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18.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VII




A colega despediu-se, depois de mais umas perguntas ao doente:
- Bom, Helena, tenho que ir. Conversamos amanhã.
- Amanhã estou de banco. Ligo-te, quando puder. Obrigada, por me teres avisado.
Helena puxou a cadeira para junto da cama e sentou-se:
- Fico feliz por ver que está em franca recuperação. Cheguei a temer que fosse demasiado tarde quando o encontrei.
- Já me contaram doutora. Sei que lhe devo a vida, e não tenho palavras para lhe agradecer. Foi muito corajosa.
- Não tem nada para agradecer, mas se o quiser fazer, agradeça-me pondo da sua parte todo o empenho numa rápida recuperação. E não me chame doutora. Guarde esse tratamento para a minha colega, que é a sua médica. Trate-me por Helena. Vou deixá-lo. Precisa descansar. Vou passando quando puder, para ver como vai. Sei que está a passar por uma experiência difícil, Tente não ficar desesperado, tenha a certeza de que a equipa médica que o acompanha, vai fazer tudo para o ajudar.
- É um desespero, não saber quem sou. Esforço-me por me recordar de alguma coisa e nada.
- Bom, - disse ela pondo-se de pé. – Tenho que ir, está quase na hora do jantar. Quer que lhe traga alguma coisa, quando voltar?
- Uma cabeça nova, - disse sorrindo pela primeira vez.
Helena, não pôde deixar de notar, como a expressão no rosto masculino, se suavizara com o sorriso. Estendeu-lhe a mão.
- Se isso fosse possível até eu quereria uma, - disse rindo.
Ele apertou-lhe a mão entre as suas, e disse com a voz enrouquecida.
- Obrigado. Nunca vou esquecer o que fez por mim, doutora

Helena não respondeu. Suavemente soltou a mão e virou costas, perplexa com os seus sentimentos. O que é que estava a acontecer com ela? Não podia estar a interessar-se por um desconhecido. Disse a si mesma que era apenas o interesse profissional dum médico pelo doente, e isso tranquilizou-a um pouco. Olhou o relógio. Tinha demorado mais do que queria, estava quase na hora de saída da empregada. Tinha que se apressar. Ainda tinha que passar pela pizaria, tinha prometido ao filho que levaria uma piza para o jantar. A rua fervilhava de gente aquela hora. As montras decoradas, mostravam que se estava quase no Natal e ela ainda não comprara os presentes. Tinha que o fazer no próximo fim de semana.




Parece que os leitores, estão tão às escuras como o sinistrado. Ninguém aventura um palpite?

11.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE V





Chegou a casa já bastante tarde, cansada de carregar ao colo o filho adormecido. E no dia seguinte estava de banco, pelo que não se adivinhava um dia nada fácil. Acordou muito cedo, depois de uma noite de sobressalto em que dormiu pouco e mal.
A mãe telefonou logo pela manhã. Ela tinha ficado de ligar quando chegasse a casa, e com toda a confusão da viagem e no hospital, esquecera completamente, o que fez com que a mãe tivesse passado a noite insone com a preocupação.
Quando a empregada chegou, ela já tinha o filho levantado a tomar o pequeno-almoço, para ir para a creche.
O dia decorreu lento e atribulado, com três urgências. Quase ao fim do dia recebeu uma chamada para se apresentar na esquadra, a fim de assinar o boletim de ocorrência que o polícia em serviço no hospital fizera no dia anterior.
E ainda queria passar no outro hospital para ver o sinistrado, ou pelo menos saber como ele estava.
Teve que telefonar à empregada, a avisar que chegaria mais tarde, e pedir para ela ficar um pouco mais com o filho.
Na esquadra assinou o documento, e tentou saber alguma coisa mais sobre o acidente, mas segundo o agente a polícia estava a investigar, mas enquanto o homem não estivesse capaz de fazer declarações, era difícil saber o que se passara, já que como ela e os bombeiros declararam,  no local não foram encontrados,  nenhum sinal de acidente, nem nenhum veículo, e o sinistrado não tinha absolutamente nada nos bolsos. Era quase como se ele tivesse sido "despejado" naquele local, para morrer.
Depois foi ao hospital, falou com a doutora Sandra, a chefe da equipa que atendera a vitima,  soube que a cirurgia de remoção do baço, que lhe estava a provocar a hemorragia interna, correra bem, mas o doente era um politraumatizado, a nível das costelas, do rim, do fémur e da cabeça, e ainda estava em coma. 
Pediu à colega para a manter ao corrente do seu estado e a avisar quando ele recuperasse a consciência.
Tinha pensado ir vê-lo mas à última hora decidiu deixar para quando ele estivesse consciente. Já era tarde e a empregada devia estar desejando que ela chegasse.


Nota: Estas publicações estavam agendadas,  e como tal vão continuar a sair. Esta nota serve para informar que passei o dia em repouso e que a tensão se manteve estável, e que amanhã dia 11 vou tentar marcar a consulta que o médico mandou. Logo que possível volto, aos vossos cantinhos. Sinto saudades vossas.






6.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE II


- Bom dia! É verdade, embora só por dois dias, vim arejar a casa. E o ti’ Joaquim, já a apanhar as cebolas?
-Tem que ser. É uma pena teres esse terreno aí abandonado. Sabes o que devias fazer? Arranjar um marido, e voltares de vez. Tenho a certeza de que tanto a tua mãe como a tua avó, lá onde se encontram, ficariam muito mais descansadas se te vissem aqui a cuidar daquilo que tanto lhes custou a ganhar.
-Eu gosto disto, mas não sei se me habituaria a viver aqui de forma permanente. Habituei-me a viver na cidade, é lá que tenho a minha vida. Talvez um dia venda o terreno e fique apenas com a casa para passar uns dias quando me sentir mais cansada.
- De certa forma compreendo-vos. A aldeia não evoluiu, e o ser humano nunca está satisfeito com o que tem, então os nossos filhos partiram para a cidade em busca de melhor vida, e os filhos deles, que sempre tiveram muito mais do que os seus pais e avós, emigraram para o estrangeiro, porque a vida na cidade já não lhes chegava. E um dia vão dar-se conta de que lá, também é pouco para eles. E trabalham toda a vida cada vez mais, e nunca estão felizes, porque não sabem que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas que nos rodeiam.
- O Ti’ Joaquim é um filósofo – disse Teresa sorrindo.
- Já pareces o meu neto, com essa conversa.
- O Alberto? Não o vejo há mais de cinco anos. O que é feito dele?
- Acabou o curso, casou com uma colega e estão os dois a trabalhar num hospital no Porto. É o único que ficou cá e que vou vendo de vez em quando; os mais velhos foram para a Austrália, nunca mais os vou ver.
- Não perca a esperança, qualquer dia vêm de férias.
- Não. A Austrália, fica muito longe, as viagens saem demasiado caras. Depois partiram sós, lá arranjaram companheira, fizeram os seus ninhos, já têm filhos. Essa, é agora a família deles e aquele o seu país. Do resto não reza a história. Bom tenho que ir levar as cebolas à mulher que daqui a pouco ela pensa que me perdi. Gostei de ver-te. Se pensares em vender o terreno fala comigo. O meu cunhado que está na França está a pensar voltar. Quer comprar um terreno aqui, para construir uma casa, mas ninguém quer vender.
-Fique descansado se pensar em vender, vou ter consigo, - disse a jovem e acrescentou em voz baixa quando o homem virou costas. - Se calhar mais depressa do que aquilo que pensa.
Pouco depois levantou-se e empreendeu o caminho do regresso a casa. Teresa era uma mulher morena, alta e esguia, de cabelos e olhos castanhos.
Na aldeia, conhecia toda a gente, e todos a conheciam já que ali nascera, na casa da avó Rosário, onde também nascera Ana, a sua mãe, vinte e cinco anos antes dela. Teresa, não acreditava no amor, nem nos homens. O seu avô largara a sua avó grávida de cinco meses para se juntar com outra mulher. O seu pai, bom esse, nem sequer chegara a casar com a sua mãe. Quando soube que a tinha engravidado, simplesmente desaparecera.
Desde bem pequenina, Teresa habitou-se a ouvir a mãe e a avó dizerem que os homens não prestavam, não consideravam as mulheres como suas iguais. Serviam-se delas quando delas podiam tirar algum proveito e descartavam-nas quando já não lhes eram úteis. De modo que bem cedo, jurou a si mesma, que nunca ia querer saber de homem algum e assim se manteve até à atualidade.



Gente, alguém me explica uma coisa? O primeiro capitulo desta história na Sexta-feira teve 19 comentários e 14 visualizações. É possível alguém comentar sem ver?

4.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII









Por volta das quatro,  dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do mesmo, verificou que o empregado já não era o mesmo que o atendera no final da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita Sequeira, tinha deixado alguma mensagem para mim. O seu colega disse-me que não tinha nada, mas para passar a esta hora, podia ser que o senhor tivesse.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar, caso o senhor viesse procurá-la. - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contato? Só havia uma maneira de o descobrir. Com as mãos a tremer, abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 
Olhou a cabine telefone,pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu retomar a viagem. Ligaria à mãe quando chegasse a Castelo Branco. Afinal ela já sabia que tinha chegado bem a S. Pedro e só esperaria novo telefonema à noite. Pôs o motor a trabalhar e o carro arrancou em direção ao sul. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Bom gente ontem estive no Hospital de Santa Maria desde as duas e meia até aos vinte para as seis. 
As notícias não foram lá grande coisa. Foi-me dito que tão breve haja uma córnea, farei o transplante e também que embora seja uma cirurgia combinada, ou seja tirar pontos, silicone, redução de um edema ocular e transplante de córnea, não me será posta a lente nesse dia por uma questão de prevenção de possibilidade de rejeição. O professor disse-me que prefere que eu faça a recuperação total do transplante e só depois fazer uma pequena cirurgia para por a lente.  Postas as coisas neste pé, não será tão cedo que eu estarei livre disto. E já faz hoje 8 meses. 

6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.



                                               

27.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXII





O tempo não pára, os dias de inverno, são curtos e passam rapidamente. 
É extraordinária a facilidade com que os jovens estabelecem relações de amizade. Parecia que as duas jovens, se conheciam de toda a vida. Apesar de ter ficado sem pai há pouco tempo, Maria era uma jovem alegre e extrovertida. Namorava um colega, que a julgar pelo seu entusiasmo era a oitava maravilha do mundo, e, tirando a escassez monetária, era uma jovem feliz e sem problemas. Mariana era a antítese. Mas como diz a sabedoria popular, os pólos atraem-se.
 A exposição de Miguel fora um êxito, as obras foram todas vendidas, algumas para o estrangeiro.
As duas jovens, foram juntas ver a exposição, no dia seguinte ao da inauguração. Embora tivessem reacções diferentes, Maria parecia não estar habituada àquele ambiente, enquanto Mariana estava à vontade, mas ambas “viajaram” para locais lindíssimos através dos quadros expostos. O pintor, encontrava-se rodeado de várias pessoas, a maioria das quais, mulheres muito bonitas. Irritada, Mariana quase se arrependeu de ter ido.
Preparavam-se para sair, mas antes aproximaram-se de Miguel.
Maria cumprimentou efusivamente o pintor.
-Parabéns. Os quadros são lindos. O senhor é um génio.
-Quem dera, quem dera, - disse sorrindo divertido.
Logo se voltou para Mariana:
-E tu? Gostaste?
- Como não? São muito bons. Mas  não vi o quadro daquele lugar…
- Não faz parte da exposição.
-Porquê? Não o acabaste?
Não teve tempo de responder, pois um casal, chamava a sua atenção, e teve de se afastar.
Mariana continuava as suas sessões semanais de psicoterapia, mas exceptuando o facto do médico, ter mandado parar com a medicação, tudo estava quase  na mesma. Quase, porque eram cada vez mais frequentes , os lampejos  de rostos, e ruas , que apareciam e desapareciam sem que ela soubesse quem eram ou de onde eram.
O Natal aproximava-se a passos largos, montras e ruas cobriam-se de luz e cor.
Miguel passava longas horas no atelier. À noite quase sempre saía.
A jovem sentia-se “abandonada”. Não lhe apetecia ver TV. Os livros, começavam a aborrecê-la. Quase todos falavam de amor, de gente apaixonada e feliz. Coisa que ela começava a duvidar de vir a ser algum dia.
Porém naquela manhã, antes de subir para a mansarda, Miguel disse.
-Logo depois de almoço, vamos sair. O Natal é já para a semana, precisamos prepará-lo. Vamos às compras.
Sorriu, o coração batendo acelerado.

23.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXVI


                                          
. -Muito bem doutor. Mas, eu não posso ficar mais tempo na cidade. É imperioso que regresse a Lisboa. Posso viajar com a Mariana?- Perguntou Miguel.
- Do ponto de vista médico, claro que pode. Em Lisboa existem bons médicos, ela pode perfeitamente ser acompanhada lá. Pode inclusive ser melhor para o restabelecimento da normalidade cognitiva da paciente, se o factor causa-efeito, estiver nesta cidade. O afastamento do local, de uma tragédia, não faz com que ela seja menor, mas faz com que pareça menos trágica. Agora, do ponto de vista legal, pode ser problemático, uma vez que uma pessoa em amnésia, não tem vontade própria, e segundo me disse, a paciente não é sua parente. Mas isso, claro, não é comigo.  E sim com o senhor e as autoridades.
-Compreendo. E o doutor poderia recomendar-me algum colega, em Lisboa?
- Claro que sim. Se quiserem aguardar um pouco na sala, eu vou escrever uma carta a um colega meu. Convém que levem a RM. Se não puder esperar, passe pela clínica, deixe a morada que eles enviam-na pelo correio. Se não o fizer, o colega vai pedir-lhe para ir fazer outra e não há necessidade disso.
-Muito obrigado, doutor.
- Boa sorte! - Respondeu o médico.
Aguardaram alguns minutos na sala, até que a assistente, lhes veio trazer uma carta endereçada a um tal doutor João Serra, na rua António Augusto de Aguiar.
Consulta paga, e já na rua, Miguel perguntou:
-Está desiludida, Mariana?
-Não devia estar? Retorquiu com amargura.
- Não. Já sabemos que não tem nada físico, o que podia tornar irreversível o seu estado. Então é preciso não perder a esperança.
Amanhã vou despachar as telas para Lisboa, e depois seguimos nós. Precisamos comprar uma mala para as suas coisas. Vai gostar da minha casa em Lisboa. Fica num sítio muito bonito, e tem outras condições que esta não tem. E, preciso contratar alguém para ir consigo ao médico e lhe fazer companhia. Vou estar muito ocupado nos próximos tempos. Tenho uma exposição para fazer, e estou muito atrasado. Tenho que ver o espaço, na galeria, escolher as telas que vou expor, mandar fazer os folhetos de apresentação, os convites,  contatar a imprensa, um sem fim de coisas.
Calou-se ao ver que a jovem chorava.
- Mau. O que é isso agora?
- Estraguei a sua vida. Deixou de pintar, de ir às suas tertúlias, está farto de gastar dinheiro comigo. Devia ir-se embora sem mim.
Estacou, zangado:
-Não digas, asneiras, - disse tuteando-a pela primeira vez







6.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VI


João caiu no desespero. Nem ele próprio, se tinha dado conta, da intensidade do amor que tinha pela mulher. Mandou a sua assistente desmarcar todas as consultas, que tinha agendadas e fechou o consultório. Sentia vontade de largar tudo e desaparecer. E se não o fez, foi porque o sentido do dever para com os seus doentes, impunha-se mesmo ao seu desgosto. Não pediu o divórcio, se ela queria ser livre, que o pedisse. Durante meses, esperou todos os dias por isso, mas ela nunca o pediu, e ele também não. Como se adivinhasse o que se tinha passado, Inês que há algum tempo tinha regressado à cidade, divorciada, e já tinha tentado reatar a relação, sem qualquer sucesso, intensificou os seus esforços,  tentando cercá-lo numa teia de sedução, e recuperar o seu amor. Ele não lhe deu qualquer esperança. Para ele, ela morrera no dia em que descobrira a sua traição.
Durante quase um ano, sentiu-se no inferno, e só não caiu na depressão, graças à ajuda ao seu amigo Manuel, um excelente psicólogo, e a única pessoa a saber que a esposa o abandonara. Quando conseguiu enfim dominar o desgosto, reabriu o consultório, mas agora apenas duas vezes por semana. Os anos foram passando, e já lá iam quase quatro desde aquele dia em que Odete partira. João tinha agora, trinta e nove anos. Os cabelos apresentavam-se grisalhos e as rugas à volta dos olhos tinham-se acentuado. Profissionalmente tinha recuperado o prestígio de outrora. Mais. Era agora o diretor do hospital onde sempre trabalhara. No seu consultório, a sua assistente estava a marcar consultas, com três meses de espera. Ele não se importava. Quem tivesse urgência, procurasse outro cardiologista. Ele não voltaria a entrar naquela espiral de excesso de trabalho. Afinal para quê? Tinha mais dinheiro do que aquele que precisava para ter uma vida de qualidade. Não tinha filhos e já tinha perdido as esperanças de os vir a ter.  O facto de Odete não ter pedido o divórcio, criou no seu coração a secreta ilusão de que um dia ela voltaria.  E essa ilusão, dava-lhe forças para se manter vivo.
Abriu os olhos e endireitou-se. Pegou a garrafa de cerveja, e levou-a à boca. Bebeu um pouco e cuspiu de imediato para a garrafa. Estava quente e choca. Levantou-se e foi à cozinha, despejou a cerveja na lava loiça e pôs a vasilha no receptáculo da reciclagem. Introduziu uma cápsula na máquina e tirou um café. Precisava espantar o cansaço. Tinha que entrar em contacto com um colega espanhol por causa de uma técnica inovadora que ele usara no tratamento de um doente, e precisava estar bem desperto. Eram quase oito horas, a hora combinada para falaram. Foi ao quarto vestiu uma camisa, penteou os cabelos e dirigiu-se ao escritório onde abriu o computador.


21.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIV


Sentaram-se. Ela no sofá, ele no cadeirão em frente. Fitaram-se. Ela desviou o olhar, brincou com o anel.
“Está tensa. Parece receosa”, pensou ele.
 Inclinou-se para a frente, e instintivamente ela afastou-se um pouco para trás.
“Está com medo de mim. Mas porquê?"
Pegou no livro que estava na mesinha.
- Gostas de ler?
- Muito.
- É o teu autor preferido?
- É o primeiro livro que leio dele. Diana, a minha colega de emprego, disse-me maravilhas e instigou a minha curiosidade.
- Sabes que a tua irmã compra todos os livros deste autor?
-Sim? Talvez me empreste algum, quando acabar de ler esse. E tu? Costumas ler? Quem é o teu autor preferido?
- Não tenho tido grande tempo para o fazer ultimamente. Mas sim gosto de ler, embora não tenha um escritor favorito. Gosto de vários, nacionais e estrangeiros.
Calou-se e o silêncio voltou a instalar-se na sala. Um silêncio pesado. Como se ambos não soubessem o que dizer. Ou tivessem medo de dizer o que não queriam. Ele estudava todas as reações daquela mulher que o intrigava. Ela não sabia o que esperar daquela visita, estava numa fase crítica da sua vida, sentia-se frágil, carente, e ele era demasiado sedutor. Tinha receio do sofrimento que lhe adviria se cometesse a tolice de se apaixonar por ele.
- Gostei de conhecer os teus irmãos, -disse pousando o livro em cima da mesa. – O Ricardo tem uma bonita família.
-É verdade. A Teresa é uma boa esposa e uma excelente mãe. Todos gostamos muito dela. E os meninos, são uns amores.
“ Perdeu o medo, os olhos brilham. Vê-se que adora a família. Um tema a explorar, para que relaxe”.
- Vivem perto dos vossos pais?
- Vivem nos arredores de Coimbra.  O Ricardo gere a empresa de mudanças, do sogro.
- O Luís disse-me que trabalhava na Biblioteca Nacional.
- Sim. Às vezes v3m-me visitar. Como naquele dia. 
-Sei.
O silêncio instalou-se de novo entre eles. Tenso, incómodo. Ele levantou-se e foi até à janela. Afastou o cortinado e ficou a olhar pela janela. Lá fora a rua estava quase deserta. Era a noite de domingo, no dia seguinte começava uma nova semana de trabalho. Além disso as noites iam frias, em contraste com os dias quase de verão. Olhou o relógio, nove horas. Cedo demais para ir para casa. Atrás dele, Anete mantinha-se em silêncio. Numa espera nervosa. Ele não percebia porque é que ela tinha medo dele. Não pretendia fazer-lhe mal. Apenas queria… Ele nem sabia bem o que queria. Naquele momento, Salvador, o advogado brilhante, com um extraordinário dom de palavra, que deixava todos pendentes dele em tribunal, não sabia como lhe perguntar porque se divorciara. Tinha a certeza de que ela se iria retrair mais ainda e quem sabe o punha na rua. E ele estava a gostar de estar ali.
Na rua, um rafeiro tombou um recetor do lixo, espalhando-o no passeio em frente.