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6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.



                                               

24.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE VIII


Pela primeira vez, viu no seu rosto um leve sorriso.
- Bom parece que está empenhada em mostrar serviço.
- Entusiasmei-me, nem dei pelas horas, - disse ao mesmo tempo que parava o gravador. Imprimiu a última folha, e fechou o computador. Teve vontade de lhe dizer que gostava da história, mas temeu que ele pudesse pensar que estava a intrometer-se.
- Deve estar cheia de fome. Vou pedir à Antônia que lhe faça um lanche.

16.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LII

        A filha mais velha do Manuel, à saída do Registo Civil

Manuel foi conversar com o gerente. Temia que ele dissesse que a porteira tinha que viver na Seca por causa de alguma emergência, mas ele disse-lhe que o emprego da mulher não corria risco. O que eles faziam ou onde dormiam fora das horas de serviço não era da sua conta. Os residentes na Seca se precisassem sair ou entrar fora dessas horas tinham chave, e os não residentes não podiam entrar fora das horas de serviço. E foi assim que no início de Abril começaram a habitar uma “casa de gente fina” como ele dizia todo feliz.  
 Entretanto a filha mais velha, tinha a papelada do casamento pronta, tinha alugado casa, mandara fazer o vestido de casamento, ela mesma fizera os cortinados e andava toda feliz. Mas… alegria de pobre nunca é completa. A meio de Abril, morre o irmão João. Foi um golpe terrível para ele. Durante mais de um mês nem o rádio que tanto gostava de ouvir, ligava.
Enquanto isso o país continua a sofrer com a fome, a guerra, e a privação de liberdade para manifestar as suas ideias. A remodelação ministerial do mês anterior, não produzira os resultados esperados e a 17 de Abril, começa em Coimbra, a revolta estudantil, que se manterá activa por vários meses. A 27 desse mês, Salazar faz oitenta anos e está claramente senil. 
Transmitido pela TV, foi o momento em que Neil Amstrong, pôs o pé na lua, quase no final de Julho. 
E no último dia de Julho,  regressa do leste de Angola, o namorado da filha mais velha. Compram os móveis e electrodomésticos, e ele vai viver para a casa que ela alugara, enquanto aguarda o dia do casamento que se pretendia religioso. Porém na Igreja não há vaga, teria que ter sido marcado bem antes, coisa que a jovem não fizera, por desconhecimento, e assim o casamento só poderia realizar-se três meses depois. Ansiosos, resolvem casar só pelo registo.
Casam a 16 de Agosto, no registo civil do Barreiro. A festa simples com a presença de familiares e duas ou três amigas da filha realiza-se em casa. Foi uma festa estranha, pois para a mãe da noiva, e restante família materna, fortemente religiosa, o casamento civil não era considerado casamento. A mulher do Manuel e as irmãs fartaram-se de chorar, nunca ninguém na família tinha casado apenas no registo.
Assim, elas consideravam aquele casamento, uma vergonha e uma imoralidade.