No dia seguinte, Ricardo apareceu na cozinha à hora do costume. Não ia para o quartel, mas não queria deixar de tomar o pequeno-almoço com os filhos.
Porém quando eles se preparavam para sair, e lhe perguntaram se ia levá-las à escola, desculpou-se dizendo que não podia. E dando um beijo em cada um, retirou-se para a biblioteca. Era evidente para todos que estava de mau-humor.
Clara deixou os pequenos na escola e seguiu para a
Secundária com o irmão.
- O Ricardo parecia aborrecido, - disse Tiago quando
ficou sozinho no carro com a irmã. – Zangaram-se?
- Não. Mas eu fui estúpida e incorreta com ele e decerto o magoei.
- Tem cuidado maninha. O Ricardo é um bom homem e
adora-te.
- Donde tiraste essa ideia?
- Basta ver como te olha. Não me digas que tens
dúvidas.
- Não sei. Penso que me vê mais como amiga que como esposa.
-Ninguém olha assim para uma simples amiga. Não
gostaria de saber que vocês são infelizes por falta de confiança. Até logo, –
disse abrindo a porta do carro e saindo.
No caminho de regresso, Clara ia pensando no que o
irmão lhe dissera. Seria verdade que Ricardo a amava? Deveria ser. Ela mesma
suspeitara disso, mas quem sabe, não era apenas a sua vontade que a fazia ver aquilo que queria ver. E agora? Por
causa da sua estupidez teria estragado as suas hipóteses de ser feliz?
Chegou a casa e dirigiu-se à biblioteca. Bateu
levemente na porta e entrou. Ricardo estava sentado à secretária com um monte
de cadernos na sua frente. Não levantou os olhos do caderno que lia.
- Posso falar contigo? – Perguntou
Continuando a manusear os cadernos, ele respondeu com
outra pergunta:
-É importante?
- Para mim é. Fui irrefletida, falei sem pensar e sei
que te ofendi. Quero pedir desculpa. Nestes nove meses, tens sido sempre
correto comigo e atencioso com o meu irmão. Não tinha o direito de te ter
dito, o que te disse ontem.
- Desculpas aceites. Agora se não te importas, tenho
muito trabalho pela frente.
Sentindo-se quase a chorar, voltou-se e dirigiu-se
para a porta. Quando se preparava para a abrir, ele levantou a cabeça e disse.
-Suponho que não mudaste de ideia em relação à adoção
das crianças.
- Claro que não.
- Obrigado. Vou telefonar ao Francisco.
Durante o resto da semana, a situação não se alterou. Quando
as crianças estavam presentes, os dois tratavam-se com a maior cordialidade
possível, mas assim que elas saíam para a escola, Ricardo fechava-se na
biblioteca, de onde só voltava a sair quando regressavam à hora do almoço. Por
seu lado Clara, quando não estava com as crianças, ou estava na cozinha
ajudando Antónia, na confeção de algum prato que sabia ser de especial agrado
delas, ou no terraço lendo, ou ainda no seu quarto muitas vezes a chorar.
Sentia que Ricardo continuava magoado, e
recriminava-se por isso.
Enquanto isso, na biblioteca, ele olhava a página em branco, sem
saber como começar a delinear as personagens que se iam movimentar na trama do
romance que queria escrever.
Começava a pensar que se tinha metido numa
camisa-de-onze-varas, quando seguiu o conselho de Francisco. É verdade que os
seus filhos tinham encontrado uma mãe. E para ser justo, uma excelente mãe.
Nesse aspeto nada a apontar. Já como mulher era outra história. Fizera-lhe
questionar-se e acabara revolucionando toda a sua vida. Fizera-o sonhar com uma família, libertara a
sua libido, e abrira o seu coração, a novos desejos. E acabara traindo-o
como todas as outras mulheres que passaram pela sua vida.
Como fora capaz de lhe jurar amor, se não confiava
nele, se duvidava da retidão do seu carater? Poderia existir amor sem
confiança? Por outro lado de que tinham servido aqueles seis meses de mensagens
constantes onde sem pudor ele desnudou a sua alma?
Certo que ele não a amava. Mas a admiração, respeito e
carinho que sentia por ela, não contavam? E a química que existia entre os
dois? E o desejo de a fazer feliz? E o desejo de partilhar com ela o resto da sua vida? Isso não valia nada?
Ricardo estava tão obcecado em nunca mais amar, que
não se dava conta de que o amor não era mais do que aquilo que ele sentia. Será
que o ia reconhecer algum dia? E será que Clara o compreendia e o aceitava, desistindo de esperar que ele reconhecesse os seus sentimentos?








