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7.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XX




- Bom, temos que pensar no local, onde vamos fazer a gravação. Em casa, no jardim, ou na piscina? Qual preferem?
- No jardim – disse Bernardo.
- E tu Soraia?
- Não podíamos fazer um bocadinho em cada lado como no cinema?
- Vamos fazer a gravação da mensagem num local. Depois podemos fazer uma gravação convosco a brincar, no baloiço ou na piscina. Pedimos a ajuda do Tiago, querem? Só não podem dizer nada ao vosso pai. Lembrem-se que é segredo.
As crianças prometeram guardar segredo, e pouco depois contavam a Tiago que fingiu não saber de nada, e disse que ia ajudá-los. Assim nessa tarde, no jardim, Bernardo, falava a Tiago do seu pai, como se este não o conhecesse. E na verdade não conhecia, pois o menino falava do pai, como ele, o via com os olhos do coração e do amor que lhe tinha. Lembrou, da primeira vez que o pai o levou à praia, do medo que teve das ondas e de como o pai o levou pela mão para dentro delas, do jogo de bola, dos castelos de areia e das bolas de Berlim, num dia que tinha ficado na sua curta memória. E terminou dizendo:
-Amo-te muito pai.
Depois foi a vez de Soraia, falar dele. A menina não lembrava de nada para além da chegada aquela casa, talvez porque era muito pequena, ou porque a sua memória não quisesse recordar algo que a fazia sofrer.
Disse que o momento mais feliz da sua vida, fora quando o pai a trouxera para casa e lhe dera um mano. Lembrou das vezes em que sentia vontade de chorar e o pai a abraçava, e lhe fazia passar a vontade de chorar. E tal como Bernardo terminou com uma declaração de amor.
 Clara gravara tudo no telemóvel. Depois mostrou-lhes o vídeo e as crianças adoraram. Combinaram que de tarde, após a sesta fariam a gravação deles no jardim e na piscina. Mais tarde, Tiago passaria os vídeos para a pendrive, que eles ofereceriam ao pai só na hora da partida. Para que ele não partisse tão triste.
E tal como combinado, de tarde fizeram uma gravação que começou no quarto das crianças, quando acordaram, continuou na cozinha a lanchar e depois mo jardim, onde andaram de baloiço e escorrega, para terminar com Tiago brincando com eles, na piscina em divertida brincadeira. De vez em quando as crianças olhavam para Clara e atiravam um beijo. Aquilo emocionou-a porque não fora ensaiado, e porque não tinha a certeza se elas estavam a mandar um beijo ou pai, ou se o faziam para ela, por lhes ter proporcionado aqueles momentos tão divertidos.
Finalmente Clara deixou de gravar. Tinha feito três pequenos vídeos. Um dentro de casa, outro no jardim e outro na piscina. Os que fizera de manhã, Tiago já tinha passado, para o computador. O irmão teria que usar um programa para ligar os vários vídeos de modo a fazer com que ficasse apenas um. Ela não sabia fazer isso.
Depois do duche, Tiago passou as gravações para o seu computador e mostrou às crianças, que não cabiam em si de contentes.
-Logo à noite, trato disto, e amanhã já estará pronto. Tenho que ir comprar uma pen, pois não tenho nenhuma nova. Posso ir antes de almoço – disse o jovem.
- Obrigada, mano. Não teria conseguido isto sem a tua ajuda.
- Não foi nada demais. Eles merecem – disse acariciando as pequenas cabeças.
-Meninos não se esqueçam que isto é um segredo nosso. O pai não deve saber nada, para não estragar a surpresa, - recomendou-lhes Clara.
 As crianças prometeram guardar segredo e os quatro dirigiram-se à sala, onde esperariam por Ricardo que devia estar a chegar. Pouco depois, Clara levantou-se e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou Antónia a acabar o jantar.
- Antónia, vim pedir-lhe um favor. Se o senhor lhe perguntar alguma coisa, como se as crianças se portaram bem, por favor não lhe conte que estive a filmá-las. É uma surpresa que as crianças querem fazer ao pai na hora da partida. Um vídeo para o acompanhar na ausência.
-Fique descansada senhora. Não estragarei a surpresa, embora acredite que o senhor virá tão cansado que não fará qualquer pergunta.
- Obrigada Antónia.
Voltou para a sala. Hesitara antes de ir falar com Antónia. Mas se ela conhecia Ricardo desde criança e fora como ele dizia, o mais parecido com uma mãe que tivera, ela deveria saber como e porquê Ricardo casara com ela. 



4.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIX




Mais tarde Clara pensava como era surpreendente o laço que se criara em tão pouco tempo, entre Ricardo e o seu irmão.  Enquanto as crianças dormiam a sexta, os dois mantinham longas conversas, nas quais ela nunca se imiscuía. Era como se, toda a vida se, tivessem conhecido.
Era uma reação compreensível da parte de Tiago. Afinal o irmão era muito pequeno quando o pai morrera, e provavelmente sentia falta de uma presença masculina na sua vida. Surpreendente era a maneira com que Ricardo o tratava. Havia uma tal cumplicidade entre os dois, que parecia, terem vivido, juntos a vida inteira.
Quando Ricardo contara aos filhos que dentro de poucos dias ia viajar, as crianças ficaram tristes, queriam saber porque não podiam ir com ele. Com carinho explicou-lhes, que ia ter muito trabalho, não poderia estar com eles. Além disso em breve iriam entrar para a escola, teriam novos amigos, com quem aprender e com quem brincar. E em casa ficavam Antónia e o marido, Clara e Tiago, que gostavam muito deles e estariam sempre perto para o que precisassem. E terminou dizendo que os amava muito e nunca os esqueceria.
-Nós, também te amamos muito, pai - disseram em coro abraçando-o.
 Depois dessa conversa, Clara procurou manter-se sempre em segundo plano, cada vez que os três estavam juntos, de modo a que pai e filhos, vivessem o tempo que lhes restava até à partida, em completa união.
Enquanto isso ela pensava, que gostaria de preparar alguma coisa com as crianças, para que elas pudessem surpreender o pai na hora da despedida. Poderiam comprar-lhe alguma coisa, um perfume, um porta-chaves, quiçá uma caneta. Mas não era isso que ela queria. Queria alguma coisa mais pessoal, qualquer coisa que lhe chegasse ao coração. Mas o quê? Uma moldura com as fotos deles? Não. Ele devia ter o telemóvel cheio delas. Um desenho? Era uma ideia, mas não era bem o que desejava. E se pedisse ajuda a Tiago? Quem sabe ele tinha uma boa ideia?
E logo que teve oportunidade expôs a ideia ao irmão.
- Porque não fazes um vídeo com eles? Qualquer coisa como uma mensagem de amor em vídeo, que depois pões numa pendrive, para eles lhe oferecerem na hora da partida.
-Que boa ideia! Obrigada. Ajudas-me a fazer isso?
-Claro. Mas só quando ele voltar ao quartel. Senão, adeus surpresa.
- Segunda-feira.
- Combinado, maninha!
E assim decorreu o resto da semana. Na Segunda-feira, Ricardo voltou à unidade, onde decorriam os últimos preparativos para a partida, três dias depois.
De manhã, logo que ele saiu de casa, Clara perguntou às crianças se elas gostariam de fazer um presente, para dar ao pai na hora de partida. Tinha que ser uma coisa pessoal, ditada pelos seus corações, nada que se comprasse na loja. 
Claro que queriam, Ficaram encantados com a ideia, mas o quê? Então Clara explicou-lhes que iam gravar uma mensagem, em que cada um devia dizer o que sentia pelo pai, e recordar uma história, de algum momento passado com ele, em que se sentiram muito felizes. Depois, ela passaria o vídeo para o computador, e daí para uma pen que eles entregariam ao pai, no momento da partida.
-Porque – explicou-lhes. - O vosso pai vai estar muito longe. Alguns dias não poderá comunicar convosco e vai ter muitas saudades.
- O que são saudades? - Perguntaram em coro.
- Saudades, é a vontade de estar junto de vós, de vos falar, beijar e abraçar, e não poder fazê-lo

Amanhã. dia 5 de Outubro não haverá nenhum episódio desta história. Bom Feriado