Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta pescadores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pescadores. Mostrar todas as mensagens

20.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE II





Regressou de Angola decidido a deixar o mar. A procurar outro rumo de vida, um novo futuro. Mas não era fácil. Mal terminara a primária, começou a ir para o mar. O seu pai era pescador, o seu avô fora pescador, e antes do seu avô, todos os homens da família tinham sido pescadores. Alguns tinham ficado por lá, desaparecidos em naufrágios. O mar mandara outros para terra, feitos cadáveres. 

 Ele não queria aquela vida. Não escapara do inferno da guerra, para acabar no fundo do mar. Mas que mais, sabia ele fazer? Nunca aprendera outra profissão. Todavia, acreditava que nunca era tarde para dar uma volta no seu destino.

  Arranjou trabalho numa oficina de automóveis. Começou por lavar carros. Quando não tinha que fazer, ia ajudar os mecânicos. Comprou livros para aprender a teoria, a prática ia aprendendo-a no dia a dia. 
Alzira, a mulher era modista. Tinha uma boa clientela, não lhe faltava trabalho. Era uma boa mulher. Asseada, poupada, e trabalhadora. Mas, embora isso não fosse pouca coisa, para ele não chegava. Não que estivesse a pensar separar-se, ou tivesse deixado de amar a mulher. Mas que estava desiludido com a vida matrimonial, isso era um facto.

Num tempo, em que a sociedade dizia, que a honra da mulher estava no meio das suas pernas, elas não aprendiam a ser mulheres. Eram educadas para serem boas esposas, e mães. Aprendiam de meninas, a cozinhar, arrumar uma casa, costurar, a cuidar dos irmãos mais novos, para que mais tarde, soubessem cuidar dos filhos. As mães diziam às filhas que era sua obrigação “servir” o marido quando lhe dava  a vontade, para que ele não procurasse na rua, o que a mulher não lhe dava em casa.

Ensinavam-lhes que o sexo era algo sujo, que a mulher só devia consentir, porque era necessário para perpetuar a espécie. Alzira fora criada nesses preceitos. A igreja também punha o carimbo de pecado, em tudo que não fosse estritamente necessário para a procriação. Ninguém ensinava à mulher, que o sexo era um complemento do amor, e que o seu corpo tinha os mesmos direitos a desfrutar da intimidade, que o dos homens.

Com o homem era diferente. A eles tudo era permitido. Eles estudavam, viajavam, frequentavam bordéis. Aprendiam a tirar todo o prazer que o corpo lhes podia dar. 

Com a mesma tenacidade com que lutava para melhorar a  sua vida profissional, Luís propôs-se ensinar à esposa, que entre duas pessoas que se amam, nada é sujo ou pecaminoso, que era errado pensar no sexo apenas como meio de procriação. Se assim fosse a natureza se encarregaria de castrar os desejos dos estéreis, o que não acontecia pois casais que não podiam ter filhos desfrutavam da relação sexual, com o mesmo prazer dos outros.

Foi um pouco difícil mudar a mentalidade da mulher, mas com todo o amor que lhe tinha, e uma boa dose de paciência, conseguiu tornar a vida intima do casal mais empolgante.



15.10.19

TI' JOÃO O DOIDO

reedição


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, lá longe, atrás do rio, que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco, deixando apenas um clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco". Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já mais curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via, mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, do dinheiro que faltava para cobrir as necessidades da mulher ou de um filho doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para secar o Bacalhau. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o Bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornaria mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas não se juízo e sim de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, - chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, ti' João - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido? 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que talvez em algum lugar, terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 



Fim

27.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VI






Olhou o relógio. Onze e meia. Dobrou a carta e meteu-a no bolso do casaco.
- Vou sair, qualquer emergência liga-me para o telemóvel – disse ao passar pelo gabinete da sua secretária.
Meteu-se no carro e dirigiu-se à morada indicada. Estacionou o carro no lado contrário da rua. Ao sair, observou o prédio. Notava-se que já tinha alguns anos mas estava bem conservado. Trinta e nove r/c direito dizia o envelope. Tocou a campainha. Uma senhora de meia-idade com uma criança ao colo, abriu-lhe a porta.
-Bom dia. A senhora é Isabel Sarmento?- perguntou.
- Se deseja falar com a Isabel ela foi ao centro de emprego, mas deve estar a chegar.
-Muito bem, eu espero no carro. Virou-lhe as costas e dirigiu-se à porta, mas quando a abriu viu uma mulher jovem do outro lado, e perguntou:
- Isabel Sarmento?
- Sim. Deseja alguma coisa?
- Falar consigo. O meu nome é Ricardo Medina.
A mulher ficou lívida e Ricardo teve a sensação que ela podia desmaiar a qualquer momento.
- Ri…cardo? O senhor é o Ricardo? Não pode ser! – balbuciou quase sem voz.
- Claro que não pode ser, - disse irritado. Como é que se atreveu a dar o meu nome a uma criança sem minha autorização?
-Senhor, - ela retorquiu, - não pudemos discutir este assunto no átrio do prédio. Se puder entrar, esclarecemos o assunto.
Abriu a porta e convidou-o a entrar. Indicou-lhe a sala. Natália, saiu da cozinha com a menina ao colo, e esta ao ver Isabel estendeu os braços para ela chamando, mãe, mãe… Isabel deu-lhe um beijo e disse: 
- A mãe agora não pode, meu amor. Natália por favor importa-se de lhe ir dando o almoço enquanto eu atendo este senhor?
-É bonita a sua filha - disse ele tentando ser amável.
- Não é minha filha, embora lhe queira como tal. É a Matilde e segundo a Susana, é sua filha.
Irritou-se de novo.
-Já lhe disse que não conheço nenhuma Susana. Porque não a chama e esclarecemos este assunto de uma vez por todas?
-Susana suicidou-se há dez meses. Se me der licença eu vou buscar a carta que ela me deixou. 
Retirou-se deixando-o atordoado. Que brincadeira mais idiota. Ele nunca conhecera nenhuma Susana. Tinha tanta certeza disso como tinha de saber que o sol nascia todos os dias.
Isabel voltou e estendeu-lhe a carta. Depois disse-lhe como uns pescadores encontraram o corpo irreconhecível entre as rochas e como o reconhecimento fora feito pelas roupas que ela vestia.
-Lamento - disse ele. Que idade tinha a sua irmã quando supostamente manteve uma relação comigo? E quando foi isso?
-Vinte anos. Há pouco mais de dois anos Susana disse que namorava consigo. Nunca a vira tão feliz e fiquei contente. Mas pouco tempo depois, disse-me que tinham acabado, caiu em depressão, e quando descobrimos que estava grávida já era tarde para um aborto. A menina tem quinze meses.


Amigos hoje vou sair bem cedinho para o Algarve, devo chegar já bem tarde, pelo que não estranhem a minha ausência.



11.9.18

HISTÓRIA DE ANTIGAMENTE - A FROTA BRANCA



O Maria da Glória, afundado por um submarino alemão. Foto Daqui


Durante a II Guerra Mundial, tornou-se perigoso ir à pesca por causa dos submarinos alemães que não davam tréguas aos barcos. Portugal era então um País neutral, mas não podia prescindir de uma das suas fontes de alimentação. A pesca do bacalhau. Mas também não podia permitir à sua frota a sorte dos veleiros "Delães" e "Maria da Glória"ambos afundados por submarinos alemães em 1942. Se a tripulação do Delães, se salvou, o mesmo não aconteceu com a tripulação do Maria da Gloria, que dos 44 tripulantes distribuídos pelos pequenos dóris, só encontraram 8. Os restantes 36 foram engolidos pelo mar. Para que o mesmo não voltasse a acontecer, o governo português conseguiu negociar com as forças do Eixo, a  autorização para mandar os seus 45 barcos de pesca bacalhoeira em dois comboios, de 20 e tal barcos cada um, comandados por dois oficiais de marinha embarcados respectivamente em dois navios de apoio, e para  evitar confusões decidiu-se ainda que todos os barcos seriam pintados de branco,e levariam o pavilhão nacional bem à vista. Até aí os barcos tinham cores variadas consoante os armadores a que pertenciam.  Este sistema de comboios durou até 1945 e ficou conhecido como "A Frota Branca."
Mas como se fazia a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova e Gronelândia?
 Para rentabilizar a pesca, esta era feita por vários pequenos barcos cada um com vários pescadores,   que se situavam à volta do barco-mãe. 
 Mais tarde apareceram os pequenos barcos de fundo chato, "os dóris" que se empilhavam e ocupavam assim muito menos espaço. Quando chegavam ao local da pesca, o comandante mandava arriar os dóris e cada pescador partia a fazer a sua pesca. Com o aparecimento dos "dóris" cada barco passou a ter apenas um pescador, tornando-se numa atividade completamente solitária.



Foto da net

Era um trabalho muito duro e perigoso. Naquela zona os nevoeiros e o mau tempo são frequentes.
Inicialmente pescava-se o bacalhau com" zagaia," uma peça de chumbo com dois ganchos. Mais tarde apareceram os "trol" que mais não eram do que linhas com anzóis, que pescavam vários peixes duma vez.
Quando o bacalhau chegava a bordo, era -lhe separada a cabeça que depois de escalada era salgada. Chamamos-lhes "caras de bacalhau". Separavam-se os fígados e os buchos. Os fígados eram levados para uma caldeira de água a ferver, para fazerem o óleo de fígado de bacalhau.

Foto da net

Depois, os escaladores abriam o bacalhau da cabeça ao rabo. Mandavam-no então para o porão, onde os salgadores procediam á salga, e ao empilhamento do bacalhau. Esta era uma tarefa extremamente dura. O bacalhau era salgado e empilhado em camadas sucessivas até atingir o tecto do porão.
Como sabemos, o grupo Bensaúde, tinha adquirido  em 1891 a Azinheira Velha, na Telha, que pela sua localização privilegiada já tinha sido utilizada como feitoria, para as naus dos descobrimentos, e aí instalara uma das maiores secas de bacalhau do País, com modernas instalações para tratar do bacalhau em terra, sob o nome de Parceria Geral de Pescarias.
A Seca da Azinheira Velha, era composta por uma larga extensão de mesas compostas por cimento e fileiras de arame, onde o bacalhau era estendido ao sol para secar. Por um armazém enorme, com várias tinas, espécie de tanque, onde se lavava o bacalhau, três armazéns para guardar o bacalhau, enquanto não estava curado para enfardar, um armazém de enfardamento, um armazém frigorífico, para guardar o bacalhau quando era descarregado dos navios, e um armazém estufa para secar o bacalhau quando o inverno era muito rigoroso e não se podia secar ao ar livre.
Tinha ainda os escritórios, um armazém de lenha, uma oficina mecânica, um posto médico, e um posto de guarda-fiscal e um moinho de maré.


Foto minha
Havia mais, mas isso fica para a próxima

19.2.18

ENTRE DUAS DATAS - PARTE II



- Mana, mana, já viste, esta senhora tem tantas saias! -disse de repente a pequenita.

Ela olhou, a bonita nazarena, que estava junto à irmã. Sorriu, e a mulher devolveu-lhe um sorriso rápido, que tinha muito de nervoso. Logo os seus olhos voltaram-se de novo para o barco que estava já bem perto do sítio onde iria fundear. O Gazela, era um belo veleiro de três mastros, Talvez o mais belo barco da Faina Maior,(1) que arrogante e belo passeava majestosamente pelo rio Coina, com as suas velas brancas tremelicando ao vento, como se foram lenços gigantes acenando. Era o navio mais antigo da frota, mas era também o mais belo. Nele, ela via, toda a primitiva beleza das naus, com que os portugueses saíram em busca de novos horizontes.

 Nesse ano estivera prestes a afundar-se durante um temporal, e, talvez por isso houvesse ainda em cada olhar, um misto de receio a toldar a alegria da chegada.
 A ela, apaixonava-a, ver como aqueles homens de aspeto duro e rude, que lá longe travavam uma luta diária, contra o mar, que tem tanto de belo, como de traiçoeiro, quando pisam terra se transformam nos mais delicados, para abraçar quase sem jeito, as suas mulheres, os seus filhos, e as suas famílias.
 O barco estava agora fundeado. Os pescadores saltam rapidamente para as lanchas, que os irão levar até à pequena ponte de madeira, onde a família os espera com ansiedade.
 - Anda cá querida, não te debruces que podes cair à água - chamou ela a irmã que se afastara um pouco.
 Nesse preciso momento chegaram à pequena ponte as primeiras lanchas, cheias de pescadores.
- Manel, meu rico Manel - gritou uma velhota mesmo ao pé dela.

-Paizinho, paizinho, - chamou um garoto mais distante.

E há abraços e beijos, risos e lágrimas, naqueles rostos queimados pela vida rude do mar. E chega outra lancha, e outra, e mais outra ainda. E há enlevo e amor nos olhos de toda a gente. Naquele momento, tudo foi esquecido, apenas se vive o momento presente. Lá no rio, as velas do barco, ondulando ao vento parecem acenar gritando:

- Adeus até para o ano!

                                                              Foto AQUI



1) Faina Maior, era a designação dada à Pesca do Bacalhau, que não se fazia com rede como hoje. Era um trabalho muito duro e solitário. Cada navio, levava tantos dóris como homens para a pesca. O dóri era esse barquito da imagem. Quando chegavam ao seu destino, o barco fundeava, e os dóris eram lançados ao mar. Cada um levava apenas um homem, e algumas provisões, e a pesca era feita à linha, com uma longa linha de vários anzóis. Só voltavam ao barco, quando o dori estava cheio ou as provisões de comida e água se esgotavam, ou se houvesse ameaça de tempestade. Não havia naquela altura coletes salva-vidas, mas ainda que os houvesse não teriam servido de muito, já que as águas geladas da Groenlândia, levavam apenas três minutos a matar um homem pelo frio. 
Muitos ao longo dos anos ficaram por lá vitimas de uma tempestade que parecia surgir do nada. E se mais não ficaram, era porque o pescador ao abrir o bacalhau e encontrar no bucho pedras, sabia que uma tempestade se ia formar e remava para o navio para se proteger. Na verdade o bacalhau, sempre que pressentia a tempestade, engolia pedras para se manter no fundo do mar, imune à mesma.

30.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXX



Estamos em 1978. Dez anos antes, os donos da Seca, herdeiros do Sr Vasco Bensaúde, ofereceram o  lugre bacalhoeiro Hortense, um belo barco de 3 mastros, para um museu da pesca, nesse ano já não foi à campanha.  O local escolhido para ancoradouro do navio museu, foi no porto de Lisboa, junto à Escola Profissional de Pesca. O museu acabou por não ser criado e em Maio de 1971, num violento temporal, o lugre foi atirado para um baixio em frente às instalações Companhia União fabril. Ali encalhado, e sem que o estado, actual detentor do navio fizesse algo para o recuperar, o navio passou a ser abrigo de pescadores ocasionais, que ali cozinhavam as suas refeições. Em Dezembro desse mesmo ano, talvez por um descuido de algum pescador, deflagrou um incêndio incontrolável a bordo que destruiu o belo navio.
Em 1969 depois da safra, o Gazela não se preparou para a campanha. O belo lugre, talvez o mais belo barco que participou nas campanhas, estava obsoleto para continuar na pesca à linha. Assim é vendido ao  Museu Marítimo de Filadélfia, que, entretanto, procurava um veleiro histórico. Partirá em 1971 para o referido museu onde será parte integrante do museu durante muitos anos, até que dificuldades financeiras do mesmo o vendem à  associação Ship Preservation Guild, que tudo tem feito para o preservar e manter em excelentes condições apesar dos seus  quase  180 anos.  Com uma tripulação voluntária, efectua, no Verão, pequenos cruzeiros e visitas a vários portos, figurando nas mais diversas festividades.Depois no Inverno arreiam-se os mastros, o navio é coberto com uma tenda plástica, e procede-se às reparações necessárias para que volte a estar impecável no ano seguinte.
A seca ficou então, desde 69 com apenas 3 navios. O Creoula, o mítico Argus, e o Neptuno. No ano seguinte, foi a última campanha do Argus.  E em 1974 com a proibição da pesca à linha, ficou só o Neptuno, um navio motor de aço, construído nos Estaleiros Navais de S. Jacinto, em 1957, tendo feito a primeira campanha em 1958,   por ter sido em 1972 transformado para a pesca com redes de emalhar com 6 lanchas, e assim poder continuar a ir à pesca. 
Como a família Bensaúde, proprietária da Seca, nunca se interessou por navios arrastões adivinhava-se que o trabalho na Seca, nunca mais seria o mesmo.
Ora se anteriormente eram 5 navios e o trabalho todo manual, agora com máquinas de lavar peixe, abolidos os carrinhos de mão, e substituídos pelos grandes grandes, puxados por tractor, e apenas com um navio, a safra se fazia em pouquíssimo tempo, e com poucos trabalhadores.
Agora, o Neptuno vai ser de novo transformado. Desta vez para navio congelador.  Vai ser um ano sem pesca, a seca vai receber bacalhau de outros armadores. 



                                               O Gazela em Filadélfia.Imagem do Google

13.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE XLIX

                                                
                  Imagem actual do velhinho  Galitos  F. Clube
                                           foto do google



No final de Outubro, o sobrinho é operado no hospital Militar da Estrela. É-lhe retirada a bala, mas até voltar a andar, tem pela frente muita fisioterapia. Felizmente está livre de perigo e de voltar para a guerra. Mas o pior são os estragos psicológicos.
E assim se chega ao ano de 1969. Para o Manuel este ano foi cheio de emoções.
Logo no dia 1 de Janeiro, considerado o dia Mundial da Paz, um grupo de católicos, realiza uma velada da paz, na Igreja de S. Domingos, em Lisboa, a que aderiram alguns sacerdotes da capital e vários leigos.
Pela primeira vez, ouve-se a Cantata da Paz, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” Dizem que a Comunidade Cristã Portuguesa, não pode celebrar um dia da paz, desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra que grassa nos territórios africanos. Nesse mesmo dia são distribuídos nas igrejas do Porto um documento de reflexão, com o título, “Porquê o Dia Mundial da Paz”. Por todo o país, o povo fortemente religioso, é confrontado com a obrigação de uma tomada de posição.
Oito dias depois, a RTP transmite a primeira conversa em família de Marcelo Caetano.
Na Seca só o Gerente tinha televisão, mas na Telha, na zona hoje denominada Santo André, havia uma sociedade fundada há vários anos por pescadores, o "Galitos Futebol Clube", que tinha um televisor no seu salão, onde em dias de festa, se realizava um bailarico, geralmente abrilhantado por um anónimo tocador de concertina.
Nessa noite, os homens da Seca vieram todos ver e ouvir o novo Presidente.
Entretanto a barraca do Pinheiro Manso, onde o Manuel vivera quando casara, e onde nascera a filha mais velha, fica vaga. O gerente diz então ao Manuel, que se ele quiser, pode mudar as coisas para essa casa, já que é bem próxima da casa da porteira, e levar para lá os filhos. Assim a Gravelina escusa de andar acima e abaixo todos os dias.
Manuel pergunta se pode continuar a tratar do quintal mudando de casa e o gerente diz-lhe que sim.
Mudam-se no final de Janeiro desse mesmo ano de 69.