Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a
carta da mãe que ele leu em silêncio.
-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do
amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo
que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o
álbum e estendeu-lho.
João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena
de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca.
Tinha um ar sério, ou triste. Depois uma
foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava
com o seu ar sério.
-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E
nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos
dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai
adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre
como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido
nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se
preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos
minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é
habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um
dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher
muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que
não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque
ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.
-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei
que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque
se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me
roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito
de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor
e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher
o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um
que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que
crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher
sem pensar no que ele me dizia.
-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.
- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer. É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.
-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que
precisares para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.
E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à
emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o
bater dos corações dos seus filhos.












