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16.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE III







A vida não lhe sorriu como ele sonhava em Paris, antes pelo contrário, como não tinha ninguém conhecido, a quem se dirigir, nem que o acolhesse, pode-se dizer que António comeu o pão que o diabo amassou. Trabalhou em tudo o que lhe aparecia, como moço de recados, como trolha, em diversas obras, e até durante meio ano, foi coveiro no cemitério de Montmartre. Dormiu na rua, depois nas próprias obras onde trabalhava, até que já a trabalhar num café, travou conhecimento com Júlio Correia, colega de trabalho, que por questões económicas, o convidou a partilhar o seu pequeno apartamento, no último andar de um prédio antigo dos arredores. Júlio era um jovem português, emigrante como ele, irmanado no mesmo sonho, senão de fortuna, pelo menos procurando uma vida melhor do que aquela que a sua pátria lhes oferecia. 
Durante onze anos, António foi um verdadeiro escravo do trabalho. Chegou a trabalhar de dia nas obras e de noite em cafés e bares, roubando ao corpo o descanso que lhe era necessário, mas o sonho de ser rico era cada vez mais uma esperança perdida.

Todo o fim de mês mandava à mãe, dinheiro para que ela e a irmã não passassem necessidades. Pagava a sua parte no apartamento, alguma  comida e o que lhe restava, algumas "migalhas", eram guardadas religiosamente, na mira de um futuro melhor. Um dia porém a irmã casou e esse casamento levou-lhe o pouco que à custa de grande sacrifício, tinha conseguido amealhar.

António estava prestes a entrar em desespero. Tinham passado quase doze anos de trabalho intenso, o corpo começava a envelhecer, e não via no horizonte perspetivas da fortuna que perseguia. Até a fé que sempre o acompanhara de um dia ter poder suficiente para se vingar do seu ex-patrão, estava prestes a abandoná-lo naquele final de Novembro, o décimo segundo desde que chegara a França. Naquele dia, Júlio, o seu colega de quarto propusera-lhe jogar no Euromilhões. Era um sorteio especial estavam em jogo cento e oitenta milhões. Muito dinheiro para não arriscarem uns míseros euros num boletim. Nada, eles já sabiam que era certo, mas quem sabe lhes saía alguma coisa. "Nem que dê só para uma ceia de Natal melhorada já vale o investimento" , - dissera Júlio perante a sua resistência. Preencheram uma única aposta, com os números em que cada um tinha mais fé. Primeiro os cinco números depois as duas estrelas. Foi ele quem registou o boletim e o guardou. No dia seguinte ao sorteio, descobriram pelo jornal que a sorte tinha bafejado dois apostadores, um no Reino Unido e outro ali em Paris. Cada aposta tinha sido contemplada com noventa milhões. Verificado o boletim, nem queriam acreditar que a sorte lhes batera à porta, com aquela aposta.

 No mesmo dia entraram em contacto com a central de lotarias, estiveram com um advogado, assinaram uma declaração de sociedade no prémio, abriram conta no banco, onde a importância seria depositada, e saíram com muitas sugestões do que fazer e como fazer com os quarenta e cinco milhões que cada um ia receber.

Doze anos depois, António votava a Portugal, muito mais rico do que aquilo que algum dia sonhara, passava de novo o Natal com a família, conhecia  o seu cunhado e Pedro o seu pequeno sobrinho.

Não tinha contado nada à família sobre a sua nova condição de milionário. Disse-lhes na noite de Natal, depois de conhecer Eduardo Soares, o seu cunhado, um bom advogado, com quem ele simpatizou de imediato.

26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIV


Aproximou-se perigosamente dele.  
-Que se passa contigo, Simão? O que foi que eu te fiz? Porque me odeias? Desde menina, sempre foste o meu irmão preferido. Aquele em quem confiava de olhos fechados. Depois já adolescente, eras o meu ídolo. Ficava tão feliz quando nos ias buscar à escola e nos trazias para casa. Imaginas o que choramos, eu e Matilde quando foste para Paris? O quanto nos sentimos desamparadas sem ti?
A Marta não. A Marta era muito extrovertida, tinha muitos amigos, uma legião de admiradores, primeiro na escola, depois na Universidade. Ela não deve ter sentido a tua falta. Eu e a Matilde éramos diferentes. Mais tímidas. Tínhamos um certo receio de nos juntarmos aos outros. Tu eras a nossa tábua de salvação. E deixaste-nos à deriva.
As últimas palavras foram como um lamento. Simão amaldiçoou-se em silêncio. Queria consolá-la e não o podia fazer. Se lhe tocasse, não ia resistir. 
Ela revoltou-se. Porque não dizia nada? Sentiu vontade de lhe bater:
- Porquê, Simão? Porque o fizeste? E porque o fazias hoje? Fala pelo amor de Deus. Desde quando começaste a odiar-me?
- Eu não te odeio.- A sua voz soou rouca. Pelo esforço em se conter, ou pela emoção? Ele não sabia. Do que tinha a certeza é que estava utilizando todas as suas forças para resistir à tentação de a apertar nos braços e a beijar até aquietar a angústia que lhe amargurava o coração.
- Não? Então o que é? Desprezas-me? É isso? Porquê?
“Meu Deus fá-la calar. Não aguento mais” – implorou ele mentalmente
- Não sei de onde tiraste essas ideias absurdas, Ana. Porque não vives a tua vida e me deixas em paz?
- Vês? O Simão de antigamente, nunca me falaria assim.
Ia começar a chorar. E ele não ia conseguir conter-se.
- Por Deus Ana. Deixa de remoer o passado. O tempo não passa incólume por ninguém. Todos mudamos.
Semicerrou os olhos. Não queria que ela surpreendesse aquilo que ele teimava em esconder.
De súbito ela voltou-se para a janela. Estava cansada. E muito triste. A sua vida era um desastre. Precisava de se ausentar rapidamente. Ver outras terras, conhecer outras gentes. Para não sentir aquele terrível vazio no peito.
Deixou escapar um soluço.

reedição







28.2.18

CARLOTA - PARTE VI

Foto de um aerograma, rebaptizado pelos militares de "bate-estradas" 

Descansada com o filho, de novo em casa da irmã, Carlota dirigiu-se a casa dos antigos patrões, e contou à antiga patroa o que lhe tinha acontecido. A senhora ficou com pena dela, afinal estivera lá em casa quase dez anos, e deu-lhe uma carta de recomendação para uma amiga, que ela sabia andar à procura de uma pessoa competente e de confiança. Só que era em Cascais. 
A jovem não se importou. Ela queria e precisava trabalhar. Claro que a dona da casa ao ler a carta de recomendação  lhe deu trabalho na hora.
Carlota, regressou à vida de cuidar da casa e dos filhos dos outros, tentando esquecer a triste experiência, porque tinha passado, e cada dia mais descrente na humanidade.
A casa era grande e farta. Além de Carlota, havia uma cozinheira e uma ama para os meninos, que a ajudava nas tarefas da casa, quando eles estavam no colégio.
Dois anos depois, o patrão, diplomata, foi colocado em Paris. Carlota bem como as restantes empregadas, foram convidadas a acompanharem os patrões.
Em Portugal, não havia divórcio pelo que Carlota continuava casada, e embora nem sequer soubesse onde o marido parava, não podia viajar sem autorização dele. Parece ridículo, hoje, mas antes da revolução de Abril, era assim em Portugal.
Por isso, Carlota não pode aceitar. A patroa, passou-lhe então uma carta de recomendação, para uma amiga em Lisboa e assim não ficou sem trabalho. Os anos foram passando, o filho tinha completado dezoito anos, alistara-se no exército como voluntário, e o seu coração de mãe, vivia o pavor de saber que mais dia, menos dia, ele seria destacado para a guerra nas colónias. E o que tanto temia, aconteceu em Janeiro de mil novecentos e setenta e três, quando o jovem foi para a Guiné, integrado numa companhia da PM.
Como Carlota não sabia ler nem escrever, quando começaram a chegar os aerogramas do filho, pedia a uma colega, Dorinda, a trabalhar na casa vizinha, para lhe ler as notícias e escrever as cartas de resposta. Tornaram-se amigas e surgiram as confidências.
Por essa altura, a amiga, recebeu a visita de António, um irmão que regressara de França onde estivera emigrado por doze anos. António, ficara viúvo aos trinta e sete anos, quando a mulher morrera em consequência dum parto complicado, de uma menina que já nascera sem vida. Destroçado, António só queria partir para um local bem longe da tragédia. Foi por isso que emigrou. Primeiro para Espanha, onde trabalhou dois anos, e depois para França onde estivera mais dez. Quase a completar cinquenta anos, a mágoa atenuada pela passagem do tempo, António sentira que era chegado o momento de voltar, e de arranjar uma companheira para o resto da vida. Fora à terra ver a família, pais, irmãs, cunhados e sobrinhos. Aí lhe deram a morada de Dorinda, a irmã mais nova que vivia em Lisboa, na casa dos patrões para quem trabalhava.
Foi visitá-la, e ao conhecer Carlota, logo se interessou por ela. Contrariamente ao que seria de supor, Carlota, não ficou indiferente ao interesse de António. Bem pelo contrário, corava como uma menina, e sentia as pernas a tremer, quando ele a olhava com intensidade. Pela primeira vez na vida, Carlota estava apaixonada.


A todos os que leram A Culpa, conto que estava a concurso,  informo que o resultado saiu ontem.
Eis a cópia  do  mail que me mandaram

Boa noite 

Aqui estamos para comunicar o resultado da decisão do júri 
para o 11º Concurso Literário Papel D´Arroz Editora 

Resultado - 11º Concurso Papel D´Arroz Editora


- A CULPA - 

1º Classificado - Paulo Vaz 
2º Classificado - Mª Elvira Carvalho 
3º Classificado - Maria Estrela do Mar 


Parabéns ao Vencedor! 


O Autor vencedor terá a edição de um livro - de sua Autoria - sem custos - Edição da responsabilidade de Papel D´Arroz Editora - Grupo Múltiplas Histórias 


30.1.18

O AMOR É... UM COMBOIO - PARTE XXII




- Sabes, -disse Paulo tuteando-a pela primeira vez. Aprendi a pescar, e a nadar neste rio. Meus pais morreram quando eu era menino, o meu tio tomou conta de mim e trouxe-me para aquela margem do outro lado da ponte, onde tinha uma pequena quinta. O caseiro, tinha um filho quase da minha idade, e ele foi o meu companheiro de brincadeiras. Os seus pais, foram para mim como uns pais. O meu tio, nunca se preocupou muito comigo, a nível afetivo. Estava demasiado enfronhado nos negócios. É certo que nunca me faltou nada a nível material, mas eu teria preferido ter menos coisas, e contar mais com a sua companhia, o seu carinho. Sempre tive jeito para o desenho, gostava de pintar e sonhava estudar pintura, conhecer os grandes pintores desde os primórdios dos tempos até à atualidade, visitar museus, aprender tudo o que fosse possível aprender. Mas quando contei ao meu tio, ele zangou-se muito, disse que o que eu queria era um futuro de fome e frustração. Os grandes pintores quase todos morreram na miséria, os quadros só passavam a ser valiosos, depois que o pintor morria. Eu ia para a universidade sim, mas teria que escolher entre economia, ou gestão e contabilidade. Acabei por escolher o segundo, e fiz o curso por orgulho, para lhe mostrar que era inteligente o suficiente para tirar qualquer curso, apesar de não gostar dele.  Quando terminei o curso, ele deu-me a pequena herança que meus pais me deixaram ao morrer. Uma das minhas paixões de criança eram as motos. Comprei uma, e parti para Paris. O dinheiro acabou rapidamente, mas eu tinha muita coisa para aprender, e não queria pedir nada ao meu tio. Trabalhei na construção civil, em bares, fui até empregado numa agência funerária. Tinha alugado um pequeno estúdio, e todos os centavos que me sobravam, gastava-os em telas e tintas. De vez em quando vendia alguns quadros na rua, e fui-me equilibrando. Quando entendi que tinha aprendido tudo o que me interessara  aprender, parti para outras paragens. Percorri quase toda a Europa, nos últimos dez anos. Sem qualquer contacto com o meu tio, não fazia a mínima ideia de como era rico. A pequena quinta da minha infância, cresceu desmesuradamente. Atravessas aquela ponte e tudo o que a tua vista alcança é meu. Segundo parece, à medida que os vizinhos iam morrendo, o meu tio ia comprando aos herdeiros as suas quintas e anexando-as. Tem uma grande extensão de pomares, terras de cultivo e até uma zona de pastoreio.
Caminhavam lado a lado. Paulo falava em voz baixa, sem se interromper, como se estivesse a seguir uma invisível linha de pensamento.  Amélia escutava-o sem interrupções convencida da necessidade que ele tinha de desabafar.
Quando Casimiro, o caseiro morreu, Alfredo, o filho, ficou no seu lugar. Ele não estudou. Aqui os filhos aprendem as profissões com os pais, não estudam mais do que o estritamente necessário. Os seus braços fazem falta no campo. Refiro-me claro aos filhos dos trabalhadores como é o caso. Alfredo casou-se há anos e tem três filhos. Gere a propriedade, e é ele quem contrata os trabalhadores que precisa. A mãe e a esposa, tratam da casa, e dos animais domésticos.



Por AQUI  continuamos em Alcobaça. E depois da sala dos Reis , temos a sala dos Capitulos.

30.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XI


Duas horas depois, o assunto estava resolvido. Louis era um bom amigo, não teve de se esforçar muito para que lhe atendesse o pedido. Glória iria receber em breve a proposta e depressa estaria em Paris.
 Pensou em Daniela. A imagem da jovem assaltara-o várias vezes, desde que a conhecera dez dias atrás. Aquela sim era uma mulher interessante. Bonita, inteligente, e cheia de personalidade. Gostaria de saber mais coisas sobre ela. Mas como fazê-lo? Claro, um detetive, dir-lhe-ia tudo sobre ela. Porém sem saber porquê repugnou-lhe a ideia de saber que um outro homem andasse a espiar a jovem. Passou a mão pela testa.
Tinha-lhe deixado o seu número e em dez dias ela não lhe telefonara. Que se passava? Será que ia fazer de conta que ele não existia? Mas não era possível. Ele não lhe passara nenhuma procuração, ela ia precisar da sua assinatura, para novas compras. Mais do que isso, ele tinha direito a ser informado sobre o funcionamento da fábrica. Pegou no catálogo, guardou o telemóvel e saiu.
- Vou sair. Liga-me se necessário, - disse a Rita ao passar pelo seu gabinete. Vou à fábrica de tecelagem.
Rita fez um movimento de assentimento com a cabeça, e ficou a pensar que qualquer coisa não estava bem com o último negócio efetuado pelo patrão. Conhecia-o demasiado bem.
Ele estacionou o carro no parque da fábrica e entrou. Cumprimentou, Madalena com um aceno de cabeça, e abriu a porta do gabinete sem se preocupar em bater.
- Boa tarde
Ela olhou-o furiosa.
-Não te ensinaram a bater à porta?
- Porquê? Este espaço também é meu.
-Tens razão. Mas se pensas proceder sempre assim, deixa de ser meu. Amanhã passarei a ocupar o gabinete da Madalena. Ela não deve importar-se de trabalhar no escritório com as outras duas empregadas.
Ficou furioso. Sabia que não procedera bem. Tinha-o feito de propósito para a ver irritada e ela devolvera-lhe a jogada na mesma proporção.
- Não precisas sair. Não voltará a acontecer. Irritas-me, sabes?
Atirou com o catálogo para cima da sua secretária, e voltando-lhe as costas, aproximou-se da janela.
Ela não disse nada. Como podia ela, irritar um homem tão poderoso, tão cheio de confiança em si mesmo? Nervosa, brincou com a esferográfica, e esperou.


21.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... Interrompeu-se abruptamente. O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem viu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho


Esta história chegou ao fim. Gostaria que aqueles que me leram assiduamente, ( e penso que terão sido muito mais do que os que comentaram, a acreditar nas visualizações deste conto, que contava desde o primeiro episódio até ontem com 3215.) me dessem a vossa opinião sobre ele no seu todo.
Uma noite de inverno, será a nova história que vos vou contar de segunda até ao fim do mês. Mais pequena, e muito diferente das duas últimas, mas que espero vos agrade.

BOM FIM DE SEMANA

19.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIX


Acabara de fazer a mala. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.
- Mãe vou a caminho do aeroporto. Parto dentro de duas horas, com destino a Barcelona. Sabes que há muito tempo desejava visitar esta cidade.
Escutou por momentos:
-A Paris? Para já não. Ainda não me sinto preparada. Quando o fizer digo-te. Vou dando notícias. Dá um beijo a todos por mim.
Desligou, e chamou um táxi.
No dia seguinte, estava em Barcelona, mas deu-se conta que não conseguia elaborar um programa cultural de visitas, pois não conseguia deixar de pensar em Simão.
É como dizia Horácio. "A negra preocupação monta sempre à garupa do cavaleiro".
Percebeu que não lhe adiantava fugir. Precisava descobrir o que se passava com ela. Que sentimentos albergava no seu peito.
 A visita a Barcelona seria de novo adiada. E nessa mesma tarde viajou para Paris. Mas contrariamente ao que tinha dito à mãe, não a avisou.
Tinha a morada de Simão, há dois anos. Tinha-lha dado o seu irmão João, numa altura em que pensava ir a Paris. Depois acabara por desistir da viagem. Não sabia se ainda morava no mesmo sítio, mas não tinha ouvido qualquer comentário sobre mudança. De qualquer modo, havia de encontrá-lo. Em último caso iria à galeria de arte, onde costumava expor as suas obras, e pediria a morada. Decidida, apanhou um táxi no aeroporto, para a morada que tinha.
A porta do prédio, estava aberta, e subiu as escadas até às águas furtadas. Uma tarefa complicada com os saltos altos e a mala de viagem. Sentia-se muito cansada, não sabia se pela longa escadaria, se pelo seu sistema nervoso. O coração batia-lhe tão forte que parecia querer saltar-lhe do peito. Por fim tocou a campainha. Pouco depois a porta abriu-se. Surpresa, alegria, emoção. O rosto dele, era um poema feito de emoções.
Descalço, envergando umas calças de ganga, o tronco nu, Simão passou a mão pelo cabelo murmurando:
- Vieste!
E ela tremente, sem deixar de o olhar:
-Vim.
Então ele baixou-se para apanhar a mala e disse:
- Entra. Desculpa receber-te assim. Não sabia que vinhas, estava a embalar as últimas telas para a exposição. Vêm buscá-las logo de manhã.
Pousou a mala junto à porta, pegou o polo abandonado sobre o sofá e vestiu-o. Depois calçou os ténis.
Reparou que continuava de pé.
- Senta-te. Deves estar cansada.
Pegou-lhe na mão e esse contacto fez com que tremesse da cabeça aos pés. Sentaram-se no sofá. Perguntou suavemente:
- Porque vieste, Ana?
- Porque não conseguia esquecer o teu beijo.
Assim, simples e direta, fizera a confissão. Abraçou-a emocionado. Sem deixar de a fitar disse:
- Sabes que te amo. Amo-te tanto que me dói o peito. O maior sonho da minha vida, é viver a teu lado. Deitar-me contigo, e acordar a teu lado todos os dias da minha vida, é a minha noção de felicidade.
Falava devagar, calmamente como quem fala com uma criança. Não queria assustá-la.


10.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE X


Ana soltou uma gargalhada cristalina
-Pelo amor de Deus. Não posso acreditar nisso.
- Acredita no que quiseres. – Disse com aspereza, voltando-lhe as costas.
Ela franziu o sobrolho. Que se passava com ele? Parecia zangado. Mas porquê?
- Ouve,- agarrou-lhe a manga do casaco mas ele não se voltou. - Que raio se passa contigo. O que foi que eu disse para ficares assim? 
- Desculpa, - era evidente que estava a fazer um enorme esforço para parecer natural. Não foi nada contigo. Sou eu que não ando bem.
Recomeçou a andar pelo jardim. Ela pendurou-se no se braço como quando ele ia busca-la à escola.
-Sabes o que é isso? É solidão. Precisas arranjar alguém. Nunca pensaste em casar?
- Não, - respondeu com voz rouca
- Não entendo. Um homem bonito como tu. Simão… tu és gay?- Perguntou de repente.
- Não. Que disparate é esse, Ana?
- Desculpa. Ocorreu-me que o facto de não pensares em casar e o tempo que levas em Paris sem nos visitar,  podia ser por isso, ou não ?
- Podia. Mas não é. O meu interesse sexual sempre se manifestou pelo vosso sexo.
-Desculpa, mano. Mas insisto. Devias pensar em arranjar alguém. Já passaste dos trinta.
-  Queres fazer o favor de mudares de assunto? Porque é que não me falas antes de ti. Porque é que ainda estás solteira? A mãe disse-me que estavas noiva. Mas vejo-te sozinha
- Acabou.
Havia uma nota triste na voz dela, ou era impressão sua?
- E porque acabou?
- Não interessa.
- A mim, sim.
-Tu és meu irmão, e há coisas que uma mulher não conta a um irmão.
Sentiu uma dor aguda no peito. Era como se lhe tivesse cravado um punhal invisível no coração.