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21.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXII




Cumprimentou as empregadas, e os poucos clientes que havia aquela hora, e dirigiu-se à cozinha, onde se encontravam Hugo o padeiro, Mário o pasteleiro, e os três ajudantes Maria, Acácio e Alfredo. Depois de os cumprimentar, perguntou:
-Como correram as coisas por aqui durante a minha ausência?
- Se exceptuarmos o maior movimento no sábado por termos fornecido os doces e o bolo de casamento para a Quinta do Marquês, nos outros dias o movimento foi o habitual nesta altura do ano - respondeu Mário.
- Bom, quero dizer-vos que durante uns tempos vou ficar afastada. Daqui a pouco chegará a pessoa que ficará a gerir o negócio. Trata-se da Inês, a minha amiga, que todos conheceis, até por ser filha aqui do Mário. Quero que todos vós, a tratem com o mesmo respeito com que sempre lidaram comigo. Confio em vós, para que esta casa, que de certa maneira também é vossa, já que é o vosso local de trabalho, continue a ser o que tem sido até hoje. Um local de referência para quem a procura. Do seu sucesso, depende o meu e vosso ordenado.
- Vai para fora? – perguntou o padeiro.
- De momento não.
- E vais ter coragem, de não apareceres por aqui, morando a meia dúzia de metros? - perguntou Mário.
- A menos que por qualquer razão me chamem, terei sim. Com a Inês na gerência, a minha presença aqui, pareceria um ato de vigilância, como se não tivesse confiança no seu trabalho. Bom vou para o escritório.
Pouco depois, recolhia e metia num saco, os poucos objectos pessoais, que tinha na secretária. Depois abriu a carta da eletricidade, registou no livro das despesas a importância e arquivou a fatura.
Ligou o computador e verificou o email da empresa, enquanto pensava na decisão que tomara. Ia sentir saudade do movimento na pastelaria. Das conversas com os clientes, de ajudar a estender ou a rechear as massas, do cheiro do pão acabado de sair do forno, que se misturava com o aroma da canela, ou da baunilha, ou o cheiro forte do café. Porém estava convencida que tomara a melhor atitude. Pelo menos durante a gravidez. Apoiou os cotovelos na secretária, e apoiou a cabeça entre as duas mãos abertas, precisamente quando Inês entrava no pequeno gabinete, que servia de escritório.
- Bom dia! Não te sentes bem?
- Bom dia! Estou bem não te preocupes. Estava apenas a pensar, nas saudades que ia sentir do movimento na pastelaria. Foi a minha vida durante vários anos.
- Mas não tens que sentir saudades, moras a meia dúzia de metros, podes estar aqui sempre que te apeteça.
- Eu sei, mas prefiro não vir. Bom senta-te e vamos conversar. Ontem não falámos de ordenados, não sei quais são as tuas expectativas quanto a isso.
- Não as tenho. Tu dirás o que pensas que mereço em relação ao trabalho que irei executar, sem esquecer a minha prática inexistente.
Teresa referiu uma quantia e perguntou:
-Parece-te bem?


5.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXV


As horas decorriam com lentidão e cheias de preocupação em casa do Gil. As empregadas mantinham-se caladas e Inês tentava acalmar Mariana, sem muito sucesso. Era como se a menina se apercebesse do ambiente pesado que se vivia em casa e isso a assustasse.
No fim das consultas, Laura dirigira-se a casa do irmão, disposta a não sair dali, enquanto não soubessem notícias dele. E pouco depois Alcides, o noivo, reuniu-se-lhe. Ambos, tinham tentado vezes sem conta, entrar em contacto com o desaparecido, mas o telemóvel mantinha-se desligado. Quase à hora do jantar, chegaram Marco e a esposa, Isabel, que apresentava um ar cansado, provocado sem dúvida pelo seu avantajado ventre, de grávida de sete meses.
Enquanto jantavam, procuravam tomar decisões sobre o que fazer para tentar encontrar Gil. Interrogavam-se sobre o que lhe teria acontecido, quando Alcides disse:
- Já vos passou pela cabeça, que o Gil pode ter sido raptado?
Os outros pararam de comer e olharam-no incrédulos.
- Não me olhem assim. Por mais que pense só me ocorre essa possibilidade. Vejamos, ele telefonou às dez e meia da noite a dizer que estava na autoestrada a caminho de casa. E que ia chegar tarde. Portanto vinha pela A1. Mesmo que a essa hora ainda estivesse na zona do Porto, e contando que com a tempestade, não poderia conduzir a grande velocidade, chegaria a casa o mais tardar às três da manhã. Mas não chegou. Segundo informação da polícia não há qualquer registo de acidente, e o carro dele não foi encontrado. Vamos supor que ele decidiu sair da autoestrada e pernoitar em qualquer sítio por causa da tempestade. Poderia não telefonar durante a madrugada, mas tê-lo-ia feito logo de manhã. E teria vindo para casa de seguida. O Gil sempre foi um homem muito responsável, e depois do nascimento da Mariana tornou-se ainda mais. Por outro lado, o vosso irmão, que já era dono de uma fortuna considerável, não só por via dos grandes contratos de futebol que teve, como do que recebeu em publicidade, mas também porque tem um excepcional diretor de recursos financeiro, que aplicou uma boa parte do seu dinheiro em negócios que já quadruplicaram o investimento inicial. E com o êxito dos seus livros, e a venda dos direitos para o cinema, será talvez neste momento, o homem mais rico do País e um dos mais ricos da Europa. Não é isso mais que suficiente, para pensarmos num rapto?
- Mas… se assim fosse não deveriam já ter ligado para pedir o valor do resgate?- perguntou Laura.
- Talvez, mas nem sempre os raptores telefonam imediatamente. Devem pensar que quanto mais tempo passar, mais a família fica preocupada e mais fácil é, cederem às suas exigências.
- E o que devemos fazer?- interrogou Marco
Se realmente houve um rapto, não podemos fazer nada a não ser esperar. Entretanto, amanhã vou à polícia e denuncio o seu desaparecimento. Como já terão passado mais de vinte e quatro horas, e dado o seu perfil, é possível que a polícia inicie de imediato as buscas.  Convém que um de vós como família, me acompanhe à esquadra.
- Eu vou contigo, - disse Laura de imediato.
- Amanhã de manhã, tenho uma reunião com um cliente. Mas se achas necessário eu também vou - disse Marco.
- Não será preciso, basta a Laura, a polícia vai querer falar contigo assim que inicie uma investigação, mas isso será mais tarde. 
Fez uma pausa, enrugando a testa como se estivesse a pensar nos passos a seguir, e continuou:
- Depois como seu advogado e procurador, vou ao banco saber se houve algum movimento na sua conta. E pedir que nos avisem de imediato se isso acontecer.  Feito isso, só nos resta esperar.
O resto da refeição decorreu em silêncio. Nenhum  se atrevia a dizer em voz alta o que lhes ia na cabeça, mas todos tinham a certeza de que algo muito grave tinha acontecido.
Pouco depois do jantar, Marco disse que ia regressar a casa, alegando que a esposa estava muito cansada e precisava descansar. Perto da meia noite, também Alcides se despediu, pois Laura decidira ficar a viver em casa do irmão, até que houvessem notícias.




18.11.19

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XV






Nos dias que se seguiram Gil, teve que ir ao aeroporto esperar o pai de Sara e os seus meios-irmãos, e levá-los para um hotel. Apesar da sua casa ter espaço suficiente para os instalar, ele vira-os apenas três vezes em todo o tempo que durou o seu casamento, não tinha com eles um vínculo afetivo que lhe permitisse sentir-se confortável em partilhar com eles a sua casa. Por outro lado, eles eram respetivamente avô e tios da sua filha, e tinham todo o direito de querer vir a Portugal ver a menina quando quisessem. Foi isso mesmo que disse ao sogro, quando o levou ao hospital para que pudesse ver a neta.
Pese a tragédia que se abatera sobre a sua vida, Gil contava com o apoio constante dos seus irmãos. Marco e Laura, que logo que soube do nascimento da sobrinha viajou para Portugal.
Foi Laura quem fez as entrevistas para a ama da bebé, apesar das empregadas de Gil, garantirem que entre as três cuidariam da menina, com todo o carinho, como se de uma neta se tratasse. Mas Laura disse que a criança precisaria de uma pessoa mais jovem para cuidar dela. E dado que era uma bebé prematura, ela exigira e acabara por contratar, uma ama com conhecimentos de enfermagem. Gil ainda nem a vira, apenas sabia pela irmã, que se chamava Inês, tinha trinta anos e era divorciada. Bom a vida da ama não lhe interessava, só desejava que fosse competente. Ela iria ao escritório do advogado assinar o contrato no dia seguinte, e seria a partir desse momento a ama da sua filha. Laura decidira que ela devia ir todos os dias ao hospital e estar com a menina todo o tempo que lhe fosse permitido a fim de que a bebé, se habituasse à sua presença.
Também o doutor Alcides, foi de uma enorme ajuda. Ele estivera presente junto da família, como se de um membro da mesma se tratasse, muito embora Gil pensasse que não o fazia apenas por altruísmo. Não lhe passara despercebido, o agrado do advogado quando lhe apresentara a sua irmã. Nem a troca de olhares que surpreendeu entre os dois por mais do que uma vez. Se isso ia significar ou não alguma coisa, não sabia, mas não lhe desagradava nada se os dois se apaixonassem. Tinha pelo advogado uma relação que ia muito para além da que um cliente tem pelo seu causídico.
Após o funeral, Gil acompanhou a família da sua falecida esposa ao aeroporto, reiterou o convite para virem visitar a bebé quando quisessem, mas o sogro usando de uma franqueza que muito lhe agradou, disse:
- Não será muito fácil, voltar a Portugal tão cedo. A minha família, é grande, os dois rapazes mais velhos, que já estão a trabalhar dão uma pequena ajuda, mas os dois também se preparam para constituir família, e não podem ajudar muito
. Os outros ainda estão na escola, e eu e a minha mulher trabalhamos muito para lhes dar o essencial. E as viagens para Portugal, são caras.
- Mas isso não é problema. Só me dizem quando querem vir, eu trato do resto.
- Eu sei que o senhor é rico e que o faz sem qualquer esforço, mas não. Se o aceitei agora, foi porque era a única hipótese que tínhamos de nos despedir da nossa querida Sara. Nunca mais o farei. Um homem pode ser pobre, mas isso não quer dizer que não tenha orgulho. De qualquer modo, muito obrigado por tudo, e se por acaso um dia for a França com a menina e quiser passar pela minha casa, vou ter muito gosto em poder abraçar a minha neta.
Despediram-se com um forte abraço. Gil ficou no aeroporto até o avião se elevar nas alturas.







4.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IX








Estacionou o carro no único lugar vago perto da empresa, e dirigiu-se para a mesma.
Olhou o relógio antes de entrar na loja. Ainda faltava meia-hora para a abertura das portas ao público, embora ele soubesse que o seu irmão e as funcionárias já se encontravam lá dentro. Abriu a porta, entrou e voltou a fechá-la atrás de si.
Bons dias, - saudou.
Bons dias, - responderam as três pessoas que se encontravam
na loja nesse momento. O seu irmão e as duas empregadas que se afadigavam a marcar peças e a coloca-las nas prateleiras.
- Marco podes vir comigo ao escritório, ou ainda falta muito para acabarem?
- O que falta, não demora mais de cinco minutos, a Teresa e a Raquel acabam – respondeu o irmão largando a peça que tinha nas mãos, e seguindo-o. 
Uma vez no escritório, Marco colocou uma mão sobre o ombro do irmão ao mesmo tempo que perguntava:
-Há alguma novidade do hospital?
- Não. Se houver serei informado na hora, e ninguém me telefonou. Vem, vamos sentar-nos tenho que conversar contigo antes que o doutor Alcides chegue, -disse Gil sentando-se atrás da secretária e indicando ao irmão a cadeira ao seu lado.
- É assunto sério? – perguntou o irmão.
- É, se não fores capaz de levar a empresa com sucesso sozinho. Vou passar os meus sessenta por cento para ti. Uma prenda de aniversário, um pouco atrasada, mas ainda no mesmo mês.
- Mas isso representa muitos milhares de euros. Não posso aceitar, até porque na prática a empresa é tua, já que foi com dinheiro que me deste que a iniciei, e toda a sua expansão foi feita sempre exclusivamente por ti.
-E de que me serve o dinheiro, se não for para tornar felizes as pessoas que amo? Daqui a pouco quando chegar o advogado, vou tratar desse assunto e em breve, tudo passará para ti. Provavelmente terás que procurar um bom gestor, para te ajudar, principalmente se concretizares o projeto da nova loja em Faro. Bem sei que o gerente que temos no Porto é uma pessoa séria e competente, mas de qualquer modo não te poderás desligar completamente do seu funcionamento.Já conheces o ditado. "É o olho do dono que engorda o burro" O dr. Alcides, pode aconselhar-te na escolha. Ele tem bons conhecimentos, saberá decerto de algum bom gestor, que possas contratar.
- E a Laura? - perguntou o irmão
- O que é que tem a Laura? – admirou-se Gil
- Não vai ficar magoada em saber que passaste tudo para mim e a deixaste de fora?
- A Laura teve a Universidade paga assim como a sua especialização em Nova Iorque. Quando voltar a Portugal, vou montar-lhe a clínica dos seus sonhos. Não tem nada a ver com as lojas de desporto. É uma neurologista, lembras-te?
- Bom, só não queria mau ambiente entre nós, por causa dessa doação.
- Nunca haverá mau entendimento entre nós, Marco. Passamos por muitas dificuldades juntos e isso uniu-nos mais do que o sangue que nos corre nas veias.