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8.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIII



Cumprimentou os colegas e dirigiu-se à sua secretária, para mais um dia de trabalho. A sombra de tristeza no seu olhar, era maior nesse dia. O calendário marcava o dia vinte de Junho. Num céu sem nuvens, o sol brilhava radioso, as ruas fervilhavam de gente alegre, de roupas leves e curtas, deixando pernas e braços nus, para aproveitar as carícias do sol, naquele que era o último dia de Primavera.
Precisamente naquele dia, fazia seis meses de casada. Mas o marido não fizera qualquer referência à data, pelo que nem se devia lembrar. Pensando naquele aniversário, havia já uma semana que ela tinha comprado, um conjunto de carteira e porta-chaves em cabedal, e mandara personalizar com a inicial do nome do marido. Abriu a gaveta da sua secretária, e acariciou o belo embrulho que ali tinha guardado.
Se o marido não se lembrava da data, ela não podia dar-lhe o presente. Ele ia sentir-se constrangido. Sentiu o calor de uma lágrima que lhe rolava pela face. Limpou-a com as costas da mão e fechando a gaveta entregou-se ao trabalho. Estava tão embrenhada na sua tarefa que nem ouviu a colega quando a chamou à porta do gabinete, e só deu por ela quando parou a seu lado com um belo ramo nas mãos, e disse:
-São para ti. Vieram entregá-las agora.
-Quem? – perguntou segurando o ramo surpreendida
- Um rapaz numa motocicleta. Provavelmente empregado numa florista. É o teu aniversário?
- Seis meses de casada.
- Seis meses - repetiu a colega, com alguma nostalgia. Devia ter suspeitado. Rosas vermelhas. Aos seis meses ainda se está em lua-de-mel. Há um frasco na casa de banho. Vou buscá-lo para que não murchem.
Obrigado – disse retirando o pequeno envelope com o cartão que acompanhava o ramo. Retirou o cartão e leu.

“ Seis rosas. Uma por cada um dos meses, que me permitiste viver a teu lado, dando sentido à minha vida.

Ricardo”

Guardou o cartão no envelope, precisamente no momento em que a colega chegava com um frasco, que já fora contentor de café instantâneo, meio de água.
Agradeceu a gentileza da colega, colocou o ramo no frasco, e pousou-o na sua mesa, à esquerda do computador. Guardou o cartão na mala depois de o reler emocionada. Afinal ele lembrara da data, e não comentara nada para lhe fazer a surpresa.
Pegou no telefone e ligou-lhe.
-Obrigado –disse assim que ouviu a sua voz. Foi uma surpresa maravilhosa,
- Gostaste? Fico feliz por isso. Olha, telefonei ao Artur e perguntei-lhe se podiam ficar com a Matilde esta noite,para que possamos fazer algo diferente.
 Disse-me logo que sim. Estás feliz.
Engoliu em seco antes de anuir.
- Bom, então até logo e bom trabalho. Beijo.
-Outro.
Desligou o telefone, e de seguida telefonou à amiga.
- Natália o Ricardo acabou de me dizer que a Matilde dorme aí esta noite. Posso ir almoçar convosco?
- Claro, filha. O Artur vai buscar-te. Não me pareces muito feliz. Aconteceu alguma coisa?
-Não. Só que sinto saudades de estar convosco.
- Mas querida estivemos juntas há três dias no aniversário da menina. E vemo-nos todos os dias.
-Eu sei. Mas não é a mesma coisa. Até logo e obrigado.



5.5.19

5 DE MAIO DIA DAS MÃES

Porque hoje também me lembrei de todas as mães, que por esse mundo fora, têm seus filhos presos ou desaparecidos, por lutarem contra as injustiças sociais.



ROSAS VERMELHAS
Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:

- Coragem!Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).

E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:

- Bom dia!era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.

Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:

- Bom dia!de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.

Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:

- Bom dia!,mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.

É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?

Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:

- Mãe!A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.

No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel Alegre "A praça da canção"


ATENÇÃO A QUEM SEGUE "UM HOMEM DIVIDIDO"  EPISÓDIO 38 SAIU ONTEM .