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11.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXII



Passaram-se  três meses, durante os quais Teresa só saiu de casa para tirar os pontos, e para as consultas necessárias com ela ou com os bebés. Apesar de todas as ajudas com amas e enfermeiras, sentia-se sempre cansada. Continuava a dar de mamar oito a dez vezes por dia, e nos intervalos continuava a tirar leite não só para alimentar um dos bebés, como para manter estimulada a produção, congelando o excesso quando sobrava para depois lhes dar quando começasse a ser necessário um reforço.  

 E ainda assim,  pensava que era uma privilegiada. Imaginava como seria a sua vida, sem família, a viver de um emprego e ter tido três filhos em vez de um. Não sabia se teria forças para sobreviver. E ela sabia que havia milhares de mulheres em todo o mundo, que passavam por isso.  

Outra coisa que a preocupava, era a relação com o marido. Desde que viera para casa, que partilhavam o leito conjugal, mas apesar de já ter passado o tempo de resguardo ainda não tinham consumado o casamento.  No início ele abraçava-a e ela deitava a cabeça no seu ombro e dormia assim o pouco tempo que lhes era permitido entre as mamadas dos bebés.

Passados que foram dois meses, as carícias do marido tornaram-se mais insistentes, mais ousadas, mas ou por causa do cansaço ou pela preocupação, o certo é que ela perdera o desejo que sentira pelo marido antes do parto, e começou a evitá-lo, procurando que os seus corpos não se tocassem.

Embora João não se queixasse, ela sentia-lhe o desejo frustrado, e ficava nervosa, cada vez que via a noite aproximar-se, e pensava que daí a pouco ele se ia deitar a seu lado. O pior é que os bebés percebiam o nervoso da mãe e mostravam-se mais inquietos.

Isso levou Sandra a inquirir o que se passava com ela, se estava doente, se tinha dores no peito, às vezes o mesmo gretava e causava dores. Não era o seu caso.

Apesar de entre as duas ter nascido uma relação de amizade, Teresa envergonhada não se abriu.

Porém quando Inês a visitou nessa tarde Teresa contou-lhe o que a atormentava. 

Inês contara-lhe que também tinha tido esse problema e que a doutora Laura lhe dissera que o cansaço, a ansiedade, e o aleitamento dos filhos, reduziam de forma drástica a libido de muitas mulheres.  Em vez de tentarem uma relação frustrante, deveriam optar por abraços prolongados, beijos, massagens, carícias mais ou menos ousadas, e ia ver que num mês ou dois o organismo ia começar a reagir e a exigir mais. ´

-E o certo é que realmente funcionou, - disse.

 A amiga também lhe aconselhou a ter uma conversa franca com João e explicar o que se passava.  De contrário ele podia pensar que havia da parte dela uma rejeição, ou até que ela se arrependera do casamento.

Por outro lado, os bebés tinham crescido imenso e os três estavam já com um peso muito semelhante, ao de bebés não prematuros. E dentro de dois meses poderia começar a alimentação artificial com a introdução de um reforço, que se ia tornando cada vez maior até deixar de dar de mamar por completo. E nessa altura, poderia enfim relaxar e ter um tempo só para eles dado que os bebés tinham duas amas e uma enfermeira para cuidar deles. 

 Nessa mesma noite, Teresa confessou ao marido o que se passava com ela e pediu-lhe que tivesse um pouco mais de paciência. Contrariamente ao que supôs, João mostrou-se compreensivo

- Casámos há oito meses, dormimos na mesma cama há três meses e ainda não tivemos a nossa noite de núpcias. Se temos que esperar mais dois ou três meses, esperaremos.  Afinal o que são alguns meses quando Jacob esperou 7 anos para ter Raquel - terminou sorrindo para a animar.    

 

10.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXI




Cinco dias depois, Teresa e os bebés deixavam o hospital, acompanhados pelo pai, que amparava a esposa e carregava um dos bebés no ovo, seguidos  pela enfermeira Sandra, que passara os dias anteriores, sempre junto de Teresa no quarto da maternidade hospitalar e por uma ama, cada uma carregando um ovo com um bebé .

 Por sua vez, João  embora tivesse que ir todos os dias à empresa despachar os assuntos mais urgentes, e entrevistar as possíveis amas, também passara com ela grande parte dos dias, e aos poucos foi perdendo o medo que inicialmente tinha de pegar nos filhos, aprendeu a mudar as fraldas, e até a dar o biberão ao terceiro bebé.

Teresa, tinha a sensação de que não fazia mais nada senão dar de mamar. Os bebés mamavam oito vezes ao dia, e a meio de cada mamada tinha que utilizar a bomba para extrair leite, (colostro) naqueles primeiros dias, para o terceiro. Para facilitar a rotina amamentava sempre dois ao mesmo tempo e João ou Sandra, quando o empresário não estava, dava o biberão ao terceiro.

E foi incentivada por Sandra e pelas enfermeiras de serviço a tentar dormir todo o tempo que podia a fim de poder descansar.

Entretanto os bebés, já saíram do hospital registados. Parecia impossível, mas os dois tinham deixado a escolha dos nomes dos bebés para depois do nascimento, pelo que na hora do registo, João lembrara as palavras da médica no momento em que a menina nascera e dissera que ela se devia chamar Vitória, mas Teresa dissera que o nascimento dos três tinha sido uma vitória por igual e que ela tinha pensado em Maria, por ser devota da Virgem e por a Ela ter rogado muita vez para que os meninos nascessem saudáveis e não precisassem ficar na incubadora quando ela tivesse alta.

Quanto aos meninos, o pai gostaria de que um deles se chamasse David, numa homenagem ao irmão que conhecera há tão pouco tempo e com quem descobrira uma ligação que nunca julgara possível. Até estava a pensar convidá-lo para padrinho. Por seu lado, a mãe desejava que um deles tivesse o nome do pai, pelo que acabaram por ser registados João e David como o pai e o tio. E não era difícil distingui-los, pois apesar de parecidos, não eram gémeos idênticos, mas fraternos.

Em casa, esperava-os Olga, com a outra ama que João já contratara. Tal como ele decidira, havia um quarto preparado para as amas, ao lado do quarto dos bebés e a cama que estivera no quarto de casal, onde dormira a enfermeira Gabriela durante a gravidez  de Teresa, fora levada para o quarto deles, onde a enfermeira passaria a dormir.  Ela chamaria as amas sempre que precisasse de ajuda para os levar a mamar, para os mudar, ou para os acalmar.

Depois que os bebés foram deitados nas suas caminhas, e Teresa se encontrava deitada e sozinha no quarto com o marido, este notou que ela se mostrava apreensiva, pelo que perguntou o que a preocupava.

- Disseste que ficavas aqui, mas levaram a cama para o quarto dos bebés, para a Gabriela. Onde é que tu dormes? – perguntou.

- Contigo. Afinal somos casados há quase cinco meses, Teresa.

- Mas…

- Sei o que estás a pensar. Mas pensa no seguinte. Nós não somos um casal normal. Não namorámos, não noivámos, não tivemos qualquer intimidade, a não ser um ou outro beijo e uma carícia dirigida aos bebés na tua barriga de grávida. 

Não sei se o que sentes por mim, mas posso dizer que desde o início senti uma grande atração por ti, que o meu primeiro pensamento no dia em que te conheci, foi de desejo e que ao longo destes quase nove meses essa atração não só cresceu, como se tornou num sentimento muito mais forte e íntimo que penso seja  aquilo a que chamam de amor.

Assim pensei que pudemos começar a criar laços de intimidade desde agora, aproveitando o tempo de resguardo da melhor maneira. Alem disso gostaria de estar contigo sempre que tenhas de amamentar de noite, gostaria de ser eu a dar o biberão a um dos bebés. Mas se não estás preparada, posso ficar num dos outros quartos. Penso que devia ter-te dito isto no hospital, mas estavas sempre acompanhada.

- Tens razão João, desculpa a minha timidez, afinal, nunca dormi com um homem.

- Sou o teu marido, querida. E de momento vou ficar feliz por partilhar a tua cama.  Por ora será apenas isso, um dia no futuro partilharemos a cama, os sentimentos e tudo o que a vida nos permitir que partilhemos.

- Mas e a Gabriela, e as amas?

- O que é que tem?

- Não vão ficar intimidadas para trazerem os bebés ao quarto, contigo aqui?

- Não te preocupes. Olha, temos aqui um radio transmissor, que nos avisará quando eles acordarem. Então levanto-me, e aguardo levantado que elas venham trazê-los. Não me encontrando deitado, ninguém se vai sentir intimidado.




9.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXX

Porque enfim acabei esta história ela sairá diariamente até acabar




Vinte minutos depois, Teresa era levada para o quarto, e logo depois os três berços também.

Foi autorizada a permanência do pai no quarto, mas Olga e Sandra não poderiam ficar mais de cinco minutos, primeiro porque a parturiente não se podia cansar, segundo, porque dentro de minutos ela iria receber a visita de uma enfermeira especializada em aleitamento materno que lhe ia ensinar como amamentar os bebés.

Uma vez, que a sua amiga estava no turno da noite, Sandra falou com a enfermeira de serviço, mostrou a sua identificação profissional e assumiu-se como enfermeira particular da parturiente pelo que pedia autorização para ficar com ela no quarto enquanto ela se mantivesse no hospital. 

A enfermeira disse-lhe que não tinha poder para lhe dar essa autorização, as normas no hospital diziam que as visitas só eram possíveis a partir das quinze  até às dezassete, nunca mais de duas pessoas, além do pai, mas dado o seu caso especial, ela poderia falar com a enfermeira chefe, pois só ela poderia dar ou não essa autorização. Sandra, assim fez e em breve recebia um cartão que lhe dava livre acesso à  permanência no quarto, pelo que João disse a Olga que podia regressar à empresa, Sandra apanharia um táxi quando saísse.

Sandra ainda mal tivera tempo de ver os bebés, quando uma enfermeira entrou no quarto para explicar a Teresa, como fazer para amamentar os bebés.

- Boa tarde. Sou a enfermeira Filomena Seabra, especialista em aconselhamento de amamentação. Estou aqui para lhe ajudar as esclarecer todos as dúvidas em relação à boa alimentação dos seus bebés. Fez alguma preparação para estimular o peito antes do parto?

-Sim, foi uma gravidez de risco, estive sempre acompanhada por uma enfermeira que me ajudou – disse Teresa apresentando Sandra.

-Muito bem, isso é essencial, mas agora chegou a hora de por em prática o que aprendeu e ver se resulta. Vamos tentar dar a primeira mamada.

Sandra apressou-se a levantar a cabeceira da cama e a ajeitar a almofada nas costas de Teresa de modo a deixá-la o mais confortável possível.

A enfermeira Filomena retirou do berço um dos bebés e disse:

 - Primeiro vamos despir o bebé e coloca-lo sobre o peito da mãe. O contacto pele com pele, com a mãe é muito importante e deveria ter sido feito na sala cirúrgica, mas como estes bebés são especiais por serem múltiplos e prematuros, e não se saber se precisariam ou não de ir para a incubadora, não foi feito na altura. Portanto vamos fazê-lo agora

Vamos despir um de cada vez, deixá-lo só envolto na mantinha e deitá-lo durante alguns minutos no seu peito. E vamos ver se ele agarra na mama. É muito importante estimulá-los. Faremos isso com cada um. Mais tarde quando lhe apanhar o jeito poderá amamentar dois de cada vez e o terceiro por biberão. Deve ir alternando o que amamenta por biberão para que não se torne preguiçoso a sugar, já que para eles é mais fácil sugar da tetina do que do peito.

 Vai ter que tirar leite, no intervalo das mamadas não só para estimular uma maior produção, mas para alimentar o terceiro bebé.

Todavia isso não vai ser problema se vai ter a seu lado a tempo inteiro uma enfermeira, ela não só a ajudará a tirar e conservar o leite até à mamada seguinte como lhe esclarecerá as dúvidas que tenha na altura.  

-E se eu não tiver leite suficiente para os três? – perguntou Teresa.

-Vai ter não se preocupe. A natureza se encarrega disso. O corpo de uma mulher é uma fábrica de leite. Quanto mais os bebés sugarem mais leite a mãe produz. Há estudos que dizem que uma mãe, pode produzir três litros de leite por dia. E em média, um bebé masculino, mama por dia 881mililitros. As meninas menos. Por isso não se preocupe.

Enquanto falava desapertara a parte de cima da menina e disse:

- Vamos lá pai, segure a sua filha e ponha-a no peito da mãe. É muito importante tanto para os bebés quanto para a mãe, que o pai e companheiro tome parte no processo sempre que possível.

- Mas, - balbuciou João. É tão pequenina, como vou segurá-la?

- Assim, - disse a enfermeira colocando-lhe a bebé no colo.

Tremendo João voltou-se com a filha nos braços e ajudado pela enfermeira depositou-a no colo da mãe, que já abrira a bata de modo, a apresentar a parte superior do corpo nu, ao contato com a pele da sua filha.

Durante uns minutos a bebé esteve ali sendo estimulada pela mãe e pela enfermeira até que segurou a mama e começou a sugar. Minutos depois a enfermeira retirou a bebé, vestiu-a e deitou-a no berço. Repetiu a operação com os meninos, primeiro um depois o outro, sempre incentivando João a participar do momento.

7.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVIII






- Bom dia, Olga.

-Bom dia, João. Como está a Teresa? Os bebés já nasceram?

- A Teresa está no recobro, os bebés já nasceram e estão bem, mas são tão pequeninos.

- São três num espaço que é suposto ser só para um. E ademais são prematuros, mas o essencial, é que estejam bem. Foram para a incubadora?

- Não, os médicos dizem que eles estão a respirar bem e que apesar de pequeninos, não apresentam qualquer problema que necessite ajuda médica. Foram para o berçário, até a Teresa sair do recobro, depois vão para o quarto para ao pé da mãe. Ela mal os viu, eles foram logo com o neonatologista para serem examinados. Mas depois falamos melhor. A Sandra está por aí?

-Está no posto médico. A enfermeira Gabriela fez o favor de esperar por ela para a avisar, senão nem sabíamos de nada.

- Deves compreender que foi tudo tão rápido que não deu tempo para nada. Agora toma atenção, vai ao meu gabinete e da primeira gaveta da esquerda, tiras a chave suplente do meu carro e diz à Sandra que mo venha trazer. E tu passa as chamadas para o escritório, e segue-a no teu carro. Preciso falar convosco, são quase horas do almoço, podemos almoçar por aqui perto, a Teresa só sai do recobro dentro de duas horas. Mais tarde levas a Sandra até ao carro dela.

Antes de vires telefona à Gabriela dá-lhe a notícia. Não demorem, espero-vos na entrada do hospital.

Desligou a chamada, e ligou para o irmão que tinha o telemóvel desligado, provavelmente por estar em audiência no tribunal e então ligou para Helena, a cunhada para lhe dar a notícia. 

Ela fez-lhe um monte de perguntas, se tinha corrido tudo bem, se tinha sido rápido, se ele assistira ao parto, se a Teresa estava bem se os meninos estavam na incubadora, se os podiam ir visitar, enfim uma infinidade de perguntas a que ele foi respondendo com podia e sabia, já que só quando a mulher fosse para o quarto poderia falar com a enfermeira do bloco, para saber essas coisas. 

Atravessou o átrio do hospital e chegou à porta da rua onde iria esperar pelas duas empregadas.

Olhou à volta, apesar do calendário marcar o dia catorze de Fevereiro, o dia estava lindo, a temperatura amena, o sol brilhava radioso, e as árvores cobriam-se de minúsculos brotos, que mais tarde as encheriam de belas e verdes folhas. Ainda faltava mais de um mês para o início da Primavera, mas o clima do dia, já parecia tê-la antecipado. 

Era um dia lindo para iniciar a vida. Oxalá a vida dos seus filhos fosse composta por milhares de dias lindos e felizes. Sabia que a vida não é um mar de rosas, ela também tem os seus espinhos, mas também sabia que se Deus lhe desse vida e saúde, ele tudo faria para amenizar esses espinhos, quer  eliminando-os, quer educando-os e dando-lhes ferramentas para que eles próprios se livrassem deles.  E tinha a certeza que teria sempre a ajuda de Teresa. Ela era uma grande mulher. E ele era um homem de sorte. Tinha a certeza de que nem procurando com uma lupa, encontraria outra como ela. 

4.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LIV

 


Naquela noite, enquanto Gabriela jantava, e João fazia como de costume companhia a Teresa, a conversa recaiu sobre a ecografia e a emoção que ambos sentiram. E então ele perguntou-lhe se já tinha pensado nas suas vidas quando os bebés nascessem, ao que ela respondeu que lhe prometera falar nisso quando passasse a barreira dos três meses. Faltavam quatro semanas e talvez fosse superstição sua, mas antes das doze semanas não tomaria nenhuma decisão pensando no seu futuro e no das crianças.

- Eu tenho fé que vai correr tudo bem e até já imagino os três meninos…

- E se forem três meninas, - interrompeu Teresa. Fará alguma diferença?

- Nenhuma, - respondeu prontamente. Penso que de forma inconsciente, quando se espera um filho, uma pessoa tem sempre tendência a falar no seu próprio sexo. Um homem fala em meninos, uma mulher em meninas, mas na prática pouco importa. O que realmente conta, é que sejam saudáveis. E vão ser felizes porque se vão ter uns aos outros, vão poder brincar juntos, amar-se e apoiar-se. Crescer sozinho, é muito triste.

- Foi assim contigo?

-Foi. O meu pai era uma pessoa muito severa, e a única amiga que eu tinha era a Olga, que vivia no mesmo pátio mesmo ao lado da minha casa, mas ela tinha quase onze anos a mais que eu. Quando eu tinha cinco anos ela já estava no secundário e tinha mais ou menos o mesmo corpo que tem hoje. É fácil de perceber que as minhas brincadeiras não lhe interessavam.

- E a tua mãe?

É uma história muito complicada, não dá para ta contar agora, a Gabriela deve estar a voltar do jantar. Mas prometo que ta conto em breve.

-Eu também sou filha única, mas nunca fui uma criança solitária, pois na aldeia éramos todos muito unidos. Mas de certo modo tenho pena destas crianças.  Eles nunca vão ter o carinho de tios, primos ou avós. Eu não conheci o meu pai, nem o meu avô, mas a minha avó era uma grande mulher e foi sempre um pilar de apoio para a filha e neta. Os nossos filhos nunca vão ter esse apoio.

- Não. Mas vão apoiar-se entre si e vão contar com todo o amor da nossa parte. E poderão vir a contar com o apoio de tios e primos, pois acabo de saber que tenho um irmão, que me parece ser uma boa pessoa. Em breve conto-te tudo. Desejo que saibas tudo sobre mim, para que, quando chegar a hora de tomares uma decisão, não tenhas dúvidas.

Naquele momento a enfermeira regressou ao quarto, e isso impediu Teresa de responder se é que o queria fazer. Ele despediu-se desejando uma boa noite às duas, e saiu do quarto.

Já no escritório, olhou o relógio. Nove e dez da noite. Não eram horas de ligar ao irmão, provavelmente estaria com a noiva, mas podia mandar uma mensagem.

Escreveu:

“David, já li a carta. Queria estar contigo, gostava que me falasses da mãe e de ti. Conhecer-te. E dar-me a conhecer. Quando puderes dispor de umas horas, avisa-me. João”

Um quarto de hora depois chegou a resposta.

“Amanhã não tenho audiências. Tenho dois clientes de manhã, e a tarde livre. Podemos almoçar juntos. Telefono-te quando estiver livre e combinamos. David”

Pôs de lado o telemóvel, abriu o portátil e dedicou-se a ler os emails recebidos, quase todos de felicitações pelo “Survive II”.

 

2.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE L III

 


-Peço desculpa, doutora; - disse Teresa encaminhando-se para a marquesa – está lá fora o pai. Será que ele pode assistir à ecografia?

- Pode e deve. Afinal não foi ele que assumiu a responsabilidade de tratar de si, para que não fosse internada?

- Sandra, pode ir chamá-lo por favor, - pediu a jovem

- A vossa história é muito curiosa, -disse a médica quando a enfermeira saiu. Nunca tive conhecimento de nenhum caso igual.

Teresa não chegou a responder pois bateram à porta e à ordem da médica, João entrou na sala, e depois de cumprimentar a obstetra, tomou lugar junto da jovem.

- Bom, - explicou a doutora, enquanto punha o gel na parte visível da barriga de Teresa. - Às oito semanas não há ainda muito para os pais verem, pois só às doze é que os bebés estão inteiramente formados, mas é essencial para o médico ver se está tudo bem, e confirmar a idade gestacional do embrião, que é sempre duas semanas inferior ao tempo de gravidez. Muito mais tratando-se de uma gravidez múltipla. Bom, cá estão eles, vejam aqui, aqui e aqui, - disse, o rato apontando os locais no monitor.  Vamos ouvir os seus corações.

Uns segundos depois a médica deu o exame por terminado, desligou o aparelho e olhou-os. A jovem olhava embevecida o seu ventre como se pudesse ver através da pele o que lá ia dentro. O homem tinha a mão de Teresa entre as suas e os olhos semicerrados talvez para esconder a emoção que sentia.

- Está tudo bem com os bebés, a Teresa pode levantar-se, - disse a médica dando-lhe uma toalha de papel para que limpasse o ventre. E enquanto retirava as luvas acrescentou.

-É melhor o senhor sair agora e pedir à sua enfermeira que entre. A consulta está quase a terminar pode aguardar na sala de espera.

- Obrigado, doutora - disse apertando a mão que a médica lhe estendia.

João saiu e Sandra entrou. A sala de espera, ali no corredor das consultas era pequena. Um quadrado com dez cadeiras ocupando dois dos lados, no outro duas casas de banho.  A parte que dava para o corredor sem parede. Claro, havia a enorme sala onde estiveram anteriormente, junto à entrada, onde se encontravam os gabinetes de inscrição, e foi para aí que ele se dirigiu, uma vez que aquela estava cheia. Estava por demais emocionado. Desde criança sempre fora um solitário. Mesmo na escola, nunca se aproximava muito dos outros meninos, que chegavam sempre acompanhados pela mãe ou pelo pai. Ele ia sozinho. Apenas nos três primeiros dias de aulas, no primeiro ano, a mãe de Olga o levou. Mas o pai soube e logo a proibiu.

“A vizinha fica proibida de levar o rapaz à escola. Nem você nem a sua rapariga. Se eu que sou pai, não o levo, é porque entendo, que ele tem que aprender a desenrascar-se sozinho. Era o que me faltava, fazerem do rapaz um maricas, sempre agarrado às vossas saias” 

Ainda hoje, ele parecia estar a ouvi-lo gritar, mais do que dizer aquelas palavras à dona Hortense.

Com medo do pai, ele começou a isolar-se. Não ia para a rua brincar com os outros miúdos ao fim da tarde, e mesmo na escola nunca procurava entrar nas brincadeiras dos colegas.

Encontrou uma fuga à realidade quando aprendeu a ler. Com os livros ele viajava por terras estranhas, conhecia crianças felizes. Não como ele, a quem a mãe tinha abandonado, e às vezes perguntava-se porque o pai não fizera o mesmo. Afinal, também não parecia gostar dele.

Bom, verdade seja dita, nunca lhe faltou a comida, embora fosse a D. Hortense quem fizesse as refeições, ele sabia que era o pai que atestava a dispensa. Também nunca lhe faltou roupa, calçado e livros. Até um computador lhe comprou quando ele tinha 12 anos.

O pior foi depois. Quando ele começou a entusiasmar-se e  a não querer ir aos fins de semana para a oficina para ficar no computador.

Naquele momento Teresa e Sandra regressaram da consulta e ele apressou-a a ir buscar o automóvel.


Aos amigos que me visitam lembro que estamos em Novembro, e que não devem esquecer que apesar da pandemia há outras doenças que também matam, e que maia vale prevenir do que remediar.

Este símbolo estará no Sexta durante todo o mês para lhes lembrar isso mesmo, tal como esteve o mês passado o símbolo rosa. 


23.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIX



Dez minutos depois, João tinha as duas no seu escritório.

Explicou a situação que estava vivendo e terminou dizendo:

O que eu pretendo é que a Teresa não seja internada. Para isso preciso que a Sandra nos acompanhe ao hospital, fale com a médica e lhe diga que a Teresa vai ter o melhor acompanhamento pois terá sempre a seu lado uma enfermeira para cuidar dela. Leve a sua carteira profissional. Se isso evitar que ela fique internada, a Sandra deixará o serviço no posto médico e passará a cuidar exclusivamente dela. E tu Olga telefonas para a agência com quem costumamos trabalhar pois precisamos contratar mais duas profissionais de enfermagem. Uma para ficar lá em baixo no lugar da Sandra, outra para ficar aqui durante a noite. Não quero que a Teresa fique desacompanhada em nenhum momento.

 - Mas… e o meu trabalho quando a dona Teresa já não precisar de mim? – perguntou Sandra.

- Não se preocupe o seu lugar está garantido no posto médico. A nova enfermeira será avisada de que estará a fazer uma substituição durante um ano.

-E se a Teresa tem mesmo que ser internada? – perguntou Olga.

- Ainda que assim seja, não estará no hospital mais do que uma semana ou duas, até que recupere peso. Voltará para casa e precisará na mesma de quem cuide dela até que os bebés nasçam. E até depois disso, pois cuidar de três crianças ao mesmo tempo, não é tarefa para uma mulher só. Agora a Sandra vem comigo, vou-lhe apresentar a Teresa. Ela quer tomar banho, mas não a deixe fazê-lo sozinha, pode sentir tonturas ou até desmaiar pois segundo a médica disse está muito fraca. E tu Olga vem também. Gostaria que ela pudesse contar com a tua amizade.  Não tem família, e deve sentir-se muito assustada com tudo o que lhe está a acontecer. Além disso, depois enquanto a Sandra cuida da Teresa, precisamos falar. Outra coisa, não quero ouvir ou saber de mexericos na empresa sobre esta situação. Todos os contratos têm uma clausula de confidencialidade, e sinto-me livre para despedir qualquer um que a quebre.

Falava como se a advertência fosse para as duas, mas ambas sabiam que se dirigiam apenas à enfermeira.

Mais tarde depois das apresentações, e de terem conversado um pouco com Teresa ele disse:

- A enfermeira Sandra fica contigo e vai-te ajudar com tudo o que necessitares. Eu tenho que ir lá abaixo ao escritório, tenho uns assuntos a resolver, estarei de volta pelas dez e meia. Estejam preparadas quando voltar para irmos ao hospital. Vamos Olga?

Os dois saíram em silêncio e só quando chegaram ao andar de baixo, junto da secretária de Olga, João disse:

- Vem comigo. Não precisas trazer o bloco, quero apenas conversar.

Já no gabinete, João contou-lhe todas as emoções que sofrera em menos de vinte e quatro horas. Falou-lhe de David, do que ele lhe dissera, do registo de nascimento que lhe trouxera, diferente do seu e da carta que a mãe lhe escrevera e que ainda não tivera coragem de ler. Falou-lhe da emoção que sentiu ao saber que tinha um irmão, e ao descobrir pelas fotos que ela guardara, que afinal a mãe não se desfizera dele como se fosse um traste. Tinha a certeza de que na carta, ela lhe explicaria as suas razões, mas ainda não a lera, pois quando pensava fazê-lo recebera o telefonema da Teresa e depois que soubera que era uma gravidez múltipla e do perigo em que se encontrava, tudo o resto passara para segundo plano.

- Tenho medo que ela não consiga levar a gravidez até ao fim. Está tão magra, parece tão frágil…

-Mas deseja essas crianças com todo o seu coração e fará tudo por elas. Não temas, vai correr tudo bem.  Vou cancelar os teus compromissos para estes dois dias, e assim com o fim de semana, ficarás com quatro dias livres para digerires todas essas emoções. Achas bem?

-Faz isso. E trata do assunto das enfermeiras. É urgente. E que estejam disponíveis para começar hoje mesmo. Agora tenho que ir. São quase dez e meia.

 

12.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIV



Atendeu ao terceiro toque.

- Olá Teresa, que feliz coincidência. Estava a pensar ligar-te para saber como estás.

-Estou bem, mas preciso falar contigo. Podes vir a minha casa?

- Claro, vou já para aí. Mas … aconteceu alguma coisa?

- Nada de grave, só que preciso de conversar contigo, ainda hoje.

- Vou a caminho, até já.

Desligou a chamada, e pouco depois Inês entrava com um tabuleiro com o jantar.

- Acabei de telefonar ao João Teixeira. Uma vez que vou ser internada amanhã, quero falar com ele hoje,  e não é notícia que se dê por telefone - disse sentando-se e enquanto a amiga lhe ajeitava as almofadas nas costas para lhe por o tabuleiro com o jantar no colo.

- Bom, então é hoje que eu vou conhecê-lo. Mas agora quero isso tudo comido antes que arrefeça, ou que ele apareça e já não comas. Sabes bem o que a médica disse.  E não te preocupes nem tentes levantar-te, que eu abro a porta quando ele chegar. Entretanto vou telefonar ao Gustavo.

- E fizeste alguma coisa para o teu jantar? – perguntou Teresa, quando a amiga já ia saindo do quarto.

- Não te preocupes, encomendei uma pizza, deve estar a chegar.

Dois minutos depois a campainha tocou e logo depois Inês apareceu com a caixa da pizza na mão. 

-Vou jantar enquanto a tua visita não chega.

Quinze minutos depois, quando João chegou, já Teresa tinha jantado, e encontrava-se no leito, meio deitada meio sentada, recostada em almofadas.  Ela tinha desejado levantar-se e recebê-lo na sala, mas Inês não deixou, argumentando que ela não tinha que ter vergonha, afinal no dia seguinte seria internada e ele decerto iria vê-la deitada no hospital.

Se ele estranhou ver uma desconhecida abrir-lhe a porta, não o demonstrou. Limitou-se a dizer:

-Boa noite. Venho visitar a menina Teresa Sobral.

-Boa noite. Venha, ela está à sua espera.

Inês acompanhou-o ao quarto e preparava-se para se retirar quando Teresa lhe pediu para ficar.

- João, apresento-te a minha melhor amiga e comadre, Inês Machado.  Inês, este é João Teixeira, o pai biológico.

Esperou que os dois se cumprimentassem, e continuou.

-João, o que tenho para te contar não é fácil por isso prefiro que a Inês fique aqui. Mas por favor sentem-se - disse indicando com a mão a cama. Desde  há duas semanas que não me sentia muito bem, mas desde sábado, praticamente tenho vomitado tudo o que como. Tinha-te dito que iria marcar consulta com a minha ginecologista, mas ela está de férias, então a Inês conseguiu consulta com a médica dela. Tive consulta esta tarde e… nem sei como dizer-te.

- Que se passa? Alguma má formação do bebé? Tens que abortar? – perguntou levantando-se.

-Não. O que se passa, é que em vez de um bebé, eu estou a gerar três; e como ultimamente tenho passado mal e não tenho conseguido alimentar-me como deve ser, tenho perdido peso e a médica quer internar-me amanhã, pois se não recuperar rapidamente peso, posso vir a abortar.

- T…rês? – Gaguejou ele deixando-se cair pesadamente sobre a cama. - Meu Deus! Tens a certeza?

-Temos. Ouvimos os seus corações a bater - disse Inês.

- Mas porque é que vais ser internada?

- Porque é uma gravidez de alto risco, a médica diz que preciso repouso absoluto, ganhar peso e ter alguém que cuide de mim, e não tenho ninguém.

- Eu cuido de ti. A Inês arranja uma mala com aquilo que achares que precisas, e vais comigo.  Amanhã acompanho-te à médica e pergunto-lhe se podes ficar em casa. Sabes que tenho um posto médico com enfermeira diariamente e médico uma vez por semana, no edifício. Pois bem ela cuidará de ti de dia e contratarei outra enfermeira  para a noite. Não te preocupes vai correr tudo bem.

 

 

 

6.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XV





Ricardo deixou-se cair pesadamente na cadeira. Ele e João, o irmão nunca se deram muito bem. Apesar de serem gémeos. A gravidez da mãe fora de risco, e as coisas não correram muito bem na hora do parto.  A mãe esteve muito mal, o pai chegou a dizer ao médico que se não fosse possível salvar os filhos, que salvasse a mãe. Felizmente os dois, eram prematuros,  nasceram saudáveis, mas a mãe esteve muito doente, e levou largos meses para se recompor. Não conseguia tratar dos dois bebés e em casa não havia dinheiro para contratar uma empregada, pois naquela época uma grave crise, se estendera por toda a Europa, e Portugal à beira da bancarrota, tivera que apelar para o FMI, a fim de conseguir sobreviver. O negócio do pai, estava quase na ruína, a maioria das pessoas, deixara de utilizar os seus automóveis, passando a utilizar os transportes públicos. A madrinha do João, que não podia ter filhos, pediu para o levar para sua casa, e os pais acabaram por o deixar ir. Os pais não  o deram para adoção, e quiseram ir buscá-lo logo que a mãe melhorou, mas a comadre convenceu-a para que o deixasse ficar mais um tempo, ela tinha melhores condições para o criar, pelo menos mais uns meses até à festa do aniversário, já que eles estavam prestes a fazer dois anos. Aconteceu que quando a mãe o levou para casa, João estava demasiado apegado à madrinha, chorava noite e dia, e ela convenceu-os a devolverem-lho com o argumento de que a criança estava infeliz, e ela podia criá-lo até ele ter entendimento para perceber as coisas.
  Não foi assim. João rejeitou os pais e tinha ciúmes do irmão. Dizia que eles  o tinham rejeitado e se tinham livrado dele ainda bebé, porque só gostavam do irmão. E estava sempre a fugir para casa da madrinha.
Na escola, fazia todos os disparates de que se lembrava para o prejudicar. Isso durou dois anos, depois a madrinha convenceu os compadres a deixarem-no definitivamente com ela,  dizendo que não era bom para nenhum dos miúdos a situação. Pouco tempo depois mudou-se para Coimbra, e embora a mãe fosse vê-lo todos os  meses, Ricardo nunca mais o viu, até ao seu regresso de Angola. Só nessa altura, soube que o irmão viera viver com os pais há quase dois anos, logo após a morte da madrinha e trabalhava num escritório de uma firma de importações e exportações. Mas também nessa altura os dois não se entenderam. João, a quem a madrinha dera uma vida de pequeno príncipe, coisa que os pais nunca lhe deram a ele, era um revoltado, continuava com ciúmes dele, e Ricardo chegou a dormir na oficina, de modo a passar o mínimo de tempo possível em casa, para evitar discussões que só serviam para fazer os pais sofrerem. Felizmente uns meses depois, João foi de férias para o Algarve, conheceu uma francesa, por quem se apaixonou, e quando ela acabou as férias, partiu com ela. Mandou mais tarde, uma carta aos pais, contando que se tinha casado lá, e estava a trabalhar com o sogro.
Nos últimos doze anos, Ricardo poucas vezes o viu. Quando o pai morreu, ele veio de França com a esposa, e resolveu levar a mãe com ele. Claro, era uma empregada a quem não teriam de pagar.
Depois disso, só voltara a vê-lo em Bordéus quando fora ao funeral da mãe. Desde aí não sabia nada dele, nem sequer se vinham ou não de férias, embora a mãe, antes de morrer, lhe tivesse dito, numa das conversas telefónicas, que ele lhe fazia semanalmente para saber como estava, que o compadre, tinha oferecido à filha uma casa em Campolide, para passarem férias. No funeral da mãe, conhecera a cunhada, bem como os dois sobrinhos, mas não sentiu por eles qualquer empatia.
 Por muito que lhe custasse a acreditar, o amigo tinha razão. Os seus pais eram ambos filhos únicos, pelo que ele não tinha nenhum outro familiar direto que não fosse o João. Mais uma vez o irmão fizera asneira e o culpara a ele.

4.12.17

MARIA - PARTE VIII

RE-EDIÇÃO

A segunda gravidez


Os anos seguintes, foram sem dúvida, os mais felizes da vida de Maria. Era jovem,  amava intensamente o marido e sentia-se igualmente amada. Compraram casa, com recurso ao crédito é certo, mas não é assim que quase todos fazemos? Compraram carro, em segunda mão, que o dinheiro, que a madrinha do marido, lhes dera pelo casamento, não chegou para um carro novo. Maria tinha enfim a sua casa , não vivia com a mãe, sempre aturando as reprimendas,  nem tão pouco com a sogra, como acontecera com o primeiro casamento.
Sentia-se tão feliz, que nem "os carinhos" que a mãe dispensava ao genro, sempre que eles a visitavam lhe faziam mossa.
Elisa nunca fora uma mulher de demonstrar carinho,  de um afago. Mas com a doença, e a idade, o seu feitio seco acentuara-se. E a pouco e pouco, Maria ia espaçando as visitas à mãe.
Oito anos após o casamento, a cunhada de Maria ficou grávida, e simultaneamente a sua colega de trabalho também. A alegria das duas, o entusiasmo e o carinho, com que preparavam o enxoval dos bebés, foi-se a pouco e pouco entranhando-lhe no corpo e no espírito, e a sua vontade de ser mãe reapareceu, com tanta força que Maria não soube, ou não quis resistir-lhe. O marido feliz, apoiou  mas aconselhou irem primeiro ao médico, dado os antecedentes. Assim fizeram e Maria submeteu-se a todos os exames, que o médico de família e o seu ginecologista exigiram. A opinião dos médicos, era de que estava tudo bem e nada impedia Maria, de vir a ser mãe.
Quando seis meses mais tarde, Maria contou à mãe que estava grávida, a reação de Elisa foi muito pior do que ela imaginava.
Disse que a filha era uma irresponsável, que bem sabia que não podia ter filhos e que "o retornado lhe dera a volta à cabeça. "Só ele será responsável, pelo que acontecer, vai tornar-se num assassino."
Maria não se conteve. Gritou que a mãe estava doida e que nunca mais queria vê-la e saiu disposta a não voltar a casa da mãe.
Os meses passaram,  a gravidez decorria normalmente, a primeira ecografia mostrou uma menina, e o casal estava muito feliz.
Pouco antes dos sete meses, Maria sentiu-se mal e foi para o Hospital. Feitos os exames, descobriram que o bebé tinha desenvolvido uma hidrocefalia, não aguentou a pressão craniana e estava a morrer.
Foi feita uma cesariana de urgência, mas nada puderam fazer pelo bebé.
Primeiro Maria ficou em choque. Todos os seus sonhos, a esperança de vir a ser mãe, o desejo de dar ao marido o filho que ele nunca lhe pediu, mas que ela lhe queria dar, como complemento do seu amor, foram por água abaixo. E depois do choque inicial veio a depressão.
Na cabecinha doente de Maria,  uma ideia tornou-se obsessão. A sua mãe, fora a culpada pelo que lhe aconteceu. Fora praga da mãe, que nunca quisera que ela tivesse um filho. A relação amor-ódio que sempre tivera pela mãe, transformou-se num ódio feroz. Convenceu o marido a vender a casa e a comprar outra longe da mãe. E jurou que nunca mais ia ver a mãe.
Um dia a empregada doméstica da Elisa, chegou às oito da manhã como costume e estranhou ouvir a televisão da sala. Dirigiu-se lá, e encontrou Elisa sentada no sofá a dormir. Pelo menos era o que parecia. Dirigiu-se à cozinha preparou o pequeno-almoço e só quando foi dizer-lhe que estava pronto, é que se apercebeu de que Elisa estava morta.
Foi a sepultar num chuvoso dia de Dezembro. Sem a presença da filha, que ninguém sabia onde encontrar.


continua