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14.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE VI


- Lena, já passa das dez e meia. Não te esqueceste da reunião na escola, pois não?

- Meu Deus, já? Estava distraída, com o inventário dos bens do caso Mendes verso Correia. Tenho que resolver isto esta semana. Mas agora tenho mesmo que ir. Até logo, Rita.

Saiu, meteu-se no automóvel e dirigiu-se à escola. Ficou aborrecida ao chegar e verificar que não tinha lugar para estacionar no parque frente à mesma. Deu uma pequena volta e estacionou numa transversal ali perto. A caminho da entrada olhou o relógio. Estava quase em cima da hora e ela detestava chegar atrasada. Apressou o passo e ao dobrar a esquina para entrar na zona da escola chocou com um homem que vinha em sentido contrário, trazendo uma menina pela mão. Teria caído se ele não a tivesse segurado.

- Está bem? – perguntou ele

- Desculpe, a culpa foi minha, estou atrasada, vinha quase a correr - disse ela  levantando os olhos para ele.  Nesse momento, o seu rosto empalideceu, sentiu que as pernas lhe tremiam, mas num enorme esforço de vontade, desprendeu-se dos seus braços, e correu para o portão da escola.

-Que mulher maluca! - disse a menina e dando a mão ao homem que continuava estático olhando o portão da escola, perguntou:

-Vamos?

-Vamos sim, Princesa, a tua mãe já deve estar a perguntar-se porque nos demoramos tanto.

 - A mãe não sabe que vou contigo. Ia ligar-lhe quando soube que não tinha as duas últimas aulas, mas então vi-te a saíres da sala de reuniões e já não o fiz.

Entraram no carro e a caminho de casa, ele perguntou:

-Conheces todas as professoras da escola, Sara? Aquela mulher é professora?

-Tenho a certeza que não. Nunca a vi antes. Mas hoje é dia de reunião de pais. Deve ser alguma mãe, que ia para a reunião das onze. Porquê?

-Curiosidade, Sara. Apenas isso.

Não voltou a falar até chegarem a casa. Gonçalo estava inquieto. Só tinha segurado aquela mulher durante breves segundos, mas a sensação que teve foi muito estranha. Como se de algum modo, o seu destino estivesse ligado ao daquela desconhecida.

 Chegaram. Mal teve tempo de estacionar, em frente da moradia e já uma jovem mulher abria a porta de casa.

- Já em casa, Sara? – perguntou admirada

- Não tinha as duas horas de Inglês. Ia telefonar-te, mas então vi o tio Gonçalo a sair da reunião e vim com ele. O mano?

- Está a dormir.  Vamos entrar. Gonçalo, quero que me contes tudo sobre a reunião. Como está a Sara nos estudos?

- Não tens razões para estar preocupada. A tua filha é uma ótima aluna. Vai ter excelentes notas como sempre.

-Obrigado. Não sei o que seria de nós sem ti. Vamos entrar?

Afastou--se para deixar entrar a filha e o irmão, fechando a porta em seguida. 

- Mãe, vou para o meu quarto fazer os TPCS.  Almoças connosco, tio?

- Se a tua mãe me convidar, - respondeu o homem sorrindo.

- E desde quando, é preciso convidar-te?  Não tens hospital hoje? – perguntou Laura.

 

Finalmente ontem levei a primeira dose da AstraZeneca. Mas ainda tive que ir buscar mais um documento ao meu centro médico. Hoje tenho uma nova ida ao hospital para uma consulta de pneumologia. Não me tem sido possível visitar-vos. Ou melhor tenho lido alguns dos vossos posts nas salas de espera, mas não consigo comentar através do telemóvel. Penso conseguir voltar ao normal no próximo fim de semana

28.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XII






No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando a hora da reunião.
Gabriel, chegou um pouco antes da hora marcada, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Cinco minutos mais tarde chegou Sandra. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. O empresário ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana anterior. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel  apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fez. Parece que andou por aqui, vasculhando o escritório dele, tentando encontrar alguma prova para ilibar o seu pai. Isso quer dizer que está convencida que seu pai é mesmo inocente. Posso saber o que lhe dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim própria, senhor.
- Muito bem. Porém deve saber, que na maioria das vezes, as nossas certezas são falsas. Às vezes a pessoa tem tentações a que não consegue resistir.
- Não o meu pai. E se o senhor não acredita que ele está inocente, não vai ajudar-me em nada. O melhor é ir-me embora, - disse levantando-se.
- Por favor sente-se e acalme-se. O Gabriel pediu-me ajuda e eu vim. Isso significa que quero ajudar. Deve compreender que na minha profissão, somos desconfiados por natureza e não conheço o seu pai. Tudo o que lhe possa perguntar, será o mesmo que perguntaria em qualquer outro caso em que estivesse envolvido, na certeza de que procurarei acima de tudo a verdade. Nem por amizade ou mesmo laços familiares eu falsearia um resultado. Entendeu? 
-Sim. Peço desculpa!
-Não precisa. Sei que para si a situação é muito dolorosa. Voltando à nossa conversa. Que mais lhe disse o seu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse-me que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha roubado o dinheiro.
-E ele desconfiava de alguém em particular?
- Não.
- E a Sandra? Desconfiou de alguém?
Ela enrubesceu e olhou para Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, talvez estivesse magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- Sim. Quando descobri que o senhor Gabriel Santana, comprou a parte do seu sócio, poucos meses depois da condenação do meu pai, acreditei que ele poderia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte.
- E por isso conseguiu o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. A empresa onde trabalhara até pouco tempo antes, mudara a sede para o norte do país e eu não podia afastar-me de Lisboa, por causa das visitas ao meu pai e então despedi-me. Procurava emprego, quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- É muito bonita, Sandra. Esperava apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado? - perguntou o inspetor olhando para o amigo com estranheza. 
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


E porque amanhã é um dia de festa, não haverá esta história. Mas por favor não faltem. Estão todos convidados.


17.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXIX




- Chegou a hora de me despedir!
Ela estremeceu e largou o pincel. 
Aquela frase, foi como uma faca rasgando-lhe o peito apesar de não ser de todo inesperada.
Desde a véspera, que Luísa sentia a luta que ele travava consigo mesmo, e intuía que a sua partida estava eminente. 
Uma semana se passara, desde aquela terrível noite de tempestade, em que ele chegara meio morto à sua porta. 
Sete dias de convívio diário que  mudaram  a sua vida para sempre. 
Inicialmente cuidara daquele homem, pois ele estava meio inconsciente e completamente vulnerável. Faria o mesmo com qualquer outro ser humano que necessitasse, fosse criança, ou idoso, ou até  mesmo por um animal, (afinal fora assim que ganhara a companhia de Tejo, quando o encontrara abandonado, maltratado e meio morto de fome).
Porém desde o primeiro momento em que ele recuperou a consciência, ela sentiu a forte atração que os uniu. Há muitos anos que se tinha imposto a si mesma uma vida de solidão e até então, nunca se tinha sentido infeliz com essa opção. Porém tudo mudou depois que ele chegou. Era  um homem muito atraente, mas era também educado, simpático, e adivinhava-se carinhoso, pela maneira com que a tratava. 
E embora sabendo que era uma loucura, o desejo de o ter mais tempo consigo, foi crescendo, hora a hora. Sabia que de um momento para o outro, ele podia recuperar a memória, e partir. E ela não era tão egoísta  que desejasse o contrário, mas sim, desejava que não partisse enquanto a atual situação se mantivesse.
  Por isso, para o reter, lhe tinha pedido para posar para ela, e tinha começado a pintar o seu retrato havia três dias. Era como se através do quadro, pudesse perpetuar a sua presença junto dela. Se acreditasse em amor à primeira vista, diria que se tinha apaixonado por ele desde o primeiro momento. Ou talvez fosse apenas atração sexual.  Afinal há mais de doze anos que não sentia o carinho de umas mãos de homem acariciando o seu corpo. Todavia  desde a véspera, ela sentia que a sua partida estava eminente.
- Mas para quê partir, se não sabes para onde? Ou já te lembraste de alguma coisa?
- Não, de vez em quando passam-me imagens rápidas pela cabeça, como se
 fossem flashes fotográficos. Há uma em especial que surge muitas vezes. É um bebé, e sinto que há uma relação forte comigo, mas não consigo lembrar de mais nada.
- Provavelmente, as tuas memórias a quererem voltar à superfície. Mas então porque não ficas mais um dia ou dois? Pode ser que, entretanto, te recordes de tudo.
-Não posso, Luísa. Somos ambos, adultos o suficiente, para nos darmos conta da atração que exercemos um sobre o outro. Por vezes a tensão sexual entre nós é tão grande que quase pega fogo ao espaço que nos rodeia. Ou pelo menos é o que eu sinto, e, creio não me enganar, ao pensar que tu sentes o mesmo. Agora mesmo leio no teu olhar, o mesmo desejo que me consome e não posso nem devo pagar dessa maneira a tua generosidade. Não esqueço que se estou vivo a ti to devo, e eu nem sequer sei se sou um homem livre.
-Compreendo, - disse ela voltando os olhos para a tela, o coração dividido entre a dor que a invadia, pela partida eminente e a alegria de saber que os seus sentimentos eram igualmente sentidos por ele. E sentiu uma enorme tristeza, ao  pensar que em qualquer parte do país, poderia haver outra mulher que estaria em sofrimento, sem saber o que lhe tinha acontecido. 
- E quando pensas partir? - perguntou com voz tremente. 
- Logo após o almoço. Quantos quilómetros são daqui à vila? – perguntou.
- Penacova, fica a pouco mais de três quilómetros. Mas o que vais fazer quando lá chegares?
- Ainda não sei. Mas suponho que se me dirigir ao posto policial, de algum modo a polícia me poderá ajudar.
- Bom, então será melhor que eu vá tratar do almoço. Deixa-me só lavar os pincéis.


8.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIX






Nessa noite, enquanto deitava o menino, pensou que se esquecera de avisar Rui, que na semana seguinte entrava de férias. Desde que entrara na firma, sempre deixara metade das suas férias para o fim do ano. Aquela era a época de menos trabalho, e para ela era importante pois o filho entrava de férias e não tinha ninguém de família na cidade, onde deixá-lo. Aquelas férias estavam marcadas desde o princípio do ano. De qualquer modo, a lei diz que em caso de necessidade, as férias podem sofrer alteração e com a restruturação da empresa, isso podia acontecer.
Mal o filho adormeceu, telefonou à amiga.
- Luísa, esqueci-me de avisar o Rui que entro de férias segunda- feira. Crês que vai haver problema?
- Caramba Tê, devias tê-lo feito. Esta tarde, ele disse que no ritmo em que estão as coisas, tudo estará pronto na próxima semana, o mais tardar quinta-feira e depois vai dar férias coletivas ao pessoal até ao início do ano. E tu vais faltar segunda-feira sem avisar?
-São as minhas férias. Estão marcadas desde o início do ano.
- Eu sei. Mas as condicionantes são outras, devias ter-lhe dito.
- Mas não posso ir. Não tenho com quem deixar o Martim.
- O Tiago pode levá-lo para a oficina. O André vai com ele e adora o ambiente da oficina. Pelo menos na segunda, até falares com ele. Depois logo vês.
- E o Tiago não se importa?
- Não mulher. Até vai agradecer. Os dois brincam juntos e deixam-no mais livre para trabalhar. E depois se entrarmos de férias quinta-feira, são poucos dias.
- Obrigada. Não sei que seria da minha vida sem ti.
Disse-lho a meio da manhã de segunda-feira, depois de terem falado com os dois trabalhadores, que tinham em opção para o lugar de chefe da secção B.
- Era para não ter vindo trabalhar. Oficialmente estou de férias até ao fim do ano.
- Como assim? Não me disseste nada.
- Por isso, estou aqui. Esqueci-me de te avisar na sexta-feira.
- Não podes ir de férias agora. Estamos a trabalhar em velocidade supersônica para acabar tudo dentro de três dias. Depois vai tudo de férias,
- Mas assim eu fico prejudicada. Não gozei as férias para as deixar para o fim do ano. São as minhas férias, não és tu quem mas dá.
- Sabes que te daria muito mais do que umas férias, não sabes? – Disse fitando-a muito sério. 
- Ela corou e baixou o olhar incapaz de ver as promessas que os olhos masculinos exibiam
Procurando aparentar uma serenidade, que não existia, disse:
- Voltemos ao trabalho. Já decidiste?




25.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE V






Setembro chegava ao fim, todavia  o sol brilhava quente e intenso a lembrar o Verão que há dias tinha dado lugar ao Outono.
Ricardo despiu o fato-macaco com que estivera a trabalhar com um dos seus mecânicos numa limusina que tinha sido alugada para um casamento dois dias depois, lavou as mãos, e encaminhou-se para o escritório.
Era um homem alto, delgado, de ombros largos e longas pernas. Teria perto de quarenta anos, moreno de olhos cinzentos e cabelos negros. Um homem muito interessante, uma presença forte, marcante. Era o dono da "Impala," uma empresa de carros de luxo, para aluguer, com ou sem motorista. Empregava dez motoristas, quase todos também mecânicos, mas não raras vezes ele mesmo se ocupava da verificação de alguma reparação mais complicada.
Era um empresário bem-sucedido, os seus motoristas eram recrutados entre os melhores, e eram reconhecidos pela eficiência e educação. Talvez por isso tinha tantos clientes fiéis.
Já no seu escritório, verificou primeiro o correio eletrónico, e só depois as cartas que a sua secretária tinha colocado em cima da mesa. Cartas do banco, faturas para pagar, recibos de contas pagas. Por último uma carta dirigia a ele e não à firma. Ficou surpreso. Quem diabo lhe escreveria e o que quereria dele? Olhou o remetente. Isabel Penha Sarmento. Não conhecia ninguém com aquele nome. Bom, o melhor era abrir a carta e ver logo do que se tratava.
Abriu o envelope, e retirou duas folhas de papel. A primeira, escrita à mão com uma letra bem desenhada dizia:

“Caro Senhor:
Ricardo Souto Medina
Sei que não me conhece e decerto estará a pensar que lhe estou a roubar o tempo, que lhe é tão precioso por nada. Acredite que me custa imenso fazê-lo. Protelei esta carta durante dez meses, mas prometi a alguém que conheceu bem, mas que já partiu, que o informaria de que o senhor foi pai de uma menina em Junho do ano passado. Junto a cópia da certidão de nascimento da menina, e verá que ela tem o seu nome.
Lamento se esta notícia vai atrapalhar a sua vida, mas promessa é promessa e eu cumpro as minhas, mesmo quando elas me afetam.
Se tiver algum interesse em conhecer a sua filha, a minha morada está no remetente.
Isabel Sarmento”

Ricardo leu e releu a carta. Depois pegou na cópia da certidão de nascimento e leu Matilde Sarmento Medina filha de Susana Penha Sarmento e de Ricardo Souto Medina.
Largou a cópia como se ela queimasse. O seu rosto moreno tinha perdido a cor. Que raio de história era aquela? Como é que alguém que ele nunca conhecera se atrevia a dar o seu nome a uma criança? Aquilo era caso de polícia.


E AGORA? SERÁ QUE SUSANA ENGANOU A IRMÃ?




E porque amanhã é domingo, esta história volta segunda. Deixo um apelo aos meus amigos portugueses. Não engrossem a fileira dos abstencionistas.  Que adianta levar o ano inteiro a clamar se quando podemos fazer alguma coisa para tentar inverter a situação não o fazemos?

26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIII







Chegou uns minutos depois.
- Desculpem. Atrasei-me um pouco. Vou só lavar as mãos, volto já.
O almoço decorreu animado. Matilde, queria saber tudo, fazia muitas perguntas.
Simão respondia brincando com a irmã. Os pais sorriam felizes, e Ana comia calada. Sentia-se marginalizada. Porque é que o irmão, não tinha sido assim simpático com ela, como o estava sendo com Matilde?
Acabado o almoço, o pai voltou para o escritório. A irmã, que tinha combinado ir ver uma casa com o noivo, despediu-se dizendo que iria à noite ao aeroporto.
Simão, também se aprestava para sair, quando ela disse:
-Espera. Quero falar contigo.
A empregada, levantava a mesa, e a mãe que se dirigia para a sala, disse.
- Porque não vão para o escritório do pai? Lá podem conversar à vontade.
Nenhum dos dois respondeu, mas Ana encaminhou-se para o escritório, e ele seguiu-a.
Ela entrou e aproximou-se da janela. Ele fechou a porta e apoiou nela as costas.
Semicerrou os olhos. Como era linda. Assim, vista na contraluz da janela, era como uma aparição.
Decorreram uns momentos de espera até que ela se voltou. Estava zangada. Ele sabia. Conhecia-a, como se conhecia a si mesmo. Escondeu as mãos nos bolsos, para que ela não se desse conta dos punhos cerrados, quando se aproximou.
- Vais ficar aí especado sem dizer nada? A porta não cai.
- Eu? – Procurou parecer indiferente. - Estou à espera. Afinal foste tu que quiseste falar comigo.
- Vais-te embora hoje e não me dizias nada. Soube pelo pai. -  queixou-se ela.
- Não tinha que te dizer, Ana. Sabias que ia estar poucos dias, tenho uma exposição na próxima semana. Tens a tua vida, a tua casa, que nem sei onde fica, não ia ao escritório para to comunicar. Além disso, supus que o pai o fizesse.
- Não é desculpa, Simão. Os telefones também servem para as pessoas se comunicarem. E não me venhas dizer que não sabias o número. Qualquer pessoa desta casa, to daria.
Era verdade. Ele sabia que lho devia ter comunicado. Porém preferia partir sem se despedir dela. Era menos doloroso. E só ele sabia o quanto lhe doía.  

reedição

Amanhã vou estar fora em visita de estudo. Desculpem a ausência

15.5.18

RENASCER - XXXVII





Obrigado a todos os que me deram os parabéns, mas o livro é uma Antologia de vários poetas, onde colaboro com dois poemas que na imagem não estão completos, mas que eu já publiquei neste espaço pelo que alguns já conheciam. 

Se quiserem lê-los na integra, aqui têm os links

LOUCA PERIGOSA

SE EU TIVESSE CORAGEM

4.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. PARTE XXVIII




Nunca uma semana passou tão depressa para Amélia. Naquela mesma noite falou com o filho e contou-lhe sobre a proposta de casamento de Paulo. A criança ficou pensativa por alguns momentos, e depois disse:
- Tu disseste que para arranjar um namorado era necessário gostar muito dessa pessoa, e que ela gostasse de nós. Eu gosto do Paulo, mãe. Nada me deixaria mais feliz, do que contar com ele como se conta com um pai. Eu sinto que ele gosta de nós. De mim, de ti. O problema é teu. Será qua gostas dele como dizes que é preciso?
Amélia ouviu o filho, espantada com a sua lógica. O seu menino estava a demonstrar-lhe que tinha crescido. Com os olhos rasos de água abraçou a criança.
- Sim, filho, a mãe gosta dele. Não sei como aconteceu, conhecemo-nos há tão pouco tempo, mas encantei-me com o seu jeito, a sua gentileza, a maneira como te trata, e até com os sentimentos que descobri nele, nestes dias.
- Então, mãe, não há problema. Suponho que casarão em breve, e podemos enfim ser uma família.
Paulo ficou encantado, quando depois de Martim ir dormir, ela lhe telefonou, e contou a conversa que tiveram 
No dia seguinte depois, de ter estado uma hora com Pedro, dando-lhe dicas que podiam ser importantes para a defesa que estava a elaborar, dirigiu-se ao gabinete que partilhava agora com Carlos e pô-lo ao corrente do desejo do cliente em doar metade da propriedade. Carlos que a olhava curioso, por a achar diferente naquela manhã, perguntou-lhe:
- Como sabes tu disso? Não me digas que passaram juntos, o fim-de-semana.
-É claro que não, mas encontrámo-nos sim. Ou melhor o Martim encontrou-o num passeio na quinta da avó. Sabes que ele é vizinho da avó Maria?
- Muito me contas. E então ele pediu ao Martim para te dizer que desejava doar metade da quinta?
- Não brinques, é sério. É claro que nos encontrámos depois. E que o adverti de tudo o que devia em relação a essa doação, mas ele está seguro do que quer. A pessoa a quem quer beneficiar, é o seu caseiro, que na verdade, ele considera como irmão de criação, já que foram criados juntos lá mesmo na fazenda, que segundo diz era nesse tempo, bem mais pequena. Eu disse-lhe para procurar os documentos de propriedade, para que pudéssemos agendar a doação e os novos registos de propriedade. O problema é que ele gostaria de ter tudo pronto para o dia dois de Maio, porque o beneficiado, faz anos nesse dia, e ele queria dar-lhe essa posse, como prenda de aniversário.
- Dia dois? Mas temos apenas dez dias úteis até ao dia dois. Vou dizer à Margarida que lhe telefone, ou queres fazê-lo tu?
- Diz. Eu telefono.
- Bem me queria parecer. Até tiraste a aliança. Grandes progressos. “Não brinques com isso, Carlos. É apenas um conhecido que me ajudou a mudar o pneu” – disse tentando imitar a voz de Amélia e lançando a seguir uma gargalhada.  Estou a ver que o chefe tanto esperou para te fazer sócia para acabar por te promover, quando te vai perder. E mais, vai perder um dos seus melhores clientes.
- Porque dizes isso?
- Ora, não te lembras do que ele disse de ter os advogados nos seus próprios escritórios, trabalhando em exclusivo com ele?
-Achas que me vai propor isso?
- Ó não. Acho que te vai propor casamento. O resto vem por acréscimo. Telefona lá ao homem e diz-lhe que traga todos os documentos da propriedade esta tarde. Não temos tempo a perder.



Aqui podem ver a netinha que hoje fez 9 anos, bem como os dois bolos de aniversário para as duas festinhas que lhe foram dedicadas

24.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XV




O resto da semana, foi de trabalho intenso para Amélia, de tal modo que até se esqueceu de falar com o irmão sobre a festa do filho, coisa que ele acabara de lhe recordar, quando o fora buscar naquela Sexta-feira.
Mal chegou a casa, e enquanto o filho preparava as suas coisas para o fim-de-semana, em casa da avó Maria, pegou no telemóvel e telefonou ao irmão.
- Ora vejam se não é a minha irmãzinha querida. Como vais? E o meu sobrinho? Continua a ser o melhor aluno da turma?
- Viva Ricardo. Não são grandes as saudades da gente. Nunca apareces, não telefonas.
- Telefonaste para me recriminar?
- De modo algum. Telefonei para te pedir um favor especial. O Martim, vai ter para a semana, a festa de fim do período escolar. Vai haver um torneio de futebol entre pais e filhos, e ele pede-te que vás com ele, em vez do pai.
- Para a semana, em que dia?
- Sexta-Feira.
- Tenho imensa pena, mas não vou cá estar. No Domingo é o nosso aniversário de casamento, tirámos uns dias de férias e vamos para Cabo Verde. Assim como se fosse uma segunda lua-de-mel. Partimos quinta-feira no avião da noite.
- Meu Deus. O Martim vai ficar arrasado.
- Não podes pedir a um colega?
- Estás doido? O único que ele conhece, e que aceitaria é o Carlos, mas ele tem sessenta anos. Estás a vê-lo a jogar futebol na escola com os miúdos? Ia ser uma risada.
-Tenho muita pena, maninha, mas não posso fazer nada. Se me tivesses falado antes de comprar os bilhetes, teria marcado a viagem para o dia seguinte, mas assim…
- Ok. Não te preocupes. Se não voltarmos a falar, desejo-te uma feliz viagem, e uma ótima lua-de-mel. Dá um abraço à São.
- Obrigado. Beijos para os dois.
Desligou o telefone, e ficou pensativa. Quando pensou em ter um filho por inseminação, fê-lo para compensar a dor da traiçãodo marido, e da perda do seu próprio bebé. Agiu emocionalmente, não pensou que mais tarde poderia vir a arrepender-se daquela decisão. E agora… não é que estivesse arrependida de ter tido o filho. Ele era o grande amor da sua vida. Mas como podia ela compensar a sua dor, de não ter um pai a acompanhá-lo no crescimento.
- Estou pronto, mãe. Não vamos embora? Depois vamos chegar de noite e dizes sempre que não gostas de conduzir de noite.
- Vou já filho. Levas os livros para fazeres os trabalhos de casa?
- Claro, mãe. Não ia deixar para domingo, não sei a que horas chegamos.
- Então dá-me cinco minutos, para meter algumas coisas numa mala e vamos já.



Atenção, a quem quiser dar uma olhada pelo meu registo de ontem, pode fazê-lo AQUI

15.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII







No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria no seu escritório, na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando o horário.
Chegou um pouco antes da hora, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Logo depois, Sandra chegou. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até quase aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. Gabriel ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fizeste. Parece que andaste por aqui, vasculhando, tentando encontrar alguma prova para ilibar o teu pai. Isso quer dizer que estás convencida que teu pai é inocente. Posso saber o que te dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim mesma, senhor.
- Muito bem. E que mais te disse teu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha o dinheiro.
-Teu pai desconfiava de alguém em particular?
- Não senhor.
- E tu? Desconfiaste de alguém?
Ela enrubesceu e olhou o rosto de Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, sentiu que estava magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- A princípio pensei no senhor Gabriel Santana. Soube que poucos meses após a condenação do meu pai, comprou as acções do sócio, e pensei que podia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio vendesse.
- E por isso conseguiste o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. Eu estava desempregada quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- És muito bonita, Sandra. Esperavas apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado?
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


10.7.17

ROSA - PARTE XII



                     O posto médico da Seca do Bacalhau
                            A foto é minha.

De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do Bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a)  Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que confirmou as palavras da Ti' Urbana .  Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante três dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total.  "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.


Continua

a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal,  era ilegal e podia até dar cadeia.



10.3.16

MANEL DA LENHA PARTE XXIX

        As filhas do Manuel com as coleguinhas. 

Em Outubro de 56 a segunda filha do Manuel foi para a escola. Agora ficava só o filho em casa pois ainda não tinha idade. Arménio, tinha um problema com a fala. Era um miúdo muito inteligente, que com terra e água, se entretinha em grandes construções, mas pronunciava mal as palavras,  Entendia toda a gente, mas poucos o entendiam a ele. Chamava as irmãs, Elvira, de Nebida, e Lourdes, de Nudes. E os pais, de Pachino e Machina. Mas havia outras palavras que saíam ainda mais arrevesadas, algumas autênticas asneiras.
Um dia a mãe, levou-o ao médico, que uma vez por semana ia à seca. Porém ele disse que só o tempo o poderia curar, se é que algum dia ficaria curado.
 Uma camarada lá na seca, (ali, mulheres e homens tratavam-se de camaradas, sem a conotação política que mais tarde se lhe atribuiu na política), disse à mãe, para meter o miúdo num fole ª), e correr sete freguesias, carregando-o no dito fole. Porque a mãe não acreditou na mezinha, ou porque não teria forças para carregar o miúdo, as sete freguesias que distavam muito umas das outras,  não o fez.  O certo é que faltava um ano para o catraio ir para a escola, e a sua linguagem era tão arrevesada que às vezes nem a própria mãe o entendia.
Também em Outubro chegaram os navios, e o trabalho na seca recomeçou. O miúdo ia para a seca com a mãe, e o tio, que tomara conta deles enquanto mais pequenos foi trabalhar também, até porque precisava de dinheiro para as suas coisas, e a irmã e o cunhado quase nunca o tinham para lhe dar.
Nesse mesmo ano, ainda Novembro não ia  a meio, um violento temporal abateu-se sobre a seca. O vento parecia ciclónico e as chuvas intensas, "varreram" a Azinheira. O barracão, ficou sem telhado, e a chuva encharcou tudo o que havia para encharcar. Felizmente que as duas meninas estavam na escola, e o pequenito tinha ido com a mãe para o trabalho. O Manuel também estava no trabalho bem como o cunhado, o que fez com que pelo menos não houvessem danos físicos.
Com pena do Manuel, que não tinha dinheiro para comprar e pôr um telhado novo, o Capitão mandou entregar-lhe telhas de lusalite, iguais às que cobriam os diversos armazéns, e o Manuel lá pôs o "telhado " com a ajuda do cunhado e de um amigo e vizinho. Foi uma trabalheira, mas à noite o barracão estava coberto. Apesar disso, nessa noite, todos dormiram no chão, enrolados em sacos de serapilheira, dos que serviam para ensacar o bacalhau, e que o gerente lhes deu, já que toda a roupa ficara encharcada, e até os colchões de palha de centeio teriam que ser esvaziados e a palha posta a secar ao sol
Pouco tempo depois, com a ajuda do cunhado, Manuel pode enfim comprar um leitão no mercado. Pôs um balde na malta dos homens para recolher os restos de comida, e levar para o porquinho.


ª) saco ou bolsa de couro