Teresa chegou a casa pouco passava das três, da tarde. Poisou a pequena mala em cima da cama e levantou a persiana, passando depois às outras divisões e fez o mesmo, exceto na sala onde naquele momento o sol incidia com toda a sua luz e calor. Voltou ao quarto, esvaziou a mala e guardou-a em cima do roupeiro. Depois pegou na roupa suja, levou-a para a cozinha, meteu-a na máquina, adicionou o detergente, escolheu o programa e ligou-a. Passou a mão pela testa transpirada e suspirou. Precisava com urgência de um duche, estava demasiado calor.
Pensou que o melhor era tomar banho e depois descansar um
pouco sobre a cama. Quem sabe fazer uma pequena sesta. Com a ansiedade, quase
não dormira na noite anterior e depois o calor e a viagem tinham acabado com a sua
resistência. Mais tarde, iria ao supermercado e como era domingo, dia de encerramento da pastelaria, talvez desse um salto a casa de Inês, para matar saudades de Martim, o
pequeno filho da amiga, seu afilhado.
Pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e foi para a casa
de banho onde tomou um duche refrescante. Enquanto se dedicava a secar os
longos cabelos, pensou que talvez fosse uma boa ideia procurar um salão de
cabeleireiro e dar-lhe um bom corte. Afinal de contas, para quê manter um cabelo
que lhe chegava à cintura se na pastelaria andava sempre com ele preso dentro
da touca, e em casa o prendia numa trança ou num coque no alto da cabeça? Com
essa ideia na cabeça foi até ao quarto e entendeu-se sobre a colcha.
Pouco depois, o cansaço, o calor, ou as duas coisas, venceram-na
e adormeceu.
Acordou duas horas mais tarde. Vestiu-se foi à dispensa
buscar um saco para as compras, retirou da porta do frigorífico a lista de
faltas, pegou na carteira e nas chaves e saiu.
No supermercado, perdeu quase uma hora na secção de bebé,
vendo e tocando nas roupinhas, sem no entanto, se atrever a comprar nada, pois
tinha bem presente aquilo que na aldeia se dizia. “Dá azar começar a fazer
compras antes dos três meses de gravidez”. Mas não resistiu a comprar uma moto
de plástico azul para o afilhado. O menino tinha treze meses começara a andar
há um mês, talvez já se equilibrasse na moto. Se não os pais guardavam-na por
mais uns meses.
Contente, com a imaginada alegria do menino, pôs a caixa com o brinquedo, no carrinho das compras e suspirando foi enfim comprar as coisas que
segundo a lista lhe faziam falta.
Mais tarde, em casa de Inês, e depois de ter colocado o
afilhado em cima da moto, segurando-o, pois, os pezitos ainda não chegavam aos
pedais, e na tentativa de lhe chegar, o bebé não se equilibrava, Gustavo pegou
no filho ao colo e disse:
- Vou mudar a fralda do Martim. Enquanto isso porque não
ofereces um café à Teresa?
Mal virou costas, Inês pegou no braço da amiga e
“arrastou-a” para a cozinha.
- Então como te sentes?
- Bem. Se não fossem os resultados dos testes diria que
estou na mesma.
-E quando vais ao médico?
-Tenho consulta marcada para amanhã. Provavelmente vai
fazer-me outros exames.
- Tens noção que a tua vida vai mudar muito, não tens? Não
vais poder levantar-te às quatro da manhã, para estares na pastelaria às cinco.
-Tenho intenção de continuar a fazê-lo pelo menos enquanto
a barriga não se torne demasiado pesada. Gravidez não é doença.
- Diz isso ao teu organismo, quando os enjoos te deixarem de
rastos, ou quando o sono não te deixe abrir os olhos.
- Não pode ser tão mau assim! Ou ninguém engravidaria.
- Pois, eu também pensava como tu. Mais, julgava que as pessoas diziam isso para
nos assustar. Mas passei por isso tudo. Os enjoos, o sono, os pés inchados, as
dores nos rins, o cansaço. E mais dezasseis horas de contracções, até ao momento
em que o Martim nasceu.
- Caramba Inês, não há dúvida que sabes como animar uma
pessoa.