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16.12.19

CONTOS DE NATAL - O PRESENTE DO "CARA-FEIA"



A mãe estava sentada na cadeira de imitação de cabedal, no consultório médico, a mexer nas unhas com nervosismo. Rugas de preocupação sulcavam-lhe a testa, enquanto olhava para Kenny, de cinco anos, sentado no tapete à frente dela.

«Ele é pequeno para a idade e muito magro», pensou. O cabelo louro do menino caía-lhe macio e liso sobre as orelhas. Ligaduras de gaze branca envolviam-lhe a cabeça, tapando-lhe os olhos e prendendo-lhe as orelhas.


No regaço fazia saltar um ursinho de peluche estragado. Era o orgulho da sua vida, embora lhe faltassem um braço e um olho. A mãe tentara por duas vezes deitar fora o urso para o substituir por um novo, mas ele ficara tão nervoso que ela desistira. Inclinou a cabeça um pouco para o lado e sorriu-lhe. «De facto, é tudo o que tem», disse para si mesma, suspirando.

Uma enfermeira apareceu à porta.
— Kenny Ellis — anunciou ela, e a jovem mãe pegou no filho e seguiu a enfermeira até à sala de observação. O corredor cheirava a anti-sépticos e a ligaduras. Desenhos a lápis, feitos por crianças, revestiam as paredes.— O médico virá daqui a pouco — disse a enfermeira, com um sorriso eficiente. — Sente-se, por favor.

A mãe colocou Kenny sobre a mesa de observação.
— Tem cuidado, querido, para não caíres.
— Estou muito alto, mãe?
— Não, querido, mas tem cuidado.
Kenny apertou o ursinho com mais força.
— Também não quero que o Cara-Feia caia.

A mãe sorriu. O sorriso curvou-lhe os cantos da boca, transformando-se num esgar de preocupação. Afastou o cabelo do rosto do filho e acariciou-lhe a face, suave como veludo, com as costas da mão. Quando a música do consultório mudou para uma versão ctual de Noite Feliz, recordou o acidente pela milésima vez.

Há anos que cozinhava nos bicos de trás. Mas lá estava, mesmo à frente, a água a ferver para a papa de aveia.
O telefone tocou na sala de estar. Era mais uma daquelas chamadas com «ofertas» caríssimas. No momento em que pousava o telefone na mesa, Kenny, na cozinha, soltou um grito, um grito horrível de dor, capaz de gelar as veias de uma mãe.
Estremeceu de novo com a recordação e limpou uma lágrima que lhe corria pela face. Tinham esperado seis semanas por aquele dia. «Poderemos tirar as ligaduras na semana antes do Natal», dissera o médico.

A porta da sala abriu-se repentinamente e o Dr. Harris entrou.
— Bom dia, Sr.ª Ellis — disse ele, prazenteiramente. — Como se sente hoje?
— Bem, obrigada — disse ela. Mas estava demasiado apreensiva para conversas banais.
O Dr. Harris debruçou-se na banca e lavou cuidadosamente as mãos. Era cauteloso com os doentes, mas descuidado consigo próprio. Raramente arranjava tempo para cortar o cabelo, e o cabelo preto e liso chegava-lhe ao colarinho. A gravata desapertada permitia que o colarinho ficasse aberto no pescoço.

— Então — disse ele, sentando-se num banco — vamos lá dar uma vista de olhos.
Suavemente, cortou a ligadura com uma tesoura e desprendeu-a da cabeça de Kenny. A ligadura caiu, deixando dois quadrados lisos de gaze, presos com adesivo, sobre os olhos de Kenny. Devagar, o Dr. Harris levantou as pontas do adesivo, esforçando-se por não ferir a pele fina do menino.

Kenny abriu lentamente os olhos, pestanejou várias vezes como se a claridade súbita o ferisse. Em seguida, olhou para a mãe e sorriu.
— Olá, mamã! — disse.
Sufocando e incapaz de falar, a mãe lançou os braços à volta do pescoço de Kenny. Durante vários minutos, não pôde dizer nada, enquanto abraçava o filho e chorava de gratidão. Por fim, olhou para o médico com os olhos rasos de água.
— Não sei como lhe poderei pagar — disse ela.
— Já falámos disso — interrompeu o médico, acenando com a mão. — Sei qual é a sua situação, e a do Kenny. Ainda bem que pude ajudar.

A mãe passou um lenço puído nos olhos, levantou-se e pegou na mão de Kenny. Mas, quando se virou para a porta, Kenny soltou-se e ficou parado um longo momento, a olhar indeciso para o médico. Em seguida pegou no braço do urso e estendeu-o ao médico.
— Aqui tem — disse. — Fique com o meu Cara-Feia. Deve valer muito dinheiro.
O Dr. Harris pegou no urso estragado com ambas as mãos.
— Obrigado, Kenny. Vale muito mais do que os meus serviços.

Os últimos dias, antes do Natal, foram particularmente bons para Kenny e para a mãe. Sentavam-se nas longas noites, a olhar para as luzes da árvore de Natal, que acendiam e apagavam. As ligaduras tinham tapado os olhos de Kenny durante seis semanas, por isso o menino parecia ainda relutante em os fechar para dormir. O fogo que dançava na lareira, os flocos de neve que se colavam às janelas do quarto, os dois pequenos embrulhos por debaixo da árvore – todas as luzes e cores da festa o fascinavam!

Na véspera de Natal tocaram e a mãe de Kenny foi abrir a porta da rua. Não estava lá ninguém, mas havia uma caixa grande, embrulhada em papel dourado com uma fita vermelha, larga e com um laço. Uma etiqueta presa ao laço identificava a caixa como destinada a Kenny Ellis.

Com um sorriso, Kenny tirou a fita, levantou a tampa e retirou um ursinho – o seu querido Cara-Feia. Só que agora tinha um braço novo de bombazina castanha, e dois olhos, feitos de botões, que brilhavam na luz suave do Natal. Kenny não pareceu importar-se por o braço novo não condizer com o outro. Abraçou o ursinho e riu.

No meio do papel de seda dentro da caixa, a mãe encontrou um cartão. «Querido Kenny», dizia, «às vezes consigo curar os meninos e as meninas, mas a Sr.ª Harris ajudou a consertar o Cara-Feia. É melhor médica do que eu. Feliz Natal! Dr. Harris.»
— Olha, mãe — Kenny sorriu, apontando para os olhos de botões. — O Cara-Feia vê outra vez, tal como eu!

Garry Swanson

25.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVIII




- Pois a minha proposta é a seguinte. Montas uma boa sala de consultório, com tudo o que seja necessário para dar consultas e para tratar de uma boca. Eu assumo as consultas e terás que arranjar um bom dentista. Pudemos dividir o espaço trabalhando duas vezes por semana cada um em dias alternados. A propósito tu imaginas quantas doenças advêm de uma boca em mau estado?
-Mas tu és uma neurologista.
-Mas antes de me poder especializar, a minha formação foi medicina geral. Isso não me preocupa, até posso exercer as duas especialidades alternadamente sempre que necessário. Imaginas quanto tempo de espera tem atualmente uma consulta de neurologia num hospital público? E a gente a quem a Fundação se destina não tem meios para os privados. Mas adiante, o que me preocupa, é que um projeto como o que o Alcides me descreveu, não é coisa de meia dúzia de milhões. Tanto eu como o Marco conhecemos os teus sonhos desde que somos gente. Mas lembras-te do que a nossa mãe dizia? “Não se pode dar um passo maior do que a perna.” Tens noção daquilo em que te estás a meter? Que eu saiba não tens nenhum poço de petróleo nem nenhuma mina de ouro.
- Não. Mas tenho um gestor financeiro que vale o seu peso em ouro, e alguns investimentos no oriente, em poços de petróleo sim. De resto, deves saber que há sempre alguns mecenas que preferem investir dinheiro em obras destas, do que ter de o dar ao estado em impostos.
- Bom tu é que sabes. Tens alguma ideia do investimento inicial?
-Uns cem milhões aproximadamente.
A jovem, assobiou ao mesmo tempo que se inclinava sobre a secretária, na frente do irmão.
- Caramba, Gil, quase me matas do coração. Como é que podes dizer isso assim com essa calma?
- Laura, eu nasci pobre, mas Deus deu-me um dom que me trouxe muito dinheiro. E quando esse acabou, deu-me este, - apontou para a cabeça – que continuou a dar-me muito dinheiro. Por fim deu-me pessoas especiais, honestas e inteligentes que fazem crescer a minha fortuna todos os dias. ELE ficaria muito desiludido comigo, se eu me limitasse a amontoar os milhões. E na verdade, eu também não gostaria de mim próprio se fosse assim. Porque eu sei que quando morrer a única diferença com o nascimento será que nasci nu e morro vestido. Tudo o resto cá ficará.
 -És um filósofo e um filantropo.  Mas tens uma filha, e poderás ter mais filhos. Não pensas neles?
-Claro que sim. Mas não é o dinheiro a melhor coisa que lhes quero deixar. Quero que eles encontrem um mundo melhor do que aquele que eu encontrei e quero lutar para que isso aconteça. E ensinar-lhes com o meu exemplo a também eles contribuírem com a sua parte para essa mudança. Como diz o meu amigo Rogério, "mudar o mundo não custa. Leva é tempo."
Calou-se por momentos e depois disse:
-A esta hora, a Inês já deve ter chegado do hospital. Hoje não vi a minha filha mais do que cinco minutos. E estava a dormir. Também não pude falar com o médico dela que estava no bloco operatório. Importas-te de ver se ela já chegou e pedir-lhe que venha aqui falar comigo? Gostava que estivesses presente, podíamos resolver a situação do filho dela.
- Está bem. Continuamos a nossa conversa ao jantar – disse saindo da biblioteca




28.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o clínico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Olhe diga-lhe que sou Pedro Medeiros e que me venho despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Doutor vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde, Pedro. Como desejava vê-lo. Há mais de um mês que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de um outro doente. É que apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não! Como o senhor, não. Depois de estudar as  análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando os valores com das segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises iniciais, tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeiro distúrbio  nervoso, de que já deve estar curado, a julgar pelo seu óptimo aspeto.
 – Doutor não seria melhor eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado, posso marcar-los. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital de S. José em Lisboa.
- Meu Deus!
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, dona Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos dois meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.


E como amanhã é domingo esta história volta na segunda.

16.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE VII




Pedro saiu do consultório como se fosse perseguido por mil demónios. Três meses eram tudo o que lhe restava. E a mãe? Tinha que pensar na mãe. Entrou num café e pediu uma água. Precisava acalmar-se. A mãe não podia vê-lo assim. De uma coisa tinha a certeza. A mãe não ia saber o que se passava. Ele não ia fazer a mãe passar por esse sofrimento. Uma boa ideia seria uma viagem. Queria que a mãe o recordasse assim como era hoje e não que o visse no sofrimento final. Morrer jovem já era mau suficiente, para não querer ver o sofrimento da sua velha e amada mãe.

Finalmente, mais calmo, pagou a água e dirigiu-se a casa.

- Olá mãe, que tal o seu dia? - perguntou com estudada naturalidade, enquanto se inclinava para a beijar.

- Que disse o médico das análises filho? Foste lá, não foste? - perguntou ansiosa.

- Claro que fui, mãe. E não te preocupes está tudo normal. Disse que ando nervoso, preciso de me distrair, talvez mudar de ares durante uns tempos. Nada que já não me tivesse dito antes.

Sentia remorsos da maneira como estava a enganar a mãe, mas consolava-o o pensamento de que assim ela não sofreria tanto.

- Estive a pensar que vou tirar umas férias e vou para qualquer lado, descansar.

- Acho bem, filho. Claro que me custa estar longe de ti, mas se é pela tua saúde, acho bem.

- Mas a mãe não fica longe. Vai comigo - disse antevendo a resposta da mãe.

- Isso não, filho. Eu só seria um estorvo para ti. Nunca estarias descansado, e acabarias por levar a mesma vida que aqui. Vou escrever à minha irmã Rosa, para que venha passar um tempo comigo. E tu poderias ir para a casa da Palmira, a irmã do teu pai. A casa é grande e ela está sempre a convidar-nos. E aqueles ares de lá são muito bons para a saúde.

De repente Pedro pensou que nunca tinha ouvido a mãe dizer a palavra falecido, quando se referia a seu pai. Dizia sempre o teu pai, ou o meu homem, como se nunca tivesse aceitado a sua morte e continuasse à espera que ele chegasse a qualquer momento. Lembrou da tia Palmira, da sua simpatia e pensou que talvez fosse boa ideia ir para lá. Depois se não se desse bem poderia sempre recorrer a um hotel.

- Seja minha mãe. Amanhã falo com o patrão e peço férias.




15.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVII




Já escurecera quando saíram do consultório. Passaram pela farmácia, e depois tomaram o caminho de casa.
- Uma moeda pelos seus pensamentos, - disse Miguel dirigindo-se à
jovem, que o seguia, muda como uma sombra.
- Está farto de gastar dinheiro comigo. As roupas, o médico, e esses exames…
-Ora, ora, o dinheiro fez-se para se gastar. E como eu sou mais de ganhar do que de gastar…
-Nunca lhe poderei pagar.
-Talvez sim, talvez não. Quem sabe, não é uma rica herdeira, ou uma princesa dum reino petrolífero, - riu Miguel tentando tirar a jovem daquela preocupação. Passaram pelo restaurante para jantarem, mas a jovem tinha perdido a fome e comeu apenas uma sopa.
Já em casa, Miguel esperou que a jovem guardasse as compras e depois pediu-lhe:
-Venha cá. Sente-se aqui, - disse apontando um lugar no sofá, junto de si. Vamos conversar. Creio que já lhe dei provas suficientes de que quero ajudá-
la, e que pode confiar em mim.  Também já lhe disse,que não  precisa  agradecer. O que quero, é que colabore, a fim de conseguirmos chegar a algum lado. Eu sei que ficou desiludida. De resto eu também fiquei um pouco, não pensei que podia ser tão complicado. Mas não vamos desistir. Amanhã será outro dia. Vai fazer o exame sim, tão depressa quanto possível, às vezes estes exames são difíceis de marcar. Amanhã comprarei o caderno de desenho para que faça o que o médico recomendou. E vamos combinar uma coisa. A partir de agora, sempre que fale consigo, vou chamá-la por um nome diferente. Quem sabe se algum deles lhe diz alguma coisa?
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro e puxou-a para si. Um gesto suave, sem desejo, nem maldade, como se faz com uma criança. De súbito a jovem rompeu num choro convulsivo.
- Mau, assim eu zango-me. – Ralhou Miguel. 
-É que é muito doloroso para mim,- disse ela levantando para ele o rosto molhado. Por mais que me esforce, não me ocorre nada de nada. E se ficar sempre assim?
- Já falámos disso esta manhã. Não me vou repetir. Sei que está cansada. Seja uma menina bonita, tome o medicamento e vá dormir. Vai ver que amanhã acorda melhor.
Levantou-se, foi à cozinha, e regressou com um copo de água, e as duas metades do comprimido.
Obediente, ela tomou a metade que ele lhe estendia, e depois dirigiu-se à casa de banho.
Miguel aproveitou para ir ao quarto buscar as suas roupas, para não ter que dormir vestido de novo.
Pouco depois a jovem voltou. Dirigiu-se ao quarto dizendo:
-Boa noite Miguel.
Boa noite Luísa.
Em silêncio a jovem fechou a porta.





13.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XV




Terminada a refeição que decorreu em amena camaradagem, como se os dois se conhecessem desde sempre, tomaram o rumo do centro da cidade.
Miguel estava espantado. A jovem que o acompanhava em nada se parecia com a do dia anterior, ou mesmo dessa manhã. Que se passara entretanto para uma mudança tão radical? Era como se a jovem se tivesse esquecido do seu problema. Mas a pergunta que lhe fizera, antes de entrarem no restaurante, demonstrava o contrário. Apesar de gostar de a ver assim, estranhava-lhe, a atitude.
Na baixa, Miguel procurou o consultório do tal psiquiatra, que lhe tinha sido recomendado. Infelizmente não tinha vagas para toda aquela semana. Miguel insistiu, era urgente, se fosse possível uma vaga. Não era possível. Só na próxima semana. Segunda-feira às 15 horas. Miguel acabara de marcar a consulta, quando o telefone tocou. A empregada atendeu e depois chamou-os ,quando os dois já se preparavam para sair..
- Parece que hoje, é o seu dia de sorte,- disse sorrindo. A marcação das dezassete horas, acaba de desistir da consulta. Pode ficar para os senhores . Em que nome fica a marcação?
E agora? Miguel procurou os olhos da jovem e só viu neles medo. Decidido deu o seu nome.
-Miguel Fernandes
-Então senhor Fernandes, a consulta está marcada para as dezassete.
- Obrigado. Voltarei a essa hora.
Uma vez na rua, disse.
- São duas e vinte. Vamos lá comprar os chinelos. Entretanto, talvez precise de outras coisas. Um creme, um perfume, eu sei lá. Não entendo nada das vossas necessidades.
Esperava um sorriso da jovem, mas o rosto dela tinha voltado a ficar taciturno.
Compraram os chinelos, e umas calças que lhe despertaram o interesse.  Depois parou junto de uma montra, cheia de bonitas malas de senhora. Porém quando Miguel lhe disse para escolher uma, a jovem encolheu os ombros e respondeu com tristeza:
-Para quê? Não tenho nada para pôr lá dentro.
Por fim, foram a uma perfumaria e depois de vários testes, escolheu o Angel, de Thierry Mugler.
Miguel, olhou o relógio. Dezasseis e trinta. Tinham apenas tempo para um bolo ou gelado antes da consulta. Porém a jovem estava demasiado nervosa e não quis nada, pelo que se dirigiram para o consultório




13.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o médico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Diga-lhe que é Pedro Medeiros. Olhe diga-lhe que me quero despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Dr. vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde Pedro. Como desejava vê-lo. Há quase três meses que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - Perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de outro doente. Apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não. Como o senhor, não. Depois de estudar as análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando valores com as segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeira depressão nervosa, de que já deve estar curado a julgar pelo seu óptimo aspecto.
 – Doutor não seria melhor  eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital.
- Meu Deus.
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, D. Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos três meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.

23.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE IV


Ao passar pela sala, Pedro verificou que esta se encontrava agora completamente cheia.
- Então que lhe disse o médico? - Perguntou o jovem com quem conversara anteriormente.
- Que não via nada de importante. Mandou-me fazer análises e recomendou-me passeios e distracção. Voltarei cá quando tiver os resultados das análises.
-Vitor Ferreira - chamou a assistente
- Então adeus e as melhoras. A menina está a chamar-me.
- Obrigado. As melhoras também para si.
O jovem acabava de passar a porta do consultório e já nem devia ter ouvido as últimas palavras de Pedro. Este aguardou a volta da assistente, pagou a consulta e saiu. Na rua respirou fundo.
A mãe já devia estar ansiosa à sua espera. Pobre mãe. Os seus setenta e um anos tinham sido bem sofridos, mas não queria que ele contratasse uma empregada. Dizia, zangada, que velhice não é invalidez.
- Boa tarde mãe. Como foi o seu dia? - Perguntou enquanto a beijava.
- Normal, filho. E o teu? Foste ao médico? Que disse ele? - Perguntou ansiosa e preocupada.
- Ora mãe, que queria que dissesse? Que não me encontrava nada de maior, que me distraísse. E mandou-me fazer umas análises e voltar lá quando tivesse os resultados.
- E os pulmões, filho? Viu-te lá no tal aparelho?
 – Claro, mãe. Pode ficar descansada, que não vou morrer tuberculoso. - E afastou-se rindo.
A mãe foi atrás dele.
- Não te rias filho. Andas mal-encarado e sem apetite. Sou velha, mas não sou cega. Nem quero pensar o que vai ser de mim se te acontece alguma coisa grave.
- Ora mãe, não me fale de coisas tristes. O médico disse para me distrair, e ninguém se distrai com tristezas. E mudando de conversa, o que é o jantar?
 – Pato assado.
- Ora valha-a Deus minha mãe. Então tem o meu prato favorito para o jantar e não dizia nada? Vamos lá para a mesa que já me cresce água na boca.
Disse isto rindo, mas o seu riso soou-lhe a falso. E mentalmente pediu a Deus que a mãe não o percebesse. Sentou-se à mesa e foi com grande esforço que conseguiu comer o suficiente para não deixar a mãe mais preocupada. Na verdade, embora fosse o seu prato preferido, não sentia qualquer vontade o comer.



6.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XVII




Já escurecera quando saíram do consultório. Passaram pela farmácia, e depois tomaram o caminho de casa.
- Uma moeda pelos seus pensamentos, - disse Miguel dirigindo-se à
jovem, que o seguia, muda como uma sombra.
- Está farto de gastar dinheiro comigo. As roupas, o médico, e esses exames…
-Ora, ora, o dinheiro fez-se para se gastar. E como eu sou mais de ganhar do que de gastar…
-Nunca lhe poderei pagar.
-Talvez sim, talvez não. Quem sabe, não é uma rica herdeira, ou uma princesa dum reino petrolífero, - riu Miguel tentando tirar a jovem daquela preocupação. Passaram pelo restaurante para jantarem, mas a jovem tinha perdido a fome e comeu apenas uma sopa.
Já em casa, Miguel esperou que a jovem guardasse as compras e depois pediu-lhe:
-Venha cá. Sente-se aqui, - disse apontando um lugar no sofá, junto de si. Vamos conversar. Creio que já lhe dei provas suficientes de que quero ajudá-la, e que pode confiar em mim.  Também já lhe disse,que não  precisa  agradecer. O que quero, é que colabore, a fim de conseguirmos chegar a algum lado. Eu sei que ficou desiludida. De resto eu também fiquei um pouco, não pensei que podia ser tão complicado. Mas não vamos desistir. Amanhã será outro dia. Vai fazer o exame sim, tão depressa quanto possível, às vezes estes exames são difíceis de marcar. Amanhã comprarei o caderno de desenho para que faça o que o médico recomendou. E vamos combinar uma coisa. A partir de agora, sempre que fale consigo, vou chamá-la por um nome diferente. Quem sabe se algum deles lhe diz alguma coisa?
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro e puxou-a para si. Um gesto suave, sem desejo, nem maldade, como se faz com uma criança. De súbito a jovem rompeu num choro convulsivo.
- Mau, assim eu zango-me. – Ralhou Miguel. 
-É que é muito doloroso para mim,- disse ela levantando para ele o rosto molhado. Por mais que me esforce, não me ocorre nada de nada. E se ficar sempre assim?
- Já falámos disso esta manhã. Não me vou repetir. Sei que está cansada. Seja uma menina bonita, tome o medicamento e vá dormir. Vai ver que amanhã acorda melhor.
Levantou-se, foi à cozinha, e regressou com um copo de água, e as duas metades do comprimido.
Obediente, ela tomou a metade que ele lhe estendia, e depois dirigiu-se à casa de banho.
Miguel aproveitou para ir ao quarto buscar as suas roupas, para não ter que dormir vestido de novo.
Pouco depois a jovem voltou. Dirigiu-se ao quarto dizendo:
-Boa noite Miguel.
Boa noite Luísa.
Em silêncio a jovem fechou a porta.




4.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XIV




                                                        foto da net


Apagou o cigarro, na torneira do tanque, lançando-o depois para o caixote do lixo. Olhou o relógio. Horas de almoço. Sacudiu a cabeça. Até nisso a sua rotina fora alterada, pois sempre fez as refeições fora e agora tinha que as trazer para casa. Foi até à entrada do quarto. A jovem permanecia na mesma posição. Pensou que tinha adormecido. Preparava-se para sair quando ela surgiu na sala.
Miguel aproveitou para lhe perguntar se não queria ir almoçar com ele. Contrariamente ao que esperava ela aceitou. Se ele esperasse enquanto ela ia jogar uma água no rosto, e passar a escova no cabelo. Ele assentiu e ela apressou-se em direcção da casa de banho.
Afinal valera a pena a conversa que tivera com ela -, pensou Miguel.
Minutos depois estava de volta e Miguel afastou-se para a deixar passar.
- Se não se importa de caminhar podemos ir a pé. Há um bom restaurante aqui perto.
-Gosto de caminhar  - retorquiu a jovem.
Ela seguia, observando tudo ao seu redor, como se nunca por ali tivesse passado.
Por sua vez Miguel observava-a de soslaio, tentando adivinhar no seu rosto, algum sinal de reconhecimento.
De súbito ela perguntou:
-Quando vou ao médico?
-Depois do almoço, podemos ir ao consultório. Com um pouco de sorte, talvez se consiga, consulta para hoje.
Um pouco mais tarde, ela perguntou:
-Posso pedir-lhe uma coisa?
-Claro.
- Podia comprar-me uns chinelos? Hoje tive que usar os seus…
- Gostava de ter visto isso, - riu Miguel. Esses delicados pezinhos de boneca, nos meus chinelos, número 44.
-Quase um só chegava para os dois pés, - disse ela, sorrindo.
Era a primeira vez que Miguel a via sorrir, e gostou de a ver assim.
Afinal, talvez não fosse tão difícil assim, a convivência entre os dois. 
O restaurante onde Miguel costumava fazer as suas refeições, não era muito grande, mas era agradável, com a sua decoração campestre, e muita luz, boa comida e a simpatia dos empregados, que se apressaram a conduzi-los para a mesa, onde habitualmente Miguel costumava ficar. Este escolheu peixe grelhado com legumes e passou a lista à jovem que sem a abrir, pediu peixe grelhado e salada.