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22.11.22
POESIA ÀS TERÇAS - ADÉLIA PRADO - AVÓS
Avós
9.5.22
MEDO DE AMAR - PARTE VII
Fora
difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o
curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado
em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório,
com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos
seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem
que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o
seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.
O
marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.
E
também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los
naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para
a bebé uns verdadeiros avós.
Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.
Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o
acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme
constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge
Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o
resultado da autópsia relatava.
Deu
uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos.
Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e
dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de
ir acordar as meninas.
Depois
de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois
para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas
levarem.
Às
sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os
dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando
ouviram o som de um carro chegando.
-
É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um
beijo sendo imitada pela prima.
Laura
acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha
saído do automóvel, aproximou-se e disse:
-Convidas-me
para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer
sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.
A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.
Fernando
agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.
17.9.21
SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XX
- Diogo adormeceu antes da hora da missa, e foi preciso levá-lo ao colo, tarefa dividida entre a mãe e os avós. Embora Fernando fizesse questão de o levar, Helena disse que não era prudente, havia apenas três semanas que tinha feito a cirurgia.
O dia de Natal amanheceu coberto de neve, o que provocou a alegria do menino, que na sua curta vida nunca a tinha visto a não ser na televisão. Ele e Fernando, fizeram um belo boneco em frente à casa, antes da ida à missa matinal.
26.7.21
COMEÇAR DE NOVO- PARTE XXXVI
Helena
e a filha regressaram a casa no Domingo à tarde. O terceiro período iniciou-se
no dia seguinte, mas Matilde teve que faltar às primeiras aulas por ter de ir
ao hospital tirar os pontos e ser vista pelo cirurgião.
Entretanto
Gonçalo telefonara a Helena contando que os pais tinham viajado de Braga para a
conhecer, bem como à neta e que estavam instalados em casa da filha.
Ele
desejava levar as duas à casa da irmã, para que se conhecessem. Laura,
convidava-as para jantar, e ele acompanhá-las-ia a casa logo após o mesmo, já
que a filha não se poderia deitar tarde.
Embora
indecisa, por temer que a família do Gonçalo, fosse insistir num casamento que
ela não queria, Helena acabou por aceitar o convite, por saber que mais cedo ou
mais tarde, a filha teria que conhecer a família do pai, e não havia justificativa
para dececionar os avós que tinham feito uma longa viagem só para os conhecer.
Com
o apoio de Rita que ainda não conhecera o pai da afilhada, por ter chegado à
quinta depois da partida dele, e que fazia parte do clã que desejava vê-la
casada, Helena saiu do trabalho logo depois do almoço, foi buscar a filha à
escola e seguiram para casa.
Apesar
de se estar a caminho do final de abril, a primavera chegar com pretensões a
verão e o dia estava bastante quente. Enquanto Matilde fazia os TPCs, a mãe dedicou-se
a limpar o pó que se acumulara na semana de ausência.
Terminada
a tarefa, tomou banho e ficou indecisa em frente do armário aberto, sem saber
bem o que vestir. Por não conhecer a dona da casa e a mãe, e não sabia se optar
por uma roupa mais ou menos formal. Acabou escolhendo um dos poucos vestidos
que tinha, pois, mesmo os fatos de trabalho eram quase exclusivamente compostos
de calças.
Ainda
de robe, foi verificar se a filha tinha acabado os trabalhos, para tomar banho.
Não se preocupou com a roupa da filha, há quase um ano que ela decidira escolher
ela mesma as suas roupas, não só quando saiam para as compras como quando se
vestia. E como ela não era uma adolescente rebelde de gostos estranhos e
espalhafatosos, a mãe deixara de se preocupar com isso.
Olhou
o relógio eram quase quatro horas e Gonçalo ficara de as ir buscar às cinco.
Preparou o lanche para as duas e logo que a filha saiu do banho lancharam e
depois cada uma rumou ao seu quarto para se vestir. A mãe preocupada com a
maneira como a família dele a receberia, a filha encantada por ir conhecer a
família do pai.
Helena
olhou-se ao espelho. O vestido justo na cintura e de saia levemente rodada, com
decote em bico, de alças estreitas, deixava a descoberto, o pescoço parte dos
ombros e do colo. Todavia o conjunto era composto por vestido e um casaquinho
curto que acabava por esconder o que o vestido mostrava.
Penteara
o cabelo num coque preso no alto da cabeça, e fizera uma maquilhagem muito
leve. No pescoço um fino fio de ouro com uma pérola em forma de ouro, igual às
perolas que adornavam as orelhas. As sandálias de salto e a bolsa completavam o
conjunto.
Matilde
optara por um macacão curto, azul escuro estampado com minúsculas estrelas
brancas. Uma larga fita azul adornava a sua bela cabeleira da cor do trigo
maduro. Nos pés umas sandálias brancas.
Pontual
como um relógio suíço Gonçalo chegou sorridente, abraçou a filha e cumprimentou
a mãe com um beijo breve na face.
-Estão
lindas, - elogiou enquanto elas entravam no carro que ele se apressou a por a
rodar
Mal
Gonçalo estacionou o carro em frente da porta da vivenda onde a irmã vivia nos
arredores de Lisboa, a porta abriu-se e Laura surgiu acompanhada da filha para
receber os visitantes e lhes dar as boas vindas.
5.5.21
COMEÇAR DE NOVO - PARTE II

E chegou o dia do regresso à casa paterna. Sérgio, o irmão, resolvera regressar dois dias
antes do fim das férias, a fim de passar esses dias na quinta, para que os pais
pudessem desfrutar da presença do neto, que começava a dar os primeiros passos
e a balbuciar as primeiras palavras. Depois voltaria para Coimbra e só se
veriam meia dúzia de vezes até que chegasse o Natal e todos se reunissem de
novo.
Por sua vez, Lena também iria para Lisboa, a fim de iniciar
os seus estudos. O pai tinha-lhe conseguido um quarto, na casa de uma jovem,
filha de um grande amigo de infância, Francisco e neta do velho ferreiro da
aldeia, Alberto Santos.
O dia em que chegou a casa de Rita, foi o primeiro em que
Gonçalo não telefonou, nem respondeu à mensagem que ela lhe enviou já com a
morada de Lisboa.
E esse foi o primeiro dia, do fim daquele amor que parecia
indestrutível.
Rita Santos, era alta, morena, de cabelos e olhos escuros,
nariz pequeno e boca carnuda. Tinha vinte e seis anos e acabara de se
divorciar, mas contrariamente ao que Lena pensara, não se sentia triste, antes
pelo contrário dava graças, por se ter livrado do marido, um pinga amor, capaz
de a trair com qualquer uma. As duas, sentiram uma grande empatia, e em breve
era como se fossem amigas de longa data.
Uma tarde, Rita que trabalhava na agência imobiliária do
pai chegou a casa e encontrou Lena na sala com os olhos vermelhos e inchados,
sinal mais que evidente de ter passado a tarde a chorar.
-Lena, querida que se passa? Estás doente? Aconteceu alguma
coisa com os teus pais ou o teu irmão?
As sua perguntas despoletaram uma nova avalanche de
lágrimas. De seguida tirou as mãos do colo e mostrou o teste.
- Meu Deus, estás grávida! E o Gonçalo continua sem responder
às tuas mensagens? Tens que lhe dizer. Ele tem que assumir a responsabilidade.
- E como vou fazê-lo se o telemóvel está sempre desligado e
nem sequer viu as mensagens que lhe enviei. Meu Deus Rita, como é possível que
me tivesse enganado tanto com ele? Juro que acreditei de coração que ele
retribuía o meu amor!
- Alguns homens são mestres na arte de sedução. São capazes
de enganar a maior cínica da terra, quanto mais tu que és tão ingénua. Mas
chorar não resolve nada. Tens que decidir se vais querer esse bebé, e as
implicações que isso vai ter na tua vida, ou se queres fazer…
-É claro que eu quero este bebé, Rita. Mal soube que ele
estava aqui, - disse colocando a mão no ventre, - o meu coração encheu-se de
amor por ele. O que me preocupa é a deceção que vou dar aos meus pais. Não sei como arranjar coragem para lhes
contar. Estão velhos, viveram sempre na quinta. O meu irmão, não quis casar,
vive em união de facto e é feliz, mas os meus pais, custaram a aceitar a
decisão do filho. E agora eu apareço grávida, sem casamento, sem namorado, sem nada.
-Talvez seja melhor telefonares ao teu irmão, e pedir-lhe
que venha cá. Contas-lhe e decerto ele te ajudará a enfrentar os teus pais. De
resto eu estou aqui para te apoiar em tudo o que precisares, já que não podes
nem deves abandonar os estudos. Eles serão a tua porta, para um futuro melhor.
7.10.20
CILADAS DA VIDA - PARTE XLII
Enquanto João se metia no carro e arrancava sem rumo fixo,
perdido nos seus pensamentos, destruídas todas as suas convicções, em relação
aos progenitores, e ao papel que cada um teve na sua meninice, Inês telefonava
a Teresa.
- Amiga consegui falar com a minha médica. Ela tem
marcações até às seis, mas aceitou ver-te depois da última cliente. Já falei
com o Gustavo, e com o meu pai. O Gustavo vai buscar o Martim a casa dos avós e
janta lá, pois as consultas podem atrasar-se.
- Achas mesmo necessário ir hoje? Não podias marcar para
amanhã?
- “Não guardes para amanhã, o que podes fazer hoje “. Ademais amanhã, a médica está de serviço no
hospital. E não podes protelar mais uma consulta. Nunca vi uma grávida com tão
poucas semanas a passar tão mal. Arranja-te, eu vou buscar-te quando faltar um
quarto para as seis.
Teresa desligou a chamada e ficou pensativa. Preferia
esperar pela sua médica, ia sentir-se mais à vontade, mas como ela estava de
férias, e não querendo voltar ao Centro Clínico, tinha que aceitar a solução
encontrada pela amiga. De resto Inês sempre lhe dissera que a doutora Laura
Aguilar era uma excelente médica. Olhou o relógio. Ainda não eram cinco horas.
Podia continuar deitada mais um pouco, desde que não se deixasse dormir. Mas os
olhos pesavam-lhe tanto que achou por bem levantar-se e ir tomar banho.
Quando a amiga tocou a campainha, guardou o telemóvel na bolsa,
agarrou as chaves e saiu.
Já no consultório, como doente da primeira consulta teve
que responder a todas as perguntas que a empregada lhe fez para elaborar a
ficha. Quando terminou, olhou à sua volta. Na sala ainda estava uma mulher em
adiantado estado de gravidez. A última cliente da médica. O que queria dizer
que as consultas estavam atrasadas pois o relógio já marcava as seis e vinte.
Sentaram-se e aguardaram. Cinco minutos depois outra mulher saía do gabinete e
a assistente chamava a última doente presente na sala. Trinta e cinco minutos
mais tarde, chegou finalmente a vez de Teresa.
A médica era uma mulher baixinha, de voz suave e sorriso
fácil.
Depois dos cumprimentos, a doutora perguntou:
- Então diga-me
Teresa, o que se passa consigo, que tanto preocupa a sua amiga. É o primeiro
filho? Já fez alguma consulta depois que engravidou?
Teresa contou à médica as condições especiais da gravidez,
bem como os sintomas que tinha e quando terminou, a médica levantou-se.
-Vou observá-la e fazer uma ecografia. A Teresa parece-me
demasiado magra. Vamos pesar e medir - disse apontando a balança a um canto da
sala.
A jovem subiu para a balança, e a médica verificou primeiro
a altura depois o peso
- Um metro e setenta e cinco, cinquenta e seis quilos. Com a sua altura, pode ser um bom peso para
uma modelo, mas é claramente insuficiente para uma mulher grávida. Vamos passar
ao gabinete ao lado, e preparar para a observar.
Teresa olhou para a amiga e a médica intercetando o olhar
disse:
-A Inês pode vir.
Depois de preparada, a médica observou-a durante algum
tempo. Tinha um aspeto concentrado, e parecia mostrar-se preocupada.
Por fim, deu o exame por terminado, e então pegou no frasco
de gel, passou uma porção no ventre da jovem e deu início à ecografia:
Depois de uns minutos perguntou:
-Há na sua família algum caso de gravidez múltipla?
-Não.
-E fez algum tratamento para engravidar com mais
facilidade, algum tipo de comprimidos para estimular a ovulação?
- Sim. Disseram-me que na maioria dos casos não se consegue
engravidar à primeira vez, e então fiz um tratamento, sim.
-E sabe que esse tipo de medicamento pode ter como efeito
colateral, um híper estímulo ovariano e consequente gravidez múltipla?
- Quer dizer que vou ter gémeos? – perguntou
- Trigémeos, se conseguir levar a gravidez até ao fim, coisa que no seu estado atual duvido muito. Precisa de repouso absoluto, e uma dieta super-rica em proteínas, para que ganhe peso rapidamente. Mas não precisa só de ganhar peso tem que fazer repouso absoluto, e necessita de alguém que cuide de si . Penso que o melhor é ir ter comigo amanhã ao hospital e eu trato de a internar durante uns dias, para evitar um aborto que se adivinha se não aumentar rapidamente de peso. A Teresa está com seis semanas e quatro dias. Quer ver os bebés? Nesta altura ainda não se podem chamar de bebés, mas o embriões já têm batimento cardíaco e o tubo neuronal - que será o cérebro e a medula espinal- está a começar a fechar-se. Vou aumentar o som para que oiça os seus corações.
8.6.19
UM PRESENTE INESPERADO -PARTE XVII
Três dias depois, Ricardo telefonou ao seu amigo Artur. Disse-lhe que precisava de um conselho e convidou-o para jantar com ele nessa noite.
24.11.18
UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XI
O pai sorriu e mudando de conversa, perguntou:
12.11.18
ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIX
Tinham passado três meses desde que se casaram. Muita coisa se passara nesse tempo, a começar pela visita dos avós das meninas no dia seguinte ao do casamento. Visita que muito a preocupara, mas que afinal nem correu nada mal. Depois da surpresa inicial, o casal pareceu aceitar bem a situação e preocupou-se apenas em que lhes fosse permitido manter as visitas às netas como até aí.
Depois, desmontaram as camas, retiraram do quarto pequeno o berço e a escrivaninha, levaram o sofá para a parede da janela, e montaram uma das camas no sítio onde anteriormente estava o sofá. Depois levaram para o sótão, o berço, a outra cama, e a escrivaninha e trouxeram de lá um pequeno armário que montaram na parede fronteira à cama.
-São quase horas de almoço. Queres tomar banho primeiro? Vou um pouco ao jardim ver como estão as crianças, - disse ele afastando-se sem esperar resposta.
reedição
29.8.18
FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXV
Fachada em Sevilha. Foto minha
– Nunca conheci a minha mãe. Morreu de parto, quando eu nasci.
-Ó Miguel, eu amava-o tanto!
A jovem continuou:
- Cresci saudável e feliz. Fui sempre uma boa aluna, nunca tive problemas na escola. Fiz o secundário, e entrei para a Universidade. Escolhi comunicação e jornalismo. Estava no segundo ano.
Calou-se. As recordações eram cada vez mais dolorosas.
Apesar disso, e sempre que o desejava, o pai emprestava-me o carro dele, e estava habituada a conduzi-lo.
11.7.18
O DIREITO À VERDADE - XXIII
Nessa tarde, Helena foi ao posto de turismo, e além de ter trazido um mapa do distrito, fez várias perguntas à funcionária, por sinal uma senhora muito simpática que lhe deu a localização de algumas das quintas vinhateiras do distrito, e a localização dos concelhos a que pertenciam. Também lhe disse que havia camionetas regulares para esses concelhos, viagens curtas, e uma vez que ela não tinha carro, era a melhor maneira de conhecer os arredores. Já no hotel, a jovem, organizou um itinerário de modo a viajar cada dia para uma localidade, e passar o dia nesse sítio, regressando à noite ao hotel.
Porém segundo o tio, ela teria que procurar noutra direção. E assim seguindo o itinerário previamente marcado, ela fora conhecendo Carregal do Sal, Mortágua e Santa Comba Dão.
15.12.15
O DIA EM QUE PERDI A INOCÊNCIA
Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Naquela época, primeira metade da década de 50 ninguém falava no Pai Natal. Pelo menos onde eu vivia, na Azinheira Velha. Meus pais, e meus avós ,diziam que era o Menino Jesus, quem na noite de Natal, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes.
Nós vivíamos num barracão de madeira, que em tempos fora habitado por quatro casais e respectivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão, tinha um salão com 11 metros de comprimento, ao fundo do qual tinha um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal, todos os anos, vinham meus avós maternos, que viviam numa aldeia da Beira Alta, e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios, e suas famílias. Era a única época do ano, em que víamos os avós, e era sempre uma alegria, além do mais, porque eles sempre traziam, queijo, presunto, e outros miminhos, que em casa nunca havia.
Não havia rádio, nem TV, nem sequer tínhamos luz eléctrica. Mas havia em casa, três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal, ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai, colhia no pinhal perto da nossa casa, algumas pinhas, que secava abria e debulhava. Partiam-se alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra,ª de quatro lados, com o Rapa Tira Põe e Deixa. Cada um tinha um montinho de pinhões que ia aumentando ou diminuindo, ao sabor da sorte. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas", que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros do jogo, "pinhas-alhas" e o outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número de cada um dos jogadores. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões, ao jogador que acertara. Mas recebíamos de todos os que errassem igual número. E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama e mandava-nos pôr os tamancos, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança de que nesse ano, o menino Jesus deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos lindos brinquedos, que tinham os filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Mas no dia seguinte, era a mesma coisa, ano após ano. Uma tremenda decepção, pois lá só havia, meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, andava eu pelos seis anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada, e a nós que éramos tão pobres, que nada tínhamos, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus, não queria saber de nós, e chorei tanto, que a minha avó para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais, e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.
Esta é a história verdadeira do meu Natal de 53. Já aqui a contei em 2011. Porém nessa data a maioria de vós não frequentava o blogue.
ª) pequeno pião, que em vez de ser redondo, era quadrado, em cujas faces se desenhavam as letras. Tinha a ponta em cima, ligeiramente maior, para que o fizéssemos girar com um toque de dedos.
A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta
19.11.15
FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXV
Fachada em Sevilha. Foto minha
– Nunca conheci a minha mãe. Morreu de parto, quando eu nasci.
A jovem continuou:
Calou-se. As recordações eram cada vez mais dolorosas.
Apesar disso, e sempre que o desejava, o pai emprestava-me o carro dele, e estava habituada a conduzi-lo.









