- Pois
a minha proposta é a seguinte. Montas uma boa sala de consultório, com tudo o
que seja necessário para dar consultas e para tratar de uma boca. Eu assumo as
consultas e terás que arranjar um bom dentista. Pudemos dividir o espaço
trabalhando duas vezes por semana cada um em dias alternados. A propósito tu
imaginas quantas doenças advêm de uma boca em mau estado?
-Mas
tu és uma neurologista.
-Mas
antes de me poder especializar, a minha formação foi medicina geral. Isso não
me preocupa, até posso exercer as duas especialidades alternadamente sempre que
necessário. Imaginas quanto tempo de espera tem atualmente uma consulta de
neurologia num hospital público? E a gente a quem a Fundação se destina não tem
meios para os privados. Mas adiante, o que me preocupa, é que um projeto como o
que o Alcides me descreveu, não é coisa de meia dúzia de milhões. Tanto eu como o
Marco conhecemos os teus sonhos desde que somos gente. Mas lembras-te do que a
nossa mãe dizia? “Não se pode dar um passo maior do que a perna.” Tens noção
daquilo em que te estás a meter? Que eu saiba não tens nenhum poço de petróleo
nem nenhuma mina de ouro.
-
Não. Mas tenho um gestor financeiro que vale o seu peso em ouro, e alguns
investimentos no oriente, em poços de petróleo sim. De resto, deves saber que
há sempre alguns mecenas que preferem investir dinheiro em obras destas, do que
ter de o dar ao estado em impostos.
-
Bom tu é que sabes. Tens alguma ideia do investimento inicial?
-Uns
cem milhões aproximadamente.
A
jovem, assobiou ao mesmo tempo que se inclinava sobre a secretária, na frente
do irmão.
-
Caramba, Gil, quase me matas do coração. Como é que podes dizer isso assim com
essa calma?
- Laura,
eu nasci pobre, mas Deus deu-me um dom que me trouxe muito dinheiro. E quando
esse acabou, deu-me este, - apontou para a cabeça – que continuou a dar-me
muito dinheiro. Por fim deu-me pessoas especiais, honestas e inteligentes que
fazem crescer a minha fortuna todos os dias. ELE ficaria muito desiludido comigo,
se eu me limitasse a amontoar os milhões. E na verdade, eu também não gostaria
de mim próprio se fosse assim. Porque eu sei que quando morrer a única diferença
com o nascimento será que nasci nu e morro vestido. Tudo o resto cá ficará.
-És um filósofo e um filantropo. Mas tens uma filha, e poderás ter mais filhos.
Não pensas neles?
-Claro
que sim. Mas não é o dinheiro a melhor coisa que lhes quero deixar. Quero que
eles encontrem um mundo melhor do que aquele que eu encontrei e quero lutar
para que isso aconteça. E ensinar-lhes com o meu exemplo a também eles contribuírem
com a sua parte para essa mudança. Como diz o meu amigo Rogério, "mudar o mundo não custa. Leva é tempo."
Calou-se
por momentos e depois disse:
-A
esta hora, a Inês já deve ter chegado do hospital. Hoje não vi a minha filha
mais do que cinco minutos. E estava a dormir. Também não pude falar com o
médico dela que estava no bloco operatório. Importas-te de ver se ela já chegou
e pedir-lhe que venha aqui falar comigo? Gostava que estivesses presente, podíamos
resolver a situação do filho dela.
-
Está bem. Continuamos a nossa conversa ao jantar – disse saindo da biblioteca
