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17.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XX





- Diogo adormeceu antes da hora da missa, e foi preciso levá-lo ao colo, tarefa dividida entre a mãe e os avós. Embora Fernando fizesse questão de o levar, Helena disse que não era prudente, havia apenas três semanas que tinha feito a cirurgia.
 Durante a missa, o homem suplicou ao Jesus Menino que lhe concedesse a graça de recuperar a memória. Helena também suplicou ao Deus Menino pela  recuperação dele.
No regresso foram distribuídos os presentes. Uma vez mais Fernando se emocionou ao ver que Helena embrulhara alguns presentes em seu nome para ele distribuir. Aquela mulher era um anjo que Deus lhe mandara num momento de provação. Por fim todos se foram deitar. 

O dia de Natal amanheceu coberto de neve, o que provocou a alegria do menino, que na sua curta vida nunca a tinha visto a não ser na televisão. Ele e Fernando, fizeram um belo boneco em frente à casa, antes da ida à missa matinal.

Depois da homilia, toda a família cumpriu o ritual de beijar o Menino Jesus.
Após o almoço, como o dia estava muito frio, e continuava a nevar, toda a família ficou em casa. Diogo adormeceu, e os adultos entretiveram-se com um animado jogo de cartas até à hora do lanche, altura em que a criança acordou. As horas decorriam lentamente. 

Helena pensava que nunca um dia de Natal lhe parecera tão longo. Esperava que no dia seguinte o inspetor visse a mensagem. E que dissesse alguma coisa. Mas como tudo que começa, acaba, também aquele interminável dia chegou ao fim.

No dia seguinte, encontravam-se à mesa, a tomar o pequeno-almoço, quando o telemóvel tocou. O inspetor informava que tinha lido a mensagem, mas precisava da presença urgente do jovem na esquadra. Precisavam tirar-lhe as impressões digitais, e verificar se correspondiam às de Fernando Monte Real, pois a foto só por si, não queria dizer que se tratasse dele, pois todos sabem que há pessoas que são cópias exatas de outras. E como ele continuava sem memória, só assim poderiam ter a certeza, para aprofundarem a investigação.

Helena desligou o telemóvel, e voltando-se para os pais,  disse:
-Era do hospital. Pedem-me para interromper as férias, há um grande afluxo de doentes com gripe, estão a chamar os médicos que estão de férias. Vamos acabar de comer e arrumar as nossas coisas para a viagem. Lamento ter ficado pouco tempo convosco, mas prometo voltar logo que possa.


30.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXVIII




Casaram cinco meses depois, em setembro, exatamente quando fazia catorze anos que ela recebera a última mensagem dele.

Os cinco meses que antecederam o casamento, foram de muita persistência, companheirismo e apoio, por parte de Gonçalo, que deve ter esgotado todas as técnicas de sedução que conhecia, antes que Helena aceitasse finalmente o casamento. Não que estivesse convencida do amor de Gonçalo. 

Ainda pensava que tudo o que ele fazia, se devia ao facto do enorme desejo que ele sentia de ter uma família e também porque não à intensa atração sexual que os unia. Reconhecia que ele amava apaixonadamente a filha, mas a ela…

Todavia depois de muito pensar resolveu arriscar. Quem sabe acabaria descobrindo que estava errada. E depois ou se casaria com ele ou se condenaria a uma vida inteira de solidão. Não conseguira esquecê-lo durante catorze anos, quando pensava que era um cafajeste, como ia conseguir esquecê-lo agora?

No espaço de tempo decorrido, desde aquele dia em que Helena e a filha foram apresentadas à família paterna, a relação dos dois com as duas famílias fora-se estreitando, com sucessivos fins de semana ora em Braga, ora na quinta entre Alpedrinha e a serra da Gardunha.

A data fora escolhida pelos dois, como um recomeço da história que os uniu no passado. Era como se pretendessem que aquele dia feliz, apagasse das suas memórias o acidente de Gonçalo e a desilusão de Helena.

E sim, foi o casamento mais bonito a que os convidados já tinham assistido.

 

*******************************************************************************************

 

Dois anos depois…

Mal Gonçalo parou o carro junto da sua residência, a porta abriu—se e dela saíram Matilde, seguida da tia Laura e dos primos Sara e Miguel.

Gonçalo deu a volta ao carro e ajudou a esposa a sair enquanto Laura abria a porta traseira e tiravam os dois ovos onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana nascidos por cesariana três dias antes. Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou Helena a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã deitava os bebés num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam então separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa descansar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se e deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Saiu do quarto em seguida fechando a porta atrás de si.

Gonçalo sentou-se na beira da cama e segurou a mão da esposa entre as suas.

- E eu também te agradeço querida, por teres acreditado no meu amor, mesmo eu não tendo recuperado a memória e teres transformado a minha vida amargurada e solitária, nesta felicidade que partilhamos.

Curvou-se para a beijar enquanto Helena emocionada fechava os olhos, deixando rolar pela face uma lágrima de felicidade

 

 

 

 FIM


Nota:

A história que se seguirá é uma reedição. Foi publicada a primeira vez em 2016. Os mais antigos já a leram, mas talvez gostem de a recordar. Ultimamente tenho dificuldade em conseguir escrever novas histórias. Além de tomar conta das netas, tenho o problema dos olhos e a saúde da minha outra metade que não tem andado bem.  Com várias consultas e exames este mês, e uma colonoscopia e endoscopia marcada para fins de Agosto, quando este capítulo for publicado já estaremos no Algarve a aproveitar os quinze dias de férias do filho, em que não teremos de cuidar das netas para recuperar e recarregar baterias.

Não tenho internet lá, a não ser no telemóvel, tudo o que sair até ao dia do meu regresso, (15 de Agosto) já está agendado.

 

5.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVII


Helena estava na estrada que levava à casa paterna na manhã seguinte, pouco passava das oito da manhã. Enquanto isso ela ia recordando, o que acontecera no dia anterior.

Emocionada com o sofrimento que Gonçalo expressara nas confidências que lhe fizera, ela decidira aceitar o convite dele para jantar. Assim ligara à filha e depois de saber que ela estava bem, dissera-lhe que só regressaria de manhã, estava com dores de cabeça e achava melhor não conduzir de noite. O mesmo dissera a sua mãe, quando Matilde passara o telefone à avó.

De seguida mandou uma mensagem à Rita dizendo-lhe que tinha seguido o seu conselho e por isso estava em Lisboa. Não precisava mais explicações a amiga compreenderia, e ela não corria o risco de que Rita telefonasse para saber da afilhada, e dissesse alguma coisa que não devia.

Não que ela quisesse enganar deliberadamente a família, porém não era algo que se dissesse pelo telefone. Contar-lhes-ia tudo no dia seguinte.

Jantaram num pequeno restaurante perto da praça do Chile. Durante o jantar, Gonçalo não se cansava de fazer perguntas sobre a sua filha, que ela fora respondendo com todo o amor e orgulho que sentia pela filha. Depois ele falara da sua família.

Da irmã, tão jovem e já viúva, do quanto ela sofrera com a morte súbita do marido, quando se encontrava grávida do segundo filho, dos pais que continuavam a viver em Braga.

Depois ele dissera que ia contar à família sobre elas, e que gostaria que mais tarde o acompanhassem de modo a que se conhecessem.

“Deves saber que a minha mãe e a minha irmã, vão querer logo marcar a data do casamento assim que te conheçam. Há mais de dez anos que tentam casar-me. Principalmente a minha mãe. Creio que já me apresentou todas as jovens em idade de casar, desde Braga ao Porto. Imagina agora sabendo da nossa história.” Dissera-lhe ele sorrindo.

Ela sabia que quando contasse aos pais e a Rita, o que ele lhe contara e a proposta de casamento que lhe fizera, eles também iam exercer pressão para que aceitasse.

Mais tarde, ele voltara a perguntar se ela não tinha fotos da filha, para que através delas ele pudesse acompanhar o crescimento da menina. E para mostrar à família.

Ela respondera que sim. Tinha muitas fotos e vídeos de várias fases do crescimento de Matilde em formato digital.

Trocaram então os endereços eletrónicos, e ela prometeu que nessa mesma noite lhos enviaria.

Quando chegara a Lisboa, para se encontrar com Gonçalo, Helena deixara o seu automóvel estacionado à sua porta e fora de metro. Não sabia o que ele lhe ia dizer, e não queria que ele soubesse onde morava, coisa fácil se fosse de carro e ele a seguisse.

Porém depois do jantar, ele ofereceu-se para a levar a casa, e ela tivera que lhe dar a morada.

Quando Gonçalo estacionou junto à sua porta, e antes que ela saísse do carro, ele segurou a sua mão entre as dele e murmurou um emocionado obrigado.

Com o coração acelerado ela apressou-se a sair do carro, prometendo que lhe telefonava quando contasse toda a história à filha.

Agora, a caminho de casa, preparava-se para contar à filha e depois à restante família tudo o que Gonçalo lhe contara.

21.6.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XXII

 


Encontravam-se sentados num banco de jardim num dos locais menos frequentados do parque, longe da zona onde estavam os baloiços e os escorregas, que faziam as crianças encher o ar de risos e gritos. Depois de alguma troca de mensagens, Lena aceitara encontrar-se com Gonçalo naquele local, já que não podia convidá-lo para sua casa, e um restaurante ou café, cheio de turistas nas férias da Páscoa, não lhe pareciam ser um bom local por recear exaltar-se com Gonçalo.

Ela não entendia porque ele procedia como se não a conhecesse e insistisse que tinham de falar. Quase lhe disse que não queria qualquer conversa com ele, mas então lembrou-se do enorme desejo que a filha tinha em saber quem era o pai, e conteve-se.

Dias antes, quando se preparava para levar a filha do hospital para casa, perguntara ao médico, se a filha poderia viajar para a aldeia e como ele não vira inconveniente, desde que tomasse os cuidados por ele recomendados, no dia seguinte viajaram para a aldeia, onde Matilde tinha todos os cuidados e mimos da mãe e avós.

E até os primos, já de férias com os avós, embora sem a presença dos pais, que por razões profissionais, só chegariam no fim de semana, respeitaram as limitações dela, limitando-se a fazer-lhe companhia em casa, ou a acompanha-la nos curtos passeios, sem as brincadeiras do costume.

Nesse mesmo domingo, depois do almoço, enquanto a filha descansava na cama, Helena mandara a primeira mensagem a Gonçalo. Nela lhe agradecia o livro que oferecera à filha, o cuidado que tivera com a menina.

Não telefonara, porque receava o desabar dos seus sentimentos e a raiva que sentia por ele fingir que não a conhecia.

Ele respondera. Pedira mais uma vez para falar com ela, era muito importante.

Ela não respondera e Gonçalo enviara outra mensagem. Decidido a resolver o problema que o atormentava há tantos anos, ele suplicara-lhe, pelo amor que ela tinha à filha.

Era uma chantagem sentimental, ela percebeu, mas também decidida a acabar com aquela história, tanto mais que agora sabia que em qualquer lugar ou a qualquer hora se podiam cruzar, ela aceitara.

Ele respondera agradecendo e informando que nessa semana estava no hospital das oito da manhã às quatro da tarde, pelo que só se poderiam encontrar depois dessa hora. Mais mensagens foram trocadas até que o dia, o local, e a hora foram combinados.

Assim ali estavam os dois naquela Quinta feira Santa, sentados num local público, mas suficientemente isolados para poderem conversar.

-Boa tarde - saudou Gonçalo ao chegar ao local indicado estendendo-lhe a mão num cumprimento social, acrescentando em seguida. Obrigado.

 

- Penso que antes de mais me deve uma explicação para esta quase perseguição para que o escute, - disse nervosa, o corpo tremendo com aquele aperto de mão.

Sentaram-se. Por motivos diferentes ambos estavam tensos, sem saber bem o que um podia esperar do outro ligados por um passado comum que apenas um recordavam. Então depois de uns segundos de silêncio, que a Helena pareceram intermináveis ele começou.

Para que perceba a minha insistência e o meu desespero tenho que lhe dizer que há quase 14 anos tive um terrível acidente de moto. Sobrevivi por milagre depois de mês e meio em coma no hospital…

 

4.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII









Por volta das quatro,  dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do mesmo, verificou que o empregado já não era o mesmo que o atendera no final da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita Sequeira, tinha deixado alguma mensagem para mim. O seu colega disse-me que não tinha nada, mas para passar a esta hora, podia ser que o senhor tivesse.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar, caso o senhor viesse procurá-la. - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contato? Só havia uma maneira de o descobrir. Com as mãos a tremer, abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 
Olhou a cabine telefone,pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu retomar a viagem. Ligaria à mãe quando chegasse a Castelo Branco. Afinal ela já sabia que tinha chegado bem a S. Pedro e só esperaria novo telefonema à noite. Pôs o motor a trabalhar e o carro arrancou em direção ao sul. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Bom gente ontem estive no Hospital de Santa Maria desde as duas e meia até aos vinte para as seis. 
As notícias não foram lá grande coisa. Foi-me dito que tão breve haja uma córnea, farei o transplante e também que embora seja uma cirurgia combinada, ou seja tirar pontos, silicone, redução de um edema ocular e transplante de córnea, não me será posta a lente nesse dia por uma questão de prevenção de possibilidade de rejeição. O professor disse-me que prefere que eu faça a recuperação total do transplante e só depois fazer uma pequena cirurgia para por a lente.  Postas as coisas neste pé, não será tão cedo que eu estarei livre disto. E já faz hoje 8 meses. 

2.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse partilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à receção:
-  Bom dia. Por favor, podia avisar a menina Rita Sequeira de que Pedro Medeiros deseja falar-lhe.
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - perguntou empalidecendo. - Disseram-me que estariam cá até domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o chefe de família e esta manhã partiram os quatro.
Pedro  sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigado.  A menina Rita não deixou nenhum recado para mim? Meu nome é Pedro Medeiros.
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele hoje, só entra às dezasseis horas.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira, que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?
E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



1.12.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... -Interrompeu-se abruptamente.- O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante todos aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

 *****************************************************************************

Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem assistiu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho



28.8.18

BOA TARDE AMIGOS


Acabei de chegar. Antecipei o regresso. Esta noite ou o mais tardar amanhã retomarei as visitas regulares aos vossos blogues.
Tenho muitas saudades de vos visitar.
Obrigado pela vossa paciência, em continuarem a acompanhar o Sexta apesar da minha ausência
Até breve

16.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse compartilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à recepção:
- Queria falar com a menina Rita Sequeira. Por favor, podia avisá-la?
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - Perguntou empalidecendo. -Disseram-me que estariam cá até Domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o pai, e esta manhã partiram os quatro.
Pedro   sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigada. Chamo-me Paulo Medeiros. A menina Rita não deixou nenhum recado para mim?
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele agora não está.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?

E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



18.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXII

Foto do Regimento de Lanceiros 2. em 1980. Desconheço o autor da mesma.

Pelas 16 horas, o capitão-mar-guerra Pinheiro de Azevedo, comandante da Força de Fuzileiros do Continente, nomeia o capitão tenente Costa Correia para comandar uma força constituída por um Destacamento de Fuzileiros Especiais e uma Companhia de Fuzileiros . A força deveria dirigir-se ao Ministério da Marinha e obter a declaração formal de adesão da Marinha por parte do Chefe de Estado-maior da Armada. 
Enquanto isso, o Dr. Nuno Távora e o Dr. Feytor Pinto são recebidos pelo ainda Presidente do Conselho Marcelo Caetano, informam-no da disponibilidade do General Spínola, para aceitar a sua rendição e assumir o poder. Marcelo que se encontrava acompanhado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, e o seu Adjunto Militar Coutinho Lanhoso, decide pela sua rendição desabafando"assim o poder não cai na rua"
É redigida pelo Comandante Lanhoso a seguinte mensagem.  "O Presidente do Conselho está pronto a entregar o Governo ao General António de Spínola, e espera-o, para tal fim, no Quartel do Carmo" 
Enquanto Nuno Távora e Feytor Pinto se dirigem com a missiva a casa do General Spínola, Salgueiro Maia,  dirige-se ao Quartel do Carmo onde dialoga com o Comandante da unidade e outros oficiais verificando que a intenção era de rendição. Salgueiro Maia pede para falar com o Prof. Marcelo Caetano. E é recebido por ele. A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela o Prof. Caetano solicitou que um Oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o governo não caísse na rua, confirmando a sua rendição. 
Entretanto o General Spínola recebe os dois mensageiros, lê a missiva, mas diz não reconhecer a letra do Presidente. O telefone toca. É  Marcelo Caetano, que confessa a 
sua derrota ao estar cercado por uma força de blindados e por uma multidão ululante. Afirma que ao render-se o queria fazer perante alguém que pudesse garantir a ordem pública. Não desejaria render-se a um capitão. Pede a Spínola para vir assumir o poder. Spínola afirma que nada tem a ver com o Movimento. Marcelo Caetano mais uma vez lhe pede para vir quanto antes. 
Depois desta conversa, o general Spínola, liga para o Posto de Comando e fala com o Major Otelo. Pede para ser mandatado para receber a rendição do Presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Spínola é mandatado para receber a rendição, e é informado que os dirigentes do regime, serão conduzidos ao Funchal por um DC 6 da Força Aérea.
Depois dirige-se ao Quartel do Carmo, aceita a rendição de Marcelo e informa-o que seguirá em avião militar para o Funchal.
A essa mesma hora, a Escola Prática de artilharia, sob o comando do Capitão Mira Monteiro, consegue a rendição do Regimento de Lanceiros 2.
Um pouco mais tarde, a Escola Prática de Infantaria, liberta os restantes oficiais presos no RAL 1 por terem participado no 16 de Março. 




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.