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Ainda naquele dia, Clara iniciou uma nova rotina com as
crianças. Depois do almoço subiram ao quarto, mas quando elas pensavam
que iam dormir, Clara anunciou que tinham-se acabado as sestas. As aulas iam
começar dentro de dez dias, e eles precisavam programar o seu relógio
biológico, a fim de não adormecerem na sala de aulas, na parte da tarde. Assim
sendo, e aproveitando que de tarde o terraço estava à sombra, ali iam ficar até
à hora do lanche. Para os entreter, e desenvolver as suas capacidades
criativas, deu a cada um uma folha em branco e lápis de cor pedindo-lhes que
fizessem um desenho e depois contassem uma história sobre o desenho. Mais tarde
depois do lanche, foram então para o jardim, onde tinham os seus aparelhos de
brincar, baloiços e escorregas. A ideia de Clara era que eles esgotassem as
suas reservas energéticas de modo a adormecerem facilmente apesar da ausência
do pai na hora de se deitarem.
Ao jantar, não o vendo à mesa, voltou a tristeza, e
apesar de todo o seu esforço, apenas comeram a sopa e a fruta.
Nos dias seguintes, Clara e o irmão revezaram-se nas
brincadeiras com as crianças, na tentativa de que não se sentissem tão tristes
com a partida do pai.
No Domingo a meio da tarde, Clara recebeu uma mensagem
de Ricardo. Dizia que às seis horas iria estar com eles, via Skype. De modo que
um pouco antes da hora marcada, reuniram-se os três na biblioteca. Clara ligou o computador e aguardaram com
ansiedade a ligação.
Apesar de saber que Ricardo tinha ido para o
Afeganistão, só quando ele apareceu no ecrã, Clara soube que se encontrava em Pol-i-Charki,
no arredores de Cabul, no Corpo do Exército Nacional Afegão, para apoiar o
levantamento e treino daquela unidade, tendo por fim último a criação de
condições para a sua autossustentação. Enquanto as crianças se atropelavam para
fazer perguntas ao pai, contar as novidades dos últimos dias, e falarem das
saudades que sentiam, Clara não deixava de observar Ricardo. Era estranho, ligar
aquele homem com aquela farda camuflada, ao homem elegante que ela conhecia.
- Muito bem meninos, estou muito contente por ver que
estão bem. Fiquei muito feliz com o vosso presente. Amo-vos muito. Mas apesar
de aí ainda ser dia, aqui são quase onze horas da noite, e o pai tem que ir
dormir. Quando puder volto a falar convosco. Agora se me derem licença queria
falar um pouco com a Clara. Boa noite, meus filhos.
- Boa noite, pai. Dorme bem – despediu-se Bernardo
formando com as mãozitas um coração.
-Boa noite pai. Volta depressa – disse a irmã fazendo
um gesto como se abraçasse o pai.
- Vão ver se a Antónia precisa ajuda para por a mesa.
Eu já lá vou ter, - disse Clara.
Acompanhou as crianças à porta e voltou para a
secretária.
-Olá – saudou enquanto se maldizia por não lhe ocorrer
nada mais criativo para dizer.
- Olá! Aquela gravação foi uma ideia genial. Vejo-a
todas as noites. Ajuda-me a mitigar as saudades. Não tenho palavras para te
agradecer.
- Não precisas de o fazer.
-Deixa-me continuar. Vou ficar aqui seis meses. Só
podemos utilizar a Internet, para video-chamadas particulares à noite e numa sala todos ao mesmo tempo, apenas separados por um tabique, o que tira toda a privacidade a quem está a comunicar. Além disso não o podemos fazer todos os dias, nem todos ao mesmo tempo. Por isso temos uma escala onde nos inscrevemos. E poderemos fazê-lo duas ou três vezes por mês. Não sei quando poderei voltar a
falar. Vou ter que desligar agora.
E a imagem desapareceu sem que Clara tivesse tempo de
responder.


