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9.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE IV






Após uma rápida observação, verificou que estava vivo, embora talvez não por muito tempo, pois além de poder ter alguma coisa partida, poderia ter uma hemorragia interna, e se assim fosse não teria muito tempo de vida. Presa de súbita urgência, ligou para o número das emergências. Identificou-se e deu as indicações sobre o acidente e as coordenadas  do local onde se encontrava. Depois levou o filho para o carro, ligou o motor e aproximou o carro do sinistrado, deixando os faróis acesos para que o iluminassem. Pegou na sua mala, e na echarpe que tinha no banco traseiro, e voltou para junto do homem. Com o tecido improvisou um colar que passou à volta da cervical do homem, despiu o casaco que colocou na estrada, e só então com extremo cuidado o virou. Viu-lhe o pulso. Muito fraco. Desapertou-lhe a camisa, e os seus dedos ágeis e treinados percorreram cada cm do tórax dele.  
Pegou no telemóvel e voltou a ligar para a emergência.
- Por favor, fala a doutora Helena Correia. Acabei de observar o sinistrado. Há rotura do baço, hemorragia interna e duas costelas fraturadas. O pulso está muito fraco, e também está ferido na cabeça. É importante que avisem o hospital mais próximo para que preparem tudo para uma cirurgia de urgência, assim que a ambulância chegar. Não sei há quanto tempo se deu o acidente, pode não restar muito tempo para a cirurgia de extirpação do baço. A ambulância está a chegar, - disse ao vê-la aproximar-se a toda a velocidade.
- Vamos tratar já de avisar o hospital. A doutora não poderia seguir a ambulância até lá?
- Vou tentar, mas não poderei demorar, tenho comigo o meu filho de cinco anos, cheio de sono.
Os bombeiros chegaram e rápidos e cuidadosos, prepararam o homem para o transporte, arrancando de seguida rumo ao hospital, seguidos pelo carro da doutora.
Quando lá chegaram, já a equipa médica estava a postos para a cirurgia. Helena prestou todos os esclarecimentos relativos a como encontrou o sinistrado, que se verificou estar sem documentos, deu o seu nome e morada, bem como do hospital onde trabalhava, para a contatarem, caso fosse preciso. Porém, como pela urgência do momento não aguardaram pela chegada da polícia, ainda teve que aguardar que o polícia de serviço no hospital, registasse a ocorrência, e examinasse o seu carro, para verificar se havia indícios de ter sido ela a atropelar a vitima, e só depois foi autorizada a regressar a casa.

27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV




Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos de verdade. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava expresso todo o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.




15.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV


Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava bem expresso o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.