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9.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO. PARTE XXII

 






- E se deixássemos de lado o passado, e desfrutássemos desta magnífica refeição? – perguntou Nuno
Não lhe agradava a tormenta que adivinhava nos olhos femininos, cujo azul se apresentava quase negro. Desde que falara com o pai que estava a por em causa, tudo o que pensara sobre ela durante anos.
Luísa não respondeu. Limitou-se a pegar no talher e iniciar a refeição.
Uns minutos depois ele quebrou o silêncio.
- Segundo sei, as tuas aulas acabam em breve. O que costumas fazer nas férias? Viajas?
- Não. Passeio pela cidade, visito museus e igrejas. E aproveito para ler. Não tem graça viajar sozinha. Não se tem com quem partilhar emoções.
- Às vezes encontram-se boas companhias em viagens.
-É possível. Mas os meus livros também me levam a viajar e são excelentes companhias.
- Claro que sim. Mas…chega-te? O que quero dizer é que és uma mulher jovem e bonita, estás na plenitude da vida. Não tens desejos de algo mais? Uma família, por exemplo?
- Não.
- Gostaria de te perguntar porquê. Mas penso que não tenho o direito de entrar na tua intimidade.
- E eu gostaria que tu soubesses porquê, sem precisares perguntar.
- O que nos remete de novo para o passado.
- E temos alguma coisa em comum que não seja o passado?
- Acredito que sim. Senão vejamos. Ambos adoramos crianças, ambos escolhemos profissões que nos põem ao serviço delas completando-se. Tu abres-lhes a mente com os teus ensinamentos, eu abro-lhes o corpo para lhes restituir a saúde. Ambos gostamos de ler, e… de caldeirada de marisco – completou sorrindo.
- E de vinho Rosé - disse Luísa, agora menos tensa.
- A propósito de crianças, aquele miúdo que ainda está no hospital, vai perder o ano? Pedi novos exames para segunda-feira, e se estiver tudo como espero, vou dar-lhe alta, mas será que consegue recuperar as aulas perdidas?
- Claro que sim. Tenho feito as lições com ele, todas as tardes no hospital, -respondeu Luísa.
- Devia calcular que não o ias deixar para trás. Se vais todos os dias, sabes que com a fisioterapia está a fazer grandes progressos. Mas depois de ter alta precisa de especial cuidado. Uma queda, ou pancada naquela perna, pode ser muito grave.
- Dentro da escola, não terá qualquer problema. Cuidarei dele o tempo todo. Mas as aulas estão quase a terminar, os pais estão emigrados e ele vive com os avós, que já não são novos e têm problemas de saúde especialmente o avô.
- Então provavelmente o melhor é aguentá-lo mais uma semana no hospital. Não sei se sabes, mas aquele osso teve várias fraturas, estava praticamente todo fragmentado foi necessário recorrer a placas metálicas para o reconstruir.
-Sabia que tinha sido grave, mas não imaginei semelhante quadro.
Tinham acabado a refeição, e o empregado aproximou-se para recolher os pratos e entregar-lhes a ementa dos doces.


24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


22.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE IX






Afastou a cadeira e pôs-se de pé. Era um homem alto, de corpo atlético. Moreno, e o cabelo que usava com um curto muito curto, era escuro, já grisalho nas têmporas, apesar de ainda faltarem três meses, para fazer trinta e cinco anos; os olhos cinzentos, um tanto oblíquos, que davam ao seu rosto um ligeiro ar oriental, contrastavam fortemente com o rosto moreno e o cabelo escuro. Testa alta, nariz retilíneo, queixo quadrado e boca grande de lábios cheios, que raramente se abriam num sorriso. Os quase um metro e noventa, de altura, os ombros largos, a cintura estreita, as pernas longas e poderosas, davam-lhe uma imagem  de força que intimidava os seus opositores.
Desde muito novo teve que aprender a sobreviver sozinho.  Ainda não tinha três meses, quando a mãe fugiu de casa, com um artista de um circo que acampara num local próximo. Fora deixado para trás como algo sem préstimo, e isso desde muito cedo o marcou. O pai era um homem calado, de carater seco, de quem nunca ouviu uma palavra carinhosa. Às vezes ele pensava que o pai o culpava pela traição da mãe.
Era verdade que nunca lhe faltara com a parte material, que qualquer criança precisa para crescer. Roupa, comida, assistência médica, livros, uma bicicleta, bolas, computador etc. Tudo ele teve. Tudo menos o essencial, o afeto necessário para um crescimento sem traumas. João acreditava que o pai não gostava dele, e depois que ouviu várias vezes a frase “és igualzinho à tua mãe” pensou que o pai o odiava porque ele lhe lembrava a traição da mulher que amara. Teria uns treze anos, quando decidiu que também ele não gostava do pai, e nunca na vida seguiria a vida do progenitor, apesar de nas férias, o pai sempre arranjar maneira de o levar para a sua oficina de automóveis e tentar que ele aprendesse o ofício de mecânico.
Os computadores, sim, fascinavam-no. Todo o dinheiro que conseguia poupar da mesada que o pai lhe dava, empregava-o em livros sobre o funcionamento dos mesmos. Por causa dos computadores, muitos sermões paternos, teve que aturar, mas aos dezasseis anos era um expert em programação e aos dezassete iniciava o seu primeiro jogo de computador.
Quando via o pai mais zangado, refugiava-se em casa da dona Hortense, mãe de Olga, a sua assistente. Eram vizinhos, e a senhora tomara conta dele, até aos quatro anos, altura em que o progenitor decidira que estava na hora de  entrar para o infantário. E já crescido, cada vez que lhe batia à porta, dona Hortense, tinha sempre um pedaço de bolo e um afago com que tentava acalmar a sua solidão e fome de amor.  Por outro lado, Olga, doze anos mais velha, sempre se mostrara muito protetora, era como uma irmã mais velha, ajudava-o nos problemas escolares, aconselhava-o e incentivava-o, a prosseguir nos seus sonhos, de um dia ser alguém importante no mundo informático. Podia dizer-se que João tinha encontrado em Olga e sua mãe, a estabilidade familiar que nem pai nem mãe lhe deram. 
Depois que a sua vida se tornou um sucesso, comprou uma casa e mudou-se. Não suportava mais viver com o pai. De vez em quando, Olga lembrava-lhe apesar de todas as mágoas que tinha, o progenitor era a sua única família, devia ir vê-lo e tentar um entendimento entre eles, todavia ele nunca o fez, até saber que se encontrava muito doente e fora internado no hospital. Foi vê-lo, falou com o médico, soube que o pai tinha um cancro no pâncreas e que se encontrava em estado terminal. E ele, que já tinha passado por uma fase semelhante, embora com desfecho positivo, entendeu o sofrimento físico e moral do progenitor, e pela primeira vez sentiu que talvez devesse ter tentado entender o pai, em vez de o ter abandonado. Todavia se era tarde demais para voltar atrás, não o era para lhe dar, o apoio e carinho que nunca lhe dera desde que se conhecia,  e tornar mais doces os últimos dias da sua vida. Era hora de apagar mágoas, e lhe mostrar com a sua presença constante e o seu apoio, que o passado fora relevado.
Na véspera da sua morte, talvez sentindo que o fim estava próximo, o pai tivera uma conversa franca com ele.Falara-lhe do imenso amor que dedicara à esposa, e de como,  depois que ela o abandonara, ele se sentira morto por dentro, e, incapaz de albergar outros sentimentos, que não a raiva e o desespero. Talvez por isso, - disse - não tivesse sabido ser um bom pai, preencher as tuas necessidades de afeto,  pelo que te peço perdão. 
Emocionado, ele abraçara o pai, acabando os dois a  chorar abraçados até que uma enfermeira  entrou e o expulsou do quarto. Foi o único e último abraço. Na manhã seguinte o hospital informou-o de que o pai partira durante a madrugada.


4.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR. - PARTE XXII




Estava-se de novo em Dezembro, o ano tinha passado a correr, dentro de dias Mariana comemorava o seu primeiro aniversário.
Gil tinha sido convidado para dar uma conferência na Universidade do Minho, evento que acontecia naquela tarde de Sexta-feira, dia quatro de Dezembro. E que como todas as que já dera estava a ser muito participativa, apesar da tempestade que assolava o país.
Mais tarde foi rodeado pelos alunos que queriam autógrafos e saber qual era a sua opinião em relação às novas tecnologias na escrita. Acreditava ou não que os livros em papel iam desaparecer no futuro. E não seria isso bom para o planeta sabendo-se que muitas árvores precisam ser arrancadas para escrever os livros. Gil não acreditava no fim do livro em papel por duas razões. Embora considerando que é muito mais prático transportar para qualquer lado uma biblioteca no Smartphone, do que andar com os livros atrás, não dá o mesmo prazer sentar-se num sofá a ler um livro em papel do que no telemóvel. Além de ser muito mais cómodo, para o corpo e para os olhos. Depois as baterias dos Smartphones, Tablets, e afins, causam muito maior impacto ambiental, do que o abate de algumas árvores, que podem ser substituídas em poucos anos. Sem falar que haverá sempre sítios no mundo onde muito dificilmente chegará algum dia a Internet.
Mais tarde foi convidado para o jantar e já passava das dez quando entrou no carro disposto a fazer a viagem de regresso ainda nesse dia.
O temporal continuava sem dar tréguas, o vento soprava forte, fazendo perigar a estabilidade do veículo e a chuva era tão forte que formava uma espécie de nevoeiro que cortava toda a visibilidade. Gil tinha os olhos a arder do esforço que fazia na tentativa de ver alguma coisa, e arrependia-se de não ter passado a noite num hotel, em vez de estar a viajar naquelas condições.
Ele não sabia se havia algum carro à sua frente ou atrás de si tão intensa era a chuva e tão fraca a visibilidade. Por isso o receio de acelerar e provocar um acidente, era o igual ao de diminuir a marcha. Não podia fazer nada mais do que manter-se assim e esperar que à medida que os quilómetros fossem percorridos a tempestade não fosse tão intensa.
De súbito, um relâmpago iluminou tudo à sua volta e Gil apercebeu-se de uma árvore caída para a estrada uns metros mais à frente, tentou travar, mas o carro derrapou, e ele perdeu o controle do mesmo. O automóvel deu umas duas voltas na estrada como se fora um pião e de súbito as rodas da frente deixaram de ter apoio e o carro mergulhou no vazio. Gil mal teve tempo de desapertar o cinto de segurança, abrir a porta e saltar. O corpo rolou entre pedras e ramos de árvores, enquanto ouvia um enorme estrondo que lhe deu a certeza de que o carro tinha embatido em qualquer coisa, talvez uma rocha.
A noite estava escura como breu, a chuva e o vento fustigavam-no.
Pôs-se de pé. Tinha que chegar à estrada, talvez algum carro o conseguisse ver. Mesmo que assim não fosse não podia ficar parado. Tinha que se movimentar. Porém dera apenas dois passos quando perdeu o equilíbrio. Sentiu-se a rolar pelo declive, entre pedras e ramos que lhe rasgavam a carne. De súbito, o corpo parou, a cabeça embatendo numa pedra maior provocando-lhe uma insuportável explosão de dor. Teve um último pensamento para a sua filhinha, e, mergulhou na escuridão.



Fim da 1ª parte



Bom amigos, aqui termina esta história, ou não. Ou seja, eu posso escrever ali apenas a palavra fim, e, cada um imagina e decide se o Gil morreu, ou se alguém se apercebeu do acidente e chamou socorro. Ou posso escrever, fim da primeira parte, e, continuar a história em Janeiro. Vocês decidem. O resto deste mês terão aqui todos os dias histórias de Natal.

6.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE X



-Adiante, lembras-te daqueles livros que te ofereci, e de  me teres dito quando leste o primeiro, que o autor parecia estar a descrever a nossa história?  Pois é mesmo a nossa história e o autor é este teu irmão.
- O quê? Tu és o misterioso Nuno Alvarez?
- Esse é o meu pseudónimo.
- Mas porquê? Porque não usaste o teu nome? – perguntou Marco admirado.
- Por duas razões. A primeira é que queria manter-me no anonimato. Assim se as obras fossem um sucesso, ninguém diria que o eram pelo meu passado de futebolista famoso, e se fossem um fracasso, também ninguém me diria que era um sapateiro a querer tocar rabecão, como dizia a nossa mãe. Segundo, sabes como a Sara era. Se soubesse do meu êxito literário, ia querer que frequentasse festas, que desse entrevistas, enfim que me tornasse numa estrela, junto da qual ela pudesse brilhar. Sabes que não sou, nem nunca fui assim. Depois o facto de a minha agente ser espanhola, e viver entre Paris e Nova Iorque, ajudou-me a manter o segredo. Coisa que não sei se conseguirei continuar a manter, uma vez que recebi uma ótima proposta para vender os direitos do “Almas sombrias” para o cinema.
- Bom, isto é que foi uma surpresa. E vais continuar a escrever?
-Enquanto a inspiração me deixar, sim.
Nesse momento foram interrompidos por Isabel a secretária.
- Desculpem, mas acaba de chegar o doutor Alcides.
-Mande-o entrar – disse Gil.
Ela retirou-se e segundos mais tarde, introduzia o advogado no escritório.
- Bons dias – saudou o recém-chegado, estendendo a mão para cumprimentar os dois irmãos.
- Bom dia - responderam em uníssono.
Depois do habitual cumprimento, Gil disse:
- Por favor, sente-se doutor.
- Desculpem-me, mas tenho trabalho na loja, - disse Marco encaminhando-se para a porta. - Se precisares de mim, chama-me.
-Está bem. Por favor diz à Isabel que nos sirva um café.
Marco saiu fechando a porta atrás de si.
- Bom doutor - começou Gil. - Pedi esta reunião, porque tenho várias instruções para lhe dar. Preciso que trate dos documentos necessários para que eu possa passar  a minha parte nesta empresa para o Marco. Não só desta loja, mas também da filial do Porto. Trata-se de uma doação, não de uma venda. Não tenho tempo para isto, e o meu irmão merece. Como sabe espero o nascimento da minha filha a qualquer momento e com o seu nascimento,  a minha vida ainda se vai complicar mais, pelo menos a nível de tempo.
- Lamento o que aconteceu com a sua esposa, - interrompeu o advogado. – Tão jovem, e ainda mais grávida! Este mundo está cada dia mais violento. Já apanharam os culpados?
-Não. A polícia não encontrou rasto do carro, e isso torna mais difícil chegar aos culpados.

15.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

8.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XI


Agora ali estava ela, assustada com a rapidez com que tudo acontecera, mas decidida a cumprir a sua tarefa, tal como se propusera. Acabara de tomar banho e preparava-se para trocar de roupa. Antes porém dirigiu-se à porta e fechou-a à chave. O quarto partilhado com o homem, tinha-a deixado surpresa e inibida. Não estava no contrato. Tinham acordado que ficariam em quartos separados. Aceitara aquele estúpido contrato, como quem aceita uma missão. Pelos filhos, e também pelas meninas. Tinha imensa pena das crianças que ficam sem mãe. Iria tratar delas o melhor que sabia, para que não lhe sentissem a falta. Mas não se sentia capaz de partilhar a sua intimidade com um desconhecido.
Porque no fundo, era isso que Afonso era. Um desconhecido, com quem falara meia dúzia de vezes naqueles três meses que antecederam a cerimónia, com quem assinara um contrato de trabalho. Ou aquele casamento podia ser considerado outra coisa que não um contrato de trabalho? E ela não se sentia capaz de prescindir da sua privacidade, nem era mulher capaz de a partilhar com o patrão, ainda que esse patrão lhe tivesse posto uma aliança no dedo.
Porém Afonso tinha razão. Era capaz de se tornar esquisito para as crianças, que ficassem em quartos separados.  
Olhou à sua volta. O quarto era amplo. Tinha a porta por onde entrara, a porta que dava para a casa de banho e… outra porta?
Vestida, mas ainda descalça, foi até lá e experimentou rodar o puxador. A porta abriu-se e Francisca encontrou-se num quarto mais pequeno,  com um berço de verga, um sofá, uma prateleira com alguns livros, e junto à janela uma escrivaninha e uma cadeira 
“Deve ser o quarto, onde dormiam as meninas nos primeiros meses de vida, para estarem mais perto da mãe” – pensou.
E nesse mesmo momento pensou que aquilo era a solução para o seu problema. Ela poderia ficar naquele quarto. É certo que teriam de partilhar a casa de banho, que teria de passar pelo quarto principal para sair e entrar, já que não havia outra porta, mas ainda assim ficava mais resguardada dos olhares masculinos, era menos constrangedor,   
Agora, só precisava coragem para falar com Afonso


reedição

Nota pode parecer que saltei um capitulo. mas não é assim. O que antecedeu este momento depois do episódio anterior será recordado pelo Afonso


1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem. 


reedição




3.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVII




- Mana, quando vamos a casa buscar o resto das coisas? Preciso dos meus livros, queria fazer uma revisão de matéria antes de começarem as aulas.
Naquele momento, encontravam-se os três na sala, depois das crianças terem ido dormir a sesta.
- Por mim poderíamos ir hoje, mas não agora que está demasiado calor  - respondeu Ricardo por ela. - Talvez mais para o fim do dia. Estou ansioso por conhecer a casa em que viviam.
- Porquê? – Interrogou Clara. É uma casa humilde, nada que se compare com esta.
- E depois? Decerto, perto de algumas onde já entrei, poderia considerar-se um palácio.
Relembrando a conversa tida no dia anterior na biblioteca, ela retorquiu:
-Desculpa. De qualquer modo, preferia ir amanhã. Hoje estou cansada.
- Calculo. Sabes Tiago, que enquanto nos divertíamos na piscina, a tua irmã fez uma revolução no quarto das crianças? A propósito - acrescentou voltando-se para ela, - fizeste um ótimo trabalho. Parabéns. Mas não voltes a fazer o mesmo sem ajuda. Podes magoar-te.
- Não foi nada demais, estou habituada a fazer este tipo de trabalho. E valeu a pena o esforço, para ver a alegria deles.
- Vai-te habituando - interrompeu Tiago. - Às vezes chegava a casa e levava cada surpresa que até pensava que me tinha enganado na porta. Foi uma pena que não tivesse continuado a estudar. Estou certo que seria uma ótima decoradora.
- Mas ainda poderá fazê-lo. É só uma questão de conciliar horários, - disse Ricardo. - Gostarias de voltar a estudar?
- Talvez um dia quem sabe. Agora tenho algo a fazer, mais importante que qualquer curso.
- Bom,  - disse Ricardo - pelo que me disseste, o que há para trazer são roupas e livros. Excetuando os manuais escolares, temos uma boa biblioteca. Tenho no computador uma lista de todos os títulos existentes. Poderás vê-la esta tarde. Não vale a pena trazeres livros que se repetiriam. Podes oferecê-los a uma instituição. Não disseste que ias dar os móveis?
- Sim. Mas há umas porcelanas antigas, de que não quero desfazer-me. Guardam muitas recordações. Poderia trazê-las?- Perguntou com uma certa ansiedade.  
-Claro. Podem guardar-se na cave. Mas então será melhor pedir ao Alfredo que nos arranje umas caixas e nos siga com a carrinha. Vou avisá-lo daqui a pouco.
- Bom, - disse Tiago, pondo-se de pé. - Se já está tudo combinado, vou sair. Até logo.
-Até logo, - responderam em coro.
Durante alguns segundos ficaram em silêncio. Depois Clara perguntou:
-Já pensaste como e quando, vais dizer às crianças que vais partir?
- Penso nisso todos os dias, desde que soube da partida, mas quando estou junto deles, não sei como lhes dizer.
- Deves fazê-lo o mais breve possível, para que se vão habituando à ideia. Se quiseres, posso estar presente. Para que sintam que estarei a seu lado e que não ficarão sozinhos. Queres fazê-lo depois do lanche?
- Tens razão. Deixar para a última hora, será contraproducente. Que te parece, se depois de lhes contar, fossemos dar um passeio com eles, e comer um gelado?
-Parece-me bem. Vou ver se já acordaram.




2.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE IV


                                          

Numa parede um grande sofá, parcialmente coberto por uma manta alentejana, onde pontificavam algumas almofadas redondas, de croché, amarelas e castanhas, parecendo gigantescos girassóis. Na parece contrária, um grande quadro com dois jovens, vestidos de uma forma esquisita, talvez um traje do século XVIII, ou princípio do século XIX,  e sob ele um aparador. No centro da sala, uma mesa, cujo pé fora um dia, duma máquina de costura. Por toda a sala, quadros espalhados mostravam bem qual a profissão do dono da casa.
Num canto na parede do sofá, uma porta, que Miguel abriu dizendo;
- O quarto.
Depois reparando que a jovem continuava a olhar o retrato acrescentou,
-Eram os meus avós.  
E pegando-lhe na mão disse;
- Venha ver o seu quarto. Como a casa só tem um, enquanto aqui estiver, fica no quarto, eu fico aqui no sofá. Não será por muito tempo, logo vai lembrar de tudo e voltar à sua casa.
Miguel sabia que isso não era certo. A jovem poderia levar muito tempo para recuperar a memória, e ele talvez estivesse a meter-se numa camisa-de-onze-varas, como diria a avó Ermelinda se fosse viva. Mas sem saber porquê, sentia necessidade de animar a jovem, tanto quanto sentia de a proteger.
O quarto era pequeno. Uma cama de ferro, pintada de branco, uma mesa-de-cabeceira antiga com tampo de mármore, sobre o qual um  candeeiro com abajur em bola, e um livro. Havia ainda  um pequeno armário de portas escuras e lisas.
Na parede sobre a cabeceira da cama, um crucifixo de madeira, completava a decoração do quarto.
-Vamos, - disse Miguel, venha ver o resto da casa. Afastou um cortinado junto ao aparador e seguiram por um largo corredor.
Nele em tábuas corridas amontoavam-se dezenas de livros, o que demonstrava o gosto de Miguel pela leitura.
- Esta é a minha biblioteca. Pode ler o que quiser, e quando quiser.
E aqui é a cozinha.
A cozinha como tudo na casa era pequena. Num canto o fogão, e a seu lado uma grade de madeira com algumas panelas e frigideiras penduradas. Encostado à parede interior uma mesa rectangular com duas cadeiras, e sobre a mesa, num nicho na parede, alguns pratos e copos. Na parede que dava para o exterior a um canto uma porta, depois um frigorífico, e quase junto ao fogão, uma janela. Sob esta o lava loiça.

23.10.17

A RODA DO DESTINO -PARTE XXXVI




Na terça-feira, à tarde, Anete recebeu uma mensagem de Afonso. Dizia-lhe que no dia seguinte iria a Lisboa, e precisava falar com ela. Convidava-a para almoçar. Respondeu que estava a trabalhar, só tinha uma hora para o almoço, da uma às duas, costumava almoçar num café perto da clínica.
“Combinado, lá estarei.” - Respondeu ele.
Anete, ficou curiosa, por saber o que é que Afonso queria com ela. Tinha-o visto, duas vezes em Coimbra no domingo anterior e ele não lhe dissera nada.
Bom, a verdade é que, não houve oportunidade de falarem a sós.  A primeira vez que se viram, no adro da igreja, ele estava acompanhado pela mãe, e na segunda ela estava com a irmã, facto que o deixou espantado e não houvera maneira de falarem. Reparara no seu espanto quando as vira juntas, e ela lhe dissera que eram irmãs. Mas nada dissera, e decerto não seria por isso que queria falar com ela,
- Passa-se alguma coisa, Anete? – Perguntou Diana
Sobressaltou-se.
-Não. Porquê?
- Tens duas pessoas para atender e não chamaste nenhuma.
- Tens razão, estava distraída, - disse carregando no botão que chamava o número seguinte.
E o dia decorreu sem mais incidentes. `
À noite depois do banho e do jantar, telefonou à irmã a saber como estavam, e depois pegou no livro e leu os três capítulos finais.
Os dois últimos capítulos eram de uma violência extrema, e ela receou que a protagonista da história, acabasse morta às mãos do psicopata do marido, e ficou feliz por assim não acontecer e o romance acabar com a esperança de um futuro feliz. Apesar de toda a angústia que a parte final do romance lhe transmitira, ela gostara dele e disse a si mesma que queria ler outras obras daquele autor. Recordou que Salvador, lhe dissera, que a irmã tinha quase todos os livros dele. Na próxima vez que estivessem juntas, iria pedir-lhe se lhe emprestava algum.  E por associação de ideias, perguntou-se por onde andaria Salvador. O que estaria a fazer? Já teria tomado alguma decisão? Tinha sido tão estranho aquele serão quando regressaram de Coimbra. O que o levara a abrir-se com uma pessoa que conhecera há tão pouco tempo? E agora Afonso também queria falar com ela, Que quereria ele? Só lhe faltava agora, virar ouvido para confidências masculinas.
Foi à casa de banho, escovou os dentes e deitou-se.
Acordou no dia seguinte, com a cabeça pesada. Tinha tido um sonho bizarro. Via-se numa terra estranha, tentando fugir de dois homens que a perseguiam. Salvador e Afonso.
A manhã de trabalho intenso, só abrandou um pouco depois das onze.
 A clínica não fechava para a hora de almoço. Diana, ia almoçar ao meio-dia e quando regressava à uma, ia Anete. Durante aquela hora, uma tinha que assegurar o trabalho da outra, e executar o seu, o que só era possível porque era a hora de menos movimento.
Naquele dia não foi diferente, e quando Anete saiu para o almoço já Afonso a esperava à porta.
Cumprimentaram-se e seguiram para o café em frente.

Bom a Internet voltou. Mas não sei por quanto tempo. Esta manhã virá de novo o técnico. É a quarta vez num mês.Já refizeram a instalação, já mudaram o modem. Que será que vão fazer agora?


21.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIV


Sentaram-se. Ela no sofá, ele no cadeirão em frente. Fitaram-se. Ela desviou o olhar, brincou com o anel.
“Está tensa. Parece receosa”, pensou ele.
 Inclinou-se para a frente, e instintivamente ela afastou-se um pouco para trás.
“Está com medo de mim. Mas porquê?"
Pegou no livro que estava na mesinha.
- Gostas de ler?
- Muito.
- É o teu autor preferido?
- É o primeiro livro que leio dele. Diana, a minha colega de emprego, disse-me maravilhas e instigou a minha curiosidade.
- Sabes que a tua irmã compra todos os livros deste autor?
-Sim? Talvez me empreste algum, quando acabar de ler esse. E tu? Costumas ler? Quem é o teu autor preferido?
- Não tenho tido grande tempo para o fazer ultimamente. Mas sim gosto de ler, embora não tenha um escritor favorito. Gosto de vários, nacionais e estrangeiros.
Calou-se e o silêncio voltou a instalar-se na sala. Um silêncio pesado. Como se ambos não soubessem o que dizer. Ou tivessem medo de dizer o que não queriam. Ele estudava todas as reações daquela mulher que o intrigava. Ela não sabia o que esperar daquela visita, estava numa fase crítica da sua vida, sentia-se frágil, carente, e ele era demasiado sedutor. Tinha receio do sofrimento que lhe adviria se cometesse a tolice de se apaixonar por ele.
- Gostei de conhecer os teus irmãos, -disse pousando o livro em cima da mesa. – O Ricardo tem uma bonita família.
-É verdade. A Teresa é uma boa esposa e uma excelente mãe. Todos gostamos muito dela. E os meninos, são uns amores.
“ Perdeu o medo, os olhos brilham. Vê-se que adora a família. Um tema a explorar, para que relaxe”.
- Vivem perto dos vossos pais?
- Vivem nos arredores de Coimbra.  O Ricardo gere a empresa de mudanças, do sogro.
- O Luís disse-me que trabalhava na Biblioteca Nacional.
- Sim. Às vezes v3m-me visitar. Como naquele dia. 
-Sei.
O silêncio instalou-se de novo entre eles. Tenso, incómodo. Ele levantou-se e foi até à janela. Afastou o cortinado e ficou a olhar pela janela. Lá fora a rua estava quase deserta. Era a noite de domingo, no dia seguinte começava uma nova semana de trabalho. Além disso as noites iam frias, em contraste com os dias quase de verão. Olhou o relógio, nove horas. Cedo demais para ir para casa. Atrás dele, Anete mantinha-se em silêncio. Numa espera nervosa. Ele não percebia porque é que ela tinha medo dele. Não pretendia fazer-lhe mal. Apenas queria… Ele nem sabia bem o que queria. Naquele momento, Salvador, o advogado brilhante, com um extraordinário dom de palavra, que deixava todos pendentes dele em tribunal, não sabia como lhe perguntar porque se divorciara. Tinha a certeza de que ela se iria retrair mais ainda e quem sabe o punha na rua. E ele estava a gostar de estar ali.
Na rua, um rafeiro tombou um recetor do lixo, espalhando-o no passeio em frente.



16.6.17

NA HORA EM QUE O GALO CANTOU - PARTE II




Bruno ficou com a irmã e a mãe. A ausência em simultâneo do pai e do irmão mais velho, foram um rude golpe para ele. Sentiu-se como o deficiente que necessita de muletas para andar, e alguém lhas rouba. E era ele quem devia apoiar a mãe e a irmã?
 Ia de casa para o trabalho e vice-versa. Não falava com ninguém, a não ser no trabalho nos assuntos que precisava tratar com os colegas. Não gostava de ler. Os livros retratavam personagens completamente opostos ao que ele era. Neles, os personagens eram todos altos, atléticos e perfeitos. Homens que faziam as mulheres suspirarem, e sonharem. Por ele nunca nenhuma mulher ia suspirar. Que importava se o seu rosto era perfeito, se os seus olhos viam o mesmo que os dos demais, se o seu coração era tão capaz de amar como o do ser mais belo da sua espécie? Nenhuma mulher no mundo se ia sentir protegida com um homem que lhes dava pelo ombro. Ao cinema também não ia. Os filmes eram como os livros. Além de que no cinema havia sempre uns parezinhos mais interessados em trocar carinhos, do que em seguir a trama no ecrã. De futebol não gostava. Até nisso ele tinha que ser diferente? Não entendia o entusiasmo dos colegas com o futebol. Que graça tinha, ver um grupo de homens em calções, a correr de um lado para o outro atrás de uma bola, como se não houvesse amanhã? E milhares a gritarem, a rirem e a chorarem, como se não houvesse tanta gente no mundo a sofrer de verdade, a morrer vítimas da fome, da guerra, da poluição, até da violência doméstica.  
Com a mãe, Bruno falava o indispensável. Não que não a amasse. Ou que ela não se preocupasse com ele. Mas como podia falar com a mãe, do que o atormentava, se ela sempre lhe respondia: 
" Os homens não se medem aos palmos, filho"  Era boa pessoa, mas era também mãe, e para as mães os filhos sempre são perfeitos. Às vezes dizia-lhe para sair, se divertir, que parecia um velho. Ele encolhia os ombros e nem respondia.

16.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIII



E ainda que conseguisse, havia a mais velha. Saíra da escola no ano anterior, gostaria de estudar, lia tudo o que apanhava à mão e até gostava de escrever histórias. Decerto ia ficar revoltada da irmã ir estudar e ela não. Mas por outro lado, ela, a mais velha era uma moça forte, tinha já quase o corpo de uma mulher e podia melhor aguentar o trabalho, do   que a outra, que fora sempre uma miúda franzina, e medrosa. Por outro lado havia o rapaz. A professora acabara de lhe comunicar que o miúdo ia fazer a passagem. Mas não sabia o que seria no próximo ano.
 Ele até parecia um miúdo inteligente, mas era “pelego”. 
Até parecia castigo. Tanto que ele desejara aquele filho. E afinal depois que ele nascera multiplicaram-se os seus problemas. Primeiro com a doença da mulher, depois, o miúdo gostava de se isolar, de brincar sozinho. Tivesse ele uns pedacitos de madeira uns pregos e um martelo e ele brincaria uma tarde inteira sozinho. Ou um balde com água e terra. E era vê-lo entretido em grandes construções.
Assim naquela noite enquanto mostrava aos filhos o monumento iluminado lá ao longe, Manuel erguia uma prece ao Cristo Redentor, suplicando ajuda para o seu menino.
 Alguns dias mais tarde, depois de uma conversa com o irmão e cunhada, o Manuel decide que a filha do meio vai estudar. A miúda fez os exames de quarta  classe e admissão com distinção, ganhou uma pequena bolsa de estudos, o tio forneceria os livros, já que os dois filhos estudavam, e naquele tempo os manuais escolares não mudavam todos os anos, e a mulher do empregado de escritório,dava algumas roupas que já não serviam às filhas.Roupas boas, de qualidade, que fariam com que a sua menina não fosse, “a vergonha da escola”. Claro que a mãe teria que as adaptar ao corpo da miúda, mas isso não era problema. Além disso a prima também ajudaria dando algumas explicações se a miúda precisasse. Ainda assim Manuel interrogava-se sobre a justiça de dar àquela filha a possibilidade que uma vida que os outros dois não teriam.