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10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVII



De súbito, largou o copo em cima da mesa da sala, e dirigiu-se a passos largos ao quarto de hóspedes, abriu o armário, pegou no saco com a roupa que a jovem esquecera no quarto, meteu o telemóvel no bolso das calças, pegou na carteira e nas chaves e saiu. Foi  à garagem, meteu-se no carro, ligou o motor e arrancou em direção a Lisboa. Olhou as horas. Nove horas. Muito cedo para já estar na cama, e decerto não iria sair no dia do seu regresso. E se tivesse saído, esperá-la-ia à porta até que voltasse. Tinha que ter uma conversa séria e definitiva com ela. Não podia desistir sem ter a certeza dos sentimentos que ela nutria por ele. Era a sua felicidade que estava em jogo. Estacionou junto ao edifício onde a jovem morava, e aproveitou o momento em que um casal de meia-idade saía, para entrar no prédio sem tocar a campainha. Descartou o elevador e subiu os dois lances de escada até ao andar da jovem. Aguardou um momento junto à porta. Não se ouvia nenhum ruído. Será que ela tinha saído? Bom, o melhor era tocar a campainha. E foi o que fez. Depois de uma curta espera, que a ele lhe pareceu interminável, Paula abriu a porta.
- Boa-noite. Desculpa vir a esta hora. Posso entrar?
- Entra - disse franqueando-lhe a entrada. - Não te esperava.
Fechou a porta e dirigiu-se para a sala. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, o rosto sem pintura, e os pés descalços. Vestia uns calções brancos, e um top azul. Todo o conjunto contribuía para lhe dar um ar frágil, e um aspeto de miúda.
Estavam os dois de pé na sala, um em frente do outro. Ele observou-a apercebendo-se da sua tristeza. Sentiu um aperto no peito. Era como se tivesse de novo na sua frente aquela menina tímida e triste que o pai levava para o escritório.
- Vim trazer a roupa que deixaste em Sintra, - disse estendendo-lhe o saco.
 -Obrigada - ela pegou no saco e pousou-o sobre a pequena mesa  em frente - mas não fiques aí de pé. Senta-te.
António deixou-se cair no sofá reparando que os seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse estado a chorar. Sentiu de novo aquele impulso antigo, de a sentar no seu colo e a confortar, tantas vezes experimentado outrora no escritório do pai dela. Também lembrou as palavras do Padre Celso. “Seja sincero consigo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder.” 
-Chega aqui, por favor, - pediu a voz enrouquecida pela emoção, o olhar fixo no dela.
Atraída pela força do seu olhar ela caminhou para ele, como o passarinho caminha para a serpente. Parou na sua frente. Então ele ergueu as suas mãos, colocou-as à roda da cintura dela, e com uma ligeira pressão sentou-a no seu colo.
-Vejo que estiveste a chorar. Estás tão triste e desamparada, como há vinte anos atrás, - disse com carinho - queres contar-me o que te aflige? Não tenhas medo. Estou aqui, e não vou deixar que ninguém te faça mal.