Cumprimentou os colegas e dirigiu-se à sua secretária, para mais um dia de trabalho. A sombra de tristeza no seu olhar, era maior nesse dia. O calendário marcava o dia vinte de Junho. Num céu sem nuvens, o sol brilhava radioso, as ruas fervilhavam de gente alegre, de roupas leves e curtas, deixando pernas e braços nus, para aproveitar as carícias do sol, naquele que era o último dia de Primavera.
Precisamente naquele dia, fazia seis meses de casada. Mas
o marido não fizera qualquer referência à data, pelo que nem se devia lembrar.
Pensando naquele aniversário, havia já uma semana que ela tinha comprado, um conjunto de
carteira e porta-chaves em cabedal, e mandara personalizar com a inicial do nome do marido. Abriu a gaveta da sua secretária, e acariciou o belo embrulho que ali
tinha guardado.
Se o marido não se lembrava da data, ela não podia
dar-lhe o presente. Ele ia sentir-se constrangido. Sentiu o calor de uma
lágrima que lhe rolava pela face. Limpou-a com as costas da mão e fechando a
gaveta entregou-se ao trabalho. Estava tão embrenhada na sua tarefa que nem
ouviu a colega quando a chamou à porta do gabinete, e só deu por ela quando
parou a seu lado com um belo ramo nas mãos, e disse:
-São para ti. Vieram entregá-las agora.
-Quem? – perguntou segurando o ramo surpreendida
- Um rapaz numa motocicleta. Provavelmente empregado numa
florista. É o teu aniversário?
- Seis meses de casada.
- Seis meses - repetiu a colega, com alguma nostalgia. Devia
ter suspeitado. Rosas vermelhas. Aos seis meses ainda se está em lua-de-mel. Há
um frasco na casa de banho. Vou buscá-lo para que não murchem.
Obrigado – disse retirando o pequeno envelope com o
cartão que acompanhava o ramo. Retirou o cartão e leu.
“ Seis rosas. Uma por cada um dos meses, que me
permitiste viver a teu lado, dando sentido à minha vida.
Ricardo”
Guardou o cartão no envelope, precisamente no momento em que a colega chegava com um frasco, que já fora contentor de café instantâneo, meio de água.
Agradeceu a gentileza da colega, colocou o ramo no frasco,
e pousou-o na sua mesa, à esquerda do computador. Guardou o cartão na mala
depois de o reler emocionada. Afinal ele lembrara da data, e não comentara nada
para lhe fazer a surpresa.
Pegou no telefone e ligou-lhe.
-Obrigado –disse assim que ouviu a sua voz. Foi uma
surpresa maravilhosa,
- Gostaste? Fico feliz por isso. Olha, telefonei ao Artur
e perguntei-lhe se podiam ficar com a Matilde esta noite,para que possamos fazer algo diferente.
Disse-me logo que sim. Estás feliz.
Disse-me logo que sim. Estás feliz.
Engoliu em seco antes de anuir.
- Bom, então até logo e bom trabalho. Beijo.
-Outro.
Desligou o telefone, e de seguida telefonou à amiga.
- Natália o Ricardo acabou de me dizer que a Matilde
dorme aí esta noite. Posso ir almoçar convosco?
- Claro, filha. O Artur vai buscar-te. Não me pareces
muito feliz. Aconteceu alguma coisa?
-Não. Só que sinto saudades de estar convosco.
- Mas querida estivemos juntas há três dias no aniversário da menina. E vemo-nos todos os dias.
- Mas querida estivemos juntas há três dias no aniversário da menina. E vemo-nos todos os dias.
-Eu sei. Mas não é a mesma coisa. Até logo e obrigado.
