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9.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVI

 


Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a carta da mãe que ele leu em silêncio.

-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o álbum e estendeu-lho.

João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Tinha um ar sério, ou triste.  Depois uma foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava com o seu ar sério.

-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.

-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher sem pensar no que ele me dizia.

-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.

- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer.  É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.

-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que precisares  para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.

E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e  o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o bater dos corações dos seus filhos.

 

16.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX



Tinham passado à sala, onde, em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Tremo só de pensar o que te podia acontecer se tivesses caído em algumas mãos que conheço. Agora, se me dás licença, vou-me vestir e sair. Tens outras chaves, além das tuas, que me emprestes?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua auto estima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
A clínica onde trabalhava, fechava duas horas para almoço. Habitualmente, ela vinha almoçar a casa, já que a clínica ficava perto e sempre aproveitava parte do tempo para adiantar as coisas para o jantar. Nessa noite decidiu que não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-à? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.




3.1.20

PARTILHANDO ...




Recebi por email. E como gostei muito, partilho convosco. Trata-se de uma carta de George Carlin, um humorista dos anos 70/80, séria reflexão sobre o mundo atual, que pode parecer estranha vinda de um humorista, se nos esquecermos que George Carlin foi muito mais do que um controverso humorista, ou ator de cinema. Ele foi também um escritor de sucesso e um sério critico da sociedade americana. Então aqui vai o texto que me chegou como sendo uma carta sua.


"O paradoxo do nosso tempo é que temos edifícios mais altos e temperamentos mais reduzidos, estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos.
Gastamos mais, mas temos menos, compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores, mais conforto e menos tempo.
Temos mais graduações académicas, mas menos sentimentos comuns, maior conhecimento, mas menor capacidade de julgamento.
Mais peritos, mas mais problemas, melhor medicina, mas menor bem-estar.
Bebemos demasiado, fumamos demasiado, desperdiçamos demasiado, rimos muito pouco.
Movemo-nos muito rápido, nos irritamos demasiado, mantemo-nos muito tempo acordados, amanhecemos cansados, lemos muito pouco, vemos televisão demais e oramos raramente.
Multiplicamos o nosso património, mas reduzimos os nossos valores.
Falamos demasiado, amamos pouco e odiamos muito frequentemente.
Aprendemos a ganhar a vida, mas não a vivê-la. Adicionamos anos às nossas vidas, não vida aos nossos anos.
Conseguimos ir à lua e voltar, mas temos dificuldade em cruzar a rua para conhecer um novo vizinho.
Conquistamos o espaço exterior, mas não o interior. Temos feito grandes coisas, mas nem por isso melhores.
Limpamos o ar, mas contaminamos a nossa alma. Conquistamos o átomo, mas não os nossos preconceitos.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planeamos mais, mas desfrutamos menos.
Produzimos computadores que podem processar mais informação e difundi-la, mas nos comunicamos cada vez menos e menos.
Estamos no tempo das comidas rápidas e digestões lentas, de homens de grande estatura e de pequeno carácter, de enormes ganhos económicos e relações humanas superficiais.
Hoje em dia, há dois ordenados, mas mais divórcios, casas mais luxuosas, mas lares desfeitos.
São tempos de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moral descartável, encontros de uma noite, corpos obesos, e pílulas que fazem tudo, desde alegrar e acalmar, até matar.
São tempos em que há muito na vitrina e muito pouco no armazém.
Tempos em que a tecnologia pode fazer-te chegar esta carta, e em que tu podes optar por partilhar estas reflexões, ou simplesmente excluí-las.
Lembra-te de passar algum tempo com os teus entes queridos, porque eles não estarão aqui para sempre.
Lembra-te de ser amável com quem agora te admira, porque essa pessoa crescerá rapidamente e se afastará de ti.
Lembra-te de abraçar quem está perto de ti, porque esse é o único tesouro que podes dar com o coração, sem que te custe um centavo.
Lembra-te de dizer “te amo” ao teu companheiro e aos teus entes queridos, mas, sobretudo, dizê-lo com sinceridade.
Um beijo e um abraço podem curar uma ferida, quando se dão com toda a alma.
Dedica tempo para amar e para conversar, e partilha as tuas ideias mais apreciadas.
E nunca te esqueças:
A vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelos extraordinários momentos que vivemos juntos."

George Carlin


AQUI a biografia do autor




21.12.19

CONTOS DE NATAL - O PORQUINHO-DA-ÍNDIA DO JOSÉ







Desde os seis anos de idade que José ansiava ter um porquinho-da-Índia, mas, de cada vez que começava a falar do assunto, a mãe dizia imediatamente:
— Os porquinhos-da-Índia cheiram mal.
Ou:
— O lugar dos porquinho-da-Índia é no Parque Biológico.
Ou:
— Pobre bichinho, numa casa tão pequena…
E coisas semelhantes…
Nesse ano, José tinha jurado a si mesmo que o seu desejo iria finalmente realizar-se.
— Apostas em como recebo um porquinho-da-Índia pelo Natal? — disse ao seu amigo Tiago. — Vais ver…
E arranjou um plano.

Finalmente chegou dezembro.
— Já só faltam 24 dias para o Natal — disse a mãe. — É altura de colocares à janela a tua carta para o Pai Natal.
José assentiu, mostrando uma expressão o mais inocente possível, e começou a tarefa.

“Querido Pai Natal,” escreveu, “gostava muito, muito de ter um hipopótamo.”
Colocou ordeiramente a carta do lado de fora da janela e esperou, com expectativa, o que iria seguir-se. Logo na manhã seguinte constatou que o plano tinha resultado. Ao abrir a janela bem cedo para ver se o bilhete fora levado, encontrou algo muito estranho.
“Deves estar maluco!” tinha alguém escrito a letras vermelhas fluorescentes num papel de carta, que vinha assinado a vermelho com letras grandes “Pai Natal”.
“Ótimo!”, pensou José. Guardou a carta e escreveu um novo bilhete. “E um crocodilo? Podia nadar na banheira.”
Mais uma vez o resultado foi excelente. Uma nova carta de Pai Natal saltou-lhe à vista na manhã seguinte.
“Infelizmente não fazemos envios de crocodilos,” vinha escrito, desta vez a letras verdes.
“Tanto melhor!” pensou José. Pegou na carta e escreveu o novo pedido no bilhete: “Um casal de cangurus”.
“Não trabalhamos com marsupiais”, foi a resposta.
Dali para a frente, foi tudo muito simples. José só teve de pensar em alguns animais esquisitos e tudo decorreu sem problemas.
“Três preguiças”, escreveu no dia seguinte.
“Que palermice”, foi a resposta.
E continuou. Durante doze dias esteve ocupado a escrever novos bilhetes e a recolher as respostas do Pai Natal. A troca de bilhetes durou precisamente até à noite de Natal. Todos os pedidos foram recusados deste modo:
Dia 12 de dezembro pediu “ Um chimpanzé.” E a resposta que recebeu foi “E quem compra as bananas?”; no dia 13 “ Um leão do Atlas.”, logo veio “Já ouviste falar de felinos que comem humanos?”; no dia 14 “Então uma hiena malhada.”, com direito a “E onde é que ela vai dormir?”; no dia 15 “Uma ovelha merino.”, para ler “Tu é que me saíste uma boa ovelha…”; no dia 16 “ Um cachalote.”, de imediato ”Ficaste doido?”; no dia 17 “Uma cobra piton.” e obteve “Animais rastejantes não são bem-vindos…”; no dia 18 “Uma cabra doméstica.”, seguido de “O leite de cabra tem um sabor horrível.”; no dia 19 “Peço então urgentemente uma zebra-da-montanha.”, argumentado com “E onde é que há montanhas por cá?”; no dia 20 “De certeza que um dromedário não se ia sentir mal aqui…”, negado ironicamente “E, já agora, um camelo, não achas?”; no dia 21 “Tudo bem. Decidi-me por uma girafa.”
No dia seguinte aconteceu finalmente o que José há muito esperava. No parapeito da janela não só estava a habitual resposta curta, como também uma carta séria, de quase meia página, escrita à pressa com uma banal esferográfica azul.

Querido José, – estava escrito – como podes ver no calendário, depois de amanhã é Natal. Até agora não me fizeste um único pedido razoável e todos os animais que mencionaste não cabem num apartamento. Venho pedir-te imediatamente que sejas mais simples e te restrinjas a espécies animais mais pequenas.
Muitos cumprimentos
O Pai Natal

José soube imediatamente o que fazer. Centenas de vezes treinara em pensamentos a palavra que escreveria agora. Pegou na folha mais limpa que encontrou e escreveu o seu melhor bilhete desde há vinte e dois dias:

Querido Pai Natal, – escreveu – por favor, desculpa ter sido tão impertinente. Reconheço ter exigido muito de ti e juro portar-me melhor. Assim, peço somente um minúsculo porquinho-da-índia, de preferência um como o do Tiago, branco com pintas pretas. O Tiago diz que os porquinhos-da-Índia não dão trabalho nenhum. Além do mais, eu acho-os tão queridos! Desde já, muito obrigado.
José, Rua do Vale do Moinho, nº 7

No dia seguinte, José foi à janela mais cedo do que nunca, porque, com a excitação, não conseguia esperar mais. Será que, desta vez, o Pai Natal também lhe iria responder? Mas o parapeito da janela estava vazio. Só viu alguns flocos de neve, pois tinha começado a nevar.
— Então? — perguntaram os pais quando foi tomar o pequeno almoço. — Já estás ansioso pelo dia de amanhã?
— E de que maneira! — respondeu José.
Com a excitação, não conseguiu dizer mais.

Finalmente chegou o grande dia.
24 de dezembro, estava escrito no calendário por cima da cama.
José olhou fixamente para a folha por um momento, pensando no seu porquinho-da-Índia.
Será que o Pai Natal ia finalmente compreender o seu pedido?
E o momento chegou.
A porta para a sala foi aberta, e José viu algo que era mais bonito do que todas as bolas do pinheirinho e as velas de Natal e bolachas e nozes juntas! Viu um minúsculo porquinho-da-Índia preto, às pintinhas, dentro de uma caixa por baixo da árvore de Natal. Farejava, curioso, o aroma do pinheiro, e era tão parecido com o porquinho do Tiago!
— Esperemos que não cheire mal — disse a mãe.
— Sempre é melhor do que dromedários e girafas! — disse o pai.
Mas José não ouvia o que diziam. Estava demasiado ocupado a pegar no seu porquinho-da-índia e a agradecer ao Pai Natal — em pensamento, claro.
E sentia que o Pai Natal sabia do truque que usara: um Pai Natal sabe tudo, ou não?
E o porquinho-da-índia chiava baixinho…
Parecia mesmo que estava a sorrir…

Roswitha Fröhlich

Sophie Härtling (org.)
24 Weihnachtsgeschichten zum Vorlesen
Frankfurt am Mein. Fischer Schatzinser, 2001
(Tradução e adaptação)

27.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VI






Olhou o relógio. Onze e meia. Dobrou a carta e meteu-a no bolso do casaco.
- Vou sair, qualquer emergência liga-me para o telemóvel – disse ao passar pelo gabinete da sua secretária.
Meteu-se no carro e dirigiu-se à morada indicada. Estacionou o carro no lado contrário da rua. Ao sair, observou o prédio. Notava-se que já tinha alguns anos mas estava bem conservado. Trinta e nove r/c direito dizia o envelope. Tocou a campainha. Uma senhora de meia-idade com uma criança ao colo, abriu-lhe a porta.
-Bom dia. A senhora é Isabel Sarmento?- perguntou.
- Se deseja falar com a Isabel ela foi ao centro de emprego, mas deve estar a chegar.
-Muito bem, eu espero no carro. Virou-lhe as costas e dirigiu-se à porta, mas quando a abriu viu uma mulher jovem do outro lado, e perguntou:
- Isabel Sarmento?
- Sim. Deseja alguma coisa?
- Falar consigo. O meu nome é Ricardo Medina.
A mulher ficou lívida e Ricardo teve a sensação que ela podia desmaiar a qualquer momento.
- Ri…cardo? O senhor é o Ricardo? Não pode ser! – balbuciou quase sem voz.
- Claro que não pode ser, - disse irritado. Como é que se atreveu a dar o meu nome a uma criança sem minha autorização?
-Senhor, - ela retorquiu, - não pudemos discutir este assunto no átrio do prédio. Se puder entrar, esclarecemos o assunto.
Abriu a porta e convidou-o a entrar. Indicou-lhe a sala. Natália, saiu da cozinha com a menina ao colo, e esta ao ver Isabel estendeu os braços para ela chamando, mãe, mãe… Isabel deu-lhe um beijo e disse: 
- A mãe agora não pode, meu amor. Natália por favor importa-se de lhe ir dando o almoço enquanto eu atendo este senhor?
-É bonita a sua filha - disse ele tentando ser amável.
- Não é minha filha, embora lhe queira como tal. É a Matilde e segundo a Susana, é sua filha.
Irritou-se de novo.
-Já lhe disse que não conheço nenhuma Susana. Porque não a chama e esclarecemos este assunto de uma vez por todas?
-Susana suicidou-se há dez meses. Se me der licença eu vou buscar a carta que ela me deixou. 
Retirou-se deixando-o atordoado. Que brincadeira mais idiota. Ele nunca conhecera nenhuma Susana. Tinha tanta certeza disso como tinha de saber que o sol nascia todos os dias.
Isabel voltou e estendeu-lhe a carta. Depois disse-lhe como uns pescadores encontraram o corpo irreconhecível entre as rochas e como o reconhecimento fora feito pelas roupas que ela vestia.
-Lamento - disse ele. Que idade tinha a sua irmã quando supostamente manteve uma relação comigo? E quando foi isso?
-Vinte anos. Há pouco mais de dois anos Susana disse que namorava consigo. Nunca a vira tão feliz e fiquei contente. Mas pouco tempo depois, disse-me que tinham acabado, caiu em depressão, e quando descobrimos que estava grávida já era tarde para um aborto. A menina tem quinze meses.


Amigos hoje vou sair bem cedinho para o Algarve, devo chegar já bem tarde, pelo que não estranhem a minha ausência.



22.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE II



Mais tarde, Isabel dava o almoço à sobrinha. Matilde era uma bebé de quinze meses, grandes olhos cinzentos, provavelmente herança paterna, já que na sua família todos tinham olhos castanhos. Também o cabelo preto era diferente do cabelo da mãe da mãe e do seu, ambos, castanho-claro quase do tom do mel. No resto, a boca, o narizito arrebitado era semelhante à mãe. Que saudades, Isabel tinha da irmã, que se suicidara dez meses antes, deixando a menina então com cinco meses a seu cargo.
 Susana nunca fora psicologicamente muito forte. Desde menina nunca soube gerir as suas emoções, parecendo viver em constante conflito com o mundo inteiro, e com ela própria. Quando se apaixonara, parecia estar mais forte, mas o descobrir que não passara de uma aventura para o homem que amava, acabara por derrubá-la e entrou em depressão, que se agravara após o parto. Isabel cansara de insistir para que procurasse ajuda especializada, mas Susana sempre se escusara. Até ao dia em que tomou a trágica decisão de acabar com a vida.
Nesse dia, dissera-lhe que ia ter uma consulta, pediu-lhe para cuidar da sua filha e saiu. Quando mais tarde, ela fora ao seu quarto vira em cima da cómoda aquela carta.
Lera-a tantas vezes que a sabia de cor.


“Isabel vou sair daqui a pouco para não voltar. A vida para mim nunca fez sentido e hoje mais do que nunca, sinto que não é aqui o meu lugar. Deixo-te a Matilde. Sei que a amas muito. Na verdade desde que ela nasceu, tu foste muito mais a sua mãe do que eu. E é o imenso amor que sentes por ela, que a salva, pois o meu vontade, era levá-la comigo. Na cómoda do meu quarto está a sua certidão de nascimento. Registei-a com o nome do pai, e peço-te que logo que possas, faças com que se conheçam. Não lhe digas mal dele. Eu não lhe tenho rancor. Apesar de tudo, o tempo que passei com ele, foi o mais feliz da minha vida. Perdoa-me minha irmã, se te faço sofrer, mas acredita que a minha partida, será o melhor para ti e para a Matilde. Eu nunca seria capaz de a amar como tu.
Susana”


Quando acabou de ler a carta, ficou desesperada. Bateu à porta da vizinha, pedindo-lhe se tomava conta da bebé e saiu desaustinada para a rua tentando encontrar a irmã. Procurou nos arredores, telefonou a amigos. Debalde. Ninguém a tinha visto.
Regressou a casa, desalentada. Recriminava-se por não ter insistido mais com a irmã para procurar ajuda médica. A firma onde trabalhava como secretária há quase seis anos ia entrar em falência e ela estava preocupada com a certeza do desemprego que a esperava. Depois chegava a casa e tinha de cuidar da sobrinha de cinco meses, pois a irmã passava os dias na cama, e não ligava nenhuma à filha, que ia crescendo de boa saúde graças aos cuidados dela e de Natália, a vizinha que cuidava da menina enquanto ela estava no trabalho.
Não fora isso, e talvez ela se tivesse apercebido do abismo onde a irmã tinha caído.
-Mãe, não …
-Não queres comer mais, meu amor?
-Não – disse a criança, reforçando a palavra com um gesto negativo da cabeça.


Hoje não houve tempo para visitas. Passei o dia em Lisboa, entre tratar de documentos, ir ver o cunhado (Que teve um  AVC) ao hospital e levar horas retida por causa da greve dos barcos foi um dia complicado.

31.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XII


A jovem, que a sua secretária acabava de introduzir no seu gabinete, em nada se assemelhava aquela que ali estivera procurando o pai do sobrinho, três semanas atrás. As calças de ganga foram substituídas por um gracioso conjunto de saia e top em seda verde e os ténis deram lugar a sapatos de salto agulha, que a faziam parecer mais alta.
- Boa tarde, -saudou. Confesso que estou intrigada com a carta que recebi a convocar-me para esta entrevista.
- Senta-te, - disse indicando-lhe a cadeira. Devo dizer-te que receei que não aparecesses, depois da maneira com que me descartaste naquele dia. Por favor não insultes a minha inteligência com uma desculpa, - acrescentou ao ver que se preparava para falar.
- Deves entender que nunca te tinha visto antes, e que a minha vida nada tem a ver com a do rico empresário que és.
- Talvez te enganes. Tenho uma proposta para te fazer, mas antes de continuar, quero dizer-te que sou um homem sério, incapaz de brincadeiras estúpidas, e portanto o que te vou propor é a sério, por muito absurdo que te pareça. Tenho trinta e oito anos, e sou solteiro. Tenho vários negócios e mais dinheiro do que posso gastar o resto da vida. Por outro lado, tu tens a teu cargo o teu sobrinho, e a tua mãe, que segundo sei esteve muito doente, e talvez ainda esteja.
- Andaste a investigar-me?- Perguntou tirando os óculos num gesto que ele já tinha visto e que provavelmente repetia quando se irritava.
- Por favor acalma-te e ouve-me até ao fim. O que te proponho não é uma aventura, a troco de dinheiro. Proponho-te um casamento, com o qual a tua mãe terá direito aos melhores tratamentos, e mais, proponho-te a adoção legal do teu sobrinho e a melhor educação para ele, como convém ao meu futuro herdeiro. Além de te proporcionar uma vida de princesa.
- A que propósito? És gay? Ou impotente?
-Nem uma coisa nem outra. Juro-te.
-Então, não entendo. O que pode levar um homem rico, e bonito, a propor casamento a uma mulher que mal conhece, como se lhe estivesse a propor um negócio?
- De certo modo é um negócio. Eu sinto falta de uma família, e posso dar-lhe tudo o que ela precise. Tu tens uma família e terás que levar uma vida de sacrifício para suprimires as suas necessidades mais básicas. Um casamento seria uma boa solução para os dois.
- Um casamento de conveniência. Isso não daria certo. E o amor?
- Salvo raras exceções, o amor não passa de uma invenção dos romancistas. Ao longo da vida, quantos casais conheceste que se casaram apaixonados, e se divorciaram em menos de dois anos?
- E se eu te disser que estou apaixonada?
-Estás?
- Não. Mas isso nem interessa. O que me importa é tentar entender. Porquê eu? Com tanta mulher bonita, na sociedade em que te moves?
- Já pensaste que de certa maneira me sinto responsável pelo mal que um meu empregado causou à tua irmã? E que pelo facto de ele ter usado o meu nome, me sinta com vontade de tornar essa criança meu filho de facto?


21.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXXI




 Feliz Isabel apresentou-lhe o seu rebento, Tiago. Depois mudou-lhe a fralda e colocou-o nos braços da amiga enquanto preparava o biberon. Mais tarde, o bebé de novo na caminha, as duas almoçaram e por fim Odete despediu-se com um abraço e um pedido.
- Deseja-me sorte!  
Chegou ao hotel e escreveu uma longa carta ao marido. Falou do intenso amor que lhe devotara desde que o conhecera, do medo que sentia que ele se cansasse dela por ser uma mulher com poucos estudos e ele ser um médico brilhante, o que a levou a querer estudar. Depois  recordou tudo o que acontecera desde aquela noite em que encontraram Inês. A perseguição que ela lhe movera, as vezes em que lhe disse que estivera com ele, que se amavam e que ele só estava esperando uma oportunidade para lhe pedir o divórcio. O pouco tempo que ele estava em casa também contribuiu para que se sentisse insegura. Contou-lhe o telefonema que recebera de Inês, uns minutos antes de ele entrar naquele dia fatídico. E de como nesse telefonema, Inês lhe dissera que ele não estivera de plantão no hospital mas tinha ido dormir com ela, e que podia provar, com a carta que lhe dera e ele guardara no bolso interior do seu casaco. Lembrou do sofrimento que sentiu, quando depois de ele adormecer, revistou o casaco e achou a carta no bolso interior, tal como Inês dissera.
Falou do seu desespero, da sua dor ao imaginá-lo nos braços de Inês, de como procurou refúgio em casa da irmã, incapaz de o ver com outra mulher. Da luta que travou com os seus sentimentos antes de o procurar por causa da doença da mãe, da surpresa que sentiu, quando percebeu que ele não tinha contado à mãe a situação real do seu casamento. Terminou confessando que sempre o amou e sempre o amaria, e perguntava-lhe, o que faria ele se a situação fosse inversa. Se lhe dissessem que ela o traía e ele encontrasse nas suas coisas uma missiva tão comprometedora.
Juntou a fatídica carta de Inês que ele trouxera para casa naquele dia, no bolso do casaco, e que ela guardara religiosamente, meteu tudo num envelope do hotel, foi a casa e colocou a carta no quarto bem visível junto da moldura com a foto do casamento. Depois passou pela igreja onde foi cumprir uma promessa que fizera no dia da cirurgia da mãe.
Depois, com toda a fé que albergava no seu coração, suplicou ao Altíssimo que a ajudasse a recuperar o amor do marido.
Foi ver a mãe, com quem passou um bom pedaço de tempo a conversar, e por fim voltou ao hotel onde aguardou ansiosa pela reação do marido.



Já devem ter reparado que esta história está a ir muito depressa.  Poucos têm sido os dias que não saem dois capítulos.
Acontece que quinta feira vou para o Algarve e lá não tenho pc, o que torna difícil a publicação. É certo que podia deixar agendada como das outras vezes, mas para a semana é Semana Santa, e eu não queria continuar a história, e não achava justo deixar-vos com ela a meio. Por isso peço desculpa.


20.3.18

A TRAIÇÃO – PARTE XXX





- Ora vejam, quem voltou. Já me tinham dito, mas não acreditei. E o que é isso? Roupas de bebé? Não perdeste tempo.
- É verdade. E afinal, apesar de todas as tuas intrigas, o João não ficou contigo.
Era estranho, mas pela primeira vez desde que conhecera Inês, Odete não estava nervosa, nem tinha medo dela.
- Mas separei-vos, e vinguei-me do desprezo dele. E deu-me um enorme gozo, enganar-te. Tão fácil como enganar uma criança. Eras tão ingénua.
- Realmente. E digamos que meter aquela carta no bolso do casaco dele e telefonares-me de seguida, foi de mestre, - disse exaltando a vaidade da outra na tentativa de saber como o fizera.
- Ó, isso foi muito fácil, - disse Inês sorrindo com ar de superioridade, achando-se o máximo. Tinha um detetive a seguir todos os vossos passos. Adorava ver a tua cara de coelhinho assustado sempre que aparecia nos sítios onde vocês estavam. Sabia que ele estava de serviço nessa noite. Na equipa dele, havia um enfermeiro, que me olhava de modo especial sempre que eu ia lá ao hospital tentar ver o João. Foi só levar-lhe a carta, dizer-lhe que era uma surpresa que tu querias fazer-lhe, e que me pediras para te fazer esse favor. Tudo acompanhado do meu melhor sorriso. O que é que uma mulher como eu, não consegue com um sorriso, e um olhar intencional, - disse soltando uma gargalhada.
Embora sentisse uma enorme vontade de lhe apagar o riso, com uma boa bofetada, Odete não fez, nem disse nada. Limitou-se a virar-lhe as costas e a sair para a rua. Sentia-se uma idiota. Por insegurança, pela sua falta de confiança no marido, perdera quase quatro anos de vida sofrendo pela ausência do seu amor. E agora? Como fazer João compreendê-la e perdoá-la?
Quando se encontrou entre os braços da amiga, desabou num choro que deixou Isabel assustada. Quando conseguiu acalmar contou-lhe tudo o que acontecera desde que voltara a Lisboa.
- Sabes que nunca estive de acordo contigo e te aconselhei a teres uma conversa franca com o João, antes de partires. Agora aconselho-te o mesmo.  Acredito que se lhe abrires o coração ele te perdoará embora possa sentir-se magoado por teres duvidado dele. Segundo uma amiga minha, que trabalha no hospital, o Doutor João Santos é um homem sério, casado e que vive só porque a esposa está a tirar um curso no estrangeiro. Isso quer dizer que ele não disse a ninguém que estava separado, talvez porque tinha a esperança de que voltasses. Isso é amor, amiga.
O bebé acordou e Isabel apressou-se a ir ao quarto, seguida por Odete.

8.1.18

ESCRITO NAS ESTRÊLAS - PARTE I





                                                               I


O homem estacionou o carro e entrou no centro comercial apressado. Tinha sessenta e cinco anos, era alto e delgado. O rosto emoldurado por uma farta mas bem curta cabeleira completamente branca, apresentava ainda uma certa beleza apesar da idade. Os olhos azuis, qual pedaço de céu em dia ensolarado, o nariz pequeno e a boca bem desenhada, eram parte do seu encanto. Apesar da idade, e das rugas, era ainda um homem muito interessante.
No olhar inquieto e no movimento das mãos, notava-se que apesar da sua presença forte, estava nervoso. Vinha para um encontro, que podia mudar toda a sua vida, mas… com quase vinte e quatro horas de atraso.
Quando Abílio tinha vinte anos, namorara Ema, uma rapariga da vizinhança, cinco anos mais nova. Ele sabia que ela era uma menina, mas gostava do jeito da gaiata, da sua personalidade, e pensara que como tinha uma vida à sua frente, podia esperar uns anos para que a rosa que se adivinhava naquele botãozinho, crescesse e desabrochasse esplendorosa. Porém o pai da jovem não esteve pelos ajustes, proibiu o namoro, e ameaçou que o denunciaria às autoridades como pedófilo, se voltasse a vê-lo com a filha. Por essa altura Abílio foi para a tropa, e poucos meses mais tarde partiu no paquete Vera Cruz para uma comissão no norte de Moçambique.
Abílio não esquecia a sua pequena Ema, e tinha esperança de quando acabasse a comissão e regressasse à Metrópole, o pai dela tivesse mudado de ideia, e não pusesse obstáculos ao seu namoro com a filha.
Isso mesmo escreveu numa carta amorosa, em que lhe falava das saudades que tinha dela, e lhe pedia uma fotografia para o acompanhar naquele tempo de provação.
A carta veio devolvida pouco tempo depois, como vieram as restantes que escreveu durante seis meses, até se convencer que era tempo perdido. 
Então um dia numa revista de espetáculos viu umas páginas em que vários soldados pediam madrinhas de guerra, e resolveu escrever para a revista com o mesmo pedido. Nunca esperou receber tantas respostas, mas recebeu mais de dez. Ou era chique, ou moda, as moçoilas terem um afilhado de guerra. De todas as cartas, ele escolheu a de Fernanda, uma jovem de Santar, uma vila beirã de que nunca tinha ouvido falar até à data, mas cuja carta lhe pareceu a mais atilada de todas. 
De regresso à Pátria, ansioso por ver a sua amada Ema, sofreu o desgosto de saber que se tinham mudado para parte incerta, logo após a sua partida para África. Guardou no coração, todos os seus sonhos do futuro, e a recordação de um amor que nada mais lhe dera do que um terno e ingénuo beijo, e decidiu levar a vida em frente.


continua


Nota: Ainda convalescente, mas francamente melhor começo hoje uma nova 
história, que se prolongará pelos próximos dois dias.
Uma história como vocês gostam, para amenizar as três histórias-denuncia com que iniciei o ano.

25.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVII

           As duas filhas do Manuel, na última foto antes da saída para a Igreja em 1975


Em Julho, numa nova carta, a filha dizia que o pedido do marido tinha sido deferido, e por isso já não saía da Marinha. O Manuel suspirou de alívio, pois começavam a chegar os navios carregados de gente , anteriormente residente nas colónias e que fugiam da guerra civil que se avizinhava, com os vários partidos de libertação a lutarem todos pelo mesmo objectivo. A cadeira do poder, pós independência.
O resto do ano e os primeiros meses do seguinte, foram de grande preocupação para o Manuel e mulher. Por um lado, tinham a filha mais nova, entusiasmada com os preparativos do casamento, que se realizaria logo que a irmã chegasse. É que em princípio a filha ficará a viver lá em casa após o casamento, e é preciso fazer algumas alterações, porque uma coisa é um casal a viver com os filhos numa casa  e outra bem diferente, são dois casais a viver na mesma casa, mesmo esta sendo bastante espaçosa como a que eles habitavam.
Por outro, todos os dias os retornados traziam novas de histórias de horror e guerra, muitos chegavam apenas com a roupa que tinham vestida, tal a pressa com que fugiram, apenas interessados em salvar a vida. 
As cartas da filha, iam chegando regularmente, mas  se havia um atraso, já eles ficavam numa aflição.
A falar verdade, eles só ficaram descansados, quando em Março de 75, foram ao aeroporto e viram a filha e o genro, saírem do Boeing  707, recém chegado de Angola.
Poucos dias mais tarde, a família está toda reunida para assistir ao casamento da segunda filha do Manuel, que se realizará em Lisboa.
Entretanto a filha mais velha já alugou casa, por sinal a poucos metros da casa paterna. 
Finalmente o casal, tem os filhos todos perto, e pode viver agora um pouco mais descansado.
Quase no final de 75, a filha mais nova anuncia que está grávida. O Manuel e a mulher ficam radiantes com a notícia do primeiro neto. Agora eles já sabem que a filha mais velha, tem mantido ao longo dos seis anos de casada uma luta árdua contra a esterilidade, sem sucesso até à data.


24.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVI


                         1º de Maio de 1974. Imagem de arquivo da RTP


Enquanto em Portugal se vivem tempos de euforia, e também de alguns excessos que sempre acontecem nos processos revolucionários, a filha e o genro do Manel, têm um outro problema. É que o jovem como atrás se disse tinha metido um requerimento à Marinha para sair após a comissão, e na actual conjuntura política, a Marinha era o emprego certo que tinha e a saída era uma incógnita que talvez se transformasse num grande erro a prejudicar todo o futuro do casal. Analisados todos os prós e contras, o jovem faz novo requerimento à Marinha a solicitar, a continuação. Informa, que anteriormente requisitara a saída por não estar de acordo com  a política do governo vigente, mas dado que a revolução tinha deposto o mesmo, tinha desaparecido o motivo que lhe fizera pedira a baixa, e pedia por isso que essa petição fosse anulada.
Posto isto, só lhe restava rezar, para que o pedido fosse aceite. Ele sabia, que em democracia, Portugal não podia continuar a colonizar outros povos. E com a independência, decerto a maioria do povo a viver em África regressaria ao "puto",  (era assim que em África designavam Portugal).
O país não ia ter emprego para tanta gente. E ele teria 32 anos, 11 dos quais na Marinha.
Isto mesmo, contava a filha, numa carta que o Manel recebeu no último dia do mês de Abril.
No dia seguinte, era o 1º de Maio. O primeiro depois da queda do Governo. Milhões de Portugueses vieram para as ruas por todo o país. Ninguém queria ficar em casa, nesse dia tão importante para os trabalhadores, o primeiro que se vivia em Liberdade. Ao som do grito de guerra, "O povo unido, jamais será vencido" empunhando a bandeira nacional, bandeiras partidárias ou slogans políticos, o povo desfilou pelas ruas de Norte a Sul do País. Mas não só. Também nas colónias o 1º de Maio foi festejado, com a exigência da libertação dos presos políticos. 
Na verdade, a ordem de libertação dos presos políticos, uma das primeiras medidas da Junta, foi apenas para a Metrópole. Só no 1º de Maio, com a substituição do governador de Cabo Verde pelo Comandante-Chefe Comodoro Pedro Fragoso Matos, nomeado Encarregado do Governo, foram libertados os presos políticos do Tarrafal

18.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LV



                              Av. Pinheiro Chagas em Lourenço Marques, 1970
                                                          Foto Daqui

Foi uma noite de pesadelo, o Manuel e a mulher estavam apavorados com o que podia acontecer à filha, lá em cima no avião. Eles não sabiam que a filha estava já longe da tempestade e muito acima dela.
Só iriam ficar descansados quando recebessem notícias da filha. Que chegaram dias depois,  num postal enviado do aeroporto de Luanda, onde o avião fez a primeira escala. 
Mais tarde chegaria uma carta já de Lourenço Marques, que os deixaria mais sossegados. Ela diz que a cidade é grande, bonita, e que por lá tudo está calmo.
Em Junho, morrem Almada Negreiros e o barreirense e revolucionário Henrique Galvão. Este último no Brasil, onde se refugiara depois do assalto ao Santa Maria.
A 27 de Julho morre Salazar, e  em Agosto a filha manda notícias a dizer que em breve, vão para Nampula. Em Outubro, António, um dos cunhados do Manuel, que vivera na sua casa até ao casamento, parte para Moçambique, não como militar mas como trabalhador da C.U.F. Vai para Nacala, onde a empresa tem uma filial. 
 De Nampula, as notícias da filha, não falam de guerra. Falam de seca e de escassez de alimentos. Manuel prepara uma encomenda que manda para Moçambique, mas leva tanto tempo a lá chegar que metade das coisas já chegam impróprias para consumo. 
Quase no final do ano, a fiscalização vai à Seca e obriga a que os trabalhadores da mesma passem a estar registados na Caixa de Previdência. Até aí os descontos efectuados, eram para a Casa dos Pescadores, e os trabalhadores só tinham direito a um médico uma vez por semana, e a um enfermeiro diário no posto médico da seca.  Este registo na Caixa da Previdência, dava-lhes direito a outra assistência.
Também fizeram exigências que melhoravam a vida dos trabalhadores, como o uso de luvas de borracha, para lidar com o bacalhau molhado, o que em dias de muito frio, fazia toda a diferença. 
O Natal desse ano, decorreu com grande tristeza.  Era a primeira vez que um dos filhos não estava à mesa, nessa noite.