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27.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXIII

 


- Desculpe doutor, mas parece-me que esqueceu algumas coisas que deve ter aprendido no curso. Ou não lhe ensinaram que a diminuição da gravidade sobre as estruturas ósseas e articulares facilita a mobilidade além de provocar o relaxamento muscular e redução das contraturas?

-Para doenças reumatológicas e artrites. Não é o meu caso.

- Pois, suponho que não, afinal ainda é um homem jovem, para tais doenças, mas talvez o doutor não saiba que cada vez mais se estão a usar os tratamentos em piscinas para outras patologias do aparelho locomotor, nomeadamente para lesões traumáticas e pós-operatório ortopédico, o que já é o seu caso.

Terminou o tratamento, limpou com cuidado o gel, voltou a tapar as costas do doente, guardou a mesa do ultrassons e retirou do hidrocolector uma placa de calores húmidos que enrolou em toalhas e colocou nas costas do doente

- Se aquecer demais avise, - disse antes de se afastar para registar na ficha os tratamentos anteriores. Pouco depois perguntou:

-Está bem? Não está demasiado quente?

-Eu não me queixei, pois não?

-Muito bem, só não quero que por orgulho ou teimosia, não diga nada e se esteja a prejudicar.

Quinze minutos depois, Anabela retirou a placa de calor húmido e preparou-se para a massagem.

-Agora vou fazer-lhe uma massagem. E depois terminamos esta série com as botas de pressoterapia. Como lhe disse faremos sempre de manhã, tratamentos de fisioterapia elétrica alternados, consoante indicado pelo doutor Azevedo, de tarde diversos exercícios de fisioterapia mecânica de reabilitação, também alternados.

Se esperava que o doente fizesse alguma pergunta ou contestasse o tratamento enganou-se pois Tiago mantinha a mudez que só quebrava quando absolutamente necessário. 

Anabela, espalhou uma generosa camada de óleo nas mãos e esfregou-as a fim de as aquecer e iniciou a massagem, tendo o cuidado de não tocar na zona das vertebras, mas trabalhando os músculos e ligamentos que as apoiavam, subindo depois para a zona dos ombros e pescoço até sentir que os músculos tensos do doente relaxavam.

Durante toda a massagem, manteve-se atenta a quaisquer sinais de dores, mas nem o doente se queixou, nem ela sentiu qualquer retraimento dele que sinalizasse dor.

-Pronto, acabou, consegue voltar-se sozinho, para lhe por as botas?

Tiago não respondeu. Soergueu o tronco apoiado nos cotovelos e virou-se. A jovem pôs-lhe as botas, e cobriu-lhe o peito nu com uma toalha.

Dez minutos depois o aparelho desligou-se, Anabela retirou-lhe as botas e guardou-as. Foi buscar a cadeira para junto da marquesa e estendeu-lhe o robe, que ele vestiu.

-Ponha um braço sobre os meus ombros e faça força com o outro na maca. Deixe cair o corpo devagar sem medo, eu seguro-o pela cintura. Isso, muito bem. Agora é só rodar o corpo e sentar-se.

 


25.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVIII




- Pois a minha proposta é a seguinte. Montas uma boa sala de consultório, com tudo o que seja necessário para dar consultas e para tratar de uma boca. Eu assumo as consultas e terás que arranjar um bom dentista. Pudemos dividir o espaço trabalhando duas vezes por semana cada um em dias alternados. A propósito tu imaginas quantas doenças advêm de uma boca em mau estado?
-Mas tu és uma neurologista.
-Mas antes de me poder especializar, a minha formação foi medicina geral. Isso não me preocupa, até posso exercer as duas especialidades alternadamente sempre que necessário. Imaginas quanto tempo de espera tem atualmente uma consulta de neurologia num hospital público? E a gente a quem a Fundação se destina não tem meios para os privados. Mas adiante, o que me preocupa, é que um projeto como o que o Alcides me descreveu, não é coisa de meia dúzia de milhões. Tanto eu como o Marco conhecemos os teus sonhos desde que somos gente. Mas lembras-te do que a nossa mãe dizia? “Não se pode dar um passo maior do que a perna.” Tens noção daquilo em que te estás a meter? Que eu saiba não tens nenhum poço de petróleo nem nenhuma mina de ouro.
- Não. Mas tenho um gestor financeiro que vale o seu peso em ouro, e alguns investimentos no oriente, em poços de petróleo sim. De resto, deves saber que há sempre alguns mecenas que preferem investir dinheiro em obras destas, do que ter de o dar ao estado em impostos.
- Bom tu é que sabes. Tens alguma ideia do investimento inicial?
-Uns cem milhões aproximadamente.
A jovem, assobiou ao mesmo tempo que se inclinava sobre a secretária, na frente do irmão.
- Caramba, Gil, quase me matas do coração. Como é que podes dizer isso assim com essa calma?
- Laura, eu nasci pobre, mas Deus deu-me um dom que me trouxe muito dinheiro. E quando esse acabou, deu-me este, - apontou para a cabeça – que continuou a dar-me muito dinheiro. Por fim deu-me pessoas especiais, honestas e inteligentes que fazem crescer a minha fortuna todos os dias. ELE ficaria muito desiludido comigo, se eu me limitasse a amontoar os milhões. E na verdade, eu também não gostaria de mim próprio se fosse assim. Porque eu sei que quando morrer a única diferença com o nascimento será que nasci nu e morro vestido. Tudo o resto cá ficará.
 -És um filósofo e um filantropo.  Mas tens uma filha, e poderás ter mais filhos. Não pensas neles?
-Claro que sim. Mas não é o dinheiro a melhor coisa que lhes quero deixar. Quero que eles encontrem um mundo melhor do que aquele que eu encontrei e quero lutar para que isso aconteça. E ensinar-lhes com o meu exemplo a também eles contribuírem com a sua parte para essa mudança. Como diz o meu amigo Rogério, "mudar o mundo não custa. Leva é tempo."
Calou-se por momentos e depois disse:
-A esta hora, a Inês já deve ter chegado do hospital. Hoje não vi a minha filha mais do que cinco minutos. E estava a dormir. Também não pude falar com o médico dela que estava no bloco operatório. Importas-te de ver se ela já chegou e pedir-lhe que venha aqui falar comigo? Gostava que estivesses presente, podíamos resolver a situação do filho dela.
- Está bem. Continuamos a nossa conversa ao jantar – disse saindo da biblioteca




13.9.07

ATAQUES DE PÂNICO...

Decerto que quem me lê, já ouviu falar de ataques de pânico. Poderão talvez nunca ter sentido algum, mas decerto ouviram falar. São crises breves mas muito intensas. De repente, do nada surge um medo inexplicável da morte, um aperto no peito que nos impede de respirar, o corpo enche-se de suores frios, os olhos turvam-se. Não conseguimos raciocinar surgem palpitações, tonturas, a hiperventilação, faz-nos sentir pior, os membros ficam dormentes.

Segundo os psiquiatras, a razão destes medos irracionais, prende-se com inconscientes conflitos emocionais, ansiedade e algumas fobias.


Na minha vida sofri dois destes ataques. O primeiro, há 22 anos, no Algarve. Em Faro há uma igreja, que tem uma torre, donde se vê toda a cidade e as ilhas. Para se chegar ao cimo da torre, sobe-se por uma escada em caracol no interior do monumento. É uma escada muito estreita, como são todas as escadas em caracol. Só passa uma pessoa de cada vez, e os visitantes sobem e descem alternadamente. Pois imaginem que foi precisamente a meio dessas escadas que eu sofri um ataque de pânico. Durante meia hora, quem estava em cima, não pode descer e de baixo, ninguém subiu, até que me conseguiram tirar de lá.
Decerto reconhecem esta imagem. Claro trata-se do Castelo de Óbidos, uma das sete maravilhas de Portugal. Pois aqui precisamente nestas muralhas que até nem são muito altas há 4 anos,
sofri o segundo ataque de pânico. Subi ás muralhas para ver a paisagem ao redor do Castelo.
E aí de repente fiquei como osga agarrada ás muralhas. Foi um problema para a minha irmã e o meu marido me tirarem dali. E os turistas cá em baixo filmando e fotografando a cena. Como se fora um espectáculo. É claro que não me apercebi de nada. Foram o marido e a irmã que me contaram mais tarde. Sei que não é uma história muito bonita. Mas é uma experiência de vida, que infelizmente faz sofrer muita gente.