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28.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVIII



 Teresa encontrava-se sentada à mesa na cozinha. Tinha vestido um leve robe de cor salmão, que deixava ver por baixo uma fina camisa de dormir branca. Tinha na sua frente um copo de leite quase vazio, única coisa que tinha conseguido segurar no estômago,  desde há quase quinze minutos. Toda a manhã tivera vómitos constantes, sentia-se extremamente cansada, sem forças, nem vontade de fazer o almoço. Sabia que algumas mulheres se queixavam daqueles sintomas, o livro também falava neles, mas ninguém a alertara para a violência que vinha sofrendo há quatro dias.

Não sabia se devia recorrer ao médico no Centro Clínico, não desejava fazê-lo, mas telefonara nessa manhã para o consultório da sua ginecologista, e informaram-na que estava de férias só regressaria na semana seguinte, e a continuar assim ela não acreditava que conseguisse resistir até lá. Tinha já emagrecido, pois ao pesar-se nessa manhã, a balança marcava menos quilo e meio do que na semana anterior. As grávidas devem ganhar peso, não perdê-lo.  

Terminou de beber o resto do leite e a custo levantou-se. Levou o copo para o lava loiça e encaminhou-se para a casa de banho. Precisava tomar um duche, tinha transpirado imenso, sentia-se imunda. Depois do banho, apenas tinha vontade de se deitar e dormir, mas obrigou-se a reagir. Vestiu-se, escovou os cabelos que prendeu num rabo-de-cavalo evitando olhar para o espelho, por recear o seu próprio aspeto.

Já na cozinha, ficou indecisa sem saber que fazer para o almoço. “Não há nada pior do que ter que cozinhar quando nada apetece comer” pensou.

Pôs a cozer dois ovos, e água a ferver para cozer esparguete, salteou em azeite e alho, espinafres, tomates, e rodelas de curgete. Com todos os ingredientes fez uma salada, e sentou-se à mesa. Pensando no bebé, forçou-se a comer mesmo sem ter vontade.

Porém pouco comeu, pois logo começaram as náuseas, pelo que guardou a comida no frigorífico, passou a loiça por água e meteu-a na máquina, seguindo depois para a sala, a fim de se estender no sofá.

Sobre a pequena mesa da sala uma jarra com rosas brancas, trouxe-lhe à memória o dia de sábado passado na companhia do empresário.

Passou a mão sobre as pétalas aveludadas das rosas, pegou no comando da televisão, ligou o aparelho e estendeu-se no sofá a ouvir as notícias. Cinco minutos mais tarde, a campainha da porta tocou. Levantou-se e foi atá à porta que abriu depois de ver que se tratava da sua amiga Inês. Cumprimentaram-se com um beijo, e seguiram para a sala.

Inês estava impressionada com o aspeto da amiga, e comadre. Disse assim que se sentaram:

-Aproveitei a hora do almoço para te vir ver. Todos estamos muito preocupados contigo, já que nunca mais apareceste na pastelaria. Por outro lado, sempre que te convido para ires almoçar ou jantar lá a casa, como ontem dás sempre uma desculpa. Agora olhando para ti, vejo que deves estar a passar mal e estás aqui fechada sozinha. Porque não me disseste?

- Não estive assim até à semana passada. Levei um mês praticamente a comer e a  dormir.

-Não me digas, por isso estás tão gorda – disse com ironia.

- É que os últimos dias têm sido muito difíceis. Não aguento nada no estômago. Agora mesmo não sei se conseguirei aguentar o pouco que comi ao almoço. 

Vómitos matinais após o primeiro mês, são normais em muitas grávidas,  mas se acontece após almoço e jantar deves ir ao médico. Vais começar a perder peso e não é bom para o bebé. Se quiseres vou contigo.

- O problema é que só tenho consulta no Centro Clínico dentro de duas semanas. Telefonei para o consultório da minha ginecologista e informaram-me que está de férias. E não acho que seja coisa para ir ao hospital.

-Mas não podes estar assim. Quando chegar à pastelaria, vou telefonar à minha ginecologista. Tenho a certeza de que se não hoje, amanhã ela atende-te. Não te preocupes eu levo-te lá, não te quero a conduzir como estás. Agora vou-me embora. Daqui a pouco já te telefono.  O pessoal manda-te um abraço e diz que tem saudades tuas. E os clientes perguntam por ti todos os dias. Estranham que de um momento para o outro tivesses deixado de aparecer, perguntam-me se comprei a pastelaria.

-Não lhes digas o que se passa. Diz que estou de férias, que fui para a aldeia, qualquer coisa, mas não lhes digas nada da gravidez, até que passem os três meses.

Inês levantou-se, deu-lhe um beijo, e disse:

- Não te levantes, eu sei o caminho.

 


10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.