entre os vários fatos que lá estavam, escolheu um vestido azul. Olhou-se no espelho e achou-se estranha, com o grande decote e a saia quase pelo joelho. Mas enfim se era assim que se vestiam na cidade…
Tinha acabado de se vestir quando a mulher a veio buscar para jantar. Na casa de jantar, já estavam quatro jovens a quem a mulher a apresentou dizendo que eram companheiras de trabalho. Ficou espantada. Devia ser uma casa muito rica para ter tanta criada.
Durante o jantar, enquanto a mulher foi atender o telefone, uma das raparigas perguntou-lhe se ia para a sala nessa noite.
-Fazer o quê? – Perguntou
- Esperar os clientes. A maioria vem de dia, mas alguns vêm sempre à noite.
- Clientes? Do quê?
A outra viu que ela não sabia do que se tratava e apressou-se a calar-se não fora a “madame” zangar-se.
Quando a mulher voltou, Rosa perguntou-lhe quando começava a trabalhar. Ela não se importava de começar já. Podia lavar a loiça e arrumar a cozinha. As outras raparigas olharam-se entre si espantadas.
- Falamos quando acabarem de jantar - disse a mulher
No fim do jantar, chamou-a a uma pequena sala e aí disse-lhe:
 -Aqui não terás que fazer trabalhos domésticos. Só terás que atender alguns clientes e seres simpática com eles. Em troca, terás comida, roupa e até algum dinheiro no fim do mês. Só não poderás sair à rua sozinha.
- Mas simpática porquê? Tenho que vender alguma coisa?
- Ó rapariga, mas de onde diabo vens tu? Ainda não percebeste? Isto é uma casa onde os homens vêm em busca de umas horas de prazer, ou de alguma fantasia que as mulheres não lhes fazem em casa. A “mercadoria são vocês”.
- Mulher da vida? – Perguntou a medo lembrando-se de quando ouvira a palavra lá na aldeia e perguntou à avó do que se tratava.
- Ah! Afinal sempre sabes alguma coisa.
- Não quero. Quero ir- me embora – gritou.
- Podes ir! - Disse a mulher com estranha calma. Vai dormir para o jardim onde te encontrei. A meio da noite, terás que aguentar os homens que por lá passem e sem que te paguem. Bem podes gritar, que se alguém aparecer e chamar a polícia ainda vais presa. Aqui, podes descansar hoje e amanhã começas a trabalhar. És muito bonita. Não vão faltar interessados.
Rosa, completamente destroçada, muda de espanto e medo, recolheu ao quarto e atirou-se para a cama a chorar desconsoladamente.


10.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXIV


                                                 foto do google


Passaram-se vários dias, em que Isabel trabalhou com afã, não só porque conseguiram dois novos clientes e precisavam idealizar as campanhas para eles, como também porque pretendia a todo o custo esquecer os factos recentes e os anseios e desejos que povoavam agora o seu coração. Habitualmente o mês de Agosto era sempre um mês de bastante trabalho. Em Setembro começavam os novos programas de TV e sempre havia clientes que desejavam renovar os seus anúncios nessa data.
A verdade é que a maioria tratava disso bem mais cedo, e nessa altura as campanhas estavam aprovadas e gravadas. Porém sempre havia alguém que se decidia à última hora. E depois queriam sempre o trabalho para ontem. Era um sufoco. Chegava a casa estoirada, e sem vontade para nada.
E a semana passou, e chegou a tarde de Sexta- feira. Por volta das quatro horas, Isabel guardou todas as suas coisas, encerrou o computador e disse:
- Amélia vou sair. Tenho hora marcada no cabeleireiro. Preciso fazer um corte, que não aguento assim com este calor. Levo a correspondência e passo pelo correio. Como já não volto, até Segunda.
- Telefono-te à noite - retorquiu Amélia. O Afonso e eu estamos a pensar ir a um bar novo no Bairro Alto. Vem connosco.
- Não vale a pena. Não penso sair.
- Anima-te. Dizem que é um sítio muito acolhedor. Não é verdade, Luísa?
- Eu gostei muito. Fui lá na semana passada, com o meu namorado e alguns amigos.
Ela não contestou. Agarrou nas cartas que Amélia lhe estendia, colocou sobre o ombro esquerdo a mala e depois de ter posto os óculos escuros saiu. Já na rua olhou o relógio indecisa.
 Estava quase na hora marcada. Se fosse primeiro ao correio decerto chegaria ao cabeleireiro atrasada. Decidiu ir primeiro ao salão.
Foi recebida com extrema simpatia. Era cliente antiga. Uma empregada lavou-lhe a cabeça e depois João, o cabeleireiro, veio fazer o corte. Isabel nunca se preocupava muito com o corte. Confiava plenamente em João e ele sempre decidia o corte em função da moda actual, mas também do tipo de rosto de Isabel. Naquele dia não foi diferente, e quando uma hora depois João lhe colocou o espelho, ela achou que estava bem melhor. Até parecia mais nova. As mulheres precisam de mudar a imagem de vez em quando, para levantarem a auto estima. Isabel saiu do cabeleireiro, sentindo-se bem mais bonita. Olhou o relógio. Faltava meia hora para  o  encerramento dos correios. 

6.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXI

foto do google


Quando na manhã seguinte Amélia chegou à agência, Isabel já se encontrava na sua secretária, analisando alguns documentos.
- Bom dia saudou. Caíste da cama?
- Bom dia, - respondeu Isabel. 
-  Estive quinze dias fora. Foi muito tempo. Preciso ver como estão as coisas. Há aqui dois clientes novos?
- Potenciais clientes, Isabel. Com a crise, as pessoas retraem-se e não compram. Por isso alguns empresários começam a investir em campanhas mais agressivas. Esses dois querem algo assim. Agora que chegaste vou marcar uma reunião para veres o que desejam e tentar fazer o contrato.
- E a Luísa?
- Ah! Esqueci de te dizer. A Luísa só vem de tarde. Foi chamada à Segurança Social. O tempo de estágio termina no fim do mês. Vais contratá-la?
- Estou a pensar nisso. Estamos a precisar de alguém e ela mostrou-se competente. É responsável e criativa o que no nosso trabalho é muito importante. Não vamos meter outra estagiária e estar a ensinar tudo de novo.
Ela já é a quarta estagiária que tivemos. As outras não tinham grande aptidão para o lugar. Agora que encontrámos uma competente, é uma estupidez mandá-la embora.
Durante uns segundos ficaram em silêncio. Depois…
- Isabel é verdade que não aconteceu nada nas férias?
Levantou a cabeça e olhou-a franzindo as sobrancelhas. Mas não respondeu.
Segundos depois Amélia insistiu:
- Ontem senti-te estranha. De vez em quando parecias ficar ausente. Entre nós nunca houve segredos. Sempre pensei que devias arranjar um namorado. E tu, tinhas dito poucos dias antes das férias, que te começava a pesar a solidão. Tinha esperança de que arranjasses alguém. Todas as vezes que te liguei senti que tudo estava igual. Mas ontem não. Até o Afonso comentou comigo que estavas estranha. Aconteceu alguma coisa? Não queres falar disso agora?
- Não há nada para falar, Amélia. Aconteceu que tive dois ou três encontros casuais com um homem no qual penso mais do que devia e isso desorienta-me. Na vida só amei o Fernando. Depois disso sempre que pensava refazer a vida, a imagem dele e as recordações sobrepunham-se ao meu desejo. Parecia-me que estava cometendo uma traição. Isso fazia com que logo desistisse.