- Deixa-me ver se entendi. Propões-me que me torne tua
mulher. Por quanto tempo? Um dia, um mês, os quinze anos do contrato, ou até que
deixes de me desejar, – perguntou zangada.
- Não entendo essa raiva. É claro que se tratará de um
casamento para o resto das nossas vidas. Já te disse que nunca antes senti
vontade de voltar a unir-me a uma mulher.
-E o contrato? Que farás ao contrato que assinámos?
Nele estava escrito que era um casamento nominal e que terminaria quando
os meninos atingissem a maioridade.
- Claro que esse contrato seria anulado. Destruiríamos
o documento.
- Esqueces uma coisa muito importante. És um homem
muito rico. Esse documento é a tua defesa em caso de eu decidir divorciar-me em
qualquer momento. Sem ele, e em caso de divórcio, eu posso ficar com muito mais do que cem mil euros. Posso despojar-te de metade dos teus bens. Já pensaste nisso?
- Não preciso. Tu não és assim.
- Nunca se sabe. A ambição existe e por dinheiro se cometem muitos crimes.
- Tu não. Eu confio em ti.
- Nunca se sabe. A ambição existe e por dinheiro se cometem muitos crimes.
- Tu não. Eu confio em ti.
- Não chega, Ricardo.
- Não entendo.
-Sei que não. No fundo ao dizer que confias em mim,
não fazendo nenhum contrato que te salvaguarde em caso de divórcio, estás a demonstrar
que a tua falta de fé nas mulheres é mais aparente que real. Sim, eu sei, sou uma exceção já me disseste. Devia sentir-me lisonjeada. Por outro lado nem a tua
fortuna, nem a tua confiança, são suficientes para me levarem para a tua cama.
Repara que digo a tua cama, e não a tua vida, porque nela eu já estou, embora
não da maneira que de modo diferente ambos desejamos. Na verdade, eu dormiria
contigo hoje mesmo, ainda que fosses o homem mais pobre do planeta em toca de
uma só palavra.
-Pedes-me o impossível Clara. Por muito que o meu
corpo te deseje, o meu coração está seco.
- É uma pena, Ricardo. Por ti e por mim. Olha, está na
hora de ir buscar as crianças à escola, para o almoço. Vens comigo, ou esperas
aqui por elas? – Perguntou levantando-se e pondo um ponto final na conversa.
-Claro que vou contigo, - respondeu apertando os
punhos com raiva.
Aquela mulher tinha o poder de o desconcertar.
Ricardo conduziu em silêncio até à escola. Mal tinham
saído do carro quando ouviram o toque da campainha escolar e viram a auxiliar
de educação dirigir-se ao portão onde já aguardavam alguns pais e avós que iam
buscar os filhos e netos para almoçar.
Clara apresentou à funcionária o pai dos meninos e
pediu-lhe se ela avisava a educadora que os seus filhos não voltariam naquela
tarde, em virtude do regresso do pai. Entretanto as crianças iam-se aproximando
e ao reconhecerem o pai quase atropelaram a Auxiliar, para se atirarem para os
braços dele, que se baixara para os receber.
Foi uma cena emocionante. Quando Ricardo se levantou
com um filho em cada braço, e se encaminhou para o carro, Clara sentiu vontade
de chorar. Como era possível que um homem com tão grande amor filial fosse
incapaz de amar uma mulher? Como era possível que o seu coração estivesse seco
como ele lhe dissera?
Depois do almoço, aproveitando que a tarde estava
ensolarada e a temperatura a antecipar a Primavera que se aproximava, Ricardo e os filhos, foram
passear pela quinta. As crianças queriam mostrar ao pai os pintainhos
recém-nascidos. E as rosas em flor. Mais tarde haveriam de brincar no parque
enquanto contavam ao pai as imensas coisas que tinham aprendido durante a sua
ausência. Enquanto isso, Clara refugiara-se no seu quarto, inquieta sobre o seu
futuro.

