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20.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIII


Uma lágrima desceu silenciosa, até desaparecer no canto da sua boca. Ele estendeu a mão e apertou a dela.
- Que é lá isso? Uma mulher de coragem, não chora. Levanta a cabeça, sorri, e vai em frente. És ainda uma menina, Eva. Não pareces mais velha que a minha sobrinha Isabella, e ela só tem dezasseis anos. Tens uma vida pela frente. Queres um conselho? Tira essas alianças do dedo. Esquece que foste casada, e prepara-te para desfrutar o que a vida ainda tem para te dar.
- Falar é fácil. Mas seguir em frente quando tudo à nossa volta ruiu, é muito mais difícil. Como posso não me inquietar, se não sei o que me vai acontecer quando passarem os seis meses e deixar esta casa? Sem o amparo de pai ou mãe, o que me resta? Voltar para o orfanato?
- Daqui por seis meses, “cara mia”? Quem sabe o que pode acontecer até lá. Vive o dia-a-dia, desfruta o presente e esquece as angústias a longo prazo. Em seis meses pode acontecer um terramoto, cair um meteorito, acabar o mundo.  Olha, porque não vamos amanhã até à outra banda, talvez Setúbal, ou Sesimbra, almoçamos por lá, aproveitamos um pouco de praia, ou simplesmente passeamos pela Arrábida? Não trabalhas ao Sábado, pois não?
- Não. Mas queres mesmo sair comigo?
- Porque não havia de querer? Não sou homem de fazer uma coisa quando quero outra. Ou, se preferires, podemos ficar por aqui, ir até Sintra, ou Ericeira. Dizem que é muito bonito, e provavelmente será melhor por causa do trânsito na ponte. Não sei, tu decides. Gostava de conhecer um pouco dos arredores de Lisboa. Até agora sempre que estive em Portugal, foi no norte, junto da família da minha mãe.
Sentia-se tentada. Afinal tirando a viagem em lua-de-mel, à Madeira, o que é que ela conhecia do país?
- Está bem. Deixemos a Arrábida e Sesimbra para outra altura. Prefiro ir a Sintra. Há muito tempo, que ando a pensar ir até lá.
Começou a passar a loiça por água e a metê-la na máquina. Ele levantou-se.
- Bom, só falta combinar a hora. Dez horas, é tarde?
- Por mim, qualquer hora é boa.
- Dez horas, então.
E saiu deixando-a só. Meia hora mais tarde saía de casa, despedindo-se com um simples até amanhã, deixando a jovem cada vez mais perplexa. Devia haver ali qualquer coisa que lhe escapava. Aquele homem, era demasiado bom para ser real. E ela já passara da idade em que acreditava no Pai Natal.


E o calendário assinala hoje o dia  da Felicidade. É uma ironia que o dia da felicidade, seja assinalado,  quando a doença grassa e mata por todo o lado.
E como hoje começa a Primavera, O meu desejo é que ela renove não só a natureza, mas também a própria vida, acabando com o maldito vírus.  


1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE I




A terra era pequena mas agradável. Rodeadas de extensos pinhais, algumas casas térreas, dispostas em quadrado, formavam uma praça, quase totalmente ocupada por um cuidado jardim. No meio deste, um pequeno lago, com uma bela planta aquática, bancos pintados de vermelho, estrategicamente colocados sob a protectora sombra das árvores, e um coreto, onde aos domingos se exibia a banda dos bombeiros, ou o senhor Alberto com o seu acordeão. Na parte de cima do jardim, para quem entra na vila, uma pequena igreja dedicada à Imaculada Conceição.
 Do outro lado da igreja, a estrada que avança para o centro da localidade, a parte nova da terra, onde pontificam os prédios altos, as ruas mais largas, a escola, as lojas e centros de diversão.
Na igreja, habitualmente deserta àquela hora, da manhã realizava-se naquele dia um casamento.
Junto ao altar, um homem alto, impecavelmente vestido de escuro, e uma mulher de mediana estatura, envergando um saia-casaco azul celeste, trocavam as alianças.
Assistiam ao acto além dos padrinhos, uma mulher aparentando mais de trinta anos, que tinha a seu lado três crianças, e um bebé ao colo, e ainda três mulheres de meia-idade, que costumavam ajudar o padre a manter a igreja impecável, procedendo à limpeza do local, ou trocando as flores envelhecidas.
No altar, o homem curvou-se e depositou um leve beijo na testa da mulher. Por fim o padre procedeu à bênção final, e os noivos dirigiram-se com os padrinhos à sacristia, para a assinatura do registo do casamento. As crianças que até aí se tinham mantido mais ou menos sossegadas, saltaram do banco e correram para a sacristia, sem fazer caso da mulher que os chamava de volta. Uma pequenita loirinha, que não teria ainda completado os três anos, correu a agarrar-se às pernas do homem, que terminando a sua assinatura lhe pegou ao colo, e deixou que ela lhe envolvesse o pescoço num amoroso abraço 
Terminada a cerimónia de assinatura, saíram para o adro sob o olhar curioso das três mulheres. Aí despediram-se dos padrinhos e entraram no carro juntamente com a mulher que transportava o bebé adormecido e as restantes  crianças.

reedição

Um Bom feriado para todos


E um Novembro calmo e feliz para todos.