- E foi tudo o que consegui saber.
As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha, cada
uma com a sua chávena de chá. Cidália acabara de contar à enteada, tudo o que o
marido lhe contara na manhã do dia anterior.
- Meu Deus, como pôde o meu pai acusá-lo de roubo, sem
quaisquer provas?
- Não te recordarás,eras demasiado pequena, mas o teu pai era muito
apaixonado pela tua mãe. Quando ela morreu, ficou desesperado. Dedicou-se
aos negócios como se não houvesse amanhã. Com um único desejo. Esquecer.
Tornou-se num homem insensível, cruel mesmo, em certas ocasiões. No escritório
ninguém gostava dele, e ele sabia-o, mas isso não lhe importava. Naquela época
nada lhe importava, nem mesmo tu. Aliás, disse-me que na altura te culpava
indiretamente pela morte da tua mãe, já que ela teve um parto extremamente
difícil, e nunca mais ficou boa depois disso. Nessa época, eu ainda não o tinha
conhecido, mas quando o conheci, ele era detestável. Penso que descontava nos
outros a dor e a raiva, pela perda da mulher amada. Ainda hoje não sei como pude apaixonar-me por ele, mesmo reconhecendo o seu mau génio. Talvez porque como disse Blaise Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece". Porque a verdade, é que apesar de reconhecer o seu mau feitio, me apaixonei por
ele quase no primeiro dia em que fui trabalhar para a firma.
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
-Mas, vocês pareciam tão apaixonados!
-Eu estava. E ele fingia na tua frente, porque eu lhe
disse que se tu percebesses a nossa real situação não me ias aceitar, e eu
nunca podia ser tua amiga e encaminhar-te na vida como ele desejava. Não foi nada
fácil a minha vida na altura, mas eu tinha fé no meu amor por ele, e tu estavas
faminta de amor, aceitaste-me muito melhor do que eu esperava, e ajudaste-me
com o teu carinho. E acabei por conquistá-lo. Mas quando lhe pedi um filho foi
outra luta. Ele temia que a história se repetisse, e só acabou cedendo quando lhe disse que se não me dava um filho, queria o divórcio. Mas tenho a certeza de que se me tivesse acontecido alguma coisa, o Miguel iria sofrer o mesmo, ou pior do que tu sofreste.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
- Porque não me contaste
antes?
- Porque não tinha a certeza se entenderias, tu não
perdoavas a teu pai o quase desprezo com que te tratou, e tinha medo de que em
vez de melhorar a vossa relação, a minha intervenção a piorasse. Estou a
fazê-lo hoje, para que percebas a sua atitude naquela época. O que fez com o António, teria feito com qualquer outro empregado.
-Mas foi uma monstruosidade. Isso pode destruir a vida de
qualquer um.
-Sei. E hoje o teu pai também sabe, e vive atormentado pelo remorso,todavia o seu
arrependimento não pode mudar o passado.
Por algum tempo, o silêncio reinou na cozinha. Paula
lembrava as palavras do empresário a primeira vez que foi ao escritório, “arruinar
o teu pai não paga um décimo do sofrimento que me causou” ou quando dias antes
lhe entregara o envelope “desisti da vingança por ti. E também pela Cidália,
porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto
te ama.” Será que realmente ele se importava com ela? Poderiam aquelas palavras no escritório serem realmente um declaração de amor?
-Imagino que António Ferreira deve ter sofrido muito, e compreendo a sua raiva - disse Cidália interrompendo-lhe os pensamentos.- Venho de uma família que
nunca foi abastada, e sempre me lembro de ouvir meu pai dizer que a riqueza de
um pobre era o seu nome honrado. Ele tinha muito orgulho do seu. Por isso entendo o
seu desejo de vingança. O que não entendia, e me revoltava era o facto de ele
te querer envolver nessa vingança. E que o teu pai, por medo da falência, estivesse disposto a pactuar
com isso. Era imoral.
Porque amanhã é dia das mães, esta história volta Segunda-feira
