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21.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII




Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se o garoto. -Foi a minha irmã. Ela colmo é grande,quer mostrar que tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - perguntou divertido com o jeito do miúdo.
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora vejam só este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era, embora na verdade, as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador- disse sorrindo.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Claro que sim
  – disse ele sorrindo e retendo na sua a mão feminina.

26.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLI


Sentado à mesa na cozinha, Salvador observava a graciosidade e desenvoltura com que Anete se movimentava na preparação do jantar.
- Tens a certeza de que eu não posso ajudar-te? – Perguntou
- Sabes cozinhar?
- Pouca coisa. Mas posso por a mesa.
-Isso é uma boa ideia. Naquela gaveta, tens os talheres, e na outra ao lado, há toalhas e individuais. Escolhe o que mais te agradar. E na dispensa, deve haver uma garrafa de vinho. Podes abri-la.  
Ele levantou-se e começou a por a mesa.
-Tens falado com os teus pais?
- Quase todos os dias.
- Tens uma família muito bonita. São todos muito simpáticos.
- Espera até os meus irmãos saberem que vens cá a casa jantar, e vais ver como se acaba logo a simpatia, - disse rindo.
-Sei. Foram sempre assim tão protetores?
- Sempre, -disse colocando na mesa a travessa dos bifes, com o arroz branco.
Sentou-se e iniciaram a refeição. Só depois continuou
– Desde que fui para o infantário. Os três não me largavam.
- Os três?
- Os dois e Afonso, o meu ex-marido!
“ Quer dizer que o teu ex-marido, é um amiguinho de infância. Vamos ver se contas mais alguma coisa”
- Já estou a ver três rapazes a assaltarem o castelo para brincar com a princesa, e as suas bonecas, - disse rindo.
- Era mais assim. Três rapazes a arrastarem a princesa para ir jogar à bola, subir às árvores, ou pescar.  Fui crescendo sempre com três sombras. No recreio da escola, nas festas, nas saídas. Era tão frustrante que às vezes chegava a odiá-los. Os dois só me deixaram em paz quando fiquei noiva do Afonso.
- Um noivado com ódio ao noivo? – Perguntou franzindo as sobrancelhas.
- Ó não. Aquele ódio era só raiva de momento, por exemplo quando queria ir à discoteca com as minhas amigas, e só podia ir com os três guarda-costas.
- Então amáva-lo…
-Não. Os pais do Afonso viviam, e a mãe ainda vive, na vivenda ao lado da nossa. Os nossos pais eram amigos, e como andávamos sempre juntos eles começaram a falar em casamento, e nós deixá-mo-nos embalar pela ideia. Quando acordámos estávamos casados.
 Tinham acabado a refeição. Anete levantou-se
- Queres café? Como sabes, é do instantâneo.
- Sim. – Levantou-se para retirar a loiça da mesa, enquanto ela punha a chaleira ao lume e retirava do armário as chávenas e o frasco do café. E voltou à conversa:
- Divorciaram-se em seguida. De comum acordo?
- Não e sim. Não nos divorciámos em seguida, Porque o pai do Afonso ficou doente, e depois da sua morte, a mãe dele teve uma depressão, precisava de todo o nosso apoio e carinho, não era hora de pensar em nós. Mas sim foi de comum acordo e continuamos amigos.
Pôs a água fervente na mesa, e continuou enquanto preparava os cafés.
- Tão amigos, que me veio visitar anteontem, para me contar que está apaixonado, que pensa casar e queria que fosse a primeira a saber disso.
Escureceram os olhos masculinos.
- Tens a certeza, que foi por amizade? Não teria sido mais por retaliação, pelo divórcio?
-Não conheces, o Afonso. Se o conhecesses nem te passava pela cabeça semelhante coisa, - disse colocando a loiça na máquina.
"Que defesa tão acalorada," - surpreendeu-se. "Será que ainda gosta dele"?
Foram para a sala. A chuva continuava a cair fustigando os vidros da janela. A jovem foi até ela e desceu a persiana.
-Agora é a tua vez, - disse ao voltar-se. Nunca te casaste?
- Não.
- Mas decerto já te apaixonaste.
 -Não sei se o teu conceito de apaixonar-se é o mesmo que o meu. Se te referes ao amor, pois sim. Há uns anos, conheci uma mulher que julgava, única, especial. Amei-a tanto que estava a pensar pedi-la em casamento.




3.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII





Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se. Foi a minha irmã. Ela quer mostrar que como é maior que eu tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - Perguntou divertido
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era. Verdade, porém, que as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Perdoadíssima – disse ele sorrindo e retendo a mão feminina na sua.


6.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE VIII




-Eu sei, Amélia, mas amanhã vou para cima. E Segunda já estou no escritório.  Portanto resolve só o que for mais urgente, eu vejo o resto depois.
Calou-se por momentos.
- Sim, claro. Já visionaste o vídeo da campanha, do novo dentífrico?Sim? Óptimo. 
Escutou de novo:
- O quê? Um novo director comercial? Mas o que aconteceu com o Paulo?
Voltou a escutar, retorquindo ainda antes de encerrar a chamada.
- Transferido? Por interesse dele? Bom, depois vimos isso. Oxalá o substituto esteja à sua altura.
Desligou a chamada no exacto momento em que uma bola lhe veio bater nos pés.
Era uma bola pequena com desenhos do Super-homem. Agarrou-a e olhou em frente
Um rapazinho de uns três anos de idade corria na sua direcção seguido de perto por uma das mulheres.
-Queres a bola? -Perguntou sorrindo.
O miúdo fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Desculpe. Estamos sempre a avisar para terem cuidado mas sabe como é. São crianças – disse a mulher.
- Não tem importância – retorquiu ela atirando a bola para o menino.
Este reagiu de uma forma inusitada. Agarrou a bola, correu para Isabel, deu-lhe um beijo rápido na face e logo voltou para junto dos amiguinhos.
- Desculpe – murmurou a mulher, antes de seguir o rapazinho para junto da água.
Pela segunda vez naquela manhã, Isabel sentiu um estranho desassossego. Uma sensação estranha que lhe apertava o peito e a angustiava.
“Estou demasiado sensível hoje” pensou.
Sacudiu a cabeça, retirou o lenço e os óculos que guardou na bolsa, e pondo-se de pé dirigiu-se à água.
 Precisava mergulhar no mar. Sentir a carícia das águas. E afastar de vez tristes recordações. Mas, será que o ia conseguir?
Um quarto de hora depois, regressava ao areal. Com gestos mecânicos enxugou-se,  vestiu-se, e preparou-se para regressar.
As nuvens tinham desaparecido, o sol brilhava radioso, cobrindo voluptuosamente toda a cidade. 


25.1.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE III




                                                    Antigo fogão a petróleo


Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não acreditava em bruxedos mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos que viram verdes não era, de todo, normal.ª)  Com certeza que a velha já não se lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou desde a primeira vez que a vi. 
E como sempre me apaixonaram os mistérios, resolvi soltar o detetive que habitava um recanto da minha imaginação, e lá fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei a pensar que a velha mulher dos amendoins sabia do que falava quando disse que ninguém lhe conhecia a morada. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola, disse-me que a conhecia e indicou-me a casa.
Respirei fundo e, sem pensar, dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus quarenta anos veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, mas disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas - foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti`Esperança. Mas ela está tão doente, coitadinha... Entre, entre, - convidou.
Entrei. A casa era muito pobre. Uma pequena saleta sem janela para a rua, mas com três portas. Uma dava para a rua, era aquela que eu acabara de transpôr. A outra dava para um pequeno cubículo onde se via um fogão a petróleo, e uma pia. A terceira dava para o quarto. Entre as portas uma mesa e dois bancos arrumados por baixo dela. No quarto,  sobre uma velha cama de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fossem os seus olhos, eu diria que estava morta. Senti um arrepio….


ª)  Não esquecer que esta história aconteceu, nos anos 50 do século passado. Hoje com as lentes de contacto, não direi que é banal, mas qualquer um pode ter os olhos da cor que mais gostar.