Terminado que foi, aquele arremedo de lua-de-mel, o casal instalou-se provisoriamente no moderno apartamento do empresário no Parque das Nações. Pedro tinha decidido vendê-lo e comprar uma casa num local mais afastado da cidade. Uma casa com espaço suficiente para juntar a família sem que a sua privacidade saísse prejudicada. E que tivesse um jardim, onde o menino pudesse brincar em segurança.
Já tinha conversado sobre isso com Joana, e por isso
naquela manhã ao regressar ao escritório, a primeira ordem que deu à sua
secretária, foi a de pesquisar casas à venda nas zonas que previamente
escolhera.
Entretanto no escritório, depois de ler a correspondência
e tratar dos assuntos mais urgentes, Pedro dedicou-se a uma pesquisa que
pareceria estranha a quem dela tivesse conhecimento. Pesquisou, artigos sobre
violação, os traumas, as reações e os medos das vítimas. Depois procurou
maneiras de agir, em páginas de psicólogos e sexólogos.
Depois de horas em que pesquisou e leu tudo o que encontrou sobre o assunto, levantou-se e foi até à janela. Pensou na volta
que a sua vida dera em tão pouco tempo. Onde quer que o primo estivesse,
deveria estar a divertir-se imenso com a última partida que lhe pregara.
Não que ele estivesse arrependido. Não estava. Pelo menos
por enquanto. Joana era uma mulher de fibra e muito orgulhosa. Mantinha que
só aceitava o seu dinheiro para a mãe e o sobrinho.
Ainda na véspera, reiterara a sua posição de manter a firma
recém-criada e de continuar com a confeção de doces e salgados para festas
várias. De momento continuaria a trabalhar na casa onde habitara, e onde vivia
a mãe com o neto e a ama que ele contratara para o menino. Tinham decidido não separar o menino da avó naquela fase em que a mãe se encontrava tão fragilizada. Continuando a trabalhar lá, não só fazia companhia à
mãe, como vigiava o menino, o comportamento da ama, e continuava a contar com a ajuda de Antónia, sua vizinha, amiga, e agora também
madrinha de casamento. Ele gostaria
mais, que ela encerrasse a firma e se dedicasse apenas à família e à vida no
lar. Não precisava trabalhar, podia ter quantas empregadas necessitasse. Outra
qualquer daria pulos de alegria de poder gastar o que quisesse. Ela não. Era
muito independente, e essa independência poderia ser um sinal de que não iria
prolongar o casamento para além dos dois anos, negociados no acordo.
Sentiu um aperto no peito, ao pensar nisso. Mas porque
havia de temer? Afinal dentro de alguns meses, sairia a adoção do menino. E não era só isso que lhe interessava?
