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15.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIX







Não se conteve ao ouvi-lo dizer pela segunda vez que a amava. Enlaçou-lhe o pescoço e procurou-lhe a boca para um beijo apaixonado. Porém quando as mãos dele desceram pelas suas costas numa carícia que parecia incendiá-la, afastou-se dizendo:
- Ainda não, se é para por a alma a nu, vamos despi-la os dois. Depois iniciaremos uma vida nova, sem mais dúvidas nem enganos.
Quando te conheci, eu era virgem de corpo e sentimentos. Tinha tido um namoro ainda muito jovem, se é que se pode chamar namoro, aqueles três meses em que me deixei acompanhar por um amigo que dizia amar-me e querer casar comigo. Na altura eu era muito nova, ainda nem tinha feito vinte anos. A minha mãe estava doente, tinha deixado de trabalhar, a minha irmã era uma criança, e eu tinha deixado os estudos e estava a trabalhar para aguentar a casa. Entre o trabalho, o cuidar da mãe doente e da Susana, não tinha tempo para passear, namorava um pouquinho à noite e sem qualquer intimidade. Três meses depois a minha mãe morreu, o meu namorado, queria casar rápido, mas queria que eu levasse a Susana para uma instituição. Dizia que eu não podia assumir a sua criação e educação, ele não ia casar comigo e assumir tal responsabilidade, nem gastar com ela, aquilo que seria dos nossos filhos.
Entre os dois, a escolha era óbvia. Nunca mais soube nada dele, até há cinco anos, quando o encontrei num supermercado, com a mulher grávida e duas crianças de tenra idade.
No dia do nosso casamento, ainda era virgem de corpo, mas já não de emoções, pois cada vez que me beijavas, deixavas-me em brasa, e fazias-me sentir e desejar coisas, que nunca tinha sentido. Nunca mais fui a mesma depois da noite de núpcias e não me refiro ao óbvio. Naquela noite antes de adormecer repeti a mim mesma, as promessas do casamento, certa de que te amava e te amaria sempre.
No início, fiquei deslumbrada com o sexo. Cada nova carícia me deixava mais louca, eu queria ficar o resto da vida nos teus braços. Depois percebi que isso acontecia porque só me demonstravas carinho na cama. No dia-a-dia, eras simpático, companheiro, querias sempre dar-me qualquer coisa, até quiseste dar-me um carro, sem perceberes que os bens materiais não me seduziam, que só queria o teu amor.  Mas não havia lugar para mim, na tua vida amorosa. Todo o teu amor era para a Matilde. Uma noite, depois de fazermos amor, tomei coragem e disse-te como estava feliz por ter acabado de fazer amor. Tu respondeste-me. “Amor? Fizemos sexo, Isabel. Não te iludas, nem confundas as coisas”
Na manhã seguinte fui à farmácia e comprei a pílula. Por muito que eu desejasse ter um filho, nunca o teria sabendo que ele não era fruto de amor dos dois. E a partir daí, contra o meu próprio desejo, sempre que podia fugia da nossa intimidade.
- Perdoa-me. Fui muito estúpido, confundi tudo. Esquece o que aconteceu, vamos começar de novo. Juro que não te vou dececionar.
Isabel olhou-o durante uns segundos e depois estendeu-lhe a mão direita
- Isabel Penha Sarmento.
Ele estendeu a sua e apertou-lha:
- Ricardo Souto Medina. Encantado em conhecê-la.



Pensei acabar a história aqui, deixando à imaginação de cada um o final, até porque a história já vai longa, mas depois pensei que se esta história tinha tido prólogo, também devia ter epílogo. E já que tiveram paciência até aqui...
 Mas não sei se vou publicá-lo se mantenho a história assim. 
DEIXO-VOS A DECISÃO. Querem um episódio mais ou fica assim?


6.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVII


- Salvador?
-Bom dia, Raul. Tudo bem?
- Tudo. Quando vais lá a casa? Os teus sobrinhos não se cansam de perguntar por ti.
- Um dia destes. Também já tenho saudades daqueles diabretes. E então? Tens novidades?
- Não. Falei com os meus sogros. Eles só sabem que a Ana Clara foi entregue à instituição pela própria mãe, que se encontrava gravemente doente. A menina tinha dez meses, e a mãe morreu pouco tempo depois. Ninguém lhes falou de qualquer irmã, gémea ou não. Queres um conselho? Esquece essa história.
- Não consigo. Não é possível, duas pessoas assim tão iguais sem qualquer relacionamento entre si.
- Tu nunca ouviste falar de sósias? Não têm vínculos familiares e às vezes nascem separadas por um continente.
-Sei. Sósias são pessoas muito parecidas, e não são iguais, como estas duas. Tu não viste Anete, senão em foto. Até no andar, e nos gestos, é igual. E não nasceu no outro lado do mundo. Nasceu na mesma cidade e no mesmo dia.
- Estive a pensar, porque é que não levas a tua amiga, a jantar lá a casa amanhã?
- É sábado. Vocês não prefeririam um programa a dois?
- Esqueces que temos dois filhos?
-Não. Mas não seria a primeira vez que os deixavam com os avós.
- Tens razão. Mas fizemos uma "escapadinha" a semana passada, não pudemos abusar que a vida não está para grandes folias. Bom, o que é que resolves? Posso avisar a Ana Clara?
- Telefono-te à tarde. Falei à Anete da tua mulher, e ela ficou muito curiosa, mas conheço-a há pouco tempo, e não sei se ela já tem compromisso, tanto mais que tem um irmão a viver perto, que às vezes a visita. Podem ter combinado algo. E outra coisa, se formos jantar, deves prevenir a tua mulher, da semelhança da minha amiga. Não quero que entre em choque quando a veja.
- Está bem. Então telefona-me logo. Sabes que eu também estou muito curioso? Até logo.
- Até logo, Raul.
Pousou o telefone e ficou pensativo. A história complicava-se. A confiar no que a instituição contara aos pais de Ana Clara, quando esta entrou na instituição já tinha dez meses. E entrou sozinha. Isso afastava a hipótese de as jovens terem sido adotadas por famílias diferentes, e lá se ia a teoria de que os pais de Anete, tivessem escondido da filha, o facto de ser adotada.  Mas então como era possível? E porque é que a jovem, era tão diferente do resto da família? De cenho franzido, procurou no bolso do casaco o seu telemóvel, e ligou para a jovem.




19.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXX





Aquele Natal seria memorável para todos, naquela casa, onde para além dos moradores, se encontravam os pais de Francisca. E esperavam a qualquer momento a chegada de Graça e do marido. A felicidade do casal, era por demais evidente. Tão evidente que os pais de Francisca acreditaram finalmente no grande amor que a filha lhes descrevera como razão para um casamento tão rápido. 
Afonso tinha encomendado o serviço do mesmo restaurante que os tinha servido no dia do casamento e esperava-se a sua chegada com o jantar. Mais tarde viria o Pai Natal com os presentes para as crianças, que estavam excitadíssimas com a festa.
Pouco antes das oito Graça chegou. E protagonizou a maior surpresa da noite, ao trazer com ela duas meninas de seis anos, que apresentou como suas filhas. Eram-no legalmente desde o início do mês.
Perante o espanto da família, Eduardo contou que devido a uma anomalia  genética, ele não podia ter filhos. Sabendo como a mulher adorava crianças, e de como se sentia frustrada, nos seus anseios maternos, tinha-se decidido pela adopção. As duas meninas eram gémeas, estavam há muito tempo na instituição, porque ninguém se atrevia a adoptar as duas de uma só vez, e era cruel demais separá-las. Para eles não era problema, e foi por isso mais rápida a adopção,não precisaram ficar em lista de espera. Tinham guardado segredo, pois tinham receio de que alguma coisa não corresse bem, durante o processo. Elas eram amorosas e eles nunca estiveram tão felizes.
- Deviam ter-nos contado. Elas vão sentir-se excluídas, quando o Pai Natal chegar com os presentes.
- E porque é que pensas que te pedi o nome da empresa que contrataste? - Disse a irmã. - Entrei em contacto com eles, e no dia em que aqui estive, fiz as compras e fui lá entregá-las.
- Pensaram em tudo. Mas que surpresa!
Entretanto as crianças já brincavam juntas. A princípio as meninas pareciam pouco à vontade, mas logo Marta, com a sua natural espontaneidade  tratou de fazer com que se integrassem na brincadeira.
Jantaram às nove, primeiro porque os mais pequenos tinham que jantar cedo, depois porque o serviço de restaurante por ser noite de Natal, encerrava às dez e meia, e os empregados teriam que sair a essa hora.
Pouco passava das dez, quando o Pai Natal chegou, carregado de presentes para alegria dos miúdos.
No meio da confusão, Afonso notou que Simão estava pensativo. Ele tinha recebido uma mala de pintor, um cavalete, tintas acrílicas e três telas. Adorava pintar e na sua carta ao Pai Natal, apenas pedira, material de pintura.