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26.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVII

 


Tiago aproximou-se da mulher que se encontrava de costas e abraçou-a. Baixou a cabeça e depositou um terno beijo no pescoço feminino, enquanto as suas mãos acariciavam a barriga proeminente de quem está em adiantado estado de gravidez. Sentiu como um empurrando e rindo disse:

-Ena começou cedo, os treinos de futebol, hoje o rapaz.

A mulher riu e iniciou o movimento de se voltar nos braços dele, e exatamente nesse momento Tiago despertou um tanto confuso, sem noção de onde estava.

Passou a mão pela testa suada e pensou que o aquecimento do quarto devia estar muito alto, pois não era normal estar a suar em pleno Natal. Ou seria efeito do sonho. Tentou lembrar de mais alguma coisa mas não conseguia recordar. E que quereria, dizer o sonho que acabara de ter? A mulher grávida era sua mulher, isso ele tinha a certeza. Quereria isso dizer que afinal nada grave acontecera com a sua parte sexual e reprodutora?

Depois de na véspera ter acordado com aquela bendita ereção, ele já sabia que a parte sexual funcionava, mas isso não queria dizer que a parte reprodutora estivesse igualmente bem. E podia ter uma vida sexual satisfatória e ser estéril. Então o sonho seria a confirmação do seu inconsciente de que tudo estava bem, ou apenas a resposta ao enorme desejo que ele tinha de um dia poder ter a sua família? E quem seria aquela mulher? E porque estava de costas? O que quereria dizer tal sonho?

-Bom dia, doutor! - Saudou Joaquim ao entrar no quarto arrancando-o aos seus pensamentos.

-Bom dia, Joaquim. Os meus pais já se levantaram?

-Já sim. Já tomaram o pequeno-almoço e saíram para irem à missa das oito. A senhora sua mãe, queria vir ao quarto, mas o seu pai, disse-lhe que era melhor deixarem-no descansar, viriam vê-lo depois da missa, - disse o caseiro enquanto puxava a cadeira de rodas para junto do leito.

-Acreditas em sonhos, Joaquim? Acreditas que eles nos queiram dizer alguma coisa?

- Sonhos? Acredito que existem, pois já tenho sonhado, muito ao longo da vida. Mas nunca entendi se o que sonhava tinha ou não algum significado para mim.   Quem era muito ligada nisso era a minha falecida sogra. Ela dizia que eles sempre passavam uma mensagem, e que a Bíblia, relata sonhos que avisaram reis de vitórias e derrotas, ainda antes do tempo em que Cristo andava pelo mundo. E as pessoas costumavam procurá-la, quando tinham sonhos que as deixavam intrigadas.

- Que pena que já não esteja entre nós, - disse Tiago dirigindo-se à casa de banho. Nos últimos dias ele começara a ir para o banho sozinho, utilizando a força dos braços para movimentar a cadeira.


5.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XIX






Retirou da mesa de cabeceira um lenço que lhe estendeu.
-Queres contar-me o que se passa?
- Desculpa, eu não queria que isto acontecesse. Se soubesse que ia ser assim, não teria aceitado a tua proposta. Pensei que já estava esquecido. Juro, - disse entre lágrimas.
Soaram campainhas de alarme, nos ouvidos dele. Teve a certeza que aquilo não era um chilique  de noiva nervosa. Mergulhou o olhar naqueles olhos achocolatados e perguntou:
-E o que pensavas que estava esquecido? Conta-me tudo, querida.
Era a primeira vez que lhe chamava querida, e ela sentiu a palavra como uma carícia na alma.
-Eu tinha dezanove anos. Tinha entrado nesse ano no Instituto Superior Técnico e namorava um rapaz que frequentava outro curso no mesmo Instituto. Era o meu primeiro namorado, até aí vivera só para os estudos, não conhecia as manhas de que os homens são capazes. Desculpa, não quis ofender-te.
Um dia quando saímos, ele disse que me ia levar a sua casa, para me apresentar aos pais. Eu não vi mal nisso, pelo contrário pensei que era um sinal de seriedade da sua parte. Era tão ingénua! Os seus pais não estavam, em casa, nem sequer na cidade, tinham ido ao interior visitar a avó dele, mas eu só o soube, quando já era tarde demais. Assim que entrámos em casa, ele fechou a porta, guardou a chave no bolso, e começou a beijar-me e a despir-me. Lutei, com todas as minhas forças, mas quanto mais eu lutava mais ele se excitava. Parecia um animal raivoso. Eu, não estava preparada, para nada assim. A dor foi tão intensa, que perdi os sentidos. Quando acordei ele disse-me que me ia levar a casa, mas que dava cabo de mim, se eu contasse a alguém o que tinha acontecido. Quando ele abriu a porta para sairmos, fugi. Fui a pé para casa, tentando acalmar-me para que os meus pais não dessem por nada. Nunca mais o vi, mas durante um bom tempo vivi no terror de poder estar grávida. Graças a Deus isso não aconteceu. Nunca contei isto a ninguém nem sequer à minha irmã, tal a dor e a vergonha que sentia.
Desde então, nunca mais quis saber de namoros. Levei anos a reviver aquela dor, em pesadelos que me deixavam quase louca. Sentia pavor cada vez que algum homem, se aproximava de mim, até que desisti de pensar no futuro ao lado de alguém, e me dediquei só à minha profissão. Contigo foi diferente.  Apesar do meu medo, a primeira vez que me beijaste, não senti vontade de fugir, pelo contrário, gostei do beijo. E como já se passaram dez anos, pensei que tinha conseguido superar o trauma. Também não tinha voltado a ter o pesadelo. Até à noite passada. Talvez pela aproximação do casamento o pesadelo voltou, e o terror também.
Durante todo o tempo que ela falou, Pedro manteve-se em silêncio a mão direita acariciando-lhe a cabeça o punho esquerdo cerrado, a raiva fervilhando no peito contra aquele tipo asqueroso. Porém quando falou, o seu tom de voz foi tão suave, tão terno,  que foi como um bálsamo para a alma atormentada da jovem.
- Chora, se isso te faz sentir melhor, mas pensa que já passou e não voltará a acontecer. Confia em mim.
-Deixaste bem claro que o casamento seria completo,e eu devia ter-te contado logo na altura, mas não é fácil falar de uma violação. A dor e a vergonha, são como um espinho cravado na alma.
- A dor compreendo, a vergonha não. És a vítima, não a culpada. Quanto à nossa vida matrimonial, não penses nisso agora. Ela acontecerá amanhã, depois, ou noutro dia qualquer, quando estiveres mais calma e relaxada, e tiveres interiorizado, que não te irei forçar a nada e que tal como hoje pararei ao menor sinal de desconforto da tua parte.Tenho a certeza de que vamos ultrapassar isto, juntos, mas se assim não for, procuraremos ajuda especializada. Agora dorme, - disse puxando-lhe as alças da camisa para o sítio, e depositando-lhe um beijo nas pálpebras molhadas.
Algum tempo depois, sentiu como o corpo dela ia relaxando, enquanto a respiração se suavizava e finalmente adormecia. Ele ficou ainda um longo tempo acordado, aquietado corpo e alma, na certeza de ter agido como devia.


2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXV








- Então, filha, porque não convidaste o jovem a entrar. O Martim veio todo contente, dizer que tu autorizaste que eles fossem juntos ao jogo.
- E onde está o Martim, avó?
- Lá em cima no quarto. Trazia um livro, disse que ia ler. Mas… agora reparo. Onde é que está a tua aliança?
- No fundo do rio.
- Viva! Foi esse rapaz que conseguiu o milagre?
- Não foi o que me disseste para fazer, quando ia a sair de casa? Pois fiz-te a vontade.
- Vou fingir que acredito. Mas diz-me: Como é esse rapaz? É que o teu filho, fala dele com um entusiasmo que muitas crianças não têm pelo próprio pai. Sempre é o sobrinho do falecido António?
-É. Sobrinho, único herdeiro, jovem, atraente e muito rico. Chega para a tua curiosidade?
- Caramba Amélia, dizes isso como se estivesses com raiva do pobre rapaz. O que é que ele fez? Ignorou-te? Se assim é deve estar a precisar de óculos.
- Nada disso, avó. É que me irrita que de repente os meus amigos, a minha avó e até o meu próprio filho,  queiram à força que arranje um namorado. E como se isso não chegasse, cai-me do céu um homem que mexe comigo e me faz pôr em causa, tudo o que acreditei como certo até agora.
- Bom se admites que o rapaz mexe contigo, isso já me dá esperanças de te ver amparada antes de fechar os olhos. Só não entendo porque não o mandaste entrar.
- Porque ele convidou-nos a passar o dia na sua quinta, amanhã. Além disso praticamente se declarou. E eu precisava pensar em tudo o que me disse, antes de me decidir, e não queria ser pressionada. Importas-te de dizer ao Martim que venha jantar. Vou pôr a mesa, e aquecer a comida.
- Eu vou. Mas não penses que te escapas assim. Continuamos  esta conversa mais tarde.
Durante o jantar, Martim falou pelos cotovelos como soe dizer-se.  Estava entusiasmado com o encontro com Paulo e com a perspetiva de ele o acompanhar na festa da escola. Era incrível como em apenas dois encontros a criança se apegara aquele homem. E mais estranho ainda que da parte de Paulo, houvesse o mesmo carinho. Como se os dois já se conhecessem de qualquer lado.
De vez em quando avó e neta trocavam olhares. Era como se mantivessem uma conversa muda, mas que versava a admiração que o facto causava nas duas.
- O Paulo convidou-nos a passar o dia amanhã com ele. O caseiro tem três filhos, gostarias de os conhecer? – Perguntou Amélia.
- Claro que sim, mãe. E vamos todos? Também a avó e o Rex?
-Todos menos o Rex. Não sabemos os animais que há na quinta, não vamos criar confusão.O Paulo vem-nos buscar às onze horas. Agora vai escovar os dentes e vai para a cama. A mãe já lá vai dar-te um beijo



3.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE III


Aviso a quem me reconhecer. A foto é minha só porque eu casei no mesmo ano da protagonista. A estória não tem nada a ver comigo.





Agora, passados quase dez anos, o rapaz decidira casar. E queria fazê-lo com uma mulher da terra. Escreveu aos pais, dando conta dos seus desejos.
O pai dele, era amigo do pai de Sofia, e fez-lhe saber que gostaria da rapariga para nora. E quando o pai lhe falou nessa possibilidade, ela só quis saber, se era para ir viver com o marido, ou se tinha que aguardar na aldeia pelo seu regresso. Quando o pai lhe disse que era para ir para França, aceitou na hora. 
Ia fazer vinte anos, tinha a cabeça cheia de sonhos e a alma presa à submissão do regime de então que tirava às mulheres todos os direitos que não fossem o de procriar para manter a espécie. E mesmo com os filhos, eles só eram realmente seus enquanto estavam no ventre materno, porque uma vez paridos, era o pai que detinha sobre ele, todos os direitos.

29.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE IX





Quando voltou, duas horas mais tarde, a tia Rosa já tinha chegado, com o seu inseparável Tomé, um gato  que quase não se mexia de tão gordo que estava. A mãe já estava com o almoço pronto para pôr na mesa. Depois de beijar a tia, comentou:
- Gordinho o bichano, tia.
- Que queres, ficou assim depois de castrado. Já me tinham dito, mas o malandro não parava em casa antes da operação.
- Coitado...
 – Vamos almoçar que se faz tarde – interrompeu a mãe com a terrina da sopa na mão.
O almoço foi servido com as duas mulheres sempre tagarelando. Absorto nos seus pensamentos, Pedro isolou-se da conversa e foi com sobressalto que sentiu a mão da tia no seu braço, seguida da pergunta:
- Não me estás a ouvir, rapaz?
 – Desculpe tia, estava a pensar nas férias...
 – Então vê se me arranjas por lá namorada, que eu bem sei o desgosto que a minha irmã sente de nunca mais te resolveres a criar o teu ninho. Sabes que és um caso raro na nossa família? Nunca ninguém esteve solteiro até à tua idade.
- Ora tia, quando chegar a hora, eu penso nisso...
 – Quando chegar a hora? Mas rapaz estás quase com trinta anos.
 

Incomodado com o rumo da conversa, Pedro levantou-se dando o almoço por terminado.
- Vês o que fizeste, mulher? - A voz da mãe fez-se ouvir em tom de reprovação. - Por tua causa não comeu o suficiente.
- Ora essa! Mas eu não disse nada demais. Não me digas que o teu filho fez votos de castidade. Ora se ele não é padre...
 – Nada disso, minha mãe. Não quis comer mais para não me dar o sono a conduzir. Pelo caminho paro em qualquer lado e como mais alguma coisa. Vou pôr as malas no carro. A distância é grande, e a mãe sabe que não gosto de velocidades.
E dizendo isto voltou costas às duas mulheres, que continuaram a conversar. Tratou de meter a bagagem no carro e voltou para se despedir. Abraçou primeiro a tia, fazendo-lhe recomendações em relação à mãe, e por fim abraçou esta, apertando-a com força junto ao peito.
- Que se passa, filho? Sinto-te estranho desde ontem. Parece que me escondes alguma coisa.
- Nada mãe, é que é a primeira vez que vou de férias sem a sua companhia – enquanto tentava tranquilizar a mãe, não pôde deixar de pensar que coração de mãe sempre adivinha o que lhe querem esconder.
Arrancou e sem olhar para trás ergueu a mão num adeus. Sabia que as duas mulheres iriam estar ali acenando até o carro desaparecer na curva da estrada.

28.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XIX

                   
                    Três dos navios da seca

No dia 20 de Junho, dia em que a segunda filha faz 1 ano, precisamente três horas antes, nasce o tão almejado filho. O rapaz esperado desde o primeiro momento enchendo de alegria e orgulho o seu coração. Podia agora cumprir a promessa que fizera em pequeno. Dar ao filho o nome do filho do patrão, que sempre o tratara como amigo e lhe ensinara a ler.
Nesse dia quase não dormiu. Dividido entre a contemplação do filho, e  da mulher, que parecia mais cansada que das outras vezes, atento às duas raparigas, uma extremamente franzina, – não pôde ser amamentada como devia, por causa da nova gravidez – e a mais velha a caminho dos 3 anos e sempre a querer ver e brincar com a irmã, como se ela fora um boneco. Manuel estava alerta com ela. Lembrava-se do susto que apanhara uns meses atrás, quando fora dar com ela a meter pão na boca da irmãzita, e esta quase sufocada já a ficar negra. Tivera que lhe pegar pelos pés, virá-la de cabeça para baixo, e dar-lhe umas palmadas nas costas, até que por fim saltaram os pedaços de pão. E o pior foi a cara de anjinho da garota, quando disse na sua linguagem ainda trapalhona que “a mana estava a chorar, devia ter fome”. Ficou desarmado sem coragem de a castigar. Mas a partir daí o berço da menina ficou protegido por uma cancela na porta do quarto.
No mês seguinte foi a vez do Varandas ver nascer o seu primeiro rapaz.
O tempo que roda, passando sempre pelas mesmas datas numa rotina sem limite, trouxe de novo os navios e reiniciou a safra. Com três filhos pequenos, e sem ninguém que cuide deles, a mulher do Manuel não pode ir trabalhar.
E ele não consegue com o seu salário, sustentar a família.  Começou a semear alguns legumes que ajudariam, mas sem água potável perto, só à mercê da chuva, não conseguira mais do que uns raquíticos pés de couve galega. O resto do terreno estava livre de chorões e silvas, pronto para ser cavado e semeado, mas ele desistira de o fazer, pela falta de água. Fazia-lhe falta um poço. Se ele tivesse um poço, outro galo cantaria.
Era urgente que a mulher pudesse ir trabalhar, e assim o Manuel escreveu à mãe, pedindo-lhe para deixar a aldeia e vir viver consigo. Piedade já não tinha idade para trabalhar no campo, não tinha família na aldeia, nada a prendia lá.
E foi assim que no fim de Outubro, a Piedade veio viver para o grande barracão. Tomava conta dos netos e a nora podia voltar ao trabalho, apesar dela achar que a nora não estava lá muito bem de saúde.
 E o Natal desse ano não foi um Natal feliz para o nosso Manuel, apesar do rapazinho que tanto desejara. É que a mulher nunca mais fora a mesma desde o parto. Emagrecera imenso, tinha grandes olheiras, parecia estar sempre com dores. Manuel estava muito preocupado.