Vestia umas calças de ganga e uma camisa preta, cor que
nunca mais deixou de usar, desde que meses atrás perdera o seu único filho,
num desastre de mota.
Lena que já tinha posto a mesa para os dois, abriu-lhe a
porta, recebeu o beijo do tio, e os recipientes com a comida, e encaminhou-se
para a cozinha, dizendo-lhe:
-Vai para sala. Vou empratar a comida e já lá vou ter. O
vinho, podes levar para a mesa. Já levo o saca-rolhas.
Partiu o frango assado, em vários bocados. Colocou numa
travessa, o arroz de legumes, colocou o frango assado por cima, e temperou a salada de tomate e alface, que previamente fizera.
Com a travessa numa das mãos e a saladeira na outra,
dirigiu-se à sala, onde o tio sentado num sofá, lia uma revista já com duas ou três
semanas.
- Calculei que trouxesses frango, e fiz uma salada para
acompanhar, - disse colocando os recipientes sobre a mesa. E acrescentou:
- Vamos almoçar, conversaremos depois.
Esperou que o tio se sentasse à mesa e disse-lhe:
- Vamos almoçar, conversaremos depois.
Esperou que o tio se sentasse à mesa e disse-lhe:
-Vai-te servindo, esqueci-me de trazer o saca-rolhas. Vou
buscá-lo.
Almoçaram conversando sobre assuntos diversos sem contudo
tocar no tema que os juntara ali naquele dia. A certa altura, o tio disse:
- Estive a pensar que é muito importante, que termines os
estudos. Tenho algum dinheiro guardado, que fui juntando para dar ao teu primo
quando ele se casasse. Posso pagar as tuas despesas até terminares o curso.
- De modo nenhum. Guarda o teu dinheiro, a idade avança e não podes prever o que ainda vais precisar. Voltarei ao Curso quando a vida
me proporcionar meios para isso.
E mudando de assunto perguntou:
- Não comes mais?
-Não. Já comi mais do que habitualmente.
- Vou buscar a sobremesa, - disse levantando os pratos.
Foi à cozinha e regressou com duas taças de salada de
fruta.
- Não sei se preferias um doce, mas sinceramente eu não
sou muito apreciadora, prefiro a fruta, especialmente nesta altura do verão.
-Não te preocupes. Eu também prefiro fruta.
Comeram em silêncio, como se não tivessem assunto. A
jovem preferia falar do que lhe interessava depois da refeição, o homem
debatia-se com uma questão de ordem moral. Devia ele contar à sobrinha aquilo
que tinha jurado à cunhada não contar? Por outro lado, se a cunhada não destruíra as provas do seu passado, em todos
aqueles anos, nem mesmo depois de estar doente, não seria porque ela queria que
a filha soubesse a verdade, depois da sua morte?

