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17.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XX





- Diogo adormeceu antes da hora da missa, e foi preciso levá-lo ao colo, tarefa dividida entre a mãe e os avós. Embora Fernando fizesse questão de o levar, Helena disse que não era prudente, havia apenas três semanas que tinha feito a cirurgia.
 Durante a missa, o homem suplicou ao Jesus Menino que lhe concedesse a graça de recuperar a memória. Helena também suplicou ao Deus Menino pela  recuperação dele.
No regresso foram distribuídos os presentes. Uma vez mais Fernando se emocionou ao ver que Helena embrulhara alguns presentes em seu nome para ele distribuir. Aquela mulher era um anjo que Deus lhe mandara num momento de provação. Por fim todos se foram deitar. 

O dia de Natal amanheceu coberto de neve, o que provocou a alegria do menino, que na sua curta vida nunca a tinha visto a não ser na televisão. Ele e Fernando, fizeram um belo boneco em frente à casa, antes da ida à missa matinal.

Depois da homilia, toda a família cumpriu o ritual de beijar o Menino Jesus.
Após o almoço, como o dia estava muito frio, e continuava a nevar, toda a família ficou em casa. Diogo adormeceu, e os adultos entretiveram-se com um animado jogo de cartas até à hora do lanche, altura em que a criança acordou. As horas decorriam lentamente. 

Helena pensava que nunca um dia de Natal lhe parecera tão longo. Esperava que no dia seguinte o inspetor visse a mensagem. E que dissesse alguma coisa. Mas como tudo que começa, acaba, também aquele interminável dia chegou ao fim.

No dia seguinte, encontravam-se à mesa, a tomar o pequeno-almoço, quando o telemóvel tocou. O inspetor informava que tinha lido a mensagem, mas precisava da presença urgente do jovem na esquadra. Precisavam tirar-lhe as impressões digitais, e verificar se correspondiam às de Fernando Monte Real, pois a foto só por si, não queria dizer que se tratasse dele, pois todos sabem que há pessoas que são cópias exatas de outras. E como ele continuava sem memória, só assim poderiam ter a certeza, para aprofundarem a investigação.

Helena desligou o telemóvel, e voltando-se para os pais,  disse:
-Era do hospital. Pedem-me para interromper as férias, há um grande afluxo de doentes com gripe, estão a chamar os médicos que estão de férias. Vamos acabar de comer e arrumar as nossas coisas para a viagem. Lamento ter ficado pouco tempo convosco, mas prometo voltar logo que possa.


27.12.19

CONTOS DE NATAL - A MANJEDOURA VAZIA





— Já não há mais nenhuma — disse Michael, empilhando a última caixa no átrio da minha casa.

Inspecionei as embalagens poeirentas com alguma expectativa. Estas decorações de Natal, que tinham sido guardadas depois da morte da mãe de Michael, simbolizavam, de alguma forma, o nosso futuro como casal. Tínhamos, até agora, partilhado todo o tipo de atividades típicas da quadra: festas, compras, decorações. Mas, como íamos casar dentro de alguns meses, eu queria criar algumas tradições que fossem só nossas.


Algo de significativo e de único para ambos.

Abrir estas caixas era o início dessa partilha.

— Olha só, o nosso velho presépio! — exclamou Michael, abrindo uma caixa embrulhada com cuidado. — A minha mãe punha-o sempre debaixo da árvore de Natal.

Com cuidado, desembrulhei Maria, José e a manjedoura. Enfiado dentro dos jornais estava um estábulo. Coloquei-o no chão, debaixo da árvore, e dispus os três Reis Magos, um pastor, uma ovelha e uma vaquinha. Estavam todos menos…

Verifiquei de novo os pacotes e procurei debaixo dos jornais empilhados a figura que faltava. Nada.

— Não encontro o Menino Jesus — disse para Michael, que estava ocupado na sala de jantar.

Quando chegou junto de mim, repeti:

— Não encontro o Menino Jesus do presépio.

A cara de Michael ficou tensa.

— Mas ele tem de estar aqui. Estava aqui no último Natal da minha mãe.

Horas mais tarde, depois de todas as caixas terem sido abertas, continuava a faltar o Menino Jesus. Michael sugeriu que voltássemos a embrulhar o presépio.

— Não — discordei. — Amanhã vou tentar encontrar um menino que condiga com o conjunto.

Despedimo-nos e Michael foi para casa.

No dia seguinte, coloquei a manjedoura na minha carteira e fui a uma loja temática na hora de almoço. Não havia nenhum Menino Jesus. Depois do trabalho, ainda procurei noutras lojas, mas nenhuma delas vendia o Menino Jesus em separado. Pensei comprar outro conjunto de figuras, mas nenhum dos meninos cabia na manjedoura do presépio de Michael.

Uns dias mais tarde. quando ele veio jantar a minha casa, contei-lhe o sucedido. Depois do jantar, comecei a arrumar as figurinhas na caixa. Michael interrompeu o meu gesto, colocando as suas mãos nas minhas.

— Penso que devemos deixá-lo como está.

— Mas não podemos ter um presépio sem Menino Jesus — retorqui.

— Vem comigo — pediu Michael.

Afastámo-nos da árvore e ele disse:

— Olha para o presépio. À primeira vista, nem sequer notamos que falta alguma coisa. Só quando olhamos com atenção é que vemos que não há Menino Jesus.

Inclinei a cabeça e contemplei a cena. Michael tinha razão.

— Mas ainda não percebo onde queres chegar — disse eu.

— No meio das decorações, das listas de compras e das festas, perdemos, muitas vezes, Jesus de vista. É como se ele se perdesse no meio do Natal.

Foi então que compreendi.

E, assim, demos início à nossa primeira tradição de Natal, uma tradição significativa e única para a nossa família. Todos os anos, quando colocamos as figuras do presépio, deixamos a manjedoura vazia.

É a forma de nos lembrarmos de procurar Cristo no Natal.

Stephanie Welcher Thompson

5.12.19

CONTOS DE NATAL - O MENSAGEIRO



-O Pai Natal desapareceu!O Pai Natal desapareceu!- alertou, Jeremias, o chefe dos duendes.
Todos os duendes ficaram muito assustados com a notícia.
Era véspera de Natal e os presentes estavam quase todos prontos para serem distribuídos, mas... faltava o Pai Natal!
- Que vamos fazer? - perguntou um duende.
-Temos que o procurar.
-Sim! - disse o chefe - Germano pega num trenó e vai, com o Rudolfo, ver se encontras o Pai Natal.
- Mas, já são 9 horas da noite. E se não o encontrar?
- Nesse caso tenho que usar o segredo.
Esperaram que o Germano e o Rudolfo voltassem com notícias.
- Não encontrei o Pai Natal - disse o Germano muito triste.
- Bom! Nesse caso tenho mesmo que usar o tal segredo! - concluiu o Jeremias.
O Pai Natal estava muito preocupado porque já era quase meia-noite. Também estava muito cansado e com muito frio e, estava amarrado a uma cadeira numa casa de madeira.
No canto da casa estava um adulto sentado e falava com ele:
- Pois é Pai Natal! Agora como é que vais fazer para distribuíres os teus presentes? Este ano não...
O Pai Natal olhou para ele. Estava de boca aberta, pronto para dizer a próxima palavra, mas imóvel. O Pai Natal sorriu, olhou para o relógio que estava em cima da mesa, fechou os olhos, contou até dez e voltou a olhar para o relógio. Percebeu o que tinha acontecido e esperou.
Uma luz apareceu e, como por magia, desamarrou-o
- Pai Natal! O que lhe aconteceu? - perguntou o chefe dos duendes.
- Vamos ao meu gabinete e eu conto-lhe tudo - murmurou o Pai Natal.
No gabinete o Pai Natal revelou-lhe que tinha sido raptado.
-Raptado!? Mas porquê?
-Foi alguém que não gosta do Natal porque não tem família.
-Coitada dessa pessoa! Tenho pena dela!
-Mas isso vai ficar resolvido.
- Como, Pai Natal?
- Trouxe-a para trabalhar connosco.
- Foi uma boa ideia. Pai Natal, tenho uma coisa para lhe dizer.
- Diz!
- O senhor estava desaparecido e eu usei aquela coisa que só deve ser usada em caso de emergência. Peço desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Fizeste bem! Eu percebi que a tinhas usado.
- Mas pode ficar descansado, Pai Natal. Eu usei-a, sozinho, no meu gabinete. Ninguém ficou a saber que temos pó mágico capaz de parar o tempo! Graças a isso ainda vamos a tempo.
- Pois, ninguém dará por nada. Mas há uma coisa que todos deviam saber.
- O quê, Pai Natal?
- Que sou um mensageiro do Menino Jesus! Foi ele que enviou uma estrela para me salvar! Eu apenas distribuo os seus presentes.  É a ele que todas as crianças devem agradecer!


DANIELA DO CARMO    in Chiado Editora " Natal em Palavras" (Colectânea de Contos de Natal) 

27.1.19

IGREJA DE SANTA MARIA DE COZ

 Do altar, um último olhar, antes de passarmos à Sacristia.
 A Sacristia, está toda decorada com belíssimos azulejos portugueses que contam a história de S. Bernardo. Neste primeiro, vemos a mãe do santo que repetidamente sonha com um cão que ladra. Com medo de que isso seja um mau agoiro para a vida do seu bebé, procura um ancião sábio em decifrar sonhos, que lhe explica que o seu filho, será como esse cão, nunca se calará contra os falsos doutores.

 Neste se retrata uma tentação. São Bernardo era muito jovem, quando lhe apareceram quatro belas meninas, e o santo que era de carne e osso sentiu pela primeira vez o apelo do corpo e do desejo. Para acabar com a tentação, o santo mergulhou o corpo ardente num lago gelado.

 Muitos anos mais tarde, o santo pratica caridade, numa das suas viagens pela província de Aquitânia, em França.



  Este painel representa a aparição do Menino Jesus a S. Bernardo.
 Aqui S. Bernardo  em Claraval dá de beber a um grupo de jovens que passa pelo Mosteiro

 Alguns jovens convertem-se e tomam o hábito de Monges.

 S. Bernardo, obriga Henrique, Rei de Inglaterra, a submeter-se ao Papa Inocêncio II

 A Virgem cura S. Bernardo

 S. Bernardo a caminho de Milão
Conta-se que S. Bernardo convertia muita gente. Então , um dia, quando o santo se deslocava de uma localidade para outra, numa carroça, o demónio por maldade quebrou-lhe a roda para que não prosseguisse a viagem. S. Bernardo, ordenou ao demónio que se adaptasse à roda a fim de prosseguir a viagem, e o demónio não teve força para resistir. Este painel representa assim o triunfo do Bem sobre o Mal. Infelizmente o reflexo da luz incide sobre a roda e assim não dá para que vejam a demónio dobrado de forma a fazer a roda.

18.12.18

O NATAL EM QUE PERDI A INOCÊNCIA



Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa.
Meus pais, e meus avós maternos, diziam que na noite de Natal, o Menino Jesus, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. 
Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por quatro casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com onze metros de comprimento, ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão.
 Pelo Natal em alguns anos, vinham meus avós maternos, que viviam em Santa Cruz da Trapa, uma aldeia beirã, no concelho de S. Pedro do Sul, afim de passarem o Natal com os filhos, noras, genros e netos. Juntavam-se todos lá no barracão por ser o único sítio onde cabia toda a gente.
Por essa altura já o meu tio, Zé Varandas, e a minha mãe  tinham três filhos cada. 
Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, coisa que não víamos no resto do ano,  minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. As couves e as batatas, eram do quintal que meu pai cultivava à roda da casa, e o bacalhau era comprado na Seca que naquela altura sempre era vendido aos trabalhadores, por um preço especial. Alguns anos, a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar. 
 Não havia rádio, nem televisão, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. 
Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava, abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos, nessa noite em que toda a gente ia para a cama muito tarde. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas Alhas" que era assim. Sentávamos-nos à roda da mesa e cada um tinha um pequeno monte de cinquenta pinhões, não descascados, para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros  "Pinhas alhas" e os outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E cada um dizia um número. Se alguém acertasse  na quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas em compensação recebíamos aquela mesma quantidade de cada um que errara. nas mãos. Era o nosso entretém.
Pelas onze horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém, íamos pôr os tamancos de madeira, que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão, para o Menino Jesus deixar os presentes.
Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano, o Menino Jesus, deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos.
Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos sessenta, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus, que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos, que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, ou até de uma peça de roupa, mais bonita, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez, que ainda não andava na escola, e naquela época entravamos aos sete anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada durante um bom bocado e a certa altura ouvi barulho e saltei da cama, para me confrontar com o Menino Jesus. 
Quando somos crianças, temos tanto de inocência como de atrevimento, de modo que saí decidida do quarto, e  apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós, porque éramos pobres e não tínhamos uma casa de pedra. Chorei tanto, que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus, não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade, as prendas, eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Elvira Carvalho


Nota: Um resumo deste conto foi publicado agora numa coletânea de contos de Natal da Chiado Editora.  Como não pude ir ao lançamento, ainda não tenho o livro, quando tiver publico a foto.
Teve que ser resumido pois eles limitavam os contos a 500 palavras.

15.12.15

O DIA EM QUE PERDI A INOCÊNCIA

 foto do presépio da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro


Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Naquela época, primeira metade da década de 50 ninguém falava no Pai Natal. Pelo menos onde eu vivia, na Azinheira Velha. Meus pais, e meus avós ,diziam que era o Menino Jesus, quem na noite de Natal, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes.
 Nós vivíamos num barracão de madeira, que em tempos fora habitado por quatro casais e respectivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão, tinha um salão com 11 metros de comprimento, ao fundo do qual tinha um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal, todos os anos, vinham meus avós maternos, que viviam numa aldeia da Beira Alta, e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios, e suas famílias. Era a única época do ano, em que víamos os avós, e era sempre uma alegria, além do mais, porque eles sempre traziam, queijo, presunto, e outros miminhos, que em casa nunca havia.
Não havia rádio, nem TV, nem sequer tínhamos luz eléctrica. Mas havia em casa, três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal, ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai, colhia no pinhal perto da nossa casa, algumas pinhas, que secava abria e debulhava. Partiam-se alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra,ª de quatro lados, com o Rapa Tira Põe e Deixa. Cada um tinha um montinho de pinhões que ia aumentando ou diminuindo, ao sabor da sorte. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas", que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros do jogo, "pinhas-alhas" e o outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número de cada um dos jogadores. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões, ao jogador que acertara. Mas recebíamos de todos os que errassem igual número.  E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama e mandava-nos pôr os tamancos, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança de que nesse ano, o menino Jesus deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos lindos brinquedos, que tinham os filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Mas no dia seguinte, era a mesma coisa, ano após ano. Uma tremenda decepção, pois lá só havia, meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, andava eu pelos seis anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada, e a nós que éramos tão pobres, que nada tínhamos, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus, não queria saber de nós, e chorei tanto, que a  minha avó para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais, e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Esta é a história verdadeira do meu Natal de 53. Já aqui a contei em 2011. Porém nessa data a maioria de vós não frequentava o blogue.


ª) pequeno pião,  que em vez de ser redondo, era quadrado, em cujas faces se desenhavam as letras. Tinha a ponta em cima, ligeiramente maior, para que o fizéssemos girar com um toque de dedos.

A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta