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9.10.19

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem enfermeira, arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto numero 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das três horas da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar que um dia ia ser sua mulher. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora nesta altura da vida, quando ainda tentava consolidar a sua carreira de enfermeira. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Todavia João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão, na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa,- insistira ele - não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já, acabei o curso agora, nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças - argumentara  ela. - E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável. E depois tenho a certeza que os nossos pais nos ajudarão nos primeiros tempos, até que consigas empregar-te.
-Mas Luísa, somos tão novos! Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso, nem quero, fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava, porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto, que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomara a pílula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro carácter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois daquela desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruir o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite de plantão, decorrera na maior normalidade, todavia Luísa acabou deixando o trabalho às oito horas da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto cansado, abriu-se num sorriso radioso.

Fim




11.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXIII




Nessa tarde, Helena foi ao posto de turismo, e além de ter trazido um mapa do distrito, fez várias perguntas à funcionária, por sinal uma senhora muito simpática que lhe deu a localização de algumas das quintas vinhateiras do distrito, e a localização dos concelhos a que pertenciam. Também lhe disse que havia camionetas regulares para esses concelhos, viagens curtas, e uma vez que ela não tinha carro, era a melhor maneira de conhecer os arredores. Já no hotel, a jovem, organizou um itinerário de modo a viajar cada dia para uma localidade, e passar o dia nesse sítio, regressando à noite ao hotel.
Assim, uma semana mais tarde, Helena já tinha passado um dia em Penalva do Castelo, onde conhecera a Igreja da Misericórdia, o Mosteiro do Santo Sepulcro, a Ponte Romana, o açude dos Cantos. Provou o “Castendo”, um pastel de feijão, doce típico da cidade, e o mais importante, conheceu vários vinhedos, soube o nome das quintas e dos seus proprietários. Estivera em Tondela, onde visitara a Igreja Matriz, a Fonte da Sereia, a Igreja do Carmo, soubera do nome de outras quintas, mas entre os seus proprietários não estava o nome do seu pai.
Também já fora a S. Pedro do Sul. Não porque tivesse esperança de encontrar aí a quinta de Jorge Noronha, mas por saber que era a terra dos seus avós, a cidade onde nasceram e viveram a mãe e a tia. O local onde tinha as suas raízes. Conheceu, a Praça do Município onde a mãe trabalhara, visitou a Igreja de S. Francisco, onde seus tios se casaram, visitou as termas, onde os dois se conheceram, percorreu o parque junto ao rio Vouga, o jardim das Termas, e ficou verdadeiramente maravilhada com a paisagem luxuriante que a rodeava. Prometeu a si mesmo que havia de voltar um dia para conhecer melhor o local e os seus arredores que lhe disseram no restaurante merecerem uma visita, como as aldeias da Pena, do Fujaco, Covas do Rio ou Covas do Monte, típicas aldeias de Xisto, que pareciam ter ficado esquecidas no tempo. O S. Macário, a Gralheira, o Bioparque do Pisão, ou a Serra da Freita. Acresce que aquela região, pertencia à zona Dão-Lafões. 
Porém segundo o tio, ela teria que procurar noutra direção. E assim seguindo o itinerário previamente marcado, ela fora conhecendo Carregal do Sal, Mortágua e Santa Comba Dão.
Na primeira, visitou os jardins da casa Aristides Sousa Mendes, o Dólmen da Orca, e o miradouro do Cristo Rei, situado na antiga propriedade de Aristides Sousa Mendes de onde pode avistar uma panorâmica fantástica. Por fim deixou-se impressionar com o moderníssimo edifício da Câmara, tão diferente de todos os que já tinha visto.
Em Mortágua além da igreja Matriz, em honra de Nossa Senhora da Assunção, do Pelourinho Manuelino e do Santuário de São Salvador do Mundo, encantou-se com as quedas de água, os moinhos e azenhas, mas toda essa beleza, não a desviou do objetivo de conhecer as quintas dos arredores e o nome dos seus donos.
Não teve melhor sorte em Santa Comba Dão, onde visitou a barragem da Aguieira e a Igreja Matriz.