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27.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIV


 

 -Venha Anabela, antes de apresentá-la ao meu sobrinho, gostaria de lhe mostrar a sala de tratamento que eu e o meu irmão montámos para as sessões de fisioterapia – disse abrindo uma porta e dando-lhe passagem.

A jovem entrou e parou maravilhada. A sala era maior do que esperava, e dentro dela havia sido montado tudo o que poderia usar nas suas sessões, uma marquesa, recipiente para os calores húmidos, aparelhos de ondas curtas, de ultrassons, botas de pressoterapia, um armário com toalhas, cremes e óleos analgésicos e de massagens. Também barras de alongamento na parede e barras paralelas com base antiderrapante para começar a andar. Em cima de uma pequena mesa, uma agenda com o programa de tratamentos iniciais. Maravilhada, voltou-se para o médico e disse:

-Isto é uma autêntica maravilha. Não falta nada para a recuperação do doente. Assim ele tenha vontade de se curar.

-Vejo que está satisfeita com as condições da sala. Esta era a sala de espera, para os doentes, pois o Tiago esperava dar aqui consulta gratuita, aos doentes mais necessitados, aqueles cujos recursos são tão baixos que evitam a ida ao médico. Claro isso seria apenas no intervalo das suas estadias nas regiões mais inóspitas de África ou Asia, onde algumas ONGS atuam.

 Infelizmente nesta última missão o centro onde trabalhava foi praticamente devastado e ele viu morrer alguns dos seus companheiros, o que o deixou tão mal como as próprias lesões. Depois, ao recuperar a consciência, a noiva rompeu o compromisso no próprio hospital, quando o foi ver,  o que o tornou ainda mais amargo.

Tenho de a avisar que já lhe falei de si e ele não se mostrou minimamente interessado, em cumprir com nenhum tratamento. Parece ter perdido a vontade de viver. Mas como já lhe disse, acredito em si e na sua força de vontade para mudar as coisas. Sei que se alguém pode tirá-lo do fundo do poço onde está, esse alguém é a Anabela.  E agora, vamos vê-lo?

Anabela apenas anuiu com a cabeça. Estava emocionada. Pelo que o doutor Azevedo dizia, Tiago era um herói. Um herói destroçado, com corpo e alma em ferida, mas ainda assim um homem admirável. E ela apercebia-se que ia teria pela frente o maior desafio da sua vida. E naquele momento prometeu a si mesma, que se os médicos diziam que o doente poderia voltar a andar, ela o faria andar ou abandonaria a sua carreira de enfermeira-fisiatra.

13.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XVIII




É uma mais-valia, porque além de enfermeira, a Anabela é fisioterapeuta e essa é na verdade uma condição muito importante na reabilitação dele.  Além disso uma mulher que passou pelo que você passou, que já teve uma faca encostada ao pescoço, não se vai assustar com a diatribe verbal do meu sobrinho.

Se a Anabela aceitar, o meu irmão está disposto a pagar muito bem e você pode continuar com a sua licença sem vencimento, afasta-se daqui, de maus encontros e pode vir visitar a sua afilhada nas suas folgas.

- Mas não seria melhor, contratar um enfermeiro? Ele não se sentiria mais à vontade, com alguém do seu próprio sexo?

-De modo nenhum. Ele seria ainda mais rebelde. Que me diz?

- Preciso pensar. Profissionalmente, tentar fazer com que um doente volte a andar é um desafio que me agrada. Porém sei por experiência que os piores doentes para tratar são aqueles cuja profissão é tratar os outros. Como o doutor acabou de dizer a minha vida tem sido muito dura e a verdade é que queria dar paz ao meu espírito, coisa que acredito, o seu sobrinho não me vai dar.  Ele já foi visto por algum psicólogo?

-Já lá foi um, que é amigo do pai, mas ele negou-se terminantemente a recebê-lo

-E não tem mais ninguém? Está sempre sozinho?

Tem a caseira que lhe faz as refeições e cuida da casa, e o marido dela que o ajuda na higiene diária. No resto do dia não sai do quarto, apesar do meu irmão ter comprado uma cadeira de rodas, ele nega-se a usá-la, está sempre deitado.

- E se eu aceitar, onde ficaria

- A casa fica numa pequena quinta nos arredores da vila. Embora antiga, tem três quartos, e instalações modernas, já que ele a remodelou, quando a herdou há três anos. Escolheria um dos quartos vagos e viveria lá. Por favor, Anabela, acredito que se alguém pode recuperar o meu sobrinho é você.

- Preciso vinte e quatro horas para pensar. Amanhã dou-lhe a resposta.

15.6.20

ISABEL - PARTE XXIV

foto do google



Aborrecido pelo implicância da mãe, decidiu mostrar-lhe que o namoro não o impediria de ser bom aluno e sempre passou com excelentes notas.
Acabado o liceu era necessário escolher a carreira, mas na altura ele não se sentia vocacionado para nada, e escolheu Direito como podia ter escolhido qualquer outra coisa. Tinha dezoito anos, e continuava demasiado alto e magro. E cada dia mais apaixonado.
Com vinte anos, Odete era agora uma linda mulher, que gostava demais dos galanteios de outros homens que não do namorado. Toda a gente no bairro via isso excepto Luís. Abandonara a escola há muito, antes mesmo de completar o nono ano, e sem emprego, passeava-se na rua, sem outro motivo que não fosse exibir a sua beleza e provocar a libido masculina.  A mãe de Luís, bem que tentava abrir os olhos do filho, dizendo-lhe que Odete não era mulher para ele, mas Luís, qual D. Quixote, sempre defendia a namorada, dizendo que a mãe não precisava ter ciúmes, o amor que sentia por Odete, em nada beliscava o que sentia por ela. Se a jovem não queria estudar, que mal havia nisso?  Afinal a vontade que ele tinha de estudar também não era grande, mas a mãe voltava à carga, pois o namoro já se prolongava demais. Intuições de mãe, - respondia quando o filho lhe perguntava, o que ela tinha contra a sua namorada. Estavam as coisas neste pé quando um dia ao chegar a casa da namorada não a encontrou, e a mãe dela, lhe contou a chorar, que a filha tinha fugido com o sobrinho do Henrique do talho, ela nem sabia para onde, pois não o dizia na carta de despedida que lhe deixara.
Sentiu que o seu mundo ruía e teve vontade de morrer. 
Luís havia  completado dezanove anos, na semana anterior. Aos dezanove anos, um homem ainda tem uma visão muito romântica da vida. E afinal ele crescera a amar Odete e namoravam há mais de cinco anos. Fechou-se no quarto e chorou de frustração e raiva. E jurou a si mesmo que nunca mais ia confiar em mulher alguma. Nesse dia morreu Luís  e nasceu o Nuno. Estava no primeiro ano e como continuava sem grande interesse pelo curso, resolveu mudar. Optou por Literatura e Línguas. Aos vinte e cinco anos ingressou na Marinha já com o Curso terminado.
Seis meses depois, teve a sorte de ser destacado para a Sagres que ia partir em viagem, à volta do mundo, por um ano. Um facto que mudou completamente o seu modo de encarar a vida. Aprendeu o que é viver dias e dias sem avistar terra, ao sabor do humor da natureza, ora num suave embalo, ora numa dança louca que lhe revolvia as entranhas e lhe punha o estômago às voltas, dia após dia a olhar para as mesmas caras, dando as mesmas ordens, executando as mesmas tarefas, numa rotina, da qual não há como escapar, perdidos na imensidão do mar, sob um sol intenso, ou um frio de rachar, sempre ansiando pelo próximo porto. Mas também aprendeu o fascínio que aquela farda tem sobre as mulheres, mesmo que sejam de outros continentes, e com outros costumes.

6.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e uma horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar naquele gabinete, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro-me que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Todavia para ter acesso à conta, ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura, pois não se pode acusar uma pessoa sem ter provas para manter a acusação. Só com provas consistentes, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que esse Fernando, teve acesso à senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha única, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice,  a secretária, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- E como vão conseguir isso, agora tanto tempo depois?
-Para nós seria impossível, mas não para um investigador da Judiciária, e o Pedro é dos melhores. Pode levar algum tempo, mas ele consegue, podes acreditar.
- Obrigado. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim, Sandra. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


3.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve estar com fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo nos últimos meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido, rapaz. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia para casa, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.



E hoje dia 3 volto a ir à consulta a Santa Maria. Já tenho os exames quase todos feitos, falta-me só um que está marcado para dia 11. Vamos ver o que me diz o médico. Estou tão saturada disto. E  porque estamos em Outubro, uma lembrança para todas as minhas amigas...




19.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE X





Enquanto procurava um lugar no frondoso parque que ladeava o rio Vouga, Pedro pensava em como aquele lugar era bonito. Já tinha ouvido muitos elogios à zona, todavia agora ali no meio daquele luxuriante verde, todos lhe pareciam poucos. E a surpresa da tia Palmira, quando o vira chegar?  Ela tinha recebido o telegrama, mas não o vendo há quase vinte anos,  parecia esperar o miúdo que vira da última vez, como se os anos não tivessem passado por ele.
Depois da surpresa inicial, chamou a fiel empregada, que a acompanhara a vida inteira e apresentando-lhe o sobrinho, recomendou-lhe que ele devia ser tratado como um príncipe. Depois acompanharam-no ao quarto. Era um quarto grande, com uma larga janela de vidro ornada de uma grade de ferro no exterior.
"Bem vês, somos duas mulheres sozinhas" dissera-lhe a tia com um sorriso, quando Pedro olhou a grade com estranheza. Só na manhã seguinte, verificara que todas as janelas da grande moradia de pedra ostentavam uma grade exterior. O quarto era confortável, embora sem luxos. a meio da divisão, uma enorme cama de casal, em ferro forjado, pintada de azul e coberta por uma pesada colcha de renda, cujo desenho formava várias estrelas. Branca, de franja retorcida como caracóis em cabelo de criança. Pelo menos foi o que lhe ocorreu quando olhou. Um grande guarda-fatos, sem espelho, a cómoda e as mesas-de-cabeceira em madeira escura e linhas simples, encimadas por tampo de mármore. Uma cadeira e um porta chapéus em ferro, dum lado da janela. Do outro lado um lavatório antigo, também em ferro forjado, ostentava uma bacia de esmalte, e por baixo um jarro do mesmo material, que devia servir para transportar a água. Pendurada no lavatório, uma toalha de linho, com um coração bordado na ponta, e rematada com uma renda de bicos. Ocorreu-lhe pensar como iria fazer a sua higiene ali, mas a tia adivinhando-lhe os pensamentos, disse:
- É só para enfeite não te preocupes. Temos duas casas de banho. Vem, vou mostrar-tas, tal como o resto da casa.


Vou esta tarde ao hospital de Santa Maria por causa do meu olho. Vamos ver no que vai dar

27.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIV




Os cinco dias até ao Natal passaram a correr. O casal aproveitou para fazer as compras para a época, umas vezes acompanhados por Natália e a menina, outras deixando-as em casa. Um dia, compraram uma árvore de Natal, que quase tocava o teto da sala, muitas bolas coloridas e correntes luminosas. Depois de montada e decorada, a alegria e admiração da pequenita, foi a melhor recompensa dos adultos, embora não a deixassem sozinha na sala, com medo de que provocasse algum acidente.
Isabel falara com Ricardo acerca da consoada, dizendo-lhe que desde a morte da mãe, ela e a irmã sempre passaram a noite de Natal com Natália e o marido. E mesmo depois que ela ficou viúva o hábito manteve-se.
A vizinha fora a sua força, o seu apoio, desde que a mãe morrera. E gostaria de continuar com esse convívio até porque Natália era uma mulher solitária, não tinha ninguém de família, a não ser um sobrinho por parte do marido que tinha emigrado há muitos anos para a Austrália e nunca mais dera notícias. Por isso, gostaria de  a convidar para passar a consoada com eles. Ricardo respondera, que não via qualquer problema, e que também ele iria convidar Artur, que era um amigo de longa data, fora o seu padrinho de casamento, e também era um homem muito solitário. Além disso, tinha reparado no dia do casamento, que parecia haver uma certa empatia entre eles. E acrescentara:
-Era engraçado se eles se entendessem.
- A Natália é uma mulher muito simpática, mas não sei se estará recetiva a uma nova relação. Dava-se muito bem com o marido, está viúva, há oito anos e tem sempre respeitado a memória do falecido.
- Acredito. O Artur nunca se casou, mas confessou-me há dias que se sente muito sozinho…
-Para quem não acredita no amor estás muito casamenteiro, - disse ela.
- O casamento pode surgir por muitas outras razões que não o amor. Nós somos a prova disso- retorquiu ele.
Não voltaram a falar no assunto, mas os amigos foram convidados.
Natália veio logo ao fim da manhã, a fim de ajudar Isabel a fazer as iguarias da ceia. Ricardo teria preferido dirigir-se a um dos hotéis que promovem a data e passar lá a noite. Ele podia permitir-se essa despesa, e ninguém se cansava, mas as duas diziam, que era uma data para estar em família e que as coisas feitas em casa tinham outro sabor. De modo que ele limitou-se a ser a ama da menina, deixando que elas tivessem o tempo necessário para fazerem o que tinham projetado. Artur chegou pouco depois do anoitecer. Vestido de pai Natal, entregou à criança as prendas que os pais lhe tinham comprado, e que Ricardo lhe entregara nessa manhã, para que ele fizesse essa entrega. Uma boneca, um conjunto de peças de construção, bem coloridas, um cavalo de baloiço quase maior que ela, livros de bonecos e lápis de cor para colorir. Depois enquanto a criança foi jantar, Artur foi à casa de banho despir o fato de Pai Natal que vestira em cima do seu fato cinzento. Voltou com o disfarce num saco de plástico dizendo:
-Vou lá abaixo meter isto no carro, não vá a Matilde ainda dar com o fato e ficar toda baralhada.
Quando voltou, a menina já tinha jantado e balançava-se radiante no seu cavalinho. Ricardo serviu uma bebida ao amigo e sentaram-se no sofá a conversar. Pouco depois, Matilde começou a mostrar-se sonolenta, e Ricardo pegou-lhe ao colo para a ir deitar.
- Desculpa, tenho que a ir deitar. As senhoras já terminaram a sua labuta na cozinha, foram arranjar-se. Podes vir comigo ou ficar aí a ver TV.
-Vou contigo. Ver como te desenrascas na tua nova condição de pai, é coisa que não quero perder.



22.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE II



Mais tarde, Isabel dava o almoço à sobrinha. Matilde era uma bebé de quinze meses, grandes olhos cinzentos, provavelmente herança paterna, já que na sua família todos tinham olhos castanhos. Também o cabelo preto era diferente do cabelo da mãe da mãe e do seu, ambos, castanho-claro quase do tom do mel. No resto, a boca, o narizito arrebitado era semelhante à mãe. Que saudades, Isabel tinha da irmã, que se suicidara dez meses antes, deixando a menina então com cinco meses a seu cargo.
 Susana nunca fora psicologicamente muito forte. Desde menina nunca soube gerir as suas emoções, parecendo viver em constante conflito com o mundo inteiro, e com ela própria. Quando se apaixonara, parecia estar mais forte, mas o descobrir que não passara de uma aventura para o homem que amava, acabara por derrubá-la e entrou em depressão, que se agravara após o parto. Isabel cansara de insistir para que procurasse ajuda especializada, mas Susana sempre se escusara. Até ao dia em que tomou a trágica decisão de acabar com a vida.
Nesse dia, dissera-lhe que ia ter uma consulta, pediu-lhe para cuidar da sua filha e saiu. Quando mais tarde, ela fora ao seu quarto vira em cima da cómoda aquela carta.
Lera-a tantas vezes que a sabia de cor.


“Isabel vou sair daqui a pouco para não voltar. A vida para mim nunca fez sentido e hoje mais do que nunca, sinto que não é aqui o meu lugar. Deixo-te a Matilde. Sei que a amas muito. Na verdade desde que ela nasceu, tu foste muito mais a sua mãe do que eu. E é o imenso amor que sentes por ela, que a salva, pois o meu vontade, era levá-la comigo. Na cómoda do meu quarto está a sua certidão de nascimento. Registei-a com o nome do pai, e peço-te que logo que possas, faças com que se conheçam. Não lhe digas mal dele. Eu não lhe tenho rancor. Apesar de tudo, o tempo que passei com ele, foi o mais feliz da minha vida. Perdoa-me minha irmã, se te faço sofrer, mas acredita que a minha partida, será o melhor para ti e para a Matilde. Eu nunca seria capaz de a amar como tu.
Susana”


Quando acabou de ler a carta, ficou desesperada. Bateu à porta da vizinha, pedindo-lhe se tomava conta da bebé e saiu desaustinada para a rua tentando encontrar a irmã. Procurou nos arredores, telefonou a amigos. Debalde. Ninguém a tinha visto.
Regressou a casa, desalentada. Recriminava-se por não ter insistido mais com a irmã para procurar ajuda médica. A firma onde trabalhava como secretária há quase seis anos ia entrar em falência e ela estava preocupada com a certeza do desemprego que a esperava. Depois chegava a casa e tinha de cuidar da sobrinha de cinco meses, pois a irmã passava os dias na cama, e não ligava nenhuma à filha, que ia crescendo de boa saúde graças aos cuidados dela e de Natália, a vizinha que cuidava da menina enquanto ela estava no trabalho.
Não fora isso, e talvez ela se tivesse apercebido do abismo onde a irmã tinha caído.
-Mãe, não …
-Não queres comer mais, meu amor?
-Não – disse a criança, reforçando a palavra com um gesto negativo da cabeça.


Hoje não houve tempo para visitas. Passei o dia em Lisboa, entre tratar de documentos, ir ver o cunhado (Que teve um  AVC) ao hospital e levar horas retida por causa da greve dos barcos foi um dia complicado.

9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVI


António caminhava a passos largos no escritório, da sua casa em Sintra. Numa mão, um copo de Whisky, na outra o telemóvel. Lutava contra o desejo de ligar para Paula Maldonado.
Tinha passado o dia com o sobrinho. De manhã subiram a serra, à descoberta do Castelo dos Mouros. Foi maravilhoso ver o interesse do miúdo, o desejo de saber coisas sobre os mouros, que ali teriam vivido muitos séculos atrás, a agilidade com que subia e descia as escadas, o encanto quando do alto das suas muralhas observaram a paisagem desde o Cabo da Roca até à Ericeira, num deslumbre para os olhos. Ou quando já de regresso passaram junto  da rocha conhecida pela Cova Encantada, pelo corte que apresenta e pela lenda de Zaida, a Moura Encantada que lhe está associada.
Depois do almoço, foram para junto da piscina, onde se mantiveram até à hora do lanche, ora nadando, ora jogando à bola na relva à sua volta. Depois do lanche, tomaram banho, mudaram de roupa e viram na televisão “O rei Leão”, enquanto esperavam que os pais do menino, o viessem buscar.
Fora uma excelente maneira de passar o dia e esquecer por algumas horas, a jovem, que não lhe saía do pensamento como se fosse uma obsessão.
Tinham decorrido duas semanas depois da festa de renovação de votos da sua irmã, e desde aí não voltara a vê-la. Tinha sonhado com o dia da festa, como aquele em que mudaria toda a sua vida. Desistira da vingança contra o pai dela, desde que fora ao seu escritório, e devolvera todos os documentos na véspera, para que naquele dia, quando lhe falasse dos seus sentimentos o fizesse de alma limpa, sem qualquer sentimento menos bom, que os pudesse manchar. Amava aquela mulher e estava convencido que se o sentimento não era recíproco, pelo menos ele não lhe era indiferente. Mas vá lá um homem compreender as mulheres. Quando pensa que as conquistou, elas deixam cair sobre eles o manto da desilusão, e cortam toda a esperança, com o machado da dúvida. Foi o que aconteceu quando ela se negou a acompanhá-lo ao casamento do seu sócio, e lhe deu a entender que não acreditava nele.
Ficou magoado e involuntariamente lembrou-se daquela época em que o pai dela, se negou a escutá-lo, o acusou, e denunciou à polícia. E a partir daí a festa acabou para ele. Desde então, tentou esquecê-la, mas o sentimento que ela lhe inspirara estava demasiado entranhado no seu ser. Era como o sangue que lhe corria nas veias, ou o ar que respirava.
Paula esquecera as suas roupas no quarto de hóspedes, quando se trocara para a festa. Era um pretexto para poder falar com ela, mas ainda assim não tivera coragem de lhe ligar e pedira à sua secretária que lhe ligasse para o escritório, mas a secretária, informara  que ela fora de férias e só voltaria no fim do mês. Porém naquela tarde, quando viera buscar o filho, Gabi disse-lhe  que a encontraram no restaurante onde foram almoçar. E agora ali estava ele, quase quarentão, nervoso como um adolescente, sem saber se lhe  telefonava ou não.



Nota: Quem gostar de lendas é só clicar no link para conhecer esta bonita lenda.


7.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA. -PARTE XXII






Terminado que foi, aquele arremedo de lua-de-mel, o casal instalou-se provisoriamente no moderno apartamento do empresário no Parque das Nações. Pedro tinha decidido vendê-lo e comprar uma casa num local mais afastado da cidade. Uma casa com espaço suficiente para juntar a família sem que a sua privacidade saísse prejudicada. E que tivesse um jardim, onde o menino pudesse brincar em segurança.
Já tinha conversado sobre isso com Joana, e por isso naquela manhã ao regressar ao escritório, a primeira ordem que deu à sua secretária, foi a de pesquisar casas à venda nas zonas que previamente escolhera.
Entretanto no escritório, depois de ler a correspondência e tratar dos assuntos mais urgentes, Pedro dedicou-se a uma pesquisa que pareceria estranha a quem dela tivesse conhecimento. Pesquisou, artigos sobre violação, os traumas, as reações e os medos das vítimas. Depois procurou maneiras de agir, em páginas de psicólogos e sexólogos.
Depois de horas em que pesquisou e leu tudo o que encontrou sobre o assunto, levantou-se e foi até à janela. Pensou na volta que a sua vida dera em tão pouco tempo. Onde quer que o primo estivesse, deveria estar a divertir-se imenso com a última partida que lhe pregara.
Não que ele estivesse arrependido. Não estava. Pelo menos por enquanto. Joana era uma mulher de fibra e muito orgulhosa. Mantinha que só aceitava o seu dinheiro para a mãe e o sobrinho.
Ainda na véspera, reiterara a sua posição de manter a firma recém-criada e de continuar com a confeção de doces e salgados para festas várias. De momento continuaria a trabalhar na casa onde habitara, e onde vivia a mãe com o neto e a ama que ele contratara para o menino. Tinham decidido não separar o menino da avó naquela fase em que a mãe se encontrava tão fragilizada.  Continuando a trabalhar lá, não só fazia companhia à mãe, como vigiava o menino, o comportamento da ama, e continuava a contar com a ajuda de Antónia, sua vizinha, amiga, e agora também madrinha de casamento.   Ele gostaria mais, que ela encerrasse a firma e se dedicasse apenas à família e à vida no lar. Não precisava trabalhar, podia ter quantas empregadas necessitasse. Outra qualquer daria pulos de alegria de poder gastar o que quisesse. Ela não. Era muito independente, e essa independência poderia ser um sinal de que não iria prolongar o casamento para além dos dois anos, negociados no acordo.
Sentiu um aperto no peito, ao pensar nisso. Mas porque havia de temer? Afinal dentro de alguns meses, sairia a adoção do menino. E não era só isso  que lhe interessava?

31.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XII


A jovem, que a sua secretária acabava de introduzir no seu gabinete, em nada se assemelhava aquela que ali estivera procurando o pai do sobrinho, três semanas atrás. As calças de ganga foram substituídas por um gracioso conjunto de saia e top em seda verde e os ténis deram lugar a sapatos de salto agulha, que a faziam parecer mais alta.
- Boa tarde, -saudou. Confesso que estou intrigada com a carta que recebi a convocar-me para esta entrevista.
- Senta-te, - disse indicando-lhe a cadeira. Devo dizer-te que receei que não aparecesses, depois da maneira com que me descartaste naquele dia. Por favor não insultes a minha inteligência com uma desculpa, - acrescentou ao ver que se preparava para falar.
- Deves entender que nunca te tinha visto antes, e que a minha vida nada tem a ver com a do rico empresário que és.
- Talvez te enganes. Tenho uma proposta para te fazer, mas antes de continuar, quero dizer-te que sou um homem sério, incapaz de brincadeiras estúpidas, e portanto o que te vou propor é a sério, por muito absurdo que te pareça. Tenho trinta e oito anos, e sou solteiro. Tenho vários negócios e mais dinheiro do que posso gastar o resto da vida. Por outro lado, tu tens a teu cargo o teu sobrinho, e a tua mãe, que segundo sei esteve muito doente, e talvez ainda esteja.
- Andaste a investigar-me?- Perguntou tirando os óculos num gesto que ele já tinha visto e que provavelmente repetia quando se irritava.
- Por favor acalma-te e ouve-me até ao fim. O que te proponho não é uma aventura, a troco de dinheiro. Proponho-te um casamento, com o qual a tua mãe terá direito aos melhores tratamentos, e mais, proponho-te a adoção legal do teu sobrinho e a melhor educação para ele, como convém ao meu futuro herdeiro. Além de te proporcionar uma vida de princesa.
- A que propósito? És gay? Ou impotente?
-Nem uma coisa nem outra. Juro-te.
-Então, não entendo. O que pode levar um homem rico, e bonito, a propor casamento a uma mulher que mal conhece, como se lhe estivesse a propor um negócio?
- De certo modo é um negócio. Eu sinto falta de uma família, e posso dar-lhe tudo o que ela precise. Tu tens uma família e terás que levar uma vida de sacrifício para suprimires as suas necessidades mais básicas. Um casamento seria uma boa solução para os dois.
- Um casamento de conveniência. Isso não daria certo. E o amor?
- Salvo raras exceções, o amor não passa de uma invenção dos romancistas. Ao longo da vida, quantos casais conheceste que se casaram apaixonados, e se divorciaram em menos de dois anos?
- E se eu te disser que estou apaixonada?
-Estás?
- Não. Mas isso nem interessa. O que me importa é tentar entender. Porquê eu? Com tanta mulher bonita, na sociedade em que te moves?
- Já pensaste que de certa maneira me sinto responsável pelo mal que um meu empregado causou à tua irmã? E que pelo facto de ele ter usado o meu nome, me sinta com vontade de tornar essa criança meu filho de facto?


2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXV








- Então, filha, porque não convidaste o jovem a entrar. O Martim veio todo contente, dizer que tu autorizaste que eles fossem juntos ao jogo.
- E onde está o Martim, avó?
- Lá em cima no quarto. Trazia um livro, disse que ia ler. Mas… agora reparo. Onde é que está a tua aliança?
- No fundo do rio.
- Viva! Foi esse rapaz que conseguiu o milagre?
- Não foi o que me disseste para fazer, quando ia a sair de casa? Pois fiz-te a vontade.
- Vou fingir que acredito. Mas diz-me: Como é esse rapaz? É que o teu filho, fala dele com um entusiasmo que muitas crianças não têm pelo próprio pai. Sempre é o sobrinho do falecido António?
-É. Sobrinho, único herdeiro, jovem, atraente e muito rico. Chega para a tua curiosidade?
- Caramba Amélia, dizes isso como se estivesses com raiva do pobre rapaz. O que é que ele fez? Ignorou-te? Se assim é deve estar a precisar de óculos.
- Nada disso, avó. É que me irrita que de repente os meus amigos, a minha avó e até o meu próprio filho,  queiram à força que arranje um namorado. E como se isso não chegasse, cai-me do céu um homem que mexe comigo e me faz pôr em causa, tudo o que acreditei como certo até agora.
- Bom se admites que o rapaz mexe contigo, isso já me dá esperanças de te ver amparada antes de fechar os olhos. Só não entendo porque não o mandaste entrar.
- Porque ele convidou-nos a passar o dia na sua quinta, amanhã. Além disso praticamente se declarou. E eu precisava pensar em tudo o que me disse, antes de me decidir, e não queria ser pressionada. Importas-te de dizer ao Martim que venha jantar. Vou pôr a mesa, e aquecer a comida.
- Eu vou. Mas não penses que te escapas assim. Continuamos  esta conversa mais tarde.
Durante o jantar, Martim falou pelos cotovelos como soe dizer-se.  Estava entusiasmado com o encontro com Paulo e com a perspetiva de ele o acompanhar na festa da escola. Era incrível como em apenas dois encontros a criança se apegara aquele homem. E mais estranho ainda que da parte de Paulo, houvesse o mesmo carinho. Como se os dois já se conhecessem de qualquer lado.
De vez em quando avó e neta trocavam olhares. Era como se mantivessem uma conversa muda, mas que versava a admiração que o facto causava nas duas.
- O Paulo convidou-nos a passar o dia amanhã com ele. O caseiro tem três filhos, gostarias de os conhecer? – Perguntou Amélia.
- Claro que sim, mãe. E vamos todos? Também a avó e o Rex?
-Todos menos o Rex. Não sabemos os animais que há na quinta, não vamos criar confusão.O Paulo vem-nos buscar às onze horas. Agora vai escovar os dentes e vai para a cama. A mãe já lá vai dar-te um beijo



21.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XX




- Mas isso é uma ótima noticia. – Soltou-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – Estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. E mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria ainda que lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca ir contigo para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, e Santo Deus, como te desejo, mas porque és diferente de todas as outras. E és diferente, porque te amo, porque desejo fazer parte da tua vida, até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo sonho?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te agora! Não consigo ser tua enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Um mês depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro anos de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinha chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem muito rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até à noite quando Gabriel se apresentou em sua casa, para pedir a mão de Sandra com anel de noivado, e a informação de que queria casar o mais rápido possível.
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita coisa se escreveu, chegando a dizerem que Gabriel se casava com a filha do homem que estivera injustamente preso, para evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
A noiva fez questão de uma cerimonia simples e intima, apenas para os familiares e padrinhos.
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa os brindava
Com a bênção paterna, casaram duas semanas depois.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que se apaixonara por ela, ao vê-la dançar o tango, e que desde aí, sonhava com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes da música “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho


18.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve vir cheio de fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo, o que se passara nos últimos três meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.