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3.1.20

PARTILHANDO ...




Recebi por email. E como gostei muito, partilho convosco. Trata-se de uma carta de George Carlin, um humorista dos anos 70/80, séria reflexão sobre o mundo atual, que pode parecer estranha vinda de um humorista, se nos esquecermos que George Carlin foi muito mais do que um controverso humorista, ou ator de cinema. Ele foi também um escritor de sucesso e um sério critico da sociedade americana. Então aqui vai o texto que me chegou como sendo uma carta sua.


"O paradoxo do nosso tempo é que temos edifícios mais altos e temperamentos mais reduzidos, estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos.
Gastamos mais, mas temos menos, compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores, mais conforto e menos tempo.
Temos mais graduações académicas, mas menos sentimentos comuns, maior conhecimento, mas menor capacidade de julgamento.
Mais peritos, mas mais problemas, melhor medicina, mas menor bem-estar.
Bebemos demasiado, fumamos demasiado, desperdiçamos demasiado, rimos muito pouco.
Movemo-nos muito rápido, nos irritamos demasiado, mantemo-nos muito tempo acordados, amanhecemos cansados, lemos muito pouco, vemos televisão demais e oramos raramente.
Multiplicamos o nosso património, mas reduzimos os nossos valores.
Falamos demasiado, amamos pouco e odiamos muito frequentemente.
Aprendemos a ganhar a vida, mas não a vivê-la. Adicionamos anos às nossas vidas, não vida aos nossos anos.
Conseguimos ir à lua e voltar, mas temos dificuldade em cruzar a rua para conhecer um novo vizinho.
Conquistamos o espaço exterior, mas não o interior. Temos feito grandes coisas, mas nem por isso melhores.
Limpamos o ar, mas contaminamos a nossa alma. Conquistamos o átomo, mas não os nossos preconceitos.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planeamos mais, mas desfrutamos menos.
Produzimos computadores que podem processar mais informação e difundi-la, mas nos comunicamos cada vez menos e menos.
Estamos no tempo das comidas rápidas e digestões lentas, de homens de grande estatura e de pequeno carácter, de enormes ganhos económicos e relações humanas superficiais.
Hoje em dia, há dois ordenados, mas mais divórcios, casas mais luxuosas, mas lares desfeitos.
São tempos de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moral descartável, encontros de uma noite, corpos obesos, e pílulas que fazem tudo, desde alegrar e acalmar, até matar.
São tempos em que há muito na vitrina e muito pouco no armazém.
Tempos em que a tecnologia pode fazer-te chegar esta carta, e em que tu podes optar por partilhar estas reflexões, ou simplesmente excluí-las.
Lembra-te de passar algum tempo com os teus entes queridos, porque eles não estarão aqui para sempre.
Lembra-te de ser amável com quem agora te admira, porque essa pessoa crescerá rapidamente e se afastará de ti.
Lembra-te de abraçar quem está perto de ti, porque esse é o único tesouro que podes dar com o coração, sem que te custe um centavo.
Lembra-te de dizer “te amo” ao teu companheiro e aos teus entes queridos, mas, sobretudo, dizê-lo com sinceridade.
Um beijo e um abraço podem curar uma ferida, quando se dão com toda a alma.
Dedica tempo para amar e para conversar, e partilha as tuas ideias mais apreciadas.
E nunca te esqueças:
A vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelos extraordinários momentos que vivemos juntos."

George Carlin


AQUI a biografia do autor




25.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVIII




- Pois a minha proposta é a seguinte. Montas uma boa sala de consultório, com tudo o que seja necessário para dar consultas e para tratar de uma boca. Eu assumo as consultas e terás que arranjar um bom dentista. Pudemos dividir o espaço trabalhando duas vezes por semana cada um em dias alternados. A propósito tu imaginas quantas doenças advêm de uma boca em mau estado?
-Mas tu és uma neurologista.
-Mas antes de me poder especializar, a minha formação foi medicina geral. Isso não me preocupa, até posso exercer as duas especialidades alternadamente sempre que necessário. Imaginas quanto tempo de espera tem atualmente uma consulta de neurologia num hospital público? E a gente a quem a Fundação se destina não tem meios para os privados. Mas adiante, o que me preocupa, é que um projeto como o que o Alcides me descreveu, não é coisa de meia dúzia de milhões. Tanto eu como o Marco conhecemos os teus sonhos desde que somos gente. Mas lembras-te do que a nossa mãe dizia? “Não se pode dar um passo maior do que a perna.” Tens noção daquilo em que te estás a meter? Que eu saiba não tens nenhum poço de petróleo nem nenhuma mina de ouro.
- Não. Mas tenho um gestor financeiro que vale o seu peso em ouro, e alguns investimentos no oriente, em poços de petróleo sim. De resto, deves saber que há sempre alguns mecenas que preferem investir dinheiro em obras destas, do que ter de o dar ao estado em impostos.
- Bom tu é que sabes. Tens alguma ideia do investimento inicial?
-Uns cem milhões aproximadamente.
A jovem, assobiou ao mesmo tempo que se inclinava sobre a secretária, na frente do irmão.
- Caramba, Gil, quase me matas do coração. Como é que podes dizer isso assim com essa calma?
- Laura, eu nasci pobre, mas Deus deu-me um dom que me trouxe muito dinheiro. E quando esse acabou, deu-me este, - apontou para a cabeça – que continuou a dar-me muito dinheiro. Por fim deu-me pessoas especiais, honestas e inteligentes que fazem crescer a minha fortuna todos os dias. ELE ficaria muito desiludido comigo, se eu me limitasse a amontoar os milhões. E na verdade, eu também não gostaria de mim próprio se fosse assim. Porque eu sei que quando morrer a única diferença com o nascimento será que nasci nu e morro vestido. Tudo o resto cá ficará.
 -És um filósofo e um filantropo.  Mas tens uma filha, e poderás ter mais filhos. Não pensas neles?
-Claro que sim. Mas não é o dinheiro a melhor coisa que lhes quero deixar. Quero que eles encontrem um mundo melhor do que aquele que eu encontrei e quero lutar para que isso aconteça. E ensinar-lhes com o meu exemplo a também eles contribuírem com a sua parte para essa mudança. Como diz o meu amigo Rogério, "mudar o mundo não custa. Leva é tempo."
Calou-se por momentos e depois disse:
-A esta hora, a Inês já deve ter chegado do hospital. Hoje não vi a minha filha mais do que cinco minutos. E estava a dormir. Também não pude falar com o médico dela que estava no bloco operatório. Importas-te de ver se ela já chegou e pedir-lhe que venha aqui falar comigo? Gostava que estivesses presente, podíamos resolver a situação do filho dela.
- Está bem. Continuamos a nossa conversa ao jantar – disse saindo da biblioteca




28.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VII





Fosse qual fosse o desfecho da tragédia que  Gil vivia no momento, ele  tinha tomado algumas decisões que iria pôr em prática a partir do dia seguinte.
Quando deixou o futebol, e embora se tivesse associado ao irmão, nunca pensou que o seu futuro passasse pelo empresariado, fizera-o apenas para fazer progredir o negócio, e a verdade é que o conseguiu, pois, três anos depois abriram uma filial no Porto e ultimamente já estudavam a hipótese de abrir outra em Faro. De facto, ele ia pouco à firma, dedicando-se de alma e coração ao curso que terminara à pouco, e à escrita. Era Marco quem a geria e a fazia crescer, embora nunca o tivesse conseguido se ele não se tivesse tornado sócio e não tivesse injetado na firma, uma boa quantia monetária.   
Agora ele ia doar os seus sessenta por cento da empresa ao irmão, de modo a torná-lo completamente independente. Por outro lado, esperava montar uma boa clínica à sua irmã, que se formara em medicina e que estava de momento a terminar a especialização em neurologia em Nova Iorque. Depois com as suas vidas estabilizadas, ele podia dedicar-se por completo, à escrita, e à sua filha, se Deus permitisse que ela chegasse a nascer. Teria que contratar uma boa ama para lhe ajudar com a menina, pois nada sabia de como cuidar de um bebé.
Pouco jantou. Estava física e emocionalmente cansado. E no dia seguinte teria uma reunião com o irmão e o advogado, a fim de iniciar o processo de doação das suas ações. Mais tarde, teria que entrar em contato com a agência de emprego a fim de lhe enviarem algumas amas. Teria que fazer várias entrevistas, a vida da filha era demasiado preciosa para a colocar nas mãos de uma ama mal qualificada. Calculava que tivesse algum tempo, embora a bebé pudesse nascer a qualquer momento se surgisse algum problema na mãe, que pudesse por em risco a sua vida. Todavia ainda assim ela teria que estar algum tempo na incubadora. Nem por um momento queria pensar, que a bebé poderia morrer antes de ver a luz do dia. A filha era uma guerreira ia nascer saudável, apesar do corpo que a estava a gerar estar apenas artificialmente vivo.
 Todavia como passava as tardes no hospital, ficava apenas com as manhãs para tratar dessas entrevistas.
Fazia-lhe tanta falta a irmã. Decerto ela seria não só um grande apoio moral, como uma ajuda nos primeiros meses de vida da sua filha. Apesar de já lhe faltar pouco mais de  um mês para o regresso, não podia pedir-lhe que interrompesse a sua vida e os seus sonhos por sua causa.
Abrira o portátil e como todos os dias, durante mais de uma hora pesquisou sobre bebés prematuros. Depois desligou-o e dirigiu-se ao quarto no piso superior.  Preparando-se para dormir, foi à casa de banho,  escovou os dentes, despiu-se e vestiu o pijama. Voltou ao quarto e deitou-se. Porém a madrugava já se aproximava quando conseguiu adormecer.

3.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE II





Estendeu as compridas pernas, em cima da mesa, recostou o corpo no sofá e fechou os olhos. Sentia-se tão só. Por onde andaria Odete? E como é que ela estaria? Será que era feliz? Ou, como ele, vivia atormentada com a saudade e a solidão? Durante aqueles anos, tinha recordado, vezes sem conta a sua vida, na tentativa de achar uma resposta, para o facto da sua esposa o ter abandonado.
João nascera numa família de origem modesta. Seu pai fora um militar da Guarda Nacional Republicana. Não uma alta patente, mas um humilde soldado, de posto provincial. A mãe lavava e passava roupa para fora, a fim de ajudar a equilibrar o orçamento que era tanto mais curto, quanto mais caros iam sendo os estudos do filho. Certo que ele ganhou sempre bolsas de estudo, mas ainda assim foi grande o sacrifício dos pais, até se formar em Medicina. E não foram muito melhores, os anos de internato hospitalar, enquanto se especializava em cardiologia.  Foram muitos anos de privações da sua parte, para que conseguisse sempre as melhores notas. Pena que todos os seus estudos, de nada tivessem valido ao seu pai que sofreu um ataque cardíaco fulminante, e, apesar da sua mãe ter chamado de imediato o INEM, chegou ao hospital já cadáver. João ficou então como único apoio da mãe. Completou trinta anos, sem quase ter vivido, pois a ânsia de saber mais, de ser o melhor, não lhe dava tempo para nada mais do que a profissão e o estudo.
Foi nessa altura, numa das raras festas a que foi, por ocasião do aniversário do seu amigo e colega Manuel que conheceu a mulher que, julgava ele, seria a mulher da sua vida. Inês era uma mulher muito bela. Tinha vinte e oito anos, era alta e esguia de cabelo loiro, e olhos azuis.
Apesar de achar que aquela mulher era uma verdadeira beleza, João não se mostrou muito entusiasmado, nem se juntou ao grupo de admiradores que a rodeavam, como se ela fosse uma rainha. Talvez fosse a sua indiferença, que instigou a vaidade feminina e levou a jovem a ir convidá-lo para dançar e a namoriscar com ele. Inês era filha única, de uma família rica, habituada a que todos lhe prestassem vassalagem, e se curvassem ante ela em adoração



Gente, por aqui chove intensamente. E pelos vossos sítios?

5.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XVIII






O empregado voltou com os pratos pedidos, e David esperou que ele se retirasse para fazer a pergunta que lhe queimava a garganta.
- Amavas o teu marido?
A afirmação saiu firme.
-Sim.
-Traiu-te?
- Sim e não. Desculpa, não me sinto preparada para falar disto. Porque não me falas de ti agora?
-Não é um tema interessante. Sou um rapaz do campo, filho de gente pobre, que com muito esforço, conseguiu estudar e que um dia conseguiu criar uma microempresa, que não mais parou de crescer.
- Só isso? E quando conheceste o Daniel? Ele disse que se conhecem há muito tempo.
-Conhecemo-nos na faculdade. Pensava que eramos amigos, até descobrir que tinha uma irmã, e que nunca me falou dela.
-Cursaste Medicina?
-Economia.
-Então não devia haver muito tema de conversa entre vós.
-Enganas-te. O teu irmão sempre se interessou pela economia dos países africanos. E havia outras coisas, em que estávamos de acordo.
-Mulheres, suponho.
-Talvez, - respondeu sorrindo
Acabaram a refeição em silêncio. A noite estava muito bonita. O ruído do mar misturava-se à música, e na pista de dança, havia já alguns pares.
O empregado entregou a lista de sobremesas, levantou os pratos e retirou-se.
- Tens alguma preferência? – Perguntou ele
- O gelado de framboesa. E tu?
Teve vontade de lhe dizer que a preferia a ela. Mas não se atreveu.
- Não sou muito apreciador de doces. Aceito a tua sugestão.
Saborearam os gelados.
- Queres dançar?
Tinha vontade de o fazer. Mas não tinha coragem. Tinha plena consciência da atração que ele lhe provocava, do desejo que lia no olhar masculino e da sua vontade em se deixar levar. Desde que se divorciara, nunca mais tinha saído com um homem, a não ser em grupo. Estava carente. A noite estava a ser maravilhosa. Tinha receio de estragar tudo.
- Preferia dar um passeio pela praia.
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Uma pergunta aos leitores: Não acham que esta  (estória) história está a ir depressa demais? Eu sei que hoje em dia vive-se a correr. Mas que vos parece?