Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta sofrimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sofrimento. Mostrar todas as mensagens

11.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIII

 




O resto da refeição decorreu quase em silêncio.
-Está uma noite demasiado bonita para irmos já para casa. Queres ir dar uma volta? Podíamos ir pela marginal, talvez até Belém, o que achas? – perguntou Nuno quando saíam do restaurante.
- Já te disse que não costumo sair à noite. Confio em ti. Vamos onde quiseres desde que não chegue muito tarde a casa.
- Tens medo que a carruagem se transforme em abóbora?
- Não. Tenho medo de sonhar. Nem eu uso sapatos de cristal, nem tu és um príncipe apaixonado.
Fora direta. Ele engoliu em seco. Não podia responder de igual modo. Os seus sentimentos estavam confusos. A barreira que erguera à sua volta, explodira em milhares de bocados, como se fora de cristal. Ficara a lembrança do seu corpo macio, dos seus beijos ingénuos e simultaneamente apaixonados. Da confiança com que se lhe entregava. Sentiu que o seu corpo reagia aquelas lembranças. Passou a mão pela testa, como se assim eliminasse aquelas imagens.  Conduziu até Belém e estacionou no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltou-se para ela:
- Vamos conversar, Ser diretos e expurgar de uma vez o passado. Precisamos disso, como do ar que respiramos. Eu pelo menos preciso. Começas tu, ou eu?
- Começa tu. 
- Muito bem. Já me disseste que o teu pai te forçou a acabares comigo e te marcou o casamento com outro homem. Lamento sinceramente que não tenhas tido a coragem de me dizer a verdade. Teria tentado demover o teu pai, dessa ideia, e ainda que o não conseguisse não teria levado anos a amaldiçoar-te, julgando-te uma leviana que tinha troçado dos meus sentimentos. Por não teres tido a coragem de seres sincera, perdi a confiança nas mulheres e renunciei à hipótese de formar uma família, ter filhos. Calculas o que foi a minha vida durante estes dezasseis anos? Não te será estranho que quando pensava em ti apenas sentisse raiva e desejos de me vingar provocando-te o máximo sofrimento. Cada vez que te imaginava casada, dando a outro o que já tinha sido meu, sentia vontade de te matar. Graças a Deus que estava longe. Se estivesse aqui, talvez agora estivesse numa prisão.  
As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Luísa, quando tomou a palavra.
Não penses que sofri menos do que tu. Também não vou dizer que sofri muito mais, o sofrimento não se mede ao metro, nem a peso. Mas tu eras maior e livre. Pudeste partir e de certa maneira estavas a realizar o sonho da tua vida, decerto de algum consolo, isso terá servido. Eu não tinha ninguém. Meu pai casou-me com um monstro. O meu casamento durou catorze meses, mas para mim foram mais que catorze anos. Uma infinidade de tempo, em que o sofrimento era tanto que quase enlouquecia.
De súbito desabotoou os botões do casaco e abrindo-o, expôs aos olhos do homem a parte superior do corpo, apenas coberto pelo sutiã de renda e cheio de cicatrizes.
-Olha para o meu corpo Nuno. É assim que o recordas? – perguntou com voz rouca. - Estas são as marcas da felicidade que o meu marido me deu.
Voltou a abotoar o casaco, e continuou
- Não penses que são apenas estas. Todo o meu corpo ficou marcado. Meu Deus, tenho vergonha e nojo de mim mesma, cada vez que penso no que passei.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
- Acalma-te, não quero saber mais nada, não quero que recordes essas atrocidades. Perdoa-me.
- Não. Deixa-me continuar. Tu mesmo disseste que precisamos expurgar o passado.

4.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XX

 



- Não te preocupes pai. Confesso que antes de saber o que acabas de contar-me, passaram pela minha cabeça desejos de vingança. Afinal sou humano, sofri muito, e durante todos estes anos, agarrei-me à ideia de que ela era uma leviana, que nunca sentiu nada por mim e só se tinha divertido à minha custa. 
Mas tu pintaste-me um quadro em que a minha ideia não se enquadra. E isso leva-me a repensar tudo o resto. A por em causa o meu desejo de vingança. Preciso descobrir, onde está a verdade.
- Gostaria que vocês se entendessem. Estás quase com quarenta e dois anos. Já cumpriste os teus sonhos, já viveste e sofreste demais. Parece que ela também deve ter tido a sua conta de sofrimento. Se assim não fosse teria voltado a casar. É uma mulher bonita, educada, e deve ter um bom pé-de-meia, uma vez que o marido era um homem rico. Nem um nem outro são crianças. Quem sabe não estão predestinados um ao outro? Pensa nisso. Já está na hora de deixares de ser um solitário.
- Já falámos sobre isso, pai. Sempre fui orgulhoso. Nunca me exporia perante uma mulher.
- Nem mesmo perante a Luísa?
- Dela menos do que qualquer outra. Rejeitou-me quando era jovem, bonito e…inteiro.
- É melhor pagar e irmos embora. Quando falas assim, lamento que não tenhas menos trinta anos. Porque a minha vontade é dar-te um bom par de  açoites.
Pôs-se de pé. Estava zangado. Não suportava ouvir o filho falar assim. Nuno colocou o dinheiro em cima da mesa, para pagar os cafés e seguiu o pai. Sabia que ele estava zangado, mas não podia fazer nada contra isso. Era assim que ele sentia, e não ia contra os seus sentimentos para agradar a ninguém, nem mesmo ao pai, que ele admirava e amava.
Fizeram o percurso de volta em silêncio, cada um submerso nos seus pensamentos.
Meia hora mais tarde, Nuno despedia-se dos pais e regressava à sua casa. Pegou no jornal e tentou ler. Sem sucesso. Sentia-se nervoso com a ideia de ir jantar com Luísa. A vida era como um filme muito estranho. Quando se levantou nessa manhã, nunca pensou que ia encontrar a jovem, que por causa dela o seu pai se tinha aborrecido com ele, e que daqui a umas horas ia jantar com ela. Olhou o relógio. Dezassete horas. Não era a essa hora que começava o famoso dérbi Benfica –Sporting em futebol? Ligou a TV e sintonizou o canal. O locutor, anunciava a formação das equipas.
Foi à cozinha buscar uma cerveja, e sentou-se no sofá. Só ia buscar Luísa às vinte. Tinha tempo de sobra para ver o jogo.



28.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVIII

 

- Conta-me o que sabes sobre a Luísa, pai.
- Em dezasseis anos nunca quiseste saber nada dela, nem mesmo quando eu te escrevi a dizer que tinha enviuvado. A que vem esse interesse agora? Encontraram-se?
- Há quase um mês no hospital. Era uma das professoras daquele autocarro de miúdos, lembras-te? De resto era quase impossível não a encontrar, já que está a morar na casa que era do pai, e portanto relativamente perto de mim.
- Há quase um mês? E só hoje te chegou a curiosidade? – perguntou João, fitando o filho com curiosidade.
- Encontrámo-nos hoje no supermercado. Convidei-a para jantar.
- Olha Nuno, fui testemunha do teu sofrimento há dezasseis anos, quando ela te deixou. Nunca tinha visto alguém sofrer tanto por amor. Suponho que foi esse amor que te impediu de refazeres a tua vida, junto de alguma das mulheres que certamente conheceste, em todos estes anos.
- Não foi por amor, sim por ódio. Ela espezinhou os nossos sonhos, matou tudo o que de bom havia em mim.
- Sabes que não é verdade. Continuas a ser um bom homem, um idealista que a vida toda trabalhou em prol dos mais desfavorecidos. Isso é o que de bom havia e há em ti, meu filho. Depois, quantas vezes o ódio não é apenas uma máscara do amor?
- Não quero discutir os meus sentimentos, pai. Até porque hoje já não tem interesse, eu nunca mais posso aspirar ao amor de uma mulher, não seria capaz de olhar nos seus olhos e ver pena em vez de amor. Mas ainda não me disseste nada sobre ela.
-Desiludes-me filho. O que te aconteceu não te torna menos homem. Olha para ti. És ainda jovem, tens saúde, e és um excelente profissional. Não tens porque te sentires diminuído, nem temer sentimentos de compaixão, que só existem na tua cabeça.  Mas voltando à Luísa, o que sei, foi a Lucinda, a amiga da tua mãe que lhe contou. Como sabes ela é vizinha da jovem. Parece que o pai da rapariga, a obrigou a casar com um vizinho que tinha uma quinta, onde passava grandes temporadas. Depois de casada, foram viver para a quinta, e só vinha à cidade para ver o pai, que entretanto adoeceu com cancro, e morreu uns meses, depois. Só a vi uma vez durante esse tempo e confesso-te que fiquei impressionado. Estava muito magra, pálida e parecia muito assustada. O marido não a deixava sozinha, estava sempre a seu lado. Ele era muito mais velho, já era viúvo, e dizem que morreu, porque a Luísa se atirou do carro em andamento, e ele perdeu o controlo do carro. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ele morreu e ela nunca contou a ninguém, pelo menos que a gente saiba.
- Não sei que tanto vocês têm para conversar. – Disse Arminda, a mãe de Nuno. E acrescentou. – O almoço está na mesa.



30.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem daquele jovem alto e magro, de uma palidez extrema, que encontrara na primeira consulta, surgiu na sua memória. Voltou-se e perguntou:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas lhe aflorassem aos olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a à sala, fazendo com que se sentasse no sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou - disse sentando-se ao seu lado e segurando a mão da mãe entre as suas.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da progenitora, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde a primeira consulta, as análises e do diagnóstico  médico, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, pensando que assim ela não assistiria ao seu sofrimento, da chegada às Termas,  de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para não ter que contar à jovem que não podia assumir um compromisso porque podia morrer de um momento para o outro. Falou-lhe do desespero que sentia, até porque cada dia se sentia melhor, e da sua decisão de voltar ao médico para fazer novos exames, coisa que fizera nessa mesma tarde. Por fim contou a conversa com o médico, as análises trocadas, e de como se sentia feliz, apesar de sentir pena daquele jovem que só vira uma vez e que morrera tão novo.   A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu tenha de viajar amanhã cedinho para as Termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação dona Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo me pede.



16.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE VII




Pedro saiu do consultório como se fosse perseguido por mil demónios. Três meses eram tudo o que lhe restava. E a mãe? Tinha que pensar na mãe. Entrou num café e pediu uma água. Precisava acalmar-se. A mãe não podia vê-lo assim. De uma coisa tinha a certeza. A mãe não ia saber o que se passava. Ele não ia fazer a mãe passar por esse sofrimento. Uma boa ideia seria uma viagem. Queria que a mãe o recordasse assim como era hoje e não que o visse no sofrimento final. Morrer jovem já era mau suficiente, para não querer ver o sofrimento da sua velha e amada mãe.

Finalmente, mais calmo, pagou a água e dirigiu-se a casa.

- Olá mãe, que tal o seu dia? - perguntou com estudada naturalidade, enquanto se inclinava para a beijar.

- Que disse o médico das análises filho? Foste lá, não foste? - perguntou ansiosa.

- Claro que fui, mãe. E não te preocupes está tudo normal. Disse que ando nervoso, preciso de me distrair, talvez mudar de ares durante uns tempos. Nada que já não me tivesse dito antes.

Sentia remorsos da maneira como estava a enganar a mãe, mas consolava-o o pensamento de que assim ela não sofreria tanto.

- Estive a pensar que vou tirar umas férias e vou para qualquer lado, descansar.

- Acho bem, filho. Claro que me custa estar longe de ti, mas se é pela tua saúde, acho bem.

- Mas a mãe não fica longe. Vai comigo - disse antevendo a resposta da mãe.

- Isso não, filho. Eu só seria um estorvo para ti. Nunca estarias descansado, e acabarias por levar a mesma vida que aqui. Vou escrever à minha irmã Rosa, para que venha passar um tempo comigo. E tu poderias ir para a casa da Palmira, a irmã do teu pai. A casa é grande e ela está sempre a convidar-nos. E aqueles ares de lá são muito bons para a saúde.

De repente Pedro pensou que nunca tinha ouvido a mãe dizer a palavra falecido, quando se referia a seu pai. Dizia sempre o teu pai, ou o meu homem, como se nunca tivesse aceitado a sua morte e continuasse à espera que ele chegasse a qualquer momento. Lembrou da tia Palmira, da sua simpatia e pensou que talvez fosse boa ideia ir para lá. Depois se não se desse bem poderia sempre recorrer a um hotel.

- Seja minha mãe. Amanhã falo com o patrão e peço férias.




9.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XX




- Já. Escolhi o Raul. Parece-me ter mais capacidade de encaixe com as novas técnicas e outras inovações que espero introduzir. 
E de repente como que numa súplica:
- Passa o Natal comigo!
Estremeceu. Aquele homem desconcertava-a. O que é que pretendia dela? Levá-la à loucura? Fazer com que esquecesse os oito anos de sofrimento e abandono?
- Não posso.
-Porquê? Vais passar com a tua família?
 -Vou. – Mentiu, pois na verdade ia passar o Natal, em casa de Luísa.
- E não posso ir contigo? Gostava de conhecê-los.
- Não achas que é muito tarde para isso? Teria ficado muito feliz se há oito anos, tivesses aceitado o meu convite. Em vez disso, abandonaste-me de forma cobarde, enquanto eu ansiava pelo fim das festas para voltar para ti.
- Tens razão. Fui um canalha. Deixa-me provar-te que estou arrependido. Dá-me uma oportunidade de te demonstrar o meu arrependimento.
Sentia que lhe faltavam as forças, mas não podia ceder. Foram muitas noites sem dormir, muitas lágrimas derramadas. Anos e anos de sofrimento, incapaz de pensar num novo amor, o peito corroído pela rejeição.
- Por favor! Voltamos ao trabalho ou amanhã dou inicio às minhas férias, - ameaçou.
- Voltemos então ao trabalho,- suspirou ele.
Mas ambos sabiam que os seus pensamentos andavam distantes do trabalho.
 Não o viu nos dois dias seguintes. Devia estar absorvido pela resolução dos múltiplos problemas que iam surgindo, e na verdade, resolvida a questão de escolha do novo chefe, e até que a "Tudilar" começasse a laborar em pleno, ela não podia ajudar em muito.
Finalmente na quinta-feira no fim da manhã, tudo ficou pronto. Ele cumprimentou cada um deles. Depois acrescentou, que após o almoço poderiam partir e voltar a dois de Janeiro para um ano de trabalho intenso. E acabou desejando um Feliz Natal a todos.



12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XX





- Antes de te expor a minha ideia, quero fazer-te uma confissão. Tenho um amigo, ex-investigador da Judiciária, a quem pedi para te investigar. Deves compreender que aquela carta me deixou meio maluco, pensei que estava a ser vítima de um qualquer esquema, e nem sequer acreditei na história de teres tido uma irmã que se suicidara. Desculpa, não é agradável para ninguém saber que andaram a invadir a sua privacidade, mas deves perceber a minha situação. Por outro lado, eu podia calar-me e talvez nunca viesses a descobrir que o fiz, mas para mim a sinceridade é vital. Também te digo que quando tive o resultado do teste de ADN, fiquei desconcertado, mas esse meu amigo, explicou-me como se processava e foi ele que me disse que só podia ser coisa do meu irmão.  Por razões que talvez te conte um dia, desde a escola primaria, que ele fazia asneiras e arranjava sempre maneira de passar a culpa para mim e ser eu o castigado. Foi o que fez com a tua irmã, apresentando-se como se fora eu. Provavelmente com receio de que a tua irmã descobrisse que ele era casado. E agora temos que resolver este problema. A tua irmã queria que a menina, conhecesse o pai e eu prefiro que ela acredite que eu sou o pai, a que conheça o verdadeiro.
O empregado voltou com os pratos e retirou-se desejando bom apetite.
Ricardo esperou que ele se afastasse para continuar.
- Penso que não é justo, tirar-te a criança, uma vez que seria um sofrimento para as duas, pois como disseste ela nunca conheceu outra mãe. Antes de te fazer a minha proposta, vou perguntar-te até que ponto estás disposta, a sacrificares a tua vida por ela.
- Daria a minha vida, por ela se fosse preciso, – respondeu encarando-o com firmeza.
- Era a resposta que esperava. O que te peço é bem mais simples. Casa-te comigo, e resolvemos o problema.
Ela engasgou-se. De tal modo que parecia sufocar. O seu rosto começou a ficar roxo, e era nítido que não conseguia respirar, nem sequer tossir. Rapidamente Ricardo levantou-se, colocou-se atrás dela, pôs-lhe as duas mãos debaixo dos braços, levantou-a e executou a manobra de Heimlich, fazendo com que expelisse o bocadinho de Salmão, e recomeçasse a respirar. Nessa altura já o empregado se encontrava junto da mesa, a perguntar se era necessário alguma coisa, e havia vários pares de olhos, fixos na jovem, que envergonhada, só tinha um desejo.  Tornar-se invisível. Ricardo ajudou-a a sentar-se e deu-lhe um copo com água dizendo.
- Bebe devagar. Está tudo bem agora. Desculpa, não pensei que podia provocar um acidente.
Esperou vê-la mais calma e só então voltou para o seu lugar na mesa.
- Meu Deus que vergonha! Nunca me tinha acontecido nada assim. Não conseguia respirar, pensei que ia morrer.
- Não te preocupes, pode acontecer a qualquer um. Não te apetece mais? – perguntou ao ver a posição em que ela colocava os talheres.
- Não consigo comer mais nada.
-Nem sobremesa?
- Não. Só café.


23.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... FINAL


reedição





-Vem comigo Sandra, vamos até lá fora. Está sufocante aqui.
- O que te sufoca, são os teus receios, não o ar aqui dentro - retorquiu-lhe a amiga.
Saíram. Na rua alguns jovens conversavam. E estava frio. Mas estranhamente Cecília sentiu-se bem.
- Será que ainda demora? E será que vem mesmo?
- Claro que vem. Tem calma. Vamos voltar para dentro. Aqui gela-se.
Entraram. E Cecília voltou a embrenhar-se nos seus pensamentos. Lembrou do sofrimento que lhe causara a morte do marido. E do luto que a si mesma impôs. Mas depois... com o passar do tempo, não era mais a figura calma e doce do marido que ela recordava, mas o jovem impetuoso e apaixonado que ficara em Portugal. Tentou esquecer. E refazer a sua vida. Em vão. Pela amiga com quem falava quase todos os dias pela Internet, sabia da vida de João. Dos seus desvarios, das noitadas, da vida de excessos de celibatário. E a ideia começou a germinar. Resolveu voltar e procurá-lo. Disse-o a Sandra que a incentivou.
Lembrou-se da avó, que costumava cantar:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Despediu-se do emprego e marcou a viagem. Só depois contou aos pais, a quem prometeu, que mandaria notícias tão depressa tivesse a vida organizada. Depois quem sabe, também eles voltariam para a sua Lisboa de que tinham tantas saudades. E agora ali estava ela, esperando ansiosa, e disposta a lutar, para conseguir a felicidade com que sonhava desde menina, ao lado do homem que sempre estivera dentro do seu coração. Sentiu a mão da amiga apertar os seus dedos, e ao olhar para a porta, todo o seu corpo estremeceu, enquanto as suas faces se ruborizavam, ao reconhecer a figura masculina.
AGORA era a hora...



Fim


Elvira Carvalho



Bom como sabem não fui operada na Segunda-feira, e ainda não me telefonaram da clínica para confirmara se será para a próxima o que me faz estar um pouco ansiosa. Por outro lado há 36 horas que não tenho um ataque de tosse pelo que penso que talvez já tenha passado.
Outra coisa que me traz muito curiosa é a história das visualizações.
Desde que começou o ano todas as Terças-feiras, e apenas nesse dia,o Sexta tem imensas visualizações, praticamente todas provenientes de um local desconhecido e dos Estados Unidos. 
Na maioria dos dias, ando entre as 300 e as 400. Vem as Terças e são 800, 900 e hoje terminou o dia estamos assim.
Esquisito, não?






Visualizações de página de hoje
1.011
Visualizações de página de ontem
380
Visualizações de página do mês passado
15.440
Histórico de todas as visualizações de página
581.105
Seguidores
Gerenciar o rastreamento das suas exibições de página




30.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXVI




No regresso, o pai estava cansado e passou-me o volante, À saída de Sevilha, uma carrinha que acabara de fazer uma curva, despistou-se e veio em cima de mim. Vi que ia bater de frente, e tentando fugir, guinei para a esquerda, o que fez com que a carrinha abalroasse a lateral direita do carro. O meu pai, que se tinha deixado dormir a meu lado, teve morte imediata.
 - Não foi por mal, Miguel, juro que não foi. Eu só queria tirar o carro da trajectória da carrinha, disse redobrando o choro.
O homem estava impressionado com o sofrimento da jovem. Percebeu que o sentimento de culpa era tão grande que a jovem não aguentara, e o subconsciente se refugiara na amnésia.
- Não fiques assim. A culpa não foi tua. Foi um acidente. Pensa que podia ter sido o contrário. Podia ser o teu pai que estivesse ao volante, e ele teria reagido exactamente da mesma maneira. Qualquer condutor reage dessa maneira. É instintivo. Não te atormentes. Tenta descansar. Vou buscar-te um copo de leite morno. Dizem que acalma.
Foi à cozinha e voltou com o copo de leite. Ajudou-a a deitar, e puxou-lhe a roupa para cima, cobrindo-a como se ela fosse uma criança.
- Agora, sê uma menina bonita e dorme. Amanhã conversamos.
- Não quero ficar sozinha, Miguel – murmurou segurando-lhe a mão
Sobressaltou-se o homem.
Dominando-se sentou na beira da cama.
-Está bem, dorme. Eu estou aqui.
-Cansada de tanta emoção, depressa a jovem adormeceu.
Ele ficou durante um bom bocado velando-a. Assim abandonada no sono, parecia ainda mais bonita, mais indefesa.
Sentiu-se incomodado. Como se a sua admiração de algum modo maculasse a pureza da jovem.
Levantou-se, apagou a luz e saiu rumo ao seu quarto.
Finalmente a jovem recuperara a memória. Mas havia ainda muita coisa por esclarecer. Se o acidente fora em Abril, e em Sevilha, o que fazia ela no final de Setembro em Lagos? Que teria acontecido, e por onde andaria, nesse intervalo temporal?
De toda a história ele retivera uma coisa. Com a morte do pai, ela ficara sozinha no mundo. Isso explicava porque nunca ninguém a procurara. Mas ela dissera que o pai gastara todas as economias na compra da casa. Onde seria essa casa. E a jovem estava preparada para viver sozinha? Teria meios financeiros para isso?  
Em toda a sua vida, Miguel nunca se tinha visto numa situação tão complicada.
Que devia fazer? Nem sequer podia recorrer à ajuda médica, pois as sessões de psicoterapia tinham sido suspensas até depois do Ano Novo.  
Já o dia despontava, quando finalmente adormeceu.
Quando Luísa chegou, admirou-se com a porta do quarto fechada, sinal de que Miguel ainda dormia. Desde que trabalhava na casa, era a primeira vez que tal acontecia.





  

11.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos, Gabriel não gostava de ver uma mulher a chorar.  
Sentia-se atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua insignificante secretária era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão. Nunca se sentira tão desconcertado. Principalmente porque sentia um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la. Por outro lado, sentia-se enganado, enraivecido e com vontade de denunciá-la à polícia.
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem vim. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro foi fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar..
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia, e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento que o deixou atônito.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
-Não. Vim com a Inês.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não. Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tem qualquer interesse o que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão cansada!
- Chegamos.
Ele estacionou, saiu e deu a volta ao carro. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Ele abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!